Semana On

Quinta-Feira 23.jan.2020

Ano VIII - Nº 376

Coluna

Bíblia, Bala e Olavismo

O jornalista Victor Barone resume a semana política, com humor e acidez

Postado em 20 de Novembro de 2019 - Victor Barone

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A Aliança pelo Brasil (APB), novo partido de Jair Bolsonaro, realizou sua convenção inaugural. Teve a aparência de culto religioso. Na pregação, os valores cristãos e o acesso às armas são defendidos com igual tenacidade. No rol dos fantasmas, piscam letreiros terminados em "ismo" —comunismo e globalismo, por exemplo. Tudo na nova legenda cheira a Bíblia, pólvora, naftalina e Olavo de Carvalho.

O presidente da agremiação é Jair Bolsonaro, o vice, o primogênito Flávio Bolsonaro, na primeira secretaria, responsável por tocar a máquina vai ficar o ex-ministro do TSE, Admar Gonzaga, na tesouraria, responsável pelo cofre, a advogada Karina Kufa. Admar e a Karina tem um objetivo em comum: ajustar as circunstâncias aos interesses de Bolsonaro.

De ante mão o presidente avisa que são muitos grandes as chances de o partido não se constituir em tempo para as eleições municipais do ano que vem. É como se ele dissesse com, outras palavras: danem-se vocês todos e seus projetos políticos, o que importa é a minha candidatura à reeleição em 2022.

É como se o presidente tivesse um “projeto procissão”, em que ele se apresenta como o santo da procissão e pede que os devotos o acompanhem em suas preces até 2022.

Quando alguém se apresenta assim, como um messias, só há três opções: ou se trata de um idiota, de uma fraude, ou é um messias mesmo.

Por Josias de Souza

O presidente Jair Bolsonaro afirmou nesta quinta-feira, 21, que só “entra” nas eleições municipais de 2020, se a criação do partido Aliança Pelo Brasil for aprovada até março. Crítico do voto eletrônico, Bolsonaro questionou: “Estamos aguardando decisão do TSE se pode a coleta de assinatura eletrônica. O voto pode, assinatura não pode?”.

O Aliança pelo Brasil pode chegar a 2022 sem dinheiro e sem tempo de TV. A situação será semelhante com a do PSL, antigo partido do presidente, na eleição presidencial de 2018. Isso porque as divisões do fundo eleitoral e do tempo de propaganda eleitoral gratuita no rádio e na TV são feitas com base nos dados das últimas eleições gerais. Essa determinação é justamente uma espécie de barreira contra a criação desenfreada de novos partidos. E se a Aliança não conseguir que a verba do fundo migre juntamente com os dissidentes do PSL, a viabilidade da legenda fica sob risco, segundo a Folha. Ainda que seu líder-fundador ocupe a cadeira presidencial. E é justamente a relação entre o cargo de presidente e o interesse pessoal de Bolsonaro na criação do novo partido que chama a atenção desde quando a crise no PSL se iniciou. Desde agosto, o presidente recebeu a advogada do partido, Karina Kufa, 12 vezes no Palácio do Planalto durante o expediente. Além dela, no mesmo período, outro advogado da sigla, Ademar Gonzaga, se reuniu com o presidente oito vezes no Planalto. De agosto para cá, Kufa e Gonzaga também se reuniram com auxiliares diretos do presidente, como seu chefe de gabinete, Pedro de Sousa, e Célio Faria, assessor-chefe, de acordo com o colunista Lauro Jardim, no Globo.

NA PELE DO PORTEIRO

Poucas pessoas passam por tanta pressão quanto o porteiro do condomínio Vivendas da Barra, no qual residem um miliciano acusado de executar Marielle Franco, o presidente da República e um de seus filhos – vereador do município do Rio de Janeiro. Em depoimento à Polícia Federal, nesta terça (19), ele disse que se enganou. Teria feito uma anotação equivocada no livro de visitas, registrando que o miliciano Élcio Queiroz, também acusado de matar Marielle, foi autorizado a entrar pela casa 58 – de Jair Bolsonaro – ao invés da casa 66 – de Ronnie Lessa, o outro miliciano. Era o dia 14 de março de 2018, quando ocorreu o assassinato. Para esconder o erro, o porteiro disse que inventou que falou com "seu Jair". A informação foi revelada por Lauro Jardim, do jornal O Globo.

Uma reportagem do Jornal Nacional, da TV Globo, no dia 29 de outubro, havia revelado que o porteiro citou, em depoimentos à Polícia Civil, uma autorização vinda da casa do presidente para que Élcio entrasse no condomínio e visitasse Ronnie. O presidente estava em Brasília, como mostram registros no Congresso Nacional. Na mesma noite, Bolsonaro transmitiu uma live digna de Oscar a partir de um hotel na Arábia Saudita, onde estava em visita oficial, bufando contra a Globo e o governador do Rio, Wilson Witzel, como se estivesse surpreso com a informação. Cada vez que colocava os óculos e lia o que alguém sinalizava a ele por trás da câmara do celular, ficava mais colérico, como se um coaching ajustasse sua performance para o modo "indignação". Dias depois, ficamos sabendo que ele próprio compartilhou, com aliados, a informação que já sabia do conteúdo que foi ao ar.

Na sequência mobilizou as instituições da República para atuarem a seu favor. O Ministério da Justiça (Sérgio Moro) pediu à Procuradoria-Geral da República (Augusto Aras) para que o porteiro fosse investigado por obstrução de Justiça, falso testemunho e denunciação caluniosa. Bolsonaro isentou o empregado do condomínio de responsabilidade, dizendo que ele se equivocou ou não entendeu direito o que estava fazendo – declaração que foi interpretada como uma forma de coação à testemunha.

Um grupo de promotoras do Ministério Público do Rio de Janeiro fez uma coletiva à imprensa dizendo que registros em áudios mostravam uma ligação da portaria para a casa de Ronnie, autorizando a entrada de Élcio. Depois, descobriu-se que a perícia nos áudios foi feita pouco antes da coletiva, que o MP-RJ não havia periciado o computador, mas um DVD entregue voluntariamente pela administração do condomínio e que uma das promotoras é fã de Bolsonaro, tendo feito campanha aberta para ele nas eleições. Ela acabou se afastando das investigações.

O rosto do porteiro virou até capa de revista, com uma reportagem que expôs a casa onde ele mora e como estava seu cotidiano. O local é próximo de uma área de influência de milícia.   

O poder público vai ter que usar outras formas para reconstruir o que, de fato, aconteceu na portaria do condomínio na Barra da Tijuca, naquele 14 de março do ano passado. Tudo isso pode ser um grande teatro para enganar os trouxas (nós) por alguma razão que nos escapa? Sempre pode, o roteirista do Brasil usa alucinógenos cotidianamente. Presidente, ministro da Justiça, procurador-geral da República, promotoras estaduais, policiais federais, milicianos… Depois de tanta tortura psicológica, qual porteiro está falando a verdade? O de antes, que envolveu os Bolsonaros, ou o de agora, que os isentou? A pergunta não será respondida por seu depoimento, mas por mais investigação. Ou seja, se o inquérito não for engavetado por "força maior", a história está apenas começando.

