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Terça-Feira 21.jan.2020

Ano VIII - Nº 376

Mundo

A mulher mais linda do mundo é negra

Enquanto isso, no Brasil, Silvio Santos protagoniza um espetáculo de racismo

Postado em 10 de Dezembro de 2019 - Andréa Martinelli (Huffpost), Carta Capital

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 “A sociedade foi programada durante muito tempo para não enxergar a beleza das mulheres negras. Mas agora estamos entrando em um tempo em que finalmente as mulheres como eu podem saber que são bonitas”, disse a sul-africana Zozibini Tunzi, de 25 anos, a jornalistas, após ser coroada e receber o título de Miss Universo 2019 na noite do último dia 8.

Esta é a terceira vez que o concurso reconheceu uma representante da África do Sul. Outras Misses Universo do país, Margaret Gardiner e Demi-Leigh Nel-Peters ganharam em 1978 e 2017, respectivamente. Tunzi também é a primeira negra sul-africana a vencer o concurso.

Em 67 anos de existência, o Miss Universo havia premiado apenas outras quatro mulheres negras. Entre elas, Janelle Commissiong, em 1977, Wendy Fitzwilliam, em 1998, Mpule Kwelagobe, em 1999 e Leila Lopes, em 2011, quando o evento teve uma edição realizada em São Paulo.

Esta edição foi realizada em Atlanta, nos Estados Unidos, e contou com 88 candidatas. Além de premiar a África do Sul, em segundo e terceiro lugar foram escolhidas representantes das Américas: Madison Anderson, de Porto Rico, Sofía Aragón, do México, respectivamente. A Miss Brasil Julia Horta esteve entre as 20 mais bonitas do concurso, mas não foi à rodada final.

Em entrevista coletiva à imprensa logo após receber a coroa, Zozibini Tunzi falou sobre preconceito, racismo, machismo e como se sente grata por ser a nova Miss Universo e poder passar uma mensagem com o título. 

Assista ao momento em que Tunzi foi coroada:

Ela ainda falou sobre o tanto que a sociedade demorou para enxergar e dar validade à beleza das mulheres negras ― e como ainda hoje existe um caminho dentro do imaginário social a ser combatido neste sentido. 

“Na sociedade, nós lutamos para enxergar a nossa própria beleza porque fomos colocadas em caixas. A sociedade foi programada por muito tempo para não enxergar a beleza como black girl magic [garota negra mágica, em tradução livre, é um termo usado para celebrar a negritude das mulheres negras]”, disse.

Tunzi completou sua fala dizendo que, para ela, agora “estamos entrando em um tempo em que finalmente as mulheres, como eu, podem encontrar seu lugar na sociedade e saber que são bonitas.”

“Mas não só isso. É sobre continuar a quebrar barreiras. Esse é um movimento de mudança muito bonito e eu fico muito feliz em fazer parte dele.”

Em sua conta no Twitter, a Miss Universo 2019, que estuda Relações Públicas e foi coroada também como Miss África do Sul neste mesmo ano, comemorou o título reafirmando seu posicionamento frente à opressão sofrida pelas mulheres negras ao afirmar que, neste último domingo, “uma porta foi aberta”. 

“Esta noite uma porta foi aberta e eu não poderia estar mais agradecida por ter sido a pessoa que a atravessou. Que toda garotinha que testemunhou esse momento acredite para sempre no poder de seus sonhos e que ela possa ver seu rosto refletido no meu”, escreveu.

A questão da educação para meninas, inclusive, esteve presente em uma das falas de Tunzi na prova de perguntas e respostas do evento. Ao ser questionada sobre “o que deveria ser ensinado às jovens atualmente”, ela respondeu:

“Eu acho que a coisa mais importante que devemos ensinar às meninas hoje é liderança. Isso é algo que tem sido retirado de garotas jovens por um grande período de tempo. Não porque nós não queremos isso, mas porque a sociedade definiu o que as mulheres deveriam ser”, disse, ao ser aplaudida.

Tunzi acrescentou que as mulheres são os seres “mais poderosos do mundo e que deveríamos ter acesso a todas as oportunidades. E deveríamos estar ensinando as nossas garotas a ocuparem esses espaços. Nada é tão importante quanto ocupar espaços na sociedade”.

Show de racismo

O apresentador Silvio Santos foi acusado de racismo por usuários das redes sociais ao ter contestado a vitória de uma mulher negra durante seu programa, no último domingo 8. No quadro “Quem Você Tira?”, o dono do SBT deixou de premiar a cantora negra Jennyfer, escolhida por votação popular como a melhor, e decidiu dar 500 reais para todas as candidatas, além de mais 500 reais para a candidata que julgou ter feito a melhor interpretação.

As candidatas cantaram a música viral “Caneta Azul” e Jennyfer Oliver fez 84 pontos, enquanto as outras colocadas fizeram apenas 8 e 5 pontos. Mesmo assim, a escolhida de Silvio foi a terceira colocada, Juliani, que recebeu o valor extra e foi elogiada pelo apresentador: “Você é muito bonita”. O público desconfiou da atitude de Silvio e o acusou de estar sendo racista com a intérprete que mais pontuou.

Nas redes sociais, Jennyfer se posicionou dizendo que se sentiu constrangida por Silvio Santos, mas que não abrirá processo contra ele.

“Ganhei o dinheiro, pagamos as contas, o Silvio vai continuar podre de rico e não vai adiantar nada ficar brigando pelo que achamos que está certo. […] Não adianta processar, ir atrás de direitos, porque vou ser prejudicada, nunca mais vou participar de emissora nenhuma, vou queimar meu dinheiro com advogado… Deixa pra lá”, disse ela, no Instagram.

Personalidades se sensibilizaram e questionaram a atitude de Silvio Santos nas redes sociais. O influenciador Felipe Neto, por exemplo, escreveu que não é a primeira vez que o apresentador é racista:

Já a deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP) acusou a situação de ser meritocrática:

Por fim, a cantora sertaneja Marília Mendonça decidiu dar visibilidade ao trabalho de Jennyfer como cantora do estilo e compartilhou um vídeo em que ela canta uma de suas músicas:

 


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