Semana On

Sábado 14.dez.2019

Ano VIII - Nº 375

Poder

Bíblia, pólvora, naftalina e olavismo

Novo projeto de poder de Bolsonaro, a Aliança pelo Brasil é o primeiro partido neofascista do país

Postado em 22 de Novembro de 2019 - Josias de Souza (UOL), Debora Álvares (Huffpost), Bruno Lupion (DW), João Filho (The Intercept_Brasil) – Edição Semana On

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A Aliança pelo Brasil (APB), novo partido de Jair Bolsonaro, realizou sua convenção inaugural. Teve a aparência de culto religioso. Na pregação, os valores cristãos e o acesso às armas são defendidos com igual tenacidade.

No rol dos fantasmas, piscam letreiros terminados em "ismo" —comunismo e globalismo, por exemplo. Tudo na nova legenda cheira a Bíblia, pólvora, naftalina e Olavo de Carvalho.

O evento aconteceu no auditório do Royal Tulip, um badalado hotel à beira do Lago Paranoá em Brasília, vizinho do Palácio da Alvorada. Mas apenas 17 veículos de imprensa convidados puderam acompanhar os discursos no local. Os demais ficaram ao sol, em um cercadinho, a alguns metros de um palco onde, no fim, o mandatário cumprimentou os militantes. 

Pouco voltado à militância, com mais do mesmo que já foi dito em outros eventos, Jair Bolsonaro, como esperado, improvisou no discurso, e não trouxe nada sobre o futuro do Aliança pelo Brasil. Deu indícios, no trato, de que a radicalização é o caminho. 

Atacou o PSL, pelo qual foi eleito, dizendo que, “no início foi uma união maravilhosa, mas depois problemas apareceram”. 

Também defendeu o chamado excludente de ilicitude, cujo projeto o governo enviou nesta quinta ao Congresso, e afirmou que a aprovação desta proposta “será uma grande guinada do combate à violência no Brasil”.

Uma edição extra do DOU (Diário Oficial da União) desta quinta traz a mensagem com o projeto de lei que isenta de eventuais punições militares das Forças Armadas e integrantes de segurança, como policiais civis e militares que atuam no GLO (Garantia da Lei e da Ordem). 

Você está preocupado com seus familiares e é assaltado na esquina. Ladrão de celular tem que ir pro pau.

Ainda na fala de pouco mais de 30 minutos, Bolsonaro atacou o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, que passou da posição de aliado à inimigo após vir à tona, em reportagem da TV Globo, que o depoimento do porteiro do condomínio Vivendas da Barra, onde o presidente tem uma casa na Zona Oeste carioca, envolvia o nome do mandatário na morte da vereadora Marielle Franco (PSol). 

“Se não fosse meu filho Flávio, Witzel não teria chegado a governador. Botou na cabeça chegar a Presidência [da República]. Mas tenta destruir a minha família usando a polícia civil. Não deu certo com o porteiro. Sei que não terei paz até o fim do mandato.”

No evento, o presidente ganhou uma placa feita de munição em referência ao nome do partido. 

Apoio?

A Aliança pelo Brasil é uma iniciativa do presidente para criar "um veículo pessoal" sobre o qual ele tenha total controle, mas inclui um risco: revelar que o apoio popular a ele pode ser menor do que o esperado.

A análise é de Cas Mudde, cientista político holandês e referência em estudos sobre o populismo e a extrema direita. Ele compara o último lance de Bolsonaro ao que Alberto Fujimori fez no Peru: "criar um partido que era somente sobre ele mesmo". Fujimori governou o Peru de maneira autoritária entre 1990 e 2000. No período dissolveu o Congresso com o apoio das Forças Armadas.  

A legenda de Bolsonaro ainda precisará coletar quase 492 mil assinaturas e obter a aprovação da Justiça Eleitoral para funcionar como partido. O objetivo do presidente é lançar candidatos a vereador e prefeito pela nova sigla já em 2020.

