Semana On

Terça-Feira 07.abr.2020

Ano VIII - Nº 387

Especial

Uma geração perdida

Os efeitos da desigualdade de renda e gênero na educação

Postado em 03 de Dezembro de 2019 - Regiane Oliveira, Ana Torres Menárguez (El País), Felipe Cordeiro (O Estado de S.Paulo), Leonardo Sakamoto e Josias de Souza (UOL) – Edição Semana On

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Foi curto, como um voo de galinha, o impulso que o Brasil teve nos indicadores de educação entre alunos de 15 anos. Dados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes 2018 (PISA, em inglês), divulgados no último dia 3, apontam que no início do século, entre os anos de 2003 e 2018, o país conseguiu melhorar a performance dos estudantes desta faixa etária em leitura, matemática e ciências. Porém, a prometida arrancada não veio. Desde 2009, os resultados médios dos alunos não apresentaram uma melhora significativa: o país praticamente estagnou. A tendência se mantém há quase uma década, apontam os dados da prova mais recente, realizada no ano passado.

Em 2018, o país conseguiu 404 pontos em ciências, praticamente um empate em relação aos 401 pontos registrados na edição anterior da prova, 2015. A média global dos 79 países ou regiões econômicas que participaram da avaliação em ciências foi de 489 pontos. Em leitura o Brasil conseguiu 413 pontos, um leve avanço sobre os 407 pontos de 2015, mas muito abaixo dos 487 da média geral da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Em matemática, o país que havia pedido 12 pontos na edição passada teve uma recuperação. Conseguiu chegar a 384 pontos (contra 377 do exame anterior), mas ainda abaixo de seu melhor resultado, 389 pontos, registrado na prova de 2012. A média da OCDE em matemática foi de 489 pontos.

Realizado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o exame realizado a cada três anos destaca que entre 2000 a 2012, o Brasil teve uma rápida expansão do ensino médio, adicionando mais de 500.000 estudantes à população total de jovens de 15 anos elegíveis para participar do exame. Esse crescimento é fruto de uma política de Estado que tornou obrigatória a educação básica para estudantes de 4 a 17 anos a partir de 2016. Anteriormente, só a matrícula de crianças no fundamental (6 a 14 anos) era prevista em lei. O mesmo movimento de expansão do ensino médio aconteceu em países como Indonésia, México, Turquia e Uruguai. A particularidade é que nesses países, o Brasil inclusive, o aumento no número de matrículas não sacrificou a educação oferecida, o que é esperado quando há uma grande entrada de estudantes no sistema.

A educação oferecida nesta etapa no Brasil, entretanto, manteve a mesma tendência de performance. Apenas 2% dos adolescentes tiveram os níveis mais altos de proficiência em pelo menos uma das disciplinas medidas pelo PISA 2018, a prova com resultados mais recentes. Enquanto isto, 43% dos alunos brasileiros obtiveram pontuação abaixo do nível mínimo em leitura, matemática e ciências. A média é maior que a obtida pelos países na lanterna da proficiência, ou seja, o grupo com os piores resultados —entre eles, 13% dos alunos estão abaixo do nível mínimo.

Nos níveis mais altos, os alunos podem compreender a leitura textos longos, lidar com conceitos abstratos e estabelecer distinções entre fato e opinião. Os estudantes também podem modelar situações complexas matematicamente, além de selecionar, comparar e avaliar estratégias para a solução de problemas. Além disso, são capazes de aplicar de forma criativa e autônoma seus conhecimentos sobre as ciências a uma ampla variedade de situações, incluindo as não familiares. Na média da OCDE, 16% dos estudantes atingem os níveis mais altos.

Cerca de 1% dos alunos brasileiros obteve notas altas em matemática. Paralelamente, seis países ou economias asiáticas tiveram a maior parcela de estudantes no topo desta disciplina: as quatro províncias chinesas Pequim, Xangai, Jiangsu e Zhejiang tiveram 44% de estudantes em destaque nesta disciplina, seguidas por Cingapura (37%), Hong Kong (29%), Macau (28%), Taipé Chinês (23%) e Coreia do Sul (21%).

Situação socioeconômica

A desigualdade socioeconômica é um grande divisor de águas nestes resultados. Em 2018, alunos brasileiros mais ricos superaram os pobres em leitura em 97 pontos —em 2009, a diferença de desempenho nesta área entre os dois estratos socioeconômicos foi de 84 pontos no Brasil. A boa notícia é que cerca de 10% dos estudantes desfavorecidos conseguiram pontuar entre os índices mais altos do desempenho em leitura, o que indica, segundo o relatório do PISA, que a desvantagem econômica não é necessariamente o que determina o destino dos estudantes.

