Semana On

Quarta-Feira 22.jan.2020

Ano VIII - Nº 376

Brasil

Testemunhas desmentem versão da polícia sobre mortes em Paraisópolis

Pessoas que moram, trabalham ou estavam no baile que se transformou em massacre com a entrada da PM desafiam versão oficial

Postado em 05 de Dezembro de 2019 - José Cícero da Silva (Agência Pública), Leonardo Sakamoto (UOL)

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Pouco mais de 48h após passar pelo episódio de violência que mais o marcou na vida, *Caique, 19 anos, travou ao reviver o que aconteceu na madrugada do último domingo no baile da DZ7, há poucos metros de sua casa em Paraisópolis, zona sul de São Paulo. Pedindo desculpas pela dificuldade de falar sobre o que presenciou do alto de uma laje, entre às 23h do sábado e às 9h do domingo, ele repetia “parecia que eles [a PM] tinham tramado essa emboscada, porque foi uma emboscada!”. 

De seu posto de observação, ele conseguia ver as duas pontas da viela por onde as pessoas tentavam fugir quando a PM invadiu o baile. “Tinha viatura vindo dos dois lados. Não tinha como correr para lugar nenhum. O único lugar que tinha era essa viela. Mas ninguém imaginava que eles [os PMs] iam subir pela viela a pé. Quando eles alcançaram as pessoas, começaram a puxar elas para bater, aí começou a gritaria ‘me socorre, me socorre’. Depois de um tempo, saiu um menino da viela e caiu, parecia que estava bem espancado, as pessoas que estavam próximas foram tentar socorrer, mas a polícia chegou, cercou esse moleque e falou que ninguém ia tocar nele. Quando aconteceu isso eu pensei ‘ele já era’, a polícia não deixou ninguém tocar no moleque. Falavam ‘pode sair daqui filhos da puta’ e o cacete rolava. Nunca vi uma repressão como essa aqui no Paraisópolis”, conta nervosamente o jovem.

*Darcy, funcionária de um comércio de alimentos também se “sente abalada emocionalmente” diante do que presenciou enquanto trabalhava em um estabelecimento que fica aberto até o baile terminar, quando já é dia. As cenas da madrugada de domingo passado a fizeram recordar da morte do irmão em uma chacina há quatro anos em Parelheiros, um momento doloroso demais. Foi por causa disso que ela se mudou para Paraisópolis. Não sabia que no novo bairro iria presenciar mais um episódio de violência que ficaria gravado em sua mente: ela viu dois garotos carregando um menino, que acabaram deixando no chão, ao ver dois policiais se aproximando com cassetetes em punho. “Eles estava tentando socorrer o mano que ficou lá no chão, estava muito pálido, a boca já estava ficando roxa e a barriga funda… ah, ele já estava morto. E o policial ficou mó cota (bastante tempo) colocando a mão nele para sentir a pulsação. Mó cota, e não fez nada. Depois outro policial chamou ele e ele foi, daí já era, o mano já estava morto”, relata, emocionada.

*Ananias também trabalha perto da saída da viela principal para onde as pessoas foram obrigadas a correr. É o mesmo local onde policiais foram gravados em flagrante agredindo e ameaçando pessoas de morte. “Vai morrer, vai morrer todo mundo”, berrava o PM, até ser interrompido por um disparo. Mas isso ele não viu porque acabou acolhendo muitos que estavam entre a multidão desesperada pelas bombas e agressões dentro do seu comércio. Quando não cabia mais ninguém, ele baixou a porta. “Aqui dentro tinha umas 50 pessoas. Entraram não porque eu quis, foi que invadiram mesmo. Correndo desesperados. Depois fechei a porta e apaguei a luz. Ficamos escutando só os barulhos: bomba, pancadas, gente chorando, gente pedindo socorro”. 

Mesmo com a porta baixada e dezenas de pessoas rezando baixinho e chorando, o comerciante Ananias conseguiu espiar parte do que se passava do lado de fora através de uma fresta.  “Eu vi uma mulher apanhando, ela caiu aqui na frente, foi um tombo feio, com a rosto no chão, acho que ela desmaiou. Eles estavam batendo para machucar”. 