Professor da Universidade da Geórgia, nos Estados Unidos, Mudde lançou em setembro o livro The Far Right Today [A extrema direita hoje]. Em entrevista à DW Brasil, ele analisa o manifesto da Aliança pelo Brasil e aponta especificidades que o diferenciam dos partidos de extrema direita pelo mundo. Um desses aspectos é o personalismo centrado na figura de só um líder, que faz sentido no contexto latino-americano, mas não aparece com frequência em legendas semelhantes em outros continentes. "Na Europa, mas também na Índia, há muito mais do que apenas um líder [nesses partidos]", diz. Outro ponto que diferencia a Aliança pelo Brasil da maioria dos partidos europeus de extrema direita é a posição central da moralidade com conotação religiosa, segundo Mudde.

Neofascista

Bolsonaro alugou um partido nanico, ajudou a transformá-lo em um dos maiores partidos do Brasil e agora o abandona após uma tentativa fracassada de golpe para tomar o seu controle e abocanhar o fundo partidário. Pela ótica da dinâmica política tradicional, esse jogo é uma loucura que levaria ao enfraquecimento e isolamento do governo. Mas não é assim que pensa quem tem como objetivo destruir a democracia como a conhecemos.

O presidente da República já mostrou que não tem nenhum interesse em formar uma maioria no Congresso que o ajude a governar. É um governo que renega as mediações democráticas e busca a radicalização para atingir seus objetivos.

Desde a posse, a família Bolsonaro vem implodindo grandes aliados construídos durante a campanha. Bebianno, Alexandre Frota, Joice Hasselmann, Witzel, João Doria e Luciano Bivar são alguns nomes que foram expurgados de maneira desleal. A tropa de choque bolsonarista vai ficando cada vez mais reduzida e isso não parece ser um problema para a família Bolsonaro. Ao que tudo indica, a intenção é ir empurrando o governo com a barriga, rezar para a economia sair do buraco e continuar apostando na fidelização da sua militância alucinada nas redes sociais. Não é novidade que este é um governo preocupado exclusivamente em agradar um séquito de reacionários e lunáticos catequizados por Olavo de Carvalho.

A Aliança pelo Brasil é a nova casa da extrema-direita governista brasileira. Mais que isso: será uma sigla controlada pela família Bolsonaro e formada apenas por devotos fiéis do presidente.

Não se sabe ainda se a Aliança pelo Brasil será criada a tempo de disputar as eleições municipais do ano que vem. Se tudo for feito como manda a lei, será quase impossível. Mas estamos no Brasil 2019 e sabemos que as leis não têm sido garantia de muita coisa.

Será necessário coletar quase 500 mil assinaturas em pouco mais de quatro meses, o que seria um feito inédito. Mas os bolsonaristas contam que isso será possível com assinaturas digitais, feitas através das redes sociais e de um aplicativo que será lançado pelo partido. Acontece que a lei não prevê a possibilidade das assinaturas digitais, apenas em papel. Como será impossível juntar quase meio milhão de assinaturas em papel em quatro meses, o bolsonarismo vai conseguir as assinaturas digitais e tentar jogar essa disputa pro campo jurídico. Diante da escalada dos discursos autoritários do governo, alguém duvida que haverá radicalização e incitação do povo contra os tribunais quando esse caso for julgado? Ou será que os Bolsonaro vão mandar logo um cabo e um soldado ao TSE? Me parece bastante claro que o bolsonarismo não irá retroceder nem aceitar qualquer decisão que não seja a criação do partido do presidente. Eles não entraram nessa empreitada para depois ficarem sem partido.

É possível que haja, como houve nas eleições, uma grande mobilização das igrejas evangélicas pela criação do partido. Será que teremos pastores na porta da igreja trocando assinatura por um pedacinho no céu? O bispo e prefeito do Rio de Janeiro Marcelo Crivella já colocou a máquina da Igreja Universal à disposição para a coleta de assinaturas.

