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Terça-Feira 10.dez.2019

Ano VIII - Nº 374

Comportamento

Ter um filho preferido é natural. Veja como lidar com isso

A maioria dos pais tem um filho que é seu favorito, mas é importante fazer seus outros filhos se sentirem igualmente valorizados.

Postado em 26 de Novembro de 2019 - Brittany Wong - HuffPost US

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Os filhos favoritos estão tendo um momento especial (mas é claro que se você é o filho favorito da mamãe ou do papai, pode afirmar que todos os momentos são o seu momento especial).

No último mês, a atriz Jaime Pressley, do seriado Mom, deixou muita gente nervosa na internet quando compartilhou uma foto sua com seu filho de 12 anos, Dezi, e destacou que ele é seu filho favorito. Ela também tem os gêmeos de 2 anos de idade.

“Me divertindo um monte com meu filho predileto, Dezi. Isso mesmo, foi o que falei”, escreveu Pressly no Instagram – mas acrescentou que, apesar de ter “um filho favorito, amo meus três garotos com todo o meu ser”.

“Dezi e eu temos um vínculo especial que ninguém nunca vai se igualar, porque crescemos juntos”, ela escreveu.

Alguns seguidores da atriz acharam o post fofo, mas outros reagiram mal. “Espero que tenha sido seu filho quem roubou seu telefone e postou isso”, escreveu uma usuária em um comentário que atraiu mais de 100 curtidas.

O favoritismo parental anda sendo exposto também na televisão.

Na série Succession, da HBO, o megalomaníaco magnata da mídia Logan Roy se diverte muito claramente vendo seus três filhos disputar a posição de “favorito” e o papel de sucessor no comando da empresa familiar (bom, são quatro filhos quando se inclui Connor na conta, mas ele demonstra muito menos interesse em comandar a Waystar Royco).

Alerta de spoiler:

No final da primeira temporada, o “filho número 1”, Kendall, pode ter voltado a levar o título de favorito. A manobra que ele fez no final do episódio foi tão ousada que nem mesmo seu velho pai conseguiu deixar de sorrir com orgulho, apesar de estar sendo apunhalado pelas costas.

Em um programa de televisão um pouquinho menos fictício, a mãe e produtora Kris Jenner, de Keeping Up With the Kardashians, deixa muito claro o seu favoritismo, tanto que seus filhos se sentem à vontade em falar disso em tom de brincadeira.

“Dez anos atrás a favorita era Kimberly”, disse Khloe Kardashian em Watch What Happens. “Agora a filha predileta é Kylie.”

(A impressão que se tem é que a rentabilidade é um fator levado em conta no ranking de favoritos de Kris Jenner.)

Mas o favoritismo parental sempre foi um tema complexo. As possíveis consequências disso são tratadas na Bíblia (quando Rebeca deu preferência a Jacó), na mitologia grega (Atena era a filha favorita de Zeus) e nos contos de fadas (a madrasta de Cinderela dá preferência às suas próprias filhas nada legais).

Nossa reação a essas histórias é visceral porque a maioria de nós tem alguma experiência pessoal ligada ao favoritismo. Um estudo mostrou que 74% das mães e 70% dos pais dizem que deram tratamento preferencial a um de seus filhos.

No mesmo estudo, os filhos primogênitos relataram sentir que eram os favoritos, enquanto os mais jovens disseram que sentiram a preferência pelo primogênito e que isso prejudicou sua autoestima.

Evidentemente, a predileção por um dos filhos também é um tema superdiscutido na terapia familiar. A psicóloga Genevieve von Lob, autora de Happy Parent, Happy Child, diz que a maioria dos pais e mães com quem trabalha tem preferência inata por um de seus filhos, mesmo que não tenha consciência disso.

“Na minha experiência, muitas vezes percebemos pela linguagem corporal dos pais e o modo como falam de cada filho que eles encaram seus filhos de modo diferente”, ela disse ao HuffPost.

Outros clientes a procuram especificamente para analisar essa questão: os pais se sentem culpados por terem um filho favorito e querem reforçar seu relacionamento com o filho menos favorito, disse von Lob.

É que nessa discussão estão em jogo questões de grande importância.

“Um irmão que não foi o favorito às vezes me conta que interiorizou um sentimento de ser passado por cima, a impressão de que nunca era bom o suficiente e uma visão dele próprio como sendo profundamente inadequado, insuficiente”, explicou Von Lob.

“Às vezes o filho favorito também sofre. Em alguns casos, desenvolve um medo profundo de perder seu lugar de favorito, apresenta inseguranças e se sente pressionado a corresponder às expectativas de seus pais.”

Um dos piores efeitos do favoritismo é que pode provocar uma rivalidade entre irmãos. Um estudo realizado em 2010 sugeriu que o tratamento preferencial dado por pais pode reduzir a probabilidade de irmãos se apoiarem quando passam por crises na idade adulta.

“O favoritismo pode gerar rixas e divisões sérias entre filhos adultos”, comentou o psicólogo John Duffy, autor do livro Parenting the New Teen in the Age of Anxiety.

“O favoritismo é profundamente polarizador porque indica o valor relativo de cada filho na família”, ele prosseguiu. “Pode resultar em mágoas desnecessárias, em sofrimento e discussões que poderiam ser evitadas. E, francamente, em muitos casos dá indícios de como o dinheiro será distribuído mais para frente, na questão da herança.”

