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Segunda-Feira 20.jan.2020

Ano VIII - Nº 376

Brasil

Brasil tem mais de 300 células nazistas em funcionamento

Fascistas tupiniquins, integralistas “põe as asinhas de fora” nas redes sociais

Postado em 21 de Novembro de 2019 - RBA, Marie Declercq (VICE) - Edição Semana On

Ilustração: Felipe Pessanha - VICE Ilustração: Felipe Pessanha - VICE

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O Brasil contém 334 células nazistas em atividade, de acordo com uma pesquisa feita por Adriana Abreu Magalhães Dias, antropóloga da Unicamp. A maioria dos grupos se concentra nas regiões Sul e Sudeste e se dividem em até 17 movimentos distintos, entre hitleristas, supremacistas/separatistas, de negação do Holocausto ou seções locais da Ku Klux Klan.

A pesquisa mostra que há registros de grupos localizados em cidades como Fortaleza, João Pessoa, Feira de Santana (BA) e Rondonópolis (MT). Porém, o estado com mais células é São Paulo, com 99 grupos, sendo 28 só na capital. Santa Catarina vem logo atrás com 69 células, seguido por Paraná (66) e Rio Grande do Sul (47). Há exemplos também de estados que estavam sem registros de atividades até pouco tempo, mas começam a ganhar corpo, como Goiás, que já possui seis grupos nazistas. As células são compostas por três a 40 pessoas.

Em suas pesquisas especializadas na ascensão da extrema direita, Adriana também identificou mais de 6.500 endereços eletrônicos de organizações nazistas somente em língua portuguesa e dezenas de milhares de neonazistas brasileiros em fóruns internacionais.

Em entrevista ao jornalista Matheus Pichonelli, do UOL, a pesquisadora afirma que, normalmente, no Brasil, as células não se conectam, a não ser as grandes. “São grupos de pessoas que conversam, que se reúnem, e eu localizei essas reuniões por sites na internet, blogs ou fóruns. Nenhum deles tem uma corrente única. Eles leem autores que, pelo mundo, brigam um com o outro”, explicou.

Os neonazistas, segundo a Safernet, associação civil de direito privado com foco na defesa dos direitos humanos na web, são grupos que promovem a intolerância com base na ideologia nazista de superioridade e pureza racial com recursos de agressão, humilhação e discriminação. São pessoas que fabricam, comercializam, distribuem ou veiculam emblemas, ornamentos, distintivos ou propaganda com símbolos (como a cruz suástica) e a defesa do pensamento nazista.

A antropóloga conta que a finalidade dessas reuniões vai desde a própria leitura de textos nazistas quanto à incitação à agressões físicas  contra homossexuais. A antropóloga afirma que os grupos estão presentes no Twitter e promovem uma postagem antissemita a cada quatro segundos. Ela já calculou também que há uma postagem em português contra negros, pessoas com deficiência e LGBTs a cada oito segundos.

A construção do ódio

Em setembro, os estudos da pesquisadora foram citados pela ativista Sharon Nazarian, vice-presidente da Liga Anti-Difamação, em uma apresentação na Casa Branca, sede do governo dos Estados Unidos. Entretanto, Adriana explica que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está ciente do problema em seu país, mas não demonstra interesse em encarar a questão.

A construção desse ódio, segundo ela, está estruturada no culto à masculinidade que despreza minorias. “O ódio não é de agora. Sempre houve ódio racial, de classe, de gênero. Neste momento você tem uma articulação e uma sistematização deste ódio. Uma capilarização como projeto político em muitos lugares. E é impossível remover esse ódio enquanto você não civilizar as pessoas. É um processo muito complexo porque o ódio dá um conforto para elas”, afirmou ao portal UOL.

Adriana Dias se debruça sobre um novo conceito de empatia desenvolvido pelo filósofo australiano Roman Krznaric, que trabalha com o conceito de ‘humanidade compartilhada’. “Isso é o oposto do ódio. O século 20 foi o século da interiorização. Ele defende um processo de ‘outrorização’, em que nossa humanidade precisa ser compartilhada em outras humanidades possíveis”, explicou.