Por Leonardo Sakamoto

NEM SALLES PODE NEGAR

Quase 30% – 29,5% para sermos precisas – é o índice de crescimento do desmatamento na Amazônia acumulado entre agosto de 2018 e julho deste ano. A taxa representa uma devastação de 9,7 mil km2, uma área equivalente a 1,3 milhão de campos de futebol. E é a maior registrada desde 2008, além do maior salto percentual de um ano para o outro registrado desde 1997. A informação foi divulgada ontem pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o Inpe. O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, estava na coletiva de imprensa. Desta vez, ele não rejeitou os dados medidos por satélite. Mas protagonizou um malabarismo retórico, é claro: pegou a média histórica de desmatamento, de 13,9 mil km2, e disse que “os dados indicam que houve uma redução” em relação a esse número, acumulado desde 1988 – quando nem se falava em aquecimento global direito.

Para Salles, o desmatamento, que pega sete meses do governo de Jair Bolsonaro, se deve à “economia ilegal”. Para ONGs do meio ambiente, é consequência da onda bolsonarista. “O projeto antiambiental de Bolsonaro eliminou a capacidade de combater o desmatamento, favorece os que cometem crimes ambientais e estimula a violência contra os povos da floresta”, declarou ontem Cristiane Mazzetti, do Greenpeace. E nunca antes na história deste país, destacou o WWF, foram aplicadas tão poucas multas ambientais como nos últimos meses.

A maior taxa de desmatamento foi registrada no Pará. O estado responde por 39,5% da perda observada em toda a Amazônia, seguido de Mato Grosso, com 17,2%. A soma desses resultados com aqueles registrados no Amazonas e em Rondônia representa 84% de toda a devastação. Outra situação preocupante envolve Roraima, estado onde se registrou alta de 216,4% de desmate no período. “Pode significar que está se tornando uma nova fronteira de desmatamento e merece atenção”, destacou Darcton Policarpo Damião, militar escolhido por Bolsonaro para substituir o cientista Ricardo Galvão na presidência do Inpe.

Lembrando dessa ferida aberta pelo governo na comunidade científica, outra notícia relacionada ao monitoramento do desmate salta aos olhos. É que alguns pesquisadores de instituições federais decidiram não assinar um estudo sobre a devastação na Amazônia publicado no domingo na revista Global Change Biology. O motivo? Temem nova vendeta. O estudo avaliou as alegações do governo de que os incêndios registrados em agosto eram “normais” e “abaixo da média histórica” – o que, vê-se pelos dados divulgados ontem pelo Inpe, não fazia mesmo nenhum sentido. “O objetivo do nosso trabalho era justamente analisar a narrativa do governo na época e mostrar que ela estava errada apresentando evidências”, explicou ao Estadão a pesquisadora Erika Berenguer, da Universidade de Oxford e de Lancaster (Reino Unido), uma das autoras do trabalho. “Isso gerou o medo de retaliações”, lamentou.

Mas não são as evidências que hão de parar o governo Bolsonaro. Ontem, a ministra da Agricultura Tereza Cristina foi a público declarar que “a agricultura de exportação” não tem nada a ver com a Amazônia. Como se a lógica ruralista que movimenta a expansão das fronteiras agrícolas, a grilagem de terras e toma de assalto as instituições não tivesse qualquer efeito estrutural…

Aliás, o Censo Agropecuário 2017, divulgado em outubro, mostra que aumentou a concentração de terras da agricultura. Com isso, desde 2006 houve uma redução de 9,5% no número de estabelecimentos da agricultura familiar, enquanto no agronegócio o crescimento foi de 35%. O avanço do agronegócio se dá principalmente sobre o Norte e o Centro-Oeste do país, em biomas como o amazônico e o Cerrado.

Em tempo: a ação tomada pelo Ministério do Meio Ambiente diante da espantosa taxa de desmatamento foi marcar uma reunião com os governos da Amazônia Legal para promover uma redução “de maneira sustentável” do desmatamento. Então tá.

Durante o governo Bolsonaro, com a transferência de secretarias inteiras para outras pastas, o Ministério do Meio Ambiente perdeu 17% de seus analistas ambientais, contabiliza a BBC a partir de dados obtidos pela Lei de Acesso à Informação. Os analistas representam pouco mais de metade dos servidores da pasta, e é o pessoal que faz desde o monitoramento de queimadas até o acompanhamento do nível do mar na costa brasileira.

Dos 144 que deixaram o MMA entre janeiro e julho, 110 estavam lotados no Serviço Florestal Brasileiro, que foi transferido em janeiro para o Ministério da Agricultura. A reportagem ouviu servidores transferidos que falaram sobre o que mudou: “deslocamento de prioridades, paralisação de atividades de monitoramento, falta de articulação com outras secretarias e órgãos ambientais”. Entre as mudanças, estão a estagnação do Inventário Florestal Nacional (um esforço para catalogação dos recursos florestais iniciado em 2007) e a desmobilização do Cadastro Ambiental Rural (um registro nacional obrigatório dos imóveis rurais, criado em 2012 para facilitar a fiscalização ambiental e o combate ao desmatamento).

E a ex-ministra do Meio Ambiente, ex-senadora e eterna candidata à Presidência Marina Silva avalia que o cenário de 2020 é “incomparavelmente mais preocupante” do que o deste ano em relação às políticas ambientais de Bolsonaro. “Até porque a governança foi desmontada, o Ibama e o ICMBio estão enfraquecidos. Todas as formas de atuação estão enfraquecidas. Os governos estaduais que concordam com Bolsonaro são coniventes com ele, e os que querem fazer alguma coisa estão impotentes”, disse ela em entrevista à Agência Pública.

No mês que vem, o Brasil se reúne com outros países em Madri para acertar detalhes sobre como planejam cumprir o Acordo de Paris. A matéria da Vox ressalta que o governo brasileiro provavelmente vai enfrentar mais pressão para conter o desmatamento, mas pode exigir mais concessões dos demais países para preservar a floresta amazônica, como regras contábeis mais favoráveis ​​para redução de emissões ou mais incentivos financeiros.

Jair Bolsonaro disse que o desmatamento e as queimadas não vão acabar porque são fenômenos culturais. A cultura de um povo também serve para dimensionar a ignorância dos seus dirigentes. E a ignorância de Bolsonaro parece possuir dimensões amazônicas. É evidente que desmatamentos e queimadas não começaram em 1º de janeiro de 2019, quando Bolsonaro tomou posse. Mas o presidente, com suas palavras e seus gestos, estimulou os dois fenômenos. Isso deixou de ser uma suposição depois da divulgação dos dados consolidados do Inpe, que revelaram a derrubada de quase 10 mil km² de mata, num crescimento de quase 30% em relação aos 12 meses anteriores.