O otimismo da OCDE, no entanto, não se sustenta nas próprias análises da organização quanto ao potencial real de futuro desses estudantes. Cerca de 1 em cada 10 alunos desfavorecidos de alto desempenho não tem expectativa de concluir o ensino superior. Esse indicador muda quando relacionado aos estudantes mais favorecidos: apenas 1 em cada 25 alunos não deve terminar a faculdade.

Diferença de gênero

As meninas mantêm a liderança nos indicadores de leitura, com uma diferença média de performance de 26 pontos em relação aos meninos. Por outro lado, os meninos superaram as meninas em matemática em 9 pontos. Já nas ciências, meninas e meninos têm desempenho semelhante no Brasil.

De acordo com o relatório, entre o estudantes de alto desempenho em matemática ou ciências, cerca de um em cada três meninos no Brasil espera trabalhar como engenheiro ou profissional de ciências aos 30 anos. Apenas uma em cada cinco meninas espera seguir essas carreiras.

Dentre as meninas de alto desempenho, cerca de duas em cada cinco esperam trabalhar em profissões relacionadas à saúde ―o mesmo percurso deve ser seguido por cerca de um em cada quatro meninos com desempenho semelhante. Apenas 4% dos meninos e quase nenhuma menina esperam trabalhar em profissões relacionadas à tecnologia das informação no Brasil.

Jogo de empurra

O ministro da Educação, Abraham Weintraub, atacou e culpou os governos petistas pelo resultado do Brasil na pesquisa. "O Pisa é do PT, não do (presidente Jair) Bolsonaro", afirmou Weintraub ao comentar os resultados de 2018 do exame.

"Integralmente culpa do PT, integralmente culpa dessa doutrinação 'esquerdófila' sem compromisso com o ensino. Quer discutir sexualidade, não quer ensinar (a) ler e escrever", disse o ministro, que poupou a gestão anterior, de Michel Temer (MDB). "Ele ficou pouco tempo. Não dá para culpar o cara. O exame foi feito no começo de 2018. Ele ficou um ano lá, não vou culpar... Ele é culpado de ser vice da (presidente) Dilma (Rousseff). Isso ele é culpado - e de outras coisas também."

"Esse governo não tem a nada ver com o Pisa", enfatizou o ministro. "Quando vocês olharem em termos históricos, 2019 vai ser o ponto de inflexão." Para Weintraub, um das soluções para melhorar o desempenho dos estudantes brasileiros é investir em tecnologia nas escolas e substituir o material didático.

"Os antigos não funcionam. A prova está no Pisa de 2018", disse. "A gente começa a mudar isso com livro didático, com técnicas diferentes, com métodos diferentes, que foram feitos, apresentados e discutidos, começaremos a implantar isso no Brasil inteiro."

Weintraub afirmou que o Ministério da Educação (MEC) teve acesso a dados que mostram que as notas dos colégios cívico-militares estão acima da média da OCDE e defendeu o modelo, uma das bandeiras da área de educação do governo Bolsonaro. "Na média, é uma tragédia, mas, quando a gente olha as escolas militares e cívico-militares já existentes, o Brasil está acima da média da OCDE."

Bullying e solidão

Escola brasileira incentiva a competição. Já estudantes relatam bullying e têm menos facilidade em solucionar problemas, mas concordam que seus professores têm entusiasmo ao ensinar. É o que também revela o PISA 2018, que neste ano mensurou também aspectos do bem-estar dos estudantes, que influenciam diretamente em seu aprendizado.

O PISA entende o bem-estar como um estado dinâmico, relacionado ao funcionamento psicológico, cognitivo, material, social e físico dos estudantes, mas também às capacidades que os jovens têm de ter uma vida feliz e gratificante. Para o programa, “sem investimentos suficientes no desenvolvimento de capacidades no presente, é menos provável que os alunos desfrutem de bem-estar quando adultos”.

Temas como bem-estar vem ganhando cada vez mais peso nos debates sobre educação. E estão relacionadas com o projeto Competências Globais da OCDE, que prevê lançar uma nova prova para mensurar a qualidade da educação. Previsto para o final de 2020, o exame vai medir as habilidades sociais dos estudantes e sua capacidade para encontrar soluções para problemas, o que é uma das habilidades essenciais para uma boa redação do Enem, por exemplo.

