Semana On

Sábado 14.dez.2019

Ano VIII - Nº 375

Entrevista

“Jair Bolsonaro liberou todo o tipo de violência”, diz Milton Hatoum

O escritor fala do Brasil atual e sobre ‘Pontos de Fuga’, segundo romance da trilogia ‘O Lugar Mais Sombrio’

Postado em 03 de Dezembro de 2019 - Eduardo Nunomura – Carta Capital

Milton Hatoum: “O romance deve ser uma narrativa encharcada de humanidade”. Foto: Renato Parada Milton Hatoum: “O romance deve ser uma narrativa encharcada de humanidade”. Foto: Renato Parada

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Referência entre os maiores nomes da literatura brasileira contemporânea, Milton Hatoum está otimista. Ele vê focos de resistência ao governo de Jair Bolsonaro em muitos lugares diferentes, como “nas periferias, nos saraus, nas reuniões, em clubes de leitura, em pequenos shows e debates”. Na sua nova obra, Pontos de Fuga, ele optou por fazer um acerto de contas particular com a sua geração, que viveu o período da ditadura. E faz questão de ressaltar, tal como os personagens que escreve, que naquela época nem todos reagiram ou resistiram. Protagonista deste segundo livro da trilogia (o primeiro romance foi A Noite da Espera, de 2017), o personagem Martim deixa Brasília e retorna a São Paulo, onde ingressa no curso de arquitetura da Universidade de São Paulo e passa a morar numa república de estudantes na Vila Madalena, tal como Hatoum na vida real. O premiado escritor traça paralelos entre suas últimas histórias ficcionais e um governo que representa “a suprema encarnação do mal”.

 

A presença feminina sempre é muito marcante nos seus romances. Mas Pontos de Fuga destaca-se pela ausência da mãe do personagem principal. Por quê?

É uma estratégia narrativa, porque não faria sentido que o Martim, o narrador do romance, fosse um ativista, um militante de esquerda. Quis concentrar o drama dele na ausência da mãe, que envolve um mistério. Ele especula o tempo todo sobre isso e a esperança de revê-la. Essa ausência tem o lado simbólico, para lembrar que houve uma resistência feminina e feminista ao golpe, à ditadura. Várias mulheres foram assassinadas, desaparecidas, e fala-se muito nos homens. E depois a ausência de uma mãe para um filho é um grande trauma. Há essa ausência, mas tem a presença ostensiva da Dinah, essa atriz, ativista, decidida até o fim a lutar contra a ditadura.

Pontos de Fuga trabalha novamente com a ideia de vidas fraturadas. Agora são jovens que tentam se acertar, mas não conseguem. Era essa a imagem que tinha dos jovens durante a ditadura?

Era isso o que esse fragmento da minha geração vivia. Porque o romance como gênero é a busca do sentido para a vida. O que é um romance? É a trajetória de um herói ou de uma heroína que não dá certo. É uma reviravolta no destino que seria a essência do romance. Esses jovens, sobretudo naquela época, estavam procurando uma saída. E alguns não encontravam por dramas pessoais, dificuldades de enfrentar uma situação adversa ou bruta, por questões familiares, medo, desespero. Em Pontos de Fuga, esse grupo está amadurecendo, diferentemente do primeiro volume. Mas, ao mesmo tempo em que estão se conhecendo nessa triste república da Vila Madalena, também têm um olhar sobre o outro. Alguns fazem planos, mudam de profissão, outros não encontram sua profissão. Estão entre paixões, fugas e medos, acuados, um pouco emparedados.

Como esses personagens habitam sua vida?

Você tem de interiorizar os personagens. Eu dou muito valor a eles, porque é o que dá mais espessura aos romances. Há um crítico e escritor inglês que diz que o romance deve ser uma narrativa encharcada de humanidade. Então a construção de personagens é muito importante. E isso é uma das coisas mais demoradas, mais difíceis: construir personagens que não sejam rasos. E apresentá-los aos poucos. O filósofo Walter Benjamin fala que o romance tem o tempo da lareira que arde. Passa um longo tempo no fogo, durante horas, talvez uma noite toda, aí crepita, vai queimando. Esse é o ritmo dos romances. Por isso ele pede concentração do leitor. A leitura é demorada.

O protagonista Martim era para ser um personagem mais lateral?

É. Na verdade, eu sempre quis fazer essa espécie de acerto de contas com essa fração da minha geração. Não era a maioria dos jovens que estava nas ruas. Isso é um mito. Eram, sobretudo, jovens universitários, e não de todas as universidades. As públicas, sim, as federais. E tinha muita gente que apoiava o regime. Quis reinventar para mim esse momento da minha vida, mas tinha um pouco de receio por causa da amplitude do roman-fleuve, desse romance caudaloso de quase mil páginas. Aí cheguei à conclusão de que poderia dividi-lo em três partes. Eu tinha mais ou menos o esboço desses dois, desenhados em papel-manteiga. E o meu editor (Gilson Schwartz) me estimulou a escrever. Aí falei que ia levar tempo. E ele me disse que levei dez anos para publicar Dois Irmãos, meu segundo romance.