A coisa degringolou porque o presidente e o seu anti-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles deram de ombros para os alertas científicos do Inpe e desmontaram o aparato fiscalizatório do Ibama e do ICM-Bio. Bolsonaro chegou a se autodefinir como "capitão motosserra". Deu no que está dando. Os criminosos se assanharam. Mas o presidente se recusa a extrair ensinamento dos seus próprios erros.

Grande admirador dos Estados Unidos, Bolsonaro deveria inspirar-se no ex-presidente Roosevelt. Ele dizia que a Presidência da República oferece àquele que a ocupa uma tribuna vitaminada. Chamava essa tribuna de bully pulpit —púlpito formidável, numa tradução livre. De um bom presidente, ensinou Roosevelt, espera-se que aproveite o palanque privilegiado para irradiar confiança e bons exemplos. De Bolsonaro não se espera tanto. Mas uma dose de recato já pareceria um extraordinário avanço institucional.

Por Josias de Souza

Há 11 anos não se via tamanha destruição na Amazônia: 9.762 km² de devastação, aumento de 29,5% em relação aos 12 meses anteriores. O último descalabro semelhante é de 1998, quando o desmatamento crescera 31%. Não se chega a um resultado como esse por acaso. No atual governo, graças às declarações feitas por Jair Bolsonaro sobre meio ambiente, bem cedo foi possível perceber que já era muito tarde. No combate aos crimes ambientais, o governo subverteu até o brocardo. Seu lema é: Nunca deixe para amanhã o que você pode deixar hoje.

Bolsonaro assegurou desde o início que não havia problemas ambientais no Brasil. Tudo não passava de um complô do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) com ONGs, mancomunadas com a imprensa comunista; com os governos da Noruega e da Alemanha, que escondiam segundas intenções atrás de doações bilionárias; e com o presidente francês Emmanoel Macron que, além de não ter competência para arrumar uma mulher bonita como a Michelle, trama contra a soberania do Brasil na floresta. Isso não tinha como acabar bem.

Apenas para efeito de raciocínio, suponha que a (i)lógica de Bolsonaro para a setor ambiental fosse aplicada na área econômica. O presidente passaria a questionar os dados oficiais sobre o déficit público, colocaria em dúvida a existência de um rombo na Previdência Social, ordenaria o afrouxamento dos mecanismos de controle dos gastos. Aplaudiria os gestores dos ministérios que torrassem verbas públicas de costas para o teto dos gastos e a Lei de Responsabilidade Fiscal. Mal comparando foi o que aconteceu no Meio Ambiente.

Além de questionar dados científicos do Inpe, Bolsonaro avalizou o esvaziamento da fiscalização, desautorizou fiscais do Ibama, rasgou bilhões em doações internacionais, revogou decreto que proibia o plantio de cana na Amazônia e trombeteou a intenção de legalizar garimpos ilegais até em reservas indígenas. A má notícia é que o ruim vai se tornar pior, pois o governo não exibe capacidade para construir o que destruiu. Pior: Bolsonaro e Ricardo Salles, seu antiministro do Meio Ambiente, ainda não enxergam culpados no reflexo do espelho.

Por Josias de Souza

DESEDUCANDO

O Ministro da Educação, Abraham Weintraub, escolheu o aniversário de 130 anos da proclamação da República para tratar a efeméride como o “primeiro golpe de Estado” do Brasil. No Twitter, o ministro disse que não se tratava de defender a volta da Monarquia, mas que a República foi um golpe que apeou do poder um dos gestores mais honestos e competentes da história do Brasil, o imperador dom Pedro 2º.

O revisionismo do titular da Educação não pegou bem no Exército, informa Marcelo Godoy na Supercoluna do Estadão. Ao tratar o marechal Deodoro da Fonseca,responsável pela República e primeiro presidente como golpista e “traidor”, o ministro feriu os brios dos generais –que ocupam postos relevantes no governo. Ele chegou a comparar o marechal ao ex-presidente Lula, alvo de profunda rejeição nas Forças Armadas.

Chegamos ao traidor: tinha a confiança do Imperador, participou do golpe e não teve coragem de falar pessoalmente com Dom Pedro II que ele e sua família seriam exilados. O Brasil foi entregue às famílias oligarcas que, além do poderio econômico, queriam a supremacia política. pic.twitter.com/RvaNW8rBcf

— Abraham Weintraub (@AbrahamWeint) November 15, 2019

“Nunca vi nada igual. Faltam educação e civismo ao ministro da Educação”, disse ao repórter um general que passou pelo Comando Militar do Planalto e pelo Comando Militar do Sudeste.

Não foi só com o Exército que o ministro tirou o feriado para se indispor. A pessoas que cobraram bom senso em sua postagem, respondeu com ofensas envolvendo pai e mãe dos internautas. Cobrado, apagou algumas das postagens mais agressivas.

Weintraub, respondeu a uma usuária do Twitter chamando a mãe dela de "égua sarnenta e desdentada". O comentário foi uma resposta a críticas que Weintraub recebeu por defender a Monarquia durante o feriado da proclamação da República no último dia 15.

No dia em que foi comemorado o fim do governo do último imperador do Brasil, Dom Pedro II, Weintraub publicou:

- treze mensagens no Twitter com elogios ao regime monárquico brasileiro;

- duas mensagens criticando uma reportagem do jornal Folha de São Paulo sobre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT);

- uma com críticas ao governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB);

- uma na qual caçoa de um repórter da Globo que chegou atrasado para uma entrevista coletiva;

- uma sobre reunião com ministros no Palácio do Planalto.

Depois de xingar a mãe de uma usuária, ele chamou de babaca a família de outra internauta. “Fico feliz, dado que a concorrência na sua família para ser o MAIS BABACA deve ser enorme. Evidentemente que você não pode concorrer…seria muito injusto…”, disse o chefe do MEC, após uma internauta dizer que Weintraub “humanizou os ministros” e que hoje ela pode olhar para o “primo mais babaca” e pensar “poxa, pode ser o próximo ministro da educação”.

Em seguida, Weintraub ainda tentou dar uma de bom moço e suavizar a ofensa e pediu para a jovem “deixar de ser esquerda”. “Estou esperando o almoço. Eu leio meu Twitter. Thayná, sou um cara simples e sincero (ao contrário dos ministros do PT, tente falar com um deles). Estou fazendo meu melhor para arrumar os erros do PT. Tente deixar de ser de esquerda”, disse.

Em seu editorial do dia 19, com o nome de “Linha vermelha”, o Estadão exigiu a demissão do ministro da Educação, Abraham Weintraub. De acordo com o jornalão paulistano, “sua errática gestão – se assim pode ser chamada – à frente de um dos mais importantes Ministérios já seria razão suficiente para sua substituição por quadros mais qualificados, e estes não faltam no País”. De acordo com o jornal, no entanto, há outras razões para tal. Para o Estadão, “não é de hoje que o ministro se porta em desacordo com a decência que deve pautar a conduta de um servidor do primeiro escalão da República”. O texto recorda que “até para os padrões do bolsonarismo – que estabeleceu novo patamar de insalubridade nas redes sociais – o ministro cruzou a linha vermelha”.