Evidentemente nada disso é produtivo ou sadio para as famílias.

“Às vezes a história de ‘favorito’ faz parte do humor familiar e é vista como inofensiva”, disse Duffy. “Mas não é inofensiva, pelos motivos explicados acima.”

Por que admitir que você tem um filho favorito

Para cortar o favoritismo pela raiz, é importante começar por admitir que você tem um filho favorito, disse Amanda Deverich, terapeuta conjugal e familiar.

“Alguns filhos estão mais em sintonia com o humor e a visão de mundo do pai ou da mãe, podendo mais facilmente se tornarem os ‘favoritos’”, ela disse. “E alguns filhos têm personalidade mais desafiadora, então faz sentido que você goste mais de um filho. Amar é diferente, é claro.”

E, como lhe dirá a maioria dos pais e mães, o título de “favorito” geralmente é uma coisa fluida. Seu filho favorito pode mudar a cada dia, semana, mês ou até ano.

Para especialistas, o favoritismo não se baseia tanto em cada filho, mas nos comportamentos dos filhos. Se Henrique, de 2 anos, está na fase de dar trabalho enorme, enquanto Enzo, de 5, anda cumprindo suas tarefas em casa e o dever de casa da escola e se comportando bem na hora do banho e do boa-noite, você vai naturalmente dar preferência a Enzo, mesmo que isso seja inconsciente.

“Eu dou preferência a um de meus filhos, mas meu filho favorito é sempre aquele que está me ouvindo naquele momento ou que vai dormir sem fazer pirraça”, comentou Aaronica Cole, que tem três filhos e dirige o blog The Crunchy Mommy. “Meus critérios são bem básicos!”

Para diminuir seu sentimento de culpa, Cole repete para si mesma que é apenas humana. Do mesmo modo que tem um sutiã favorito, uma camiseta favorita, um filme, uma comida e um homem favorito (sendo este último seu marido, é claro), de vez em quando ela comete um deslize e demonstra favoritismo por um de seus filhos.

“Acho que nos sentimos culpadas por isso porque, como mães, a expectativa é que sejamos pessoas perfeitas, sem nenhum defeito”, disse Cole ao HuffPost. “Mas a verdade é a seguinte: Nós... Também... Somos... Humanas... É importante nos lembrarmos disso!”

Ter um filho favorito não significa que você o ame menos ou mais do que ama seus outros filhos. “Quer dizer apenas que esse filho está se comportando ou encarnando algo ao qual você dá preferência”, ela explicou.

“Na verdade, todos meus filhos são meu favorito em algum momento e todos, em algum momento, me dão nos nervos. E assim fica tudo equilibrado.”

Como reduzir os efeitos negativos do favoritismo 

De acordo com Duffy, com frequência os pais têm filhos favoritos não porque apreciem aquele filho profundamente, mas porque não estão dando o devido valor às qualidades positivas de seus outros filhos.

“Em muitas famílias, incluindo a minha, o filho que obedece às regras é o mais apreciado”, ele disse. “O filho que se mostra mais resistente muitas vezes é mais difícil. Se os pais pudessem apreciar e admirar as outras qualidades positivas desse filho, poderia haver um clima de mais igualdade entre todos os irmãos.”

Outra coisa que ajuda é monitorar seu diálogo interno.

“Aconselho os pais a esclarecer a diferença entre filho favorito e ‘o filho com quem sinto mais afinidade’, e por quê”, disse Duffy. “Assim todos os filhos poderão sentir-se amados incondicionalmente.”

Se seus filhos falam abertamente sobre quem é o favorito, você deveria discutir esse tema, recomendou a psicóloga Nancy Burgoyne, vice-presidente de atendimento clínico do Instituto da Família da Northwestern University.

Se a questão nunca for discutida, as histórias que seus filhos contam a si mesmos sobre o valor que têm a seus olhos podem ser arrasadoras.

Escolha suas palavras com prudência. Burgoyne deu o exemplo de um pai de dois meninos que falou da situação em termos que estavam ao alcance de seu filho menor.

“Ele começou por validar os sentimentos do filho, dizendo ‘estou ouvindo você. Você está bravo porque acha que eu gosto do seu irmão mais do que de você. É isso?’”, disse a psicóloga. “Então ele falou: ’Neste momento seu irmão e eu estamos nos dando melhor do que você e eu. É verdade. Sinto muito que isso te deixe magoado. Amo você muitíssimo e sempre vou amar.”

Para fazer a criança recuperar seu valor próprio, procure reconhecer um bom comportamento dele diante da família inteira.

“Uma maneira de combater seu favoritismo natural, além de ser justo em matéria de regras e recompensas, é elogiar comportamentos que você gostaria de ver se repetirem”, disse Deverich. “O feedback positivo reforça o senso de valor próprio do filho, e, de quebra, lembra ao pai ou à mãe das boas qualidades dele.”

Se você ainda tiver sentimentos de culpa, saiba que até terapeutas às vezes sentem vontade de escolher favoritos, embora não se permitam fazê-lo.

“Eu ponho em prática o que prego”, disse Deverich. “Nada de favoritos. É preciso reprimir nosso impulso natural.”

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.


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