“Não teve perseguição, juro para você, de coração”

Segundo a versão dos fatos apresentada pela Secretaria de Segurança Pública, “policiais do 16º Batalhão de Polícia Militar Metropolitano (BPM/M) realizavam a Operação Pancadão na região, quando dois homens em uma motocicleta atiraram contra os agentes.” A moto teria fugido em direção ao baile funk, ainda efetuando disparos, o que teria ocasionado um tumulto que terminou com a morte de nove garotos com idades entre 14 e 23 anos. 

Não foi isso, porém, que viram os moradores e frequentadores do baile que estavam no local na madrugada fatídica. *Harley estava na rua quando a polícia chegou ao baile. Ele tinha feito uma viagem de 1 hora e 40 minutos com o amigo *Gustavo do extremo do Jardim Ângela até o baile da DZ7, que fica a cerca de 20km de distância. “É mentira [o que disseram os policiais]. Na hora que a polícia chegou o baile estava normal. Eles que vieram atirando. Eles fizeram de propósito”. 

*Teresa, que estava trabalhando na noite do baile, também diz que a versão policial destoa totalmente do que ela presenciou. “Não teve perseguição. Juro para você. Essa rua estava lotada, tinha muita gente, e não dava para deixar uma moto em fuga passar. A rua estava um formigueiro“. Acendendo um cigarro atrás do outro, e repetindo que não quer mais trabalhar lá, ela fala de sua indignação ao ver como os policiais trataram  um jovem que passava mal, sem conseguir respirar. Eles agiam com “deboche e não deixaram ninguém socorrer o garoto”, conta. Ela também disse que viu os policiais jogando garrafas nas pessoas, e uma menina passando com a mão cortada. “A mulher socorreu a menina que cortou a mão. Teve uma que eles abriu a cabeça, ficou cheia de sangue, foi uma moradora que ajudou ela. Cabia a mão dentro da cabeça dela. Juro para vocês. Horrível, horrível. Deus é mais! A pessoa começa a tremer, o coração a acelerar de tanta maldade”, conta.

Mas a cena que mais a marcou foi quando “um policial bateu com a cabeça de um rapaz na quina da parede de um bar. O homem gritando pelo amor de Deus, pedindo desculpas.  “Desculpa um carai”, gritou o policial. Só a pessoa vendo para acreditar o que eles fizeram. Só você vendo para acreditar. Depois, eles [os PMs] mandaram nós jogarmos [o corpo]. “Joga lá, deixa ele jogado lá, que já vai vir a emergência”, disse o PM. Só que não veio a emergência, eles colocaram um por cima do outro e levou pro [Hospital] Campo Limpo”, conta. 

Ela esfrega uma mão na outra, tentando conter o nervosismo ao lembrar do que aconteceu. “Já falei para minha patroa, não vou mais trabalhar à noite porque estou com medo. Foi muito triste. Quando eu vi o menino morrer, eu nem dormi com dó dele. Eles não deixaram [a gente] socorrer ninguém. Eles estava mandando pegar as pessoas que estavam machucadas e desmaiadas e levar lá perto de onde os corpos estavam [na viela]”. 

Teresa conta que antes deste dia o clima já estava tenso e que já vinha tendo pesadelo com as dispersões no baile — sempre feitas pelos policiais. Ela também estava ali na noite de 19 de outubro passado quando foram registradas em vídeo as cenas que circulam na internet mostrando um policial na saída de uma viela, agredindo com uma muleta os jovens que saíam com as mãos para cima. No momento que viu o policial com o objeto na mão, ela achou que era uma “barrona de ferro”. “O que é aquilo que ele estava na mão? Era uma muleta? Onde ele arrumou aquilo?”, questiona. “Juro para você, vi uma menina desmaiada. As pessoas passaram chorando, mas acho que ela não faleceu”. 

“Tanto ódio”

Harley também se fechou em um bar com dezenas de pessoas, quando a situação se agravou. Duas horas depois, quando o dono decidiu abrir a porta, ele ficou assustado com o que viu. “Mano, muita gente chorando, se abraçando, eu não vi corpo, mas vi sangue, e diversas pessoas machucadas. Você não tem a dimensão daquilo.” Com o dia claro, conseguiu voltar com  Gustavo para casa. 

