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Terça-Feira 02.jun.2020

Ano VIII - Nº 395

Poder

Amadora, diplomacia brasileira é duramente golpeada

Só o governo brasileiro e a nova chancelaria brasileira pareciam não querer acreditar que para Trump, a América vem na frente

Postado em 09 de Dezembro de 2019 - Jamil Chade e Josias de Souza - UOL

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Numa mensagem em seu twitter, Donald Trump escreveu o que praticamente todos sabem: na Casa Branca, "America First" significa exatamente o que o slogan diz. Primeiro, defendemos os nossos interesses e qualquer aliança tem de estar disposta a entender que serve aos nossos objetivos.

Só o governo brasileiro e a nova chancelaria brasileira pareciam não querer acreditar. Ou entender, o que é mais grave.

Numa resposta à desvalorização do real, que torna as exportações agrícolas mais competitivas e podem afetar os produtores dos EUA, o governo americano anunciou a imposição de tarifas sobre a siderurgia brasileira. Uma retaliação ilegal e que repete com o Brasil o mesmo comportamento que Washington vem mantendo com a China.

Mas a decisão vai muito além dos metais. Ela golpeia o centro da política externa de Bolsonaro, que fez questão de anunciar sua admiração pelo presidente americano e, ao longo dos meses, repetiu como estava sendo tratado como um aliado especial pelo chefe do Salão Oval.

Um primeiro sinal claro do "desencanto" ocorreu quando o governo americano mandou uma carta oficial para OCDE para apontar quais países teriam preferências para aderir à instituição, sem citar o nome do Brasil. O governo Bolsonaro, nos bastidores, pediu explicações. Mas, oficialmente, os dois "parceiros" reiteraram que aquela carta não era importante e que o que interessava era o compromisso público de Trump com a adesão do país, o que jamais se transformou em realidade.

Um segundo desencanto veio quando o governo brasileiro não conseguiu obter as autorizações para voltar a exportar carne bovina ao mercado americano.

Agora, quase um ano depois de assumir a diplomacia brasileira, a realidade é que a nova decisão de Trump deixa o chanceler Ernesto Araújo numa enorme saia-justa. Em fóruns internacionais, a aliança entre o Brasil e os EUA já afastou o país do bloco das economias em desenvolvimento. Na OMC, o Brasil sequer conseguiu eleger um de seus quadros mais qualificados para presidir uma negociação. Motivo: a instrumentalização feita pela Índia da existência da relação carnal entre Bolsonaro e Trump.

Também na OMC, o Brasil indicou que abandonaria certos privilégios que tinha como país em desenvolvimento, além de abrir seu mercado para o trigo americano.

Em política externa, não existem amigos. Apenas interesses. Tampouco há espaço para declarações de amor - muito menos num segundo encontro.

Trump mergulha em sua campanha eleitoral e, para obter um segundo mandato, não poupará ninguém. Muito menos um governo que já lhe entregou tudo e praticamente não pediu nada de volta. Com a medida anunciada nesta segunda-feira, o americano tentou agradar seus fazendeiros e seu setor siderúrgico. E parece não se importar se o dano colateral significará que ele não mais ouvirá uma declaração de amor do Brasil.

Em 2017, Ernesto Araújo publicou nos Cadernos de Política Exterior do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais (IPRI), uma defesa das políticas de Donald Trump e seu papel em "salvar" o Ocidente.

"Só quem ainda leva a sério a história do Ocidente, só quem continua sendo ator e não mero espectador, são os norte?americanos, ou pelo menos alguns norte?americanos. Hoje, é muito mais fácil encontrar um ocidentalista convicto no Kansas ou em Idaho do que em Paris ou Berlim", escreveu.

Um ano depois de comandar o Itamaraty, ou ele entende que Trump apenas tem o interesse de salvar seu mandato, ou está na hora de buscar uma função em algum think-tank financiado pelos ultra-conservadores americanos.

Quanto ao presidente Bolsonaro, um admirador convicto da Ditadura Militar, ele poderia passar mais seu tempo estudando o fato de que nem seus generais de cabeceira se entregaram aos EUA e, ouso dizer, não bateram continência à bandeira americana.

Trump vira um caso digno da Lei Maria da Penha

O anúncio feito por Trump teve o efeito de uma paulada sobre as relações pessoais que Jair Bolsonaro alega manter com o presidente americano. Golpeado, Bolsonaro reagiu à afronta com respeito e compostura. Ou seja, estava completamente fora de si.

"Não vejo isso como retaliação", disse Bolsonaro, ainda meio zonzo. Ora, o pretexto é falso. Mas a retaliação é real. Trump, o amado de Bolsonaro, acusa o Brasil de promover, de caso pensado, uma desvalorização maciça do real. Se Bolsonaro reagisse como Bolsonaro, esfregaria na cara do inquilino da Casa Branca a expressão preferida do próprio Trump: "Isso é fake News, tá ok?".

Mas a ficha de Bolsonaro demora a cair. "Se for o caso, falo com o Trump, tenho um canal aberto com ele." O presidente brasileiro ainda não percebeu que a relação especial com a Casa Branca foi uma espécie de conto do vigário no qual ele caiu. Já entregou tudo a Trump: a base espacial de Alcântara, a liberação da catraca do Brasil para turistas americanos, a importação de uma cota extra de etanol americano e até amor verdadeiro. Em troca, só obteve pauladas.

O presidente americano pede aos brasileiros que façam como ele e se finjam de bobos para acreditar que o Brasil quis derrubar a cotação do real de propósito para se tornar mais competitivo no agronegócio, prejudicando os produtores americanos. Conversa fiada de um Trump que tenta adular o eleitorado interno num instante em que disputa uma reeleição difícil.

Bolsonaro já disse que ama Trump. Mas diplomacia não é coisa para amadores. Em condições normais, a relação pessoal de Bolsonaro com Trump deveria ser regulada pela Lei Maria da Penha. Mas na briga dos Estados Unidos com o Brasil quem apanha não é Bolsonaro, mas o interesse nacional.


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