O resultado mais recente do PISA mediu diversas variáveis relacionadas ao clima nas escolas que afetam o bem-estar dos estudantes. Veja as principais informações reportadas pelos estudantes brasileiros:

1 em quase 3 estudantes sofrem bullying. 29% dos estudantes brasileiros entrevistados afirmaram sofrerem bullying pelo menos algumas vezes por mês, um resultado superior à média dos países da OCDE (23%).

Alunos brasileiros são menos satisfeitos com a vida. 65% dos estudantes brasileiros relataram estar satisfeitos com a vida, contra 67% da média de países que participaram da pesquisa. Cerca de 90% dos alunos brasileiro, no entanto, relataram, às vezes ou sempre, sentirem-se felizes; enquanto cerca de 13% dos estudantes disseram estar sempre tristes. “Na maioria dos países e economias, os estudantes apresentaram maior probabilidade de relatar sentimentos positivos quando relataram um forte senso de pertencimento à escola e uma maior cooperação entre seus colegas. Os que sofrem bullying com mais frequência expressaram mais tristeza”, informou a o relatório do PISA 2018.

Estudante é solidário, mas nem tanto. 85% dos brasileiros que participaram da pesquisa concordaram fortemente que é bom ajudar os alunos que não podem se defender. Na OCDE a média é de 88%.

Competição é mais comum que cooperação nas escolas. No Brasil, 48% dos estudantes relataram que seus colegas de escola cooperam entre si e 57% relataram que o ambiente de competição prevalece. Nos países demais acontece o inverso: a cooperação (62%) é maior que a competição (50%)

Solidão é maior entre adolescentes brasileiros. Cerca de 23% dos alunos do Brasil concordam ou concordam fortemente que eles se sentem sozinhos na escola. A média da OCDE é de 16% de estudantes solitários.

Indisciplina é um grande problema na sala de aula. Cerca de 41% dos estudantes afirmaram que quase todos os professores de linguagens precisam esperar muito tempo para que os alunos se acalmem antes de começar as aulas. O incômodo com a indisciplina no Brasil é muito mais alto que na média da OCDE (26%). E isto parece influenciar na performance dos adolescentes. Estudantes que reportaram este problema marcaram 19 pontos a menos em leitura do que alunos que não identificaram ou minimizaram o problema.

Adolescentes brasileiros faltam mais. No Brasil, 50% dos alunos faltaram um dia de aula e 44% dos alunos chegaram atrasados à escola nas duas semanas anteriores ao teste do PISA. Na média dos países que participaram da pesquisa, 21% dos estudantes pularam um dia de aula e 48% chegaram atrasados no mesmo período.

Entusiasmo dos professores é destaque. Cerca de 83% dos alunos do Brasil concordaram ou concordaram fortemente que o professor mostra prazer no ensino. Na média da OCDE esse número ficou em 74%. Os dados mostram que professores entusiasmados influenciam diretamente na pontuação de leitura de seus estudantes.

Brasileiros solucionam problemas pior que a média. 77% dos estudantes concordam ou concordam fortemente que geralmente conseguem encontrar uma saída para situações difíceis e 55% concordam ou concordam fortemente que, quando falham, se preocupam com o que os outros pensam. Na média da OCDE, 84% dos alunos afirmam serem capazes de solucionar problemas difíceis. Em contrapartida, 56% se preocupam com o que outros pensam quando eles falham. Os dados mostram que em todos os sistemas de ensino, incluindo o Brasil, as meninas têm mais medo do fracasso que os meninos.

Estudantes acreditam na meritocracia. A maioria dos estudantes do Brasil e dos países da OCDE entendem que seus talentos e habilidades pode ser desenvolvido através do esforço, a chamada “mentalidade de crescimento”.

Pressão nas escolas

Valerie Hannon, assessora de programas de aprendizagem inovadoras da OCDE, acredita que os exames PISA são “limitados”, por não medirem as aptidões necessárias para os alunos deste século. Hannon, que também assessora o Governo do Reino Unido sobre novos modelos de aprendizagem, acredita que este tipo de teste (realizado a cada três anos) deixa os governos nacionais obcecados, que, por sua vez, forçam as escolas a dedicarem muito tempo para melhorar essas três habilidades, descuidando de outras mais relacionadas com a criatividade e o aprendizado autônomo.