Caíque, que permanecia na laje, conta que, mesmo depois da dispersão, muita gente ainda não sabia das mortes porque não teve resgate por ambulância — o Samu foi dispensado por um soldado do Corpo de Bombeiros, dizendo que a PM já havia socorrido os feridos. Por isso, muitos voltaram para o baile. 

“A gente não sabia que tinha gente morta”, conta Ananias que passou mais de uma hora trancado dentro do seu bar.  “Umas 5h30 eu abri a porta e não tinha mais nada. Eu fiquei sabendo umas 7h porque chegou a polícia e me perguntou se eu tinha visto alguma coisa. Eu disse que não porque realmente eu estava com a porta fechada“. Não comentou com os policiais o espancamento que tinha visto pela fresta.

Há seis anos ele trabalha na rua do baile todos os fins de semana. Diz ter presenciado  centenas de dispersões, mas sempre com a polícia fechando uma das saídas para pressionar as pessoas a saírem pelo outro lado. “Esta foi a única vez que eles fecharam todos os acessos da rua e das vielas e deu nisso”. 

Teresa também diz que nunca viram os policiais agirem “com tanto ódio”. “Toda vez eles pedem para fechar os estabelecimentos, com se a culpa do baile estar acontecendo fosse nossa. ‘Ah, vocês não dão informação de nada, vocês passam pano, vocês são piores que eles. Tem tudo que morrer’. É assim que eles reclamam e ameaçam, mas nunca agiram com tanto ódio. Dessa vez, eles vieram para fazer o que queriam. Foi uma chacina, uma chacina de verdade. Eu fiquei muito triste pelo pessoal e pelo menino que eles não socorreram!”

Há um Brasil defendendo que festas sejam caladas com sangue

Três declarações de autoridades negando a realidade mostram ue este imenso Brasil segue triunfante em direção ao terraplanismo social.

"O rock ativa a droga, que ativa o sexo, que ativa a indústria do aborto. A indústria do aborto por sua vez alimenta uma coisa muito mais pesada que é o satanismo. O próprio John Lennon disse que fez um pacto com o diabo."

O comentário é de Dante Mantovani, novo presidente da Funarte, do governo Jair Bolsonaro, responsável por fomentar o desenvolvimento artístico nacional.

"Livros didáticos estão cheios de músicas de Caetano Veloso, Gabriel O Pensador, Legião Urbana. Depois não sabem por que está todo mundo analfabeto."

E este é de Ricardo Nogueira, novo presidente da Biblioteca Nacional, também do governo Bolsonaro, responsável por garantir o patrimônio de um dos maiores acervos documentais do mundo.

"A letalidade não foi provocada pela Polícia Militar, e sim por bandidos que invadiram a área onde estava acontecendo o baile funk." "A política de segurança pública do Estado de São Paulo não vai mudar."

E essas declarações são do governador de São Paulo, João Doria Jr, que negou responsabilidade da PM pelos nove jovens mortos após ação da corporação na favela de Paraisópolis.

As duas primeiras foram listadas entre os assuntos mais falados nas redes sociais, talvez pelos disparates que representam serem mais escrachados. A terceira, contudo, a mais absurda de todas, pois isenta a polícia do envolvimento na morte de jovens negros e pobres da periferia, não teve a mesma repercussão.

A principal causa de morte violenta de jovens na cidade de São Paulo, nos últimos anos, tem sido a polícia, seguida de acidentes de trânsito e, só depois, os homicídios comuns, de acordo com Samira Bueno, diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Mas quem se importa? Antes, pacotes de mortes como essas chocavam a ponto de criar constrangimento em governos. Agora, parte da população bate palmas nas redes sociais, defendendo que o barulho de uma festa seja silenciado com sangue. Afirmando que, se os nove foram mortos pela polícia, é porque algo de errado estavam fazendo. O padrão mudou é a vítima se tornou a principal suspeita. O valor da vida é medido em decibéis.