Para o Estadão, “chegará o momento em que o presidente da República precisará de uma rede de apoio muito mais ampla do que as chamadas ‘milícias virtuais’”. Ao final, o texto avisa que “não será mantendo no cargo um ministro que avilta as tradições do Exército brasileiro e as mais comezinhas regras de conduta social que Jair Bolsonaro atingirá o objetivo”. E encerra: “Os brasileiros de bom senso, independentemente de suas predileções políticas, hão de estar estarrecidos com a mais recente explosão do ministro da Educação. Se ainda assim Abraham Weintraub não for substituído, o que mais pode vir?”.

MACARTHISMO CRENTE

A ministra dos Direitos Humanos, Damares Alves, afirmou que o governo federal vai criar um canal para que pais de alunos possam reclamar de professores que, durante as aulas, atentem “contra a moral, a religião e a ética da família”. A ministra esteve na capital mineira para participar de audiência pública na Assembleia Legislativa sobre suicídio e automutilação entre jovens. Ela disse que o dispositivo será anunciado ainda este ano, mas não deu detalhes sobre o funcionamento. “O canal está sendo formatado entre os ministérios da Educação e dos Direitos Humanos. Vai ser anunciado em breve. O que queremos é somente o cumprimento da lei. O Brasil é signatário do Pacto de São José da Costa Rica. Lá está dizendo que a escola não pode ensinar nada que atente contra a moral, a religião e a ética da família.” Procurado, o MEC não se manifestou.

Em maio, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, chegou a incentivar que fossem denunciados professores, funcionários, pais e alunos que incentivassem protestos durante o horário escolar. Naquela época, grupos de estudantes e cientistas foram às ruas para protestar contra os cortes federais de verbas na área. Em setembro, Weintraub encaminhou um ofício às secretarias de educação, recomendando a pluralidade no ensino. O ministro evitou relacionar o documento, que não fazia menção a “doutrinação” ou “ideologia” ao Escola sem Partido e disse que o objetivo era “aliviar tensões”.

FAKE ESTRELADA

O ex-ministro da Secretaria de Governo Carlos Alberto Santos Cruz vai comparecer à CPMI das Fake News em 26 de novembro. Ele foi convidado a partir de requerimento do deputado Marcelo Ramos (PL-AM). Na ocasião, o ex-ministro deverá ser questionado sobre a ação de aliados do presidente Jair Bolsonaro que resultou em sua demissão, sob uma pesada artilharia virtual. Ele na ocasião mostrou um print de uma falsa conversa de WhatsApp que teria sido atribuída a ele para tentar mostrar que ele seria traidor e desleal ao presidente. Deverá ser inquirido também sobre seus embates com o grupo ligado ao guru Olavo de Carvalho e da forma como impediu nomeações desses aliados em vários órgãos do governo, bem como atuou nos processos em que eles tentaram queimar militares nesses órgãos. Os deputados e senadores também vão querer saber da disputa por verbas da Secom que estaria na raiz da sua saída do governo.

Por Vera Magalhães

MBL VERSÃO MEA-CULPA

Peça ativa de um cenário onde a polarização tomou as ruas e levou ao impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), o MBL diz agora que quer fazer política por meio do debate. Durante o 5.º Congresso Nacional, realizado em São Paulo, nos últimos dois dias, o movimento abriu espaço inclusive para fazer um mea-culpa em relação ao radicalismo. “Ajudamos a criar essa espetacularização que incentiva gente como Daniel Silveira (PSL-RJ) a quebrar a placa de Marielle (Franco, vereadora do Rio pelo PSOL, assassinada em 2018) e ser eleito deputado federal baseado nisso. Nós temos culpa no cartório”, disse o coordenador-geral Renan Santos. “Transformamos política em espetáculo e um monte de vagabundo veio à reboque fazer a mesma coisa sem responsabilidade.” O discurso, no entanto, encontra dificuldade de ser incorporado pela base.“Os coordenadores estão em bastante sintonia. A maior dificuldade é transmitir para a base”, disse Kim. “O desafio é como aprofundar o debate com interesse sem se deixar levar por um ambiente de polarização superficial”, avalia o líder nacional do MBL, o deputado federal Kim Kataguiri (DEM-SP).

Por Equipe BR Político

ESPELHO

Fernando Collor de Mello comparou Jair Bolsonaro a si mesmo. Declarou que o capitão repete erros que levaram à sua deposição. "Continuando do jeito que está, não vejo como este governo possa dar certo", disse. "São erros primários." Perguntou-se a Collor se antevê o risco de um novo impeachment. E ele: "É uma das possibilidades".

RECEITA ERRADA

Na Agência Pública, o professor da Unicamp e ex-presidente da Abrasco Gastão Wagner deu uma entrevista super abrangente falando, entre outras coisas, da relação entre a piora nos indicadores de saúde e a política econômica. Ele diz que os efeitos do desemprego, da diminuição do salário mínimo real e da crise econômica no geral aparecem em pouco tempo na saúde pública. O aumento na mortalidade infantil e de idosos é um exemplo. Porém, “o governo brasileiro atual e grande parte da imprensa dizem que, se houver crescimento econômico, será tudo resolvido, transporte público, habitação. Mas não é assim”, diz ele: “Essa história de que o crescimento da economia por si só garante o bem-estar, de que é necessário a economia crescer para se ter política pública como a do SUS, salário desemprego, Bolsa Família, é falsa. O crescimento do mercado tende a concentrar renda se não houver a política pública que impõe limites através de impostos e do redirecionamento dos gastos.”

BIBIANO, MORO E BOLSONARO

O ex-ministro da Secretaria-Geral da República Gustavo Bebianno afirmou que o ministro da Economia, Paulo Guedes, ainda antes do segundo turno das eleições de 2018, teria tido “cinco ou seis” conversas com o então juiz Sergio Moro, para compor o ministério do futuro governo de Jair Bolsonaro. A informação relatada ao jornalista Fábio Pannunzio, no canal TV Giramundo, no Youtube, desmente a versão de Moro e do próprio presidente que alegam que as negociações teriam começado após o resultado das eleições. Bebiano conta que soube das tratativas em conversa com Guedes, no dia do segundo turno, na casa de Bolsonaro. Até então, ele acreditava que estava “a um passo” de ocupar o cargo de ministro da Justiça, antes de ser escanteado por Moro. O ex-ministro da Secretaria-Geral disse que não tem conhecimento da participação direta do atual presidente na negociação.

FROTA CAUSANDO

Depois de o deputado Alexandre Frota (PSDB-SP) realizar uma enquete em sua conta oficial do Twitter questionando se Adélio Bispo foi “incompetente” ou “distraído” no dia em que deu uma facada no então candidato à Presidência Jair Bolsonaro, a deputada Carla Zambelli (PSL-SP) disse que o ex-companheiro de sigla será denunciado à PGR por “apologia ao crime”.

“Anunciamos que levaremos denúncia contra Alexandre Frota à PGR, pedindo seu indiciamento por apologia ao crime. Uma coisa é fazer oposição política, outra coisa – completamente diferente – é psicopatia”, escreveu ela no Twitter.