Hannon é, além disso, uma das consultoras da OCDE em seu novo projeto Competências Globais, um novo exame que medirá as habilidades sociais dos estudantes e a capacidade deles para encontrar soluções a problemas de convivência, imigração ou mudança climática, cujos resultados sairão no final de 2020. Em sua opinião, os sistemas educacionais estão falhando porque seguem um modelo muito acadêmico, que busca que todos os alunos entrem na Universidade, uma circunstância “muito distante” dos dados atuais (no Reino Unido, 24% dos jovens de 20 a 24 anos são universitários, 30% na Itália, 33% na França e 38% na Espanha).

Análise

É desesperador ver um país com mais 13 milhões de desempregados, que não consegue retomar o crescimento, ter a educação – força motriz de qualquer desenvolvimento social e econômico – tratada como inimiga por parte de seu próprio governo. Desde o começo do ano, não temos ministro da Educação e as ações para o setor visam à desconstrução do que décadas de esforço pós-redemocratização possibilitaram sem dizer o que pretende colocar no lugar.

Enquanto isso, talvez querendo vingar a própria ignorância, membros da administração federal transformaram o conhecimento em inimigo – o que se traduz não apenas no desmantelamento da pesquisa e do ensino superior, mas na negação da ciência como ferramenta da administração pública.

Não é que estamos à deriva. A melhor analogia seria a de um barco, com um capitão terraplanista, navegando em um mundo esférico. No final, podemos até chegar ao nosso destino, mas será por um caminho mais longo e penoso, demandando dedicação dobrada por parte do restante da tripulação, deixando mortos e feridos pelo caminho e precisando de muita, mas muita sorte.

Incensado como sensato pelo mercado, o ministro da Economia considera irrelevante indicadores trazidos por uma pesquisa robusta do Censo, avaliando que um dos países mais desiguais do mundo não precisa conhecer a si mesmo para saber onde melhor alocar seu parco orçamento. O ministro da Cidadania prefere acreditar nas deduções simplistas de um passeio pelas ruas do Rio, regadas às suas próprias crenças sobre drogas, do que confiar em estudo realizado por anos e envolvendo centenas de cientistas da Fiocruz, uma das mais renomadas instituições de pesquisa do mundo. E o presidente da República acha que sabe mais de cálculo estatístico de desemprego do que o IBGE.

Na prática, desconfiasse que ele não entenda direito o que é desemprego. Porque se entendesse a dor por trás de não conseguir trabalhar para sustentar a família, já teria apresentado uma política nacional para geração de emprego e renda. Como sempre digo neste espaço, Jair Bolsonaro não é culpado pela massa de desempregados, oriundas da crise gestada durante o governo Dilma Rousseff. Mas, considerando que agora é presidente, aos poucos vai sendo responsabilizado por contar apenas com a aprovação da Reforma da Previdência para a solução do problema, sem apresentar nada mais. 

Já relatamos um caso de casas de farinha que foram interditadas no sertão de Pernambuco pela fiscalização. Apesar da cena do menino de três anos descascando tubérculos ter chocado, um rosário de adolescentes de 13, 14, 15 anos, operando máquinas nesta, que é considerada uma das piores formas de trabalho infantil, é o retrato de nossa incompetência em garantir que a escola proteja o futuro.

De acordo com o Censo Escolar 2017, das escolas que oferecem ensino fundamental, menos da metade (41,6%) têm rede de esgoto e 65,8% contam com abastecimento público de água. Em 10% delas, não há ao menos um desses três itens: água, energia ou esgoto. Só 54,3% têm bibliotecas ou salas de leitura e 53,5% acesso à banda larga. Algumas unidades não têm papel higiênico para a criançada se limpar após as necessidades fisiológicas.

Mas o grande problema é "combater o lixo marxista que se instalou nas instituições de ensino", conforme defendeu Bolsonaro.

Antes de combater moinhos de vento, o presidente poderia começar por melhorar a remuneração dos docentes e servidores públicos da educação, garantindo dignidade a eles e suas famílias; aumentar o nível de sua formação e garantir que estejam constantemente atualizados com o que há de mais moderno do ponto de vista didático e pedagógico; implantar atividades de contraturno a fim de elevar o número de escolas em período integral, contratando mais professores e não sobrecarregando os existentes como fizeram alguns estados; conversar com governadores para que jovens que se trancam em suas escolas para protestar contra a falta de merenda e de professores não sejam agraciados com bombas de gás lacrimogênio ou balas de borracha; atuar para aumentar e melhorar as escolas técnicas de nível médio, garantindo formação profissional para que os jovens possam entrar no mercado de trabalho – o que inclui proteger de desidratação entidades como o Senai e o Senac; revisar a Emenda do Teto dos Gastos, que limitou o crescimento dos gastos públicos ao aumento da inflação por 20 anos, guiando nossa educação da insuficiência para a inviabilidade – lembrando que o país universalizou o acesso à educação, mas produz jovens semianalfabetos com diploma de ensino médio. 

