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Sexta-Feira 27.nov.2020

Ano IX - Nº 420

Coluna

O “mico” brasileiro longe da extinção

Nossa ausência ética na COP25

Postado em 11 de Dezembro de 2019 - Ricardo Moebus

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Começou semana passada a COP25, mais uma rodada de “Conferência Sobre o Clima”, ou “Cúpula do Clima”, da Organização das Nações Unidas - ONU, em Madrid, Espanha.

Esta COP25 aconteceria, a princípio, no Brasil, mas mesmo antes de assumir a presidência, ainda no final de 2018, o futuro Presidente avisou que não queria a COP25 no Brasil. Foi transferida para o Chile, vejam só, o “clima” pesou por lá, com as grandes manifestações de massa contra o governo ultraneoliberal. Foi então transferida, de última hora, para Madrid.

É bastante sintomático e relevante o fato de ser impossível neste momento realizar uma “Cúpula Pelo Clima” na América do Sul.

Cada dia da COP, a “Rede de Ação Climática (Climate Action Network - CAN), da qual participam mais de 1300 ONGs ambientalistas de 120 países, concede um “prêmio” aos representantes de países de pior desempenho, aqueles que estão se esforçando para que os acordos climáticos não avancem.

O “anti-prêmio” ironizando a situação, é entregue aos piores governantes para o Clima Mundial, é chamado de “Fóssil do Dia” e entregue diariamente.

No primeiro dia do evento, a segunda feira da semana passada, em Madrid, o Ministro do Meio Ambiente do Brasil foi o agraciado, já que o nosso Presidente da República preferiu nem aparecer por lá.

O Brasil foi “premiado” como um dos campeões contra o Clima graças ao aumento estrondoso do desmatamento e das queimadas na Amazônia, aumento da exploração illegal de madeira na Amazônia, aumento astronômico no uso de agrotóxicos, aumento da violência contra os povos indígenas e comunidades tradicionais, graças também ao desmanche da política ambiental e dos órgãos de fiscalização ambiental, graças à desconstrução do Fundo Amazônia, além das acusações infundadas e ataques governamentais às ONGs ambientalistas que atuam no Brasil.

Já na sexta feira da semana passada aconteceram grandes “Marchas pelo Clima”, em Madrid, entorno da COP25, com várias jovens lideranças ambientalistas que lutam por seus futuros, como Greta Thunberg, assim como “Marchas pelo Clima” em todo o mundo. Sexta já vem sendo fixado como o “dia de lutar pelo clima”, com o movimento jovem em ampla expansão “Fridays For Future” (Sextas pelo Futuro).

Juntando forças com os movimentos pelo Clima na sexta feira passada, 06/12, também aconteceu a “Ação Global das Mulheres Indígenas Pelo Clima”, colocando as mulheres indígenas lado a lado com as lideranças ambientalistas.

Esta aproximação profícua entre ambientalistas e indígenas não é nenhuma novidade, mas vem se intensificando de maneira muito promissora nos últimos anos.

Por um lado, o movimento ambientalista vem abrindo cada vez mais espaço para as propostas indígenas de superação da crise global ambiental; por outro lado, o movimento indígena vem abraçando e destacando cada vez mais a causa ambiental e climática como uma de suas principais bandeiras e razões de sua luta.

Esta identidade e aproximação entre a causa indígena e a causa ambiental é histórica, mas esse reconhecimento mais geral de que os povos indígenas estão em posição de liderança para apontar possibilidades reais e concretas de alternativas civilizacionais para a crise mundial climática é, em certa medida, uma conquista gradual.

Um exemplo disto é o ultimo livro de Ailton Krenak, “Ideias Para Adiar o Fim do Mundo”, que vem fazendo um sucesso sem precedentes entre autores indígenas, desde seu lançamento na Festa Literária Internacional de Paraty deste ano.

Enquanto o movimento indígena avança em suas proposições e alianças pelo Clima, pelo Planeta, pela preservação da bio e da sociodiversidade, diversificando também suas ações e suas atuações, a governança brasileira de plantão, por sua vez, “paga esse mico” de ganhar o prêmio “Fóssil do Dia”, em Madrid, trocadilho que faz uma referência aos defensores dos combustíveis fósseis, mas também aos governos que seguem tendo uma visão “fossilizada”, atrasada, rígida, obtusa.

Infelizmente parece que esse “mico” nacional está muito longe da extinção, exigindo de cada um de nós um empenho cotidiano na construção de uma outra via nacional, que possa finalmente levar em conta a realização de um Estado Plurinacional e Pluriétnico, que considere a real importância do movimento indígena como um grande articulador de uma “Aliança pela Vida”, por todas as formas de vida, aliança que possa fazer o necessário enfrentamento de um certo Brasil fratricida, etnocida, matricida, ecocida.


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