O manifesto de fundação do partido é um ajuntamento de chavões fascistoides. Não há nada ali que lembre um projeto de país, que pregue a conciliação, que apresente propostas para a economia e para o desenvolvimento social. É só um panfleto rancoroso que aposta no maniqueísmo e no confronto como método de governo, tendo Jair Bolsonaro como um líder messiânico. “Muito mais que um partido, é o sonho e a inspiração de pessoas leais ao Presidente Jair Bolsonaro, de unirmos o país com aliados em ideais e intenções patrióticas”, diz o manifesto. A palavra democracia não é citada em nenhum momento do texto. O partido se apresenta oficialmente como um grupo político formado por pessoas leais a um único político. É essa lealdade incondicional ao Messias que motivou o rompimento dos bolsonaristas com o PSL. Não havia divergências ideológicas ou programáticas entre eles. A separação se deu porque o núcleo bolsonarista queria o controle do partido e não admitia conviver com correligionários que não demonstrem lealdade cega e absoluta ao seu grande líder.

Em outro trecho, o manifesto diz que “a Aliança pelo Brasil é o caminho que escolhemos e queremos para o futuro e para o resgate de um país massacrado pela corrupção e pela degradação moral contra as boas práticas e os bons costumes”. As “boas práticas” e os “bons costumes” certamente não se referem às rachadinhas no gabinete do Flávio Bolsonaro nem ao conteúdo pornográfico que o presidente publicou no Twitter. É só a velha ladainha moralista que os moralistas gostam de pregar, mas não de cumprir.

Nos perfis do projeto de apresentação do novo partido de Bolsonaro, as palavras “Deus”, “pátria” e “família” são exibidas. Não parece coincidência o fato de esse ser o lema dos integralistas.

Inspirados no fascismo italiano, os integralistas são um movimento ultrarreacionário, criado há oito décadas no Brasil para abrigar o ideário fascista. A Ação Integralista Brasileira teve papel fundamental no golpe militar de 64 e hoje apóia o governo Bolsonaro. Durante as eleições, o grupo formalizou apoio à candidatura do ex-capitão e chegou a participar de um ato de campanha na avenida Paulista. Muitos integralistas são filiados ao PRTB de Levy Fidelix, cujo lema da campanha para deputado federal também era “Deus, pátria, família”.

Mas não é só o lema. Tudo na Aliança pelo Brasil lembra os integralistas, desde a estética à ideologia. A defesa dos valores cristãos, a rejeição à democracia liberal, o nacionalismo autoritário — tudo parece ser uma cópia dos integralistas. Não dá nem para chamar de versão moderna do integralismo, porque tudo no bolsonarismo cheira a mofo.

A Aliança pelo Brasil pode ser classificada com tranquilidade como o primeiro partido neofascista do Brasil. Sim, neofascista. Todos os elementos estão ali: o ultranacionalismo, o anticomunismo, a contestação permanente da democracia liberal, a veneração por um líder populista, o discurso autoritário. Será um partido neofascista de cunho religioso e que já nascerá com alguma relevância no jogo político partidário, já que foi criado pelo presidente da República e tem como uma de suas principais bandeiras a exaltação de sua figura. É uma pena que a grande imprensa nacional, que até hoje evita chamar o governo Bolsonaro de extrema-direita, jamais chamará o neofascismo pelo nome.

A democracia brasileira está prestes a fornecer espaço para um partido cujos fundadores ameaçam constantemente a democracia, atacam princípios constitucionais e exaltam os criminosos do regime militar. É um partido que resgatará oficialmente o legado do fascismo brasileiro. O Partido Social Liberal, que foi temporariamente ocupado para a extrema-direita poder entrar na democracia, ficou pequeno. Faltava um partido genuíno, criado para unir todos as tribos neofascistas que desejam exaltar Bolsonaro e o Deus cristão. Não falta mais.


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