A enquete de Frota teve 14.511 votos. Para 76% dos votos, Adélio foi “incompetente”. Em maio deste ano, a Justiça Federal em Juiz de Fora (MG) considerou o autor da facada como inimputável. Desde o ano passado, Adélio está preso no presídio de segurança máxima em Campo Grande (MS).

OLHA O MOURÃO

Nunca se sabe, não é? Mas para quem se diz disposto a vestir o pijama sem reclamar se o presidente Jair Bolsonaro preferir outro vice para disputar a reeleição, o general Hamilton Mourão se comporta como se admitisse um voo solo na eleição de 2022. É verdade que reduziu o número de entrevistas e de declarações pontuais que fazia. Muitas delas irritaram Bolsonaro e, principalmente, seus filhos. Mas, nos últimos 90 dias, pós o pé na estrada como quem se prepara para ser candidato. O vice esteve em pelo menos 15 cidades para encontros com empresários, palestras, homenagens, visitas a fábricas e inaugurações, segundo levantamento do TAG Reporter, relatório semanal das jornalistas Helena Chagas e Lydia Medeiros.

Por Ricardo Noblat

ANTROPÓLOGO DOS FASCISTAS

O antropólogo Edward Luz, alinhado a pautas conservadoras e ruralistas e crítico de defensores ambientais e ONGs, compareceu ao Encontro Amazônia – Centro do Mundo, na cidade de Altamira, Pará, gerando tumulto no local. O evento reunia lideranças indígenas, cientistas, ONGs e ativistas para debater a proteção da Amazônia, povos originários e a preservação ambiental em meio à crise climática. Edward Luz, que é ligado ao presidente Jair Bolsonaro e polêmico por ataques contra ambientalistas e em defesa de ruralistas, esteve nesta segunda, mas foi expulso pelas lideranças indígenas. A cena foi gravada e compartilhada nas redes sociais:

Uma semana antes do evento, o antropólogo havia publicado em suas redes sociais um “alerta” de que “Altamira vivenciará o próximo ataque das ONGs internacionais contra a soberania brasileira na Amazônia”.

A NOVA ‘NOVA’ REFORMA

O Dieese publicou uma nota técnica sobre a MP 905/19, pela qual o governo Bolsonaro faz mais uma nova reforma trabalhista e implanta o tal contrato verde e amarelo. O texto resume a ópera: a MP “cria a modalidade de contrato de trabalho precário; intensifica a jornada de trabalho, que pode resultar em aumento do desemprego; enfraquece os mecanismos de registro, fiscalização e punição às infrações; fragiliza as ações de saúde e segurança no trabalho; reduz o papel da negociação coletiva e da ação sindical; ignora o diálogo tripartite como espaço para mudanças na regulação do trabalho; e, por fim, beneficia os empresários com uma grande desoneração em um cenário de crise fiscal, impondo aos trabalhadores desempregados o custo dessa ‘bolsa-patrão'”.

Aliás, um relator já foi apontado para a MP. Trata-se do deputado federal Christino Áureo (PP-RJ). A escolha controu com o apadrinhamento do presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ). 

COM FINS BEM LUCRATIVOS

A jornalista de saúde Claudia Colluci comenta, em sua coluna na Folha, um artigo de opinião com um tema bastante instigante: os conflitos de interesse dos médicos. O texto, escrito ele próprio por uma médica, tem como ponto de partida o fato de a medicina ter se transformado em mais uma indústria e o paradoxo essencial que atravessa a prática médica hoje: criada para ter em mente o bem-estar do paciente, se preocupa cada vez mais com formas de tirar dinheiro do cliente. “Por que eu tenho que pagar por um ultrassom feito no seu consultório se meu plano de saúde me dá direito aos melhores laboratórios de São Paulo?”, perguntou a colunista certa vez a um médico. “Porque eu só confio nos meus equipamentos e na minha equipe”, respondeu ele. Colluci continua: “Uma amiga me relatou que, ao sair da consulta com o nutrólogo, a secretária do dito cujo já tinha encaminhado uma cópia da receita para uma farmácia de manipulação ‘de confiança do doutor’ pedindo orçamento dos produtos. O mesmo médico também recomendou reposição endovenosa de ferro e de vitamina D, ambas feitas no consultório e muito mais caras (um hematologista já tinha prescrito a reposição pela via oral, muito mais simples e barata).” Os exemplos são muitos. Todos vêm do setor privado brasileiro que, na opinião de Colluci – e na nossa também – se aproximam da realidade descrita no artigo original, escrito pensando no caso dos EUA. 

BERGAMO X FASCISMO

A jornalista Mônica Bergamo, colunista da Folha de S.Paulo, usou as redes sociais para responder a uma provocação de Augusto Nunes, após o comentarista da TV Record chamá-la de “porta-voz do Lula” para novamente usar a morte de parentes do ex-presidente para atacá-lo. No domingo, Mônica havia criticado postagem de Nunes que citava os “túmulos” de Marisa e do neto falecido de Lula, quando, na verdade, os dois teriam sido cremados. “Deixe de usar crianças e pessoas mortas para atingir quem você não gosta, Augustos Nunes. Não percebe que isso é asqueroso?”, disparou Mônica no Twitter, após Nunes atacar a jornalista.

A colunista havia destacado que Lula não visitou o túmulo de Marisa Letícia e do neto Arthur porque eles foram cremados e não há túmulo. Nunes, então decidiu tripudiar sobre a colunista e dizer que o irmão Vavá não foi cremado. A preocupação de Nunes com o luto do ex-presidente não foi a mesma quando o petista foi impedido pela Polícia Federal de ir ao velório de Vavá. A fala do comentarista da Record sobre os parentes falecidos de Lula e também sobre os filhos do ex-presidente ocorreu no último dia 14, uma semana depois de agredir o jornalista Glenn Greenwald. Contra Glenn, Nunes havia usado a mesma estratégia baixa, ao dizer que o editor do The Intercept não cuidava dos filhos. Ao ser chamado de covarde, reagiu com um soco.

O GATO SUBIU NO TELHADO

O plenário do Supremo Tribunal Federal passou a exalar nesta quinta-feira um aroma de reversão de expectativas. Apontados por Dias Toffoli como fornecedores de material para "investigações de gaveta, que servem apenas para assassinar reputações", o ex-Coaf e o Fisco ainda não enxergam no fim do túnel um clarão nítido de luz. Mas deixaram de vislumbrar apenas o pus. A nova atmosfera empurrou para cima do telhado a perspectiva de conversão da blindagem temporária oferecida por Toffoli a Flávio Bolsonaro em anulação do inquérito que o Ministério Público move contra o filho Zero Um do presidente da República no Rio de Janeiro. Há nos subterrâneos do Supremo uma percepção de que Toffoli exorbitou, esqueceu de maneirar.