Fascistas tupiniquins

Uma publicação no Facebook sobre uma reunião da Frente Integralista Mineira no dia 27 de janeiro causou uma certa comoção entre a esquerda e até alguns setores da direita. As fotos da reunião mostraram dois homens falando no microfone, celebrando uma reunião entre integralistas do estado mineiro. Um deles, fardado e com o símbolo do sigma costurado na manga, ostenta um corte de cabelo moderno para não deixar dúvidas que a foto é de 2019 e não dos anos 1930. "Foi um sucesso o evento realizado ontem em Belo Horizonte, no qual comemoramos o aniversário de Plínio Salgado e fundamos oficialmente o Núcleo Integralista de Minas Gerais", começa a publicação.

A comoção em torno do e da descoberta dessa reunião foi maior do que o próprio sucesso do encontro de simpatizantes de Plínio Salgado. Trata-se de um grupelho, sim, mas deixou muita gente preocupada com uma possível volta do integralismo no Brasil. A questão é: o integralismo não precisa voltar porque ele nunca sequer deixou de existir.

O integralismo foi fundado em 1932 por Plínio Salgado por meio da Ação Integralista Brasileira e se inspirou nas ideologias fascistas que estava em ascensão na Europa na mesma época. Os camisas verdes, como ficaram conhecidos no Brasil, tinham como principais membros (além de Plínio) Miguel Reale e Gustavo Barroso, também considerados os principais contribuintes para a literatura integralista. No seu auge nos anos 1930, o movimento chegou a despertar alguma simpatia na classe média e até do próprio presidente Getúlio Vargas, mas sua existência foi proibida pelo próprio em 1937, quando este vetou por lei todas agremiações políticas, no início do Estado Novo.

O grupo deixou alguns legados na história do Brasil como a saudação “Anauê” com a mão direita estendida, em clara alusão às saudações fascistas da Alemanha e Itália; a Revoada dos Galinhas Verdes, chamada de “Batalha da Sé”, quando antifascistas desceram o cacete nos integralistas em 1934; e também o próprio Plínio Salgado, seu líder máximo, que continuou atuando politicamente durante a ditadura militar na ARENA. Salgado tinha inclusive admiração por membros de alto calão do regime como Alfredo Buzaid, que atuou como Ministro da Justiça durante o mandato de general do Exército Emílio Garrastazu Médici de 1969 a 1974 — o ex-ditador chamava Salgado de "Chefe".

Mesmo com a morte de Plínio em 1975, o movimento não esfarelou como previsto. Segundo Odilon Caldeira Neto, que é historiador, pesquisador de Pós-doutorado da Universidade Federal de Santa Maria e autor do livro Sob o Signo do Sigma: Integralismo, Neointegralismo e o Antissemitismo, o movimento pode ter perdido a força e o viço que tinha na década de 1930, porém ideologicamente sempre permaneceu vivo entre os membros das pequenas organizações e simpatizantes. Em 1945, os membros remanescentes da AIB criaram o Partido de Representação Popular, o PRP, pelo qual o próprio Plínio se candidatou à presidência em 1955. Durante a ditadura militar, grande parte dos afiliados rumaram para a Arena, inclusive Salgado que foi eleito deputado federal por São Paulo. Após a redemocratização, houve aproximações dos integralistas com o PRONA e o Partido Militar Brasileiro, o qual inclusive gerou o movimento natimorto da Frente Nacionalista.

O fato de todas as lideranças do movimento terem morrido há décadas não afetou o integralismo. Inclusive, como o próprio Caldeira frisa, os neointegralistas do século XXI se mantém fieis aos ideais de Salgado, que permanece no campo sobrenatural como o máximo líder da ideologia. Na terra, cabe aos membros vivos disputarem quem carregará a herança de Plínio em nome do grupo.

A própria Frente Integralista Brasileira, por exemplo, não passou a existir após o levante recente da direita brasileira, mas sim em 2001, quando ocorreu o primeiro congresso integralista para o século XXI. “A FIB é a mais fiel as ideias do integralismo entre guerras. Desde sua criação, ela nunca parou de ter atividades e sua atuação costuma ser mais restrita sobretudo em São Paulo, Rio de Janeiro e em algumas regiões do sul”, explica.

A FIB está longe de ser uma agremiação de massa, mas é bem organizada e tem bem claro que os ideais de Plínio Salgado sempre nortearão os rumos do grupo. Com as redes sociais e as manifestações de 2013, o grupo passou a estender sua atuação e mapear as possibilidades políticas na extrema-direita brasileira. “Desde as marchas contra a Dilma Rousseff eles voltaram a atuar nas ruas, a internet sempre foi a principal forma de articulação.”