Vivemos a "Era do Foda-se". Sabe aquele esforço para se preocupar com as consequências das próprias ações e palavras e, no mínimo, manter as aparências? Então, ele se aposentou ou tirou férias, mandando avisar que só dá as caras quando a democracia plena voltar ao Brasil. Até lá, cada autoridade ou membro da elite econômica e política deste país pode falar ou fazer o que quiser, sem medo da repercussão negativa junto à população. Até porque, convenhamos, foda-se.

Alguns dizem que isso vai gerar uma transparência sem igual na sociedade que nos levará a um patamar superior da existência no futuro e o melhor é tudo acontecer à luz do dia ao invés de se passar nos porões das casas 58 ou 66 de um condomínio na Barra da Tijuca. Há uma falsa dualidade nessa história.

Ricardo Augusto de Mello Araújo, ao assumir o comando da Rota, tropa da PM paulista, em 2017, assumiu que não era possível abordar pessoas da periferia e em bairros nobres da mesma forma. "É uma outra realidade. São pessoas diferentes que transitam por lá. A forma dele abordar tem que ser diferente. Se ele [policial] for abordar uma pessoa [na periferia], da mesma forma que ele for abordar uma pessoa aqui nos Jardins, ele vai ter dificuldade. Ele não vai ser respeitado", explicou ao repórter Luís Adorno, do UOL. "Da mesma forma, se eu coloco um [policial] da periferia para lidar, falar com a mesma forma, com a mesma linguagem que uma pessoa da periferia fala aqui no Jardins, ele pode estar sendo grosseiro com uma pessoa do Jardins que está ali, andando."

O problema é que, para muita gente, não é mais chocante ver um comandante afirmar que o policial deve se adaptar ao lugar em que está. Claro que isso não é novidade para qualquer jovem negro e pobre da periferia que, não raro, é suspeito por ser negro e pobre da periferia. Mas a sociedade não pode naturalizar esse tipo de comportamento, da mesma forma que deveria refletir sobre o significado de empatia antes de postar que os jovens em Paraisópolis tiveram o que mereciam.

Seria necessária nova pactuação política e social, aliada a muito suor em articulações para a construção de novos consensos que vençam o imobilismo do "foda-se" visando à construção de um Estado e de uma polícia que encare todos como iguais. A dúvida é se, diante de todo o esgarçamento institucional que vivemos, as pessoas não ligaram o Modo de Sobrevivência, no qual é cada um por si e o sobrenatural por todos.

Eu diria "Que Deus nos ajude" diante disso. Mas Jeová, se realmente for a imagem e semelhança de seu povo, deve estar ocupado com um policial que invadiu sua casa sem mandado.

A evolução do torturador da ditadura

Um policial militar aparece, em um vídeo, agredindo jovens que saem de uma festa na favela de Paraisópolis com algo que pode ser um cano ou um pedaço de pau. Acerta muitos deles no rosto, agindo indiscriminadamente. Atinge até um rapaz que usa muletas para se locomover. Parece se divertir com o que está fazendo. A Ponte Jornalismo conseguiu o vídeo com um morador da comunidade.

A PM afirmou que as imagens são do dia 19 de outubro, que a cena "não tem relação com o ocorrido no último final de semana" e que o policial foi afastado do policiamento de rua e um inquérito de abuso de autoridade foi instaurado.

Mas a polícia está duplamente enganada. Primeiro: há uma clara relação, pois é exatamente esse o contexto da repressão contínua e violenta em que está inserida a morte dos nove jovens que estavam no baile funk na madrugada do último dia 1. Pouco importa se a gravação foi feita há dois dias ou dois meses. Temos um policial, em tese, treinado para proteger os cidadãos claramente sentindo prazer com a agressão de jovens desarmados em um espaço público.

Segundo: isso não é abuso de autoridade. É tortura.

Durante as sessões de tortura realizadas no 36o Distrito Policial, local que abrigou a Oban (Operação Bandeirante) e, posteriormente, o DOI-Codi, na capital paulista, durante a ditadura, os vizinhos no bairro do Paraíso reclamavam dos gritos de dor e desespero que brotavam de lá. As reclamações cessavam com rajadas de metralhadora disparadas para o alto, no pátio, deixando claro que aquilo continuaria até que o sistema decidisse parar.

Mas o sistema não parava. O sistema nunca para por conta própria. Ele precisa ser freado pelo resto da sociedade.