No célebre voto de mais de quatro horas, cujo teor ninguém entendeu direito, Toffoli passou a impressão de que procurava ideias desesperadamente. Mal comparando, o ministro ficou em situação análoga à de um cachorro que escondeu o osso e esqueceu a localização do esconderijo. Após desperdiçar o tempo do país durante toda a sessão de quarta-feira, Toffoli torrou um pouco mais da paciência nacional explicando na abertura da sessão desta quinta o que não conseguira esclarecer na véspera. As explicações evidenciaram a razão de tanta dificuldade de expressão. Toffoli protagonizou mais um vexame. E tem dificuldade para se reposicionar em cena.

Depois de congelar o inquérito contra Flávio Bolsonaro e outras 935 investigações, depois de enfiar o ex-Coaf num processo que tratava exclusivamente da Receita Federal, depois de requisitar os dados sigilosos de 600 mil pessoas e empresas, depois de tudo isso, Toffoli deu o braço a torcer. O presidente do Supremo reconheceu que é absolutamente "constitucional" o compartilhamento de dados do Coaf com o Ministério Público e a Polícia Federal sem autorização judicial. Ou seja: a pretexto de socorrer o primogênito de Jair Bolsonaro, Toffoli paralisou desnecessariamente durante quatro meses investigações que deveriam estar em franco andamento. Isso tem nome. Chama-se lambança.

Impossível antecipar os veredictos do Supremo. Mas há no plenário da Corte um jeitão de virada. A certa altura, Fachin como que constrangeu Toffoli a reconhecer que, prevalecendo o seu voto ou o de Moraes, a liminar que enviou ao freezer os casos do Zero Um e outros 925 iriria para o beleleu. Confirmando-se a derrubada da liminar, Toffoli deveria se autoincluir, na condição de réu, no processo secreto que abriu para investigar ataques contra o Supremo Tribunal Federal. No momento, ninguém desmoraliza mais a Corte do que seu presidente.

Por Josias de Souza

PARANOIA

Aumentou a paranoia do presidente Jair Bolsonaro com uma possível eclosão de protestos de rua contra medidas impopulares tomadas por seu governo a pretexto de impulsionar o crescimento da economia. Olhe o Chile aí, gente! Foi por isso que ele mandou o ministro Paulo Guedes segurar a proposta de reforma administrativa. Tão cedo ela irá para o Congresso. Ficará para o próximo ano. O próximo será um ano de eleição. Político não contraria eleitor quando precisa do voto dele. Se mesmo assim ocorrerem protestos, Bolsonaro já sabe a quem culpar: Lula livre. Não culpará a Justiça que o libertou. Culpará Lula com seu discurso considerado incendiário.

FUNDAMENTALISMOS

Na avaliação do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o que Lula fizer a partir de agora é que vai determinar se ele saiu maior ou menor dos 580 dias que passou preso. Em entrevista à Época, o tucano disse esperar que o petista “não volte com fundamentalismos” e que, apesar de Lula não ter direitos políticos, terá influência no caminho até a eleição de 2022. “O papel de quem é líder de um partido. Vai tentar influenciar, é normal. Quando foi presidente, não teve um papel revolucionário. Atacava quando necessário, mas não era um homem de fundamentalismos. Espero que não volte com fundamentalismos. Isso é ruim para o Brasil”, avaliou FHC.

Preocupado com as distensões que a polarização entre que Lula e Bolsonaro podem causar, FHC afirma que nenhum dos dois possui espírito de apaziguamento. “Não é do espírito de nenhum dos dois. Nunca vi Bolsonaro na vida. Não o conheço, não sei como é seu temperamento. Conheço o Lula. O Lula é verbalmente de contestação, porque é político. É uma pessoa tática, sente o momento e vai, mas não é que tenha na alma a vontade de esmagar o outro. Ele esmaga quem está mais perto.”

FHC diz estar disposto a sentar para dialogar com o petista, mas o movimento precisa partir de Lula. “Não vou dizer que eu não tenha vontade de falar com Lula, mas não vejo que seja construtivo, porque ele não vai mudar. Mas sou favorável ao diálogo. Nunca conversei com Bolsonaro e não acho necessário, porque ele tem o poder na mão e, da minha parte, seria desnecessário procurar quem está no poder. O Lula como não está no poder, se quiser conversar, avise”, disse.

FASCISTAS NERVOSOS

Um painel com imagem de um jovem negro morto por um policial militar, que estava numa exposição sobre Dia da Consciência Negra na Câmara, foi quebrada e jogada no chão. O autor desse gesto foi o Coronel Tadeu (PSL-SP), que é da Polícia Militar. Incomodado, ele passou pelo local e quebrou. Radar ainda não conseguiu contato com o parlamentar. Tadeu disse ao Radar que fez um “protesto contra o protesto”, e disse que a imagem do policial militar foi atingida pelo painel. E que a PM é que foi alvo de racismo. O deputado federal Capitão Augusto (PL-SP) já havia encaminhado ao presidente da Casa, deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), um pedido para que o cartaz fosse retirado da exposição.

No plenário da Câmara, acusado de racista por deputados da oposição, o Coronel Tadeu recebeu a solidariedade de um dos seus companheiros de partido, Daniel Silveira (RJ), famoso por ter quebrado uma placa de rua com o nome de Marielle Franco. Silveira declarou: “Há mais negros com arma, mais negros cometendo crime, mais negros confrontando a polícia, mais negros morrem. Não se atribua à polícia mortes porque um negrozinho bandidinho tem que ser perdoado”.

Se racismo é crime como diz a lei, o deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara dos Deputados, não pode ignorar o fato, ocorrido a poucos metros de distância do seu gabinete. E em seguida na sua própria presença. Não basta que Maia tenha desautorizado o que fez o Coronel Tadeu e o que disse Silveira. Se o que um fez e o outro disse configuram manifestações racistas, como tal elas devem ser tratadas. Que os dois respondam por isso no Conselho de Ética e na Justiça comum.

Mas Tadeu disse que não teme ser punido no Conselho de Ética e, após ser acusado de racismo pela oposição, disse que não se enxerga dessa forma. “Claro que eles [a oposição] faz o jogo deles e eles vão me acusar de racista, fascista, tudo que é “ista”.  Eu não preciso estar bem com eles, eu preciso estar bem com minha consciência. Eu durmo tranquilo”, afirmou.

Um acordo entre deputados da oposição e da bancada da bala com Rodrigo Maia garantiu a recolocação da placa. Mas o painel, agora, veio acompanhado de uma “nota de rodapé”, uma mensagem que a bancada negra reconhece que não são todos os PMs que recorrem à violência e matam. “A bancada negra sabe que essa charge não representa toda a corporação e respeita os policiais que não corroboram para essas estatísticas e trabalham em prol do povo brasileiro”, diz a nota conjunta. O pequeno texto foi feito a seis mãos: Rodrigo Maia, Capitão Augusto (líder da bancada da bala) e David Miranda (um dos que esteve à frente da oposição pela manutenção do painel).