Se Bolsonaro conseguir fazer tudo isso, perceberá que terá nas mãos uma educação de qualidade com jovens preparados para o salto de produtividade que o país precisa dar e capazes de discernir quando estão tentando enganá-los com discursos doutrinadores que servem para entreter a militância, desviar a atenção da opinião pública e criar uma cortina de fumaça a fim de disfarçar a incompetência dos que os proferem. Da esquerda à direita. Mas parece que ele não deseja isso.

Diante do que foi posto, é desesperador não apenas ver um país com mais 13 milhões de desempregados, que não consegue retomar o crescimento, ter a educação – força motriz de qualquer desenvolvimento social e econômico – tratada como inimiga por parte de seu próprio governo.

É desesperador olhar para o presidente e perceber que isso é seu projeto de país.  

Joãozinho e Ritinha

É inspirador, no entanto, ver exemplos de criatividade e superação de alunos e professores diante das adversidades, mas reconhecer que esse deve ser o padrão a ser assumido pelo Estado é afirmar o "cada um por si e Deus por todos" como metodologia e o "jeitinho brasileiro" como política pública.

Não há possibilidade de resolvermos os problemas da educação sem grandes injeções de recursos, afinal não estamos no estágio de manutenção da excelência, mas de garantir um mínimo de dignidade.

Os cortes realizados pelo governo federal na área de educação básica e superior vão na contramão disso.

Quando a PEC do Teto dos Gastos foi aprovada, durante o governo Temer, era claro que a Educação e Saúde sofreriam o impacto em pouco tempo se o reajuste das receitas se desse apenas pela inflação e não considerasse os desafios que temos pela frente nessas áreas, que demandam crescentes investimentos. Agora, o governo passa a faca em toda a Esplanada dos Ministérios para cumprir a meta fiscal e a área de Educação foi atropelada.

"Ah, seu chato! Eu acho super inspiradora a história da Ritinha, do Povoado Botas de Judas, que passa a madrugada encadernando sacos de papel de pão e apontando lascas de carvão, que servirão de lápis, para seus alunos da manhã seguinte. Ela sozinha dá aula para 176 pessoas de uma vez só, do primeiro ao nono ano, e perdeu peso porque passa seu almoço para o Joãozinho, um dos alunos mais necessitados. Ritinha deu um depoimento emocionante ao Fantástico, dia desses, dizendo que, apesar da parca luz de candeeiro de óleo de rato estar acabando com sua visão, ela romperá quantas madrugadas for necessário porque acredita que cada um da sociedade deve fazer sua parte."

Para quem não se lembra, Joãozinho é velho personagem fictício usado para explicar os absurdos na educação.

Ele comia biscoitos de esterco com insetos e vendia ossos de zebu para sobreviver. Mas não ficou esperando o Estado, nem seus professores lhe ajudarem e, por conta, própria, lutou, lutou, lutou (às vezes, contando com a ajuda de um mecenas da iniciativa privada com sentimento de culpa ou feeling para ganho de imagem institucional), andando 73,5 quilômetros todos os dias para pegar o ônibus da escola e usando folhas de bananeira como caderno. Venceu na vida sem a ajuda de ninguém e, hoje, é presidente de uma multinacional.

Ritinha simboliza a construção de um discurso que joga nas costas do professor a responsabilidade pelo sucesso ou o fracasso das políticas públicas de educação. Esqueçam a redução no orçamento da educação para pagamento dos juros da dívida, esqueçam os desvios nos recursos da merenda pela corrupção, a incapacidade administrativa, o sucateamento e a falta de formação dos profissionais, os salários vergonhosamente pequenos e planos de carreira risíveis, a ausência de infraestrutura, de material didático, de segurança para se trabalhar.

Ritinha é, para muita gente, um problema e a sua própria solução.

Ao mesmo tempo, Joãozinho simboliza aquele papo meritocrático do self-made man, bonito, mas vazio, de que os alunos podem conseguir vencer, com esforço individual e apesar de toda adversidade, "ser alguém na vida". A exibição repetida das vitórias de alguns poucos Joãozinhos, que povoam os sonhos dos liberais festivos, passa uma mensagem do tipo "se não consegue ser como Joãozinho e vencer por conta própria sem depender de uma escola de qualidade e de um bom professor, você é um verme nojento que merece nosso desprezo". Mesmo que histórias como essas sejam um ponto fora da curva e não o padrão. Daí para tornar o sistema educacional como um todo algo cada vez mais acessório é um passo.