A tortura firmava-se como arma da disputa ideológica. Era necessário "quebrar" a pessoa, mentalmente e fisicamente, pelo que ela era e pelo que representava. Não era apenas um ser humano que morria a cada pancada. Era também um lugar de fala, uma visão de mundo, uma ideia.

Entrevistei várias pessoas que foram torturadas no antigo DOI-Codi. Contam que havia algo mais além da justificativa ideológica, uma sensação de prazer no que faziam. Talvez esse prazer surja da sensação de poder. De fazer porque se pode fazer enquanto o outro nada pode.

O Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) era integrado por membros do Exército, Marinha, Aeronáutica e policiais. A tortura não nasceu com eles no Brasil, mas a metodologia desenvolvida durante esse período e a certeza do "tudo pode" continua provocando vítimas em delegacias e batalhões policiais espalhados pelo país e nas periferias das grandes cidades, como em Paraisópolis – onde a vida vale muito menos que nos bairros ricos da cidade.

Dizem que os melhores carrascos são os psicopatas que gostam do que fazem. E se dedicam com afinco a descobrir novas formas de garantir o sofrimento humano. Muitos dos que fizeram o serviço sujo para a ditadura e passaram pelo prédio do DOI-Codi amavam isso. Pelo rosto do policial em Paraisópolis, podemos dizer o mesmo.

Não acreditavam simplesmente estar em uma guerra. Se assim fosse, haveria protocolos internacionais proibindo o que foi feito. Muito menos em uma missão divina porque Deus, se existir, nunca ouviu os gritos que saíram de lá. O que havia nas celas era, para eles, a representação do mal. E o mal precisa ser extirpado, tal qual ouvimos hoje: que há pessoas ou grupos que representam o mal e precisam ser eliminados ou contidos. Na superfície dessa afirmação, há ódio. Mas se escavarmos um pouco, chegaremos ao medo e, em seguida, à ignorância sobre o outro.

Protocolos de ação policiais em comunidades (que afirmam que a dignidade deve ser preservada) são rasgados hoje diante do discurso que transforma esses jovens no "mal". Afinal, juntam-se "ilegalmente" aos milhares para corromper os valores dos "homens e mulheres de bem" em "perversão" atrapalhando "quem paga imposto".

O golpe de 1964 e a ditadura ainda são temas que não fazem parte de nosso cotidiano em comparação com outros países que viveram realidades semelhantes e que almejam ser democracias. Por aqui, lidamos com o passado como se ele tivesse automaticamente feito as pazes com o presente. Não, não fez.

O impacto de não resolvermos o nosso passado se faz sentir no dia a dia das periferias das grandes cidades, em manifestações, nos grotões da zona rural, com o Estado aterrorizando, reprimindo e torturando parte da população (normalmente mais pobre) com a anuência da outra parte (quase sempre mais rica).

Os torturados do passado são torturados novamente e todos os dias, no Brasil, sob outros nomes. Normalmente, jovens, negros e pobres.

Policiais e militares não são monstros alterados por radiação para serem insensíveis ao ser humano. Não é da natureza da maioria das pessoas que decide vestir farda tornar-se violenta. Elas aprendem a agir assim. No cotidiano da instituição a que pertencem (e sua natureza mal resolvida), na formação profissional que tiveram, na exploração diária como trabalhadores e na internalização de sua principal missão: manter a ordem a qualquer preço.

Não há ordens diretas para matar negros e pobres da periferia dados pelo comando do poder público. Mas nem precisaria. As forças de segurança em grandes metrópoles, como o Rio ou São Paulo, são treinadas para, primeiro, garantir a qualidade de vida e o patrimônio de quem vive na parte "cartão postal" das cidades, atuando na "contenção" dos mais pobres. Segundo, com governos apoiando a letalidade policial como política de combate à violência, a percepção da impunidade ajuda a agir sem pensar nas consequências.

Nossa geração tem sido incompetente para garantir dignidade à próxima. Espero que os mais jovens nos perdoem e sejam mais capazes que nós em construir uma sociedade em que esse tipo de cena não aconteça. E, se acontecer, não venha com aplausos na forma de uma chuva de likes.


Voltar


Comente sobre essa publicação...