FASCISTAS A SOLTA NA CÂMARA

A deputada Maria do Rosário (PT-RS) prestou queixa na Polícia Legislativa contra Tamires de Souza Costa de Paula, que a hostilizou dentro da Câmara. Tamires ficou conhecida em abril por outro vídeo: ela filmou e expôs uma professora que criticava Olavo de Carvalho em sala de aula. A militante já foi Secretária Geral do PSL em Itapeva-SP e se candidatou para deputada estadual pela sigla em 2018.

A mocinha esteve no Plenário da Câmara dos Deputados pouco antes da confusão com a deputada. Vídeos publicados em sua conta do Instagram demonstram, desde a viagem, até a chegada na Casa, além de fotos com parlamentares. Ela também bateu ponto no gabinete do deputado Daniel Silveira (PSL-RJ) que, questionado sobre seu relacionamento com a militante, afirmou que não tem ligação com ela.

A polícia legislativa afirmou que a entrada de Tamires na Câmara está proibida, mas ressaltou que os parlamentares podem ingressar com a militante para dentro da Casa. A deputada Maria do Rosário se disse cansada de hostilizações dentro da Casa. Segundo ela, apenas na última quarta (20) ela teria sido hostilizada cinco vezes.

PARA LER COM CALMA

A sensível matéria de Amanda Rossi, na Piauí, sobre os 300 dias de luto em Brumadinho: “O drama continua não só para as famílias dessas 16 [vítimas ainda desaparecidas], porém. Outras convivem há mais de nove meses com um dilema inimaginável: enterrar um fragmento de seus parentes ou esperar que todo o corpo seja encontrado”.

GENTE DE BEM

Um grupo de fascistas ligados a um movimento ultraconservador católico tentou impedir na noite de quatra-feira (20) a realização de uma missa africana para celebração do Dia da Consciência Negra na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, na Glória, Zona Sul do Rio. A missa, realizada há 15 anos, tem cantos afros e toque de atabaques para celebrar o sincretismo de religiões de matrizes africanas e católica. Cerca de 20 pessoas, que incluíam homens de terno e mulhes de véu, tentaram impedir o padre de começar a missa. A missa aconteceu, mas o grupo permaneceu na igreja, filmando a cerimônia. A confusão teria acontecido no final da celebração. Policiais do 2º BPM foram chamados ao local e três homens do grupo que tentou impedir a missa foram conduzidos à 9ª DP (Catete).

O professor Juarez Xavier, do curso de Jornalismo da Universidade Estadual Paulista (Unesp), foi apunhalado com golpes de canivete após ter sido xingado de “macaco” na tarde de quarta-feira (20), Dia da Consciência Negra, em Bauru, no interior de São Paulo. “Fui chamado de macaco. Reagi, fui esfaqueado!”, escreveu Xavier na sua página no Facebook. O professor estava fazendo uma caminhada na Avenida Nações Unidas, na cidade interiorana que abriga um dos campi da universidade, quando um homem começou a chamá-lo de “macaco”. Ao tirar satisfação, o professor foi derrubado e esfaqueado com canivete, que perfurou o ombro e o tórax. Ele foi levado por pessoas que passavam pelo local a uma Unidade de Pronto Atendimento e teve os ferimentos suturados, antes de ser liberado. Em 2015, o professor Juarez Xavier foi vítima de racismo dentro da própria universidade. Pichações encontradas em um banheiro da instituição o chamavam de “macaco” e ofendiam também alunas negras.

PINOCHET HOMENAGEADO EM SP?

O presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), deputado Cauê Macris (PSDB), anunciou que vai barrar a realização da sessão solene da Casa em homenagem ao ditador chileno Augusto Pinochet. A sessão foi proposta pelo deputado estadual Frederico D’ávila (PSL) e provocou protestos de organizações ligadas à defesa do Direitos Humanos. “Assino nesta quinta (21) um ato da Presidência impedindo que aconteça o evento em homenagem ao ditador Augusto Pinochet dentro da Assembleia de São Paulo. O ato será publicado no Diário Oficial do Estado na sexta-feira (22)”, que informou Cauê na sua conta do Twitter.

ATAQUES À IMPRENSA

O presidente Jair Bolsonaro voltou a atacar a imprensa em sua live semanal.

ADIAMENTO BEM SIMBÓLICO

A 6ª Conferência Nacional de Saúde Indígena foi adiada. Novamente. O evento a princípio seria realizado em maio, mas o governo Bolsonaro determinou que os procedimentos administrativos necessários para levar a Conferência para frente, iniciados ainda na gestão anterior, começassem do zero. Com isso, a nova data ficou sendo dezembro. Mas a verdade é que a poucos dias da conferência nada tinha andado conforme o planejado: o governo ainda não tinha nem feito a licitação para escolha do espaço e da empresa prestadora de serviços. A constatação de mais essa derrota, que já corria nos bastidores movimento indígena, aconteceu nesta terça-feira. Na ocasião, a comissão organizadora anunciou a decisão de adiar o evento para um longínquo julho de 2020 – data bem próxima das eleições municipais (coincidência?). 

Tudo isso acontece depois da mobilização de cerca de 60 mil pessoas que, em 2018, participaram de 304 conferências locais e 34 conferências distritais, em um processo no qual já foram investidos R$ 11 milhões de recursos públicos. 

Mas isso não é tudo, já que os sucessivos adiamentos ganham um caráter bastante simbólico ao acontecerem em 2019 – marco dos 20 anos de criação do subsistema de saúde indígena. A reportagem de capa da revista Poli, editada pela Fiocruz, relembra essa história e faz um balanço das conquistas e desafios da atenção à saúde a essa população. 

Um dos fatores de crise na saúde indígena é a falta de profissionais de saúde na ponta, atendendo próximos às aldeias. O Mais Médicos resolveu parte do problema e se o fim da parceria entre Cuba e Brasil deixou lacunas em diversos municípios, impactou particularmente as populações tradicionais. A solução do Ministério da Saúde foi, como sabemos, criar por medida provisória um novo programa, batizado de forma ufanista: Médicos pelo Brasil. Mas a MP 890 precisa ser aprovada pelo Congresso Nacional. E, aparentemente, isso não vai acontecer antes da medida caducar. O prazo fatal é 28 de novembro, próxima quinta-feira. 

Nas últimas quatro semanas, a MP entrou na pauta do plenário da Câmara dos Deputados, mas foi sendo jogada para a próxima sessão indefinidamente… Há desacordo entre governo e oposição a respeito de alguns aspectos, sendo o principal deles a criação da Adaps, agência para a atenção primária, nos moldes de um serviço social autônomo (como o Sistema S). A oposição defende que, se tiver de haver uma agência, que ela seja criada como fundação estatal.  

