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Terça-Feira 10.dez.2019

Ano VIII - Nº 374

Artigo da semana

Uma nova marcha autoritária está em curso – e não aprendemos nada

Devemos resgatar a memória da barbárie e dela extrair suas mais cruciais lições, pois o futuro não precisa ser o passado

Postado em 26 de Novembro de 2019 - Henry Bugalho

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Eu adoraria acreditar que nós, como sociedade, aprendemos alguma coisa com a História e, deste modo, com os acertos e erros pretéritos.

No diálogo platônico “Timeu”, vemos o personagem inspirado no ateniense Sólon ouvir de um sábio egípcio que “os gregos não passam de crianças”, dando a entender que, ao contrário dos egípcios, os gregos eram um povo sem memória, sem História, sempre começando de novo.

Assim como no texto de Platão, também tenho esta impressão, que somos sempre crianças, sem memória, em parte por ignorância, em parte por negligência. Não damos o devido valor às grandes lições históricas, mas, frequentemente, sequer as conhecemos. Um grande erro foi, por exemplo, a ampla anistia aos crimes cometidos por agentes do Estado durante a ditadura militar no Brasil. Tentar apagar o erro sem precisar retificá-lo.

A nossa incapacidade de lidar com a barbárie dos anos de chumbo, de confrontar este passado, é justamente aquilo que permite hoje a manifestação de um mórbido saudosismo pela ditadura. Pouco mais de 30 anos depois da redemocratização, vemos pessoas nas ruas e na política clamando pela repressão, por um novo AI-5, por golpes de Estado, por rupturas institucionais.

O mais surpreendente é que não estamos sozinhos nessa onda. Mesmo em países onde a memória histórica foi cultivada nas escolas e na vida pública, também é possível perceber esta nova marcha autoritária; mesmo na Alemanha, talvez o país que mais sofreu com esta culpa coletiva pelos grandes horrores perpetrados em nome de uma ideologia nefasta, também encontramos grupos flertando com uma retórica assustadora.

Em 2012, foi lançado o livro, depois adaptado também ao cinema, Ele está de volta, de Timur Vermes. Esta trama de humor negro nos mostra o retorno, aos dias de hoje, do ditador Adolf Hitler, surgindo numa Alemanha contaminada por um sentimento xenófobo e repleta de ressentimento. Ao contrário do que poderíamos imaginar, esta nova volta de Hitler, vista como piada por muita gente, vai gradualmente se infiltrando no imaginário alemão atual e se naturalizando. “Ele diz o que todos nós pensamos”, é uma frase que perpassa toda a obra, “ele (Hitler) não se curva ao politicamente correto”.

Uma série que também explora este espírito populista e autoritário é Years and Years, da BBC em parceria com a HBO. Ao longo de seus seis episódios, eles tentam fazer uma projeção de como serão os próximos anos no Reino Unido e no mundo. Mais uma vez, visualizamos exatamente a mesma retórica excludente e perigosa, de confronto “ao politicamente correto” e que, no fundo, é uma defesa aberta do discurso racista e intolerante. Não é uma projeção animadora, embora seja bastante realista.

A ficção pode nos ajudar a entender o que está acontecendo e, quem sabe, funcione até melhor do que as advertências provenientes da História.

“Nunca mais” foi um dos slogans repetidos após o Holocausto, uma advertência também explicitada no artigo “Educação após Auschwitz” de Theodor Adorno, que defende a necessidade de jamais nos esquecermos do que ocorreu.

Mas nós nos esquecemos. Não estamos observando os alertas. Estamos desprezando os padrões. Somos sempre crianças, e foi justamente o ideal do vigor da juventude um dos nutrientes essenciais do fascismo — lembremo-nos da Juventude Hitlerista, pois os jovens são o futuro da ideologia, são “quadros em branco” nos quais devemos inculcar a grandiosa mensagem do líder incontestável.

Devemos resgatar a memória da barbárie e dela extrair suas mais cruciais lições, pois o futuro não precisa ser o passado.

E que repitamos sempre: nunca mais!

Henry Bugalho - Henry Bugalho é curitibano, formado em Filosofia pela UFPR e especialista em Literatura e História. Com um estilo de vida nômade, já morou em Nova York, Buenos Aires, Perúgia, Madri, Lisboa, Manchester e Alicante. Por dois anos, viajou com sua família e cachorrinha pela Europa, morando cada mês numa cidade diferente. Autor de romances, contos, novelas, guias de viagem e um livro de fotografia. Foi editor da Revista SAMIZDAT, que, ao longo de seus 10 anos, revelou grandes talentos literários brasileiros. Desde 2015 apresenta um canal no Youtube, no qual fala de Filosofia, Literatura, Política e assuntos contemporâneos.


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