Joãozinho é, para muita gente, um problema e a sua própria solução.

Sabe o que dá desgosto? Saber que parte daqueles que vão às ruas segurando suas plaquinhas "Por mais educação", "Um país sem educação não tem solução" e "Anauê! Quero Educação para Você", não acredita que salários mais altos, mais gastos em formação técnico-pedagógica e melhor infraestrutura tenha a ver com a melhoria da sociedade. E repetem o mesmo discurso que uma educação de qualidade não passa por pesados investimentos novos, mas por sinergia e boa vontade.

Muita gente ergue plaquinhas porque esses mantras são superficiais. É bonito pedir educação para todos e todas. Mas a mudança real de modelo que isso significa na prática fere os valores defendidos por quem almeja um Estado mínimo. Educação de qualidade, desde que você trabalhe e pague por ela.

Muitos desses também repetem bobagens como "a pessoa é pobre porque não estudou ou trabalhou". Pois acham que basta trabalhar e estudar para ter uma boa vida e que um emprego decente e uma educação de qualidade é alcançável a todos e todas desde o berço. Acham que as leis foram criadas para garantir Justiça e que só temos um problema de aplicação. Não se perguntam quem fez as leis, o porquê de terem sido feitas ou questiona quem as aplica.

Qual educação é a saída? Aquela defendida pelo pessoal de campanhas como "Amigos do Joãozinho"? Educar por educar, passar dados e técnicas, sem conscientizar o futuro trabalhador e cidadão do papel que ele pode vir a desempenhar na sociedade, é o mesmo que mostrar a uma engrenagem o seu lugar na máquina e ponto final?

E como já disse aqui uma miríade de vezes, uma das principais funções da escola deveria ser produzir pessoas pensantes e contestadoras que podem colocar em risco a própria estrutura política e econômica montada para que tudo funcione do jeito em que está. Educar pode significar libertar ou enquadrar. Que tipo de educação estamos oferecendo? Que tipo de educação precisamos ter?

Apesar da evolução dos últimos anos, parte dos jovens de escolas públicas têm entrado no ensino médio sabendo apenas ordenar e reconhecer letras, mas não redigir e interpretar textos. Uma educação sem grandes investimentos para garantir um mínimo de dignidade, de baixa qualidade, insuficiente às características de cada lugar, que passa longe das demandas profissionalizantes e com professores mal tratados pode mudar a vida de um povo?

Não. Mas é isso que muita gente quer.

Por fim

O Pisa expõe a raiz do atraso nacional. Quatro em cada dez alunos brasileiros na faixa dos 15 anos não entendem o que leem, não sabem fazer contas básicas e não compreendem conceitos elementares de ciência. Não se chega a um desastre desse tamanho por acaso. O teste mostra que o Brasil se acostumou com o vexame.

O país caiu no abismo educacional e não esboça a intenção de sair dele. Os indicadores estão estagnados há uma década. Repetindo: faz dez anos que a educação do Brasil está exposta na vitrine do Pisa de ponta-cabeça. E fica por isso mesmo. Num ranking de 79 países, o teste fechado em 2018 coloca os alunos brasileiros nas 20 piores posições em leitura, em matemática e em ciências.

Ignorar não é um bom remédio contra a patologia da ignorância. Então, é preciso enxergar o que está por trás do problema. Quem olha por cima dos indicadores enxerga a verdadeira causa da encrenca: o analfabetismo governamental. É como se os gestores públicos lessem os dados e não compreendessem o significado. Não é que as pessoas não conseguem ver a solução. Elas não enxergam o problema.

Seria necessário implantar na área educacional políticas públicas capazes de sobreviver aos governos. Falta uma iniciativa de Estado, que possa ter continuidade ao longo do tempo. Mas isso não está sobre a mesa. O ministro Abram Weintraub, atual gestor da pasta da Educação, preocupou-se em enfatizar dois pontos:

1) O Pisa de 2018, não trata do governo Bolsonaro, que começou em 2019.

2) A culpa é 100% do PT e de sua "doutrinação esquerdófila".

Faltou dizer para onde as teorias direitófilas do ministro levarão a educação. A experiência mostra que, nesse ramo, a ideologia é o caminho mais longo entre um projeto e a sua realização.


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