Quando lançou A Noite da Espera havia acontecido o golpe parlamentar no Brasil. No ano passado, Bolsonaro foi eleito. Em que medida este momento colaborou para reconstruir ou adaptar a história?

Alguma coisa, sim. Mas a essência estava no texto. Por exemplo, o delator, esse personagem que aparece na república, ele é o próprio ignorantão, idiota, o estúpido, o bolsonarista, que nunca leu nada, que não conhece nada, que confunde John Lee Hooker com seriado americano. Estou falando de um personagem que não tem nome que foi expulso da república, porque faz pouco dos assassinatos da FFLCH.

Há um personagem, o Ox, que tem um quê de bolsonarista.

O Ox é um liberal. Eu acho que ele não apoiaria Bolsonaro, porque é um liberal autêntico. E é isso que nos faz falta, porque o Brasil é carente do liberalismo nos moldes europeus, da filosofia inglesa. E o Ox é esse liberal autêntico, por isso ele critica o (Augusto) Pinochet, essa receita chilena do liberalismo com a repressão, o terrorismo de Estado. Guardando as proporções, ele está criticando o momento atual, que é copiado do Pinochet, com o (Paulo) Guedes. O Ox é um ruído nessa república de anarquistas, de esquerdistas.

E por que a história, parafraseando Marx, se repete agora como farsa?

Porque houve muita manipulação. Várias coisas convergiram para a eleição dele (Bolsonaro). Porque há a demonização das esquerdas, não só do PT. Há os erros da própria esquerda, temos de admitir. A condução da economia e meio ambiente, a questão indígena, temos de falar, não adianta esconder. A política de meio ambiente foi pífia. A fixação por Belo Monte. Na economia também foi desastrosa. E houve uma parte da imprensa que manipulou muito também desde 2011, 2012, 2013. Houve a virada das manifestações de junho de 2013, que começou de um lado e terminou com a adesão da direita. Depois as fake news, a facada, esse falso liberalismo brasileiro. Os verdadeiros liberais jamais admitiriam uma figura sinistra, fascistoide como Bolsonaro. Foi um acovardamento das elites. De uma parte delas, porque a maioria da elite convive bem com Guedes.

Como um intelectual vê a prevalência da estupidez como forma de governo?

Quem viveu os anos 1960 e 1970 sabe que não foi a classe operária que derrubou a ditadura. Foram, sobretudo, os movimentos dos estudantes e dos artistas. Eles fizeram muito barulho. Como estão fazendo hoje. Eu considero a manifestação de maio (de 2019) a maior dos democratas progressistas contra Bolsonaro. Porque ali foi uma manifestação suprapartidária. Inclusive o discurso do (Fernando) Haddad foi brilhante. Ele não citou o PT, não citou ninguém. Era uma manifestação pela escola pública. E quem que fez? Os estudantes, os professores, a classe média progressista. Quem está à frente hoje? Os artistas.

Consegue ver com clareza uma resistência?

Eu vejo. Ela está acontecendo no Brasil todo, em muitos lugares diferentes. Nas periferias, nos saraus, nas reuniões, em clubes de leitura, em pequenos shows e debates.

Como vê essas manifestações de pessoas que se sentem à vontade para defender Pinochet, arrancar cartaz de uma manifestação da Consciência Negra?

O Bolsonaro liberou isso. Ele autorizou não apenas isso, mas também a invasão de terras indígenas, a grilagem de terras, a violência contra os indígenas. Ele liberou todo o tipo de violência.

Nos anos 1970, havia uma sociedade brasileira e ela evoluiu de lá para cá. Então por que caímos no mesmo conto do vigário de permitir que forças sinistras voltem a governar o País?

Olha, há uma passagem do romance Pontos de Fuga, que é uma festa na Île Saint-Louis, Paris, em que uma personagem carioca, que é surda, se revolta contra a anistia. A anistia geral foi uma capitulação. Isso não aconteceu na Argentina, no Chile ou no Uruguai. O que aconteceu aqui? A repressão continuou solta. Os grupos paramilitares, os esquadrões da morte estão aí, viraram milícias. Esses militares, esse submundo só cresceu. A repressão aos pobres, a execução de traficantes, num país democrático você não executa os malfeitores, isso é barbárie. Essas pessoas têm representantes no Congresso, têm a Bancada da Bala. O presidente e seus filhos fizeram honrarias às milícias. Ele, Bolsonaro, elogiou milicianos na tribuna. Então não houve uma interrupção, houve uma continuidade subterrânea, oculta, que aflorou agora. Que sempre matou. Mas a matança de pobres e negros no Brasil, a quem sensibiliza?


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