Com a eleição de Bolsonaro em 2019, os neointegralistas finalmente encontraram um governo com quem podem se identificar — com algumas ressalvas, claro. Os pontos em comum são os alicerces da direita: morais e bons costumes cristãos, propriedade privada, família e um fetiche em preservar a identidade e cultura nacional.

Racha antissemita

No entanto, há pontos de tensão entre o governo de Bolsonaro e os integralistas. Especialmente a aproximação do Brasil com Israel, que gerou até algumas celeumas no cenário internacional. Aos olhos desses grupos, essa proximidade vai de encontro a algumas ideias e visões de mundo que ganham contornos conspiracionistas e são declaradamente antissemitas, especialmente as de Gustavo Barroso.

“O conspiracionismo foi uma arma utilizada constantemente pelos integralistas. No geral, para uma organização fascista com uma afeição totalitária, existe uma necessidade de interpretar a identidade do grupo ou mesmo a identidade nacional em projeção contrastante ao outro. Esse outro pode ser construído a partir de diversas categorias. Por ora pode ser os comunistas, por ora pode ser outros adversários políticos e em algumas instâncias também os judeus”, conta Caldeira.

A coisa de se criar uma narrativa conspiracionista para conjurar um grande inimigo à espreita, com objetivos secretos de destruir a moralidade e soberania de um país, seria sim um ponto em comum com o governo Bolsonaro e o levante da extrema-direita brasileira. Já o antissemitismo, não. Barroso não era apenas um rostinho bonito no integralismo, mas um dos maiores contribuidores na literatura da ideologia. Nos seus escritos, o antissemitismo era um aspecto primordial, enquanto nos textos de Miguel Reale e Salgado eram tópicos mais secundários.

“No caso de Barroso, dentro desse antissemitismo estava articulado também uma perspectiva conspiracionista, a denúncia de teorias da conspiração. Afinal de contas, Barroso foi o primeiro tradutor e apostilador dos Protocolos dos Sábios de Sião na língua portuguesa do Brasil. Ou seja, ele é uma figura central não somente para articular o antissemitismo, como também para difundi-lo e suas teorias conspiratórias na sociedade brasileira”, diz.

Com o pós-guerra, o antissemitismo evidentemente se tornou um problema em todas as alçadas sociais e, com isso, os neointegralistas começaram um “apagamento” do antissemitismo na doutrina. “É uma aparente dubiedade, porque apaga-se aspectos caros aos escritos integralistas e antissemitas e conspiracionistas, mas se mantém a ideia que o Brasil estaria sofrendo prováveis riscos a sua soberania por meio de grupos desconhecidos e outras nações”, frisa Odilon.

Embora Bolsonaro e os integralistas sejam primos ideológicos por conta das críticas contra a esquerda e todas as pautas de moral e bons costumes, ainda há pontos de tensão. Além da aproximação de Bolsonaro com o premiê israelense, Binyamin Netanyahu, há também divergências econômicas como a pauta ultraliberal adotada pelo governo Bolsonaro. “Não existe um apoio completo [ao Bolsonaro], eles não o enxergam como representação dos ideais integralistas, mas sim como um líder político que traz ideias próximos ao integralismo,” explica.

Uma das postagens na página da Frente Integralista Brasileira criticando a privatização da Embraer. Política econônimca neoliberal é um dos pontos de discordância dos neointegralistas e o governo de Bolsonaro.

De fato, o momento que o Brasil vive é propício para os neointegralistas partirem para a próxima fase, sendo ela uma criação de um partido político nos moldes democráticos ou até mais um degrau para um governo integralista. No mais, os neointegralistas ainda se resumem a grupelhos históricos cujos líderes definharam há muito tempo em seus respectivos túmulos. O que não significa que seus próximos passos não devam ser observados.

No entanto, não foi o levante da extrema-direita que os ressuscitaram. “O integralismo nunca deixou de existir. O que existe é uma maior articulação atual — e isso também não quer dizer que o Bolsonaro seja integralista. Até porque a eleição de Bolsonaro ainda é pouco para eles. O integralismo na sua autopercepção é um movimento revolucionário para regeneração nacional e uma forma da nova política de um estado integral. Os seus adeptos veem com bons olhos esse momento porque as pautas conservadoras são a ordem do dia e há possibilidade da inserção dos ideais integralistas dentro desse governo que se desenha neste momento. Isso não significa que eles vão se organizar para entrar no campo democrático, mas vão colocar pressão,” finaliza.


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