Mas os maiores opositores nessa história são as entidades médicas que fazem campanha contra aspectos da MP que mexem com seus interesses corporativos, como mudanças nas regras de revalidação do diploma obtido em faculdades estrangeiras e a possibilidade de que estados façam consórcios para contratar médicos com intermédio da Organização Pan-americana de Saúde (Opas), dando sobrevida ao Mais Médicos.  “Lamentamos se [a MP] vier a caducar, no sentido de perda de oportunidade de se fixar médicos nas diferentes regiões. Porém os riscos e os desacordos no interior do congresso apontam que essa medida provisória não seja votada”, avaliou Lincoln Ferreira, presidente da Associação Médica Brasileira, em entrevista à Folha

O jornal também informa que além das divergências temáticas, digamos assim, a medida também encontra dificuldades pois os parlamentares estariam insatisfeitos com demora do governo de pagar projetos-alvo de emendas parlamentares. 

TADINHA, SQN

A advogada Rosângela Wolff Moro publicou uma foto em seu perfil no Instagram compartilhando breves reflexões sobre prisão e corrupção. Posando atrás de uma “grade” decorativa em sua casa, Rosângela diz que a sensação de estar presa é “estarrecedora”. “Não façamos nada de errado. Basta seguir o conselho de nossos pais… tem que ser em segredo? Ninguém pode ouvir? Está errado! Não faça!”, escreveu a advogada. Rosângela é esposa do ex-juiz e atual ministro da Justiça, Sergio Moro, que tem sido alvo nos últimos meses de diversas reportagens da Vaza Jato revelando seu conluio – em segredo – com procuradores da Lava Jato para manipular as investigações. Em um deles, Moro atuou no vazamento do grampo ilegal da conversa entre os ex-presidentes Lula e Dilma, quando o petista aceitou ser ministro da Casa Civil da então presidenta, em 16 de março de 2016.

FAXINA?

De acordo com informações dos repórteres Diego Escosteguy e Carla Araújo no site Vortex Media, o presidente Jair Bolsonaro decidiu demitir os ministros da Educação (Abraham Weintraub), da Casa Civil (Onyx Lorenzoni) e do Turismo (Marcelo Álvaro Antônio). A informação, conforme o relato, foi confirmada ao Vortex por dois interlocutores de Bolsonaro que acompanham de perto o governo. As demissões, que não são chamadas de “reforma ministerial” pelos aliados, ainda não tem data para acontecer. Segundo as fontes ouvidas pelo Vortex, era mais provável que o presidente fizesse as mudanças no começo do próximo ano. A crise do PSL e a criação do Aliança pelo Brasil, novo partido de Bolsonaro, podem acelerar a minirreforma.

Jair Bolsonaro publicou em sua página no Facebook e encaminhou aos ministros por WhatsApp um desmentido de que haja uma reforma ministerial a caminho, em que seriam trocados os titulares da Casa Civil, Onys Lorenzoni, da Educação, Abraham Weintraub, e do Turismo, Marcelo Álvaro Antonio. “Mais uma reforma ministerial fake lançada pela imprensa”, escreveu Bolsonaro. No desmentido, Bolsonaro aproveita para voltar a criticar a imprensa e acusá-la de promover “fake news” contra seu governo. A notícia de que haveria a reforma foi dada pelo site Vórtex. “Não existe qualquer reforma ministerial a caminho, até porque o Governo está indo muito bem, apesar dessa banda podre da imprensa”, postou o presidente.

MAIS UM

O presidente nacional do PSOL, Juliano Medeiros, lamentou no Twitter o assassinato de Josemar da Silva Conde, membro do partido que foi vice-candidato à prefeitura de Xapuri, no Acre, em 2016. Mecânico, Josemar, conhecido como Tripinha na cidade, concorreu em chapa composta com candidato do PROS. De acordo com Medeiros, ele era presidente do partido na cidade. Segundo jornais locais o assassinato ocorreu com um tiro de espingarda em um seringal da região por homem com quem tinha uma disputa judicial por limite de terras.

TEMPOS BICUDOS

Não há mais espaço para rir. Nem tempo a perder repassando absurdos de um governo de demagogos como se Brasília tivesse sido tomada por incultos. Quem está hoje no poder no Brasil tem método e objetivo. E um projeto claro: destruir o que existe para, em seu lugar, reconstruir um modelo desejado por essas pessoas no comando para a sociedade. Nesta semana, o novo secretário da Cultura, Roberto Alvim, derrubou um dos ativos mais poderosos do Brasil no exterior: sua diversidade artística. Ao discursar na sede da Unesco, em Paris, ele deixou governos estrangeiros pasmos ao anunciar que teria como função, entre outras coisas, o resgate dos clássicos. E, assim como outros líderes já fizeram no passado, atacou a cultura e a arte que não sejam de sua ideologia.

Mas seu discurso também tinha outra lógica: a da destruição dos padrões estéticos do Brasil. Para ele, até Bolsonaro chegar, tais ramos da atividade humana no país eram uma “propagação de uma agenda progressista avessa às bases de nossa civilização e às aspirações da maioria do nosso povo”. A arte, segundo o secretário, fazia parte durante 20 anos de um “projeto absolutista” e “instrumentos centrais de doutrinação” por governos de centro e de esquerda no Brasil.

Alvim insiste que tudo isso acabou. Com a eleição de Bolsonaro, “os valores ancestrais de elegância, beleza, transcendência e complexidade encontraram uma nova atmosfera”. Em seu texto, porém, uma frase revela que a preocupação não é estética. “Estamos comprometidos com a redefinição da identidade e da sensibilidade nacionais, em consonância com os valores e os mitos fundantes de nossa nação”, disse.

A redefinição da identidade, portanto, passa por apagar traços de uma certa cultura indesejada, ignorar uma periferia historicamente abandonada, silenciar a rebeldia. Em seu lugar, Alvim foi explícito: “vamos promover uma cultura alinhada às grandes realizações de nossa civilização judaico-cristã”. Essa sim, a base da “edificação de nossa civilização brasileira”.

Loucura para alguns, delírio para outros. Mas, entre membros do Governo, não há nada de irracional em sua fala. O que existe claramente é uma estratégia de destruição e da substituição de uma realidade por uma ideologia com fortes traços de intolerância. O termo “Judaico-cristão” para um país miscigenado não surge por um deslize num discurso da sede da Unesco. No Itamaraty, o chefe da diplomacia também passou a usá-lo. E, não por acaso, entrou no novo dicionário alucinógeno de Brasília inspirado pelo projeto de poder de Steve Bannon. O termo faz parte de um dos pilares da estratégia do ex-conselheiro de Donald Trump. Mas ele não vem sozinho e nem acontece no vácuo. Para que essa cultura seja “resgatada”, é preciso que um governo limite o fluxo de pessoas que entram no país.

E é nesse contexto que se introduz a obstinação pelo nacionalismo, pela soberania e pelas fronteiras. “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” é simplesmente uma tradução dessa estratégia que, para existir, precisa atacar diariamente o pluralismo, igualitarismo e secularismo. Não é por acaso que, ao longo de meses, o Itamaraty também vem promovendo uma destruição dos parâmetros de direitos humanos e do pluralismo na família ou no ser humano. Existe, para a diplomacia nacional, apenas homens e mulheres. Família é no singular e não há espaço para a criação de novos direitos. Para isso, o governo não mede esforços para rever o posicionamento do Brasil no mundo e até questionar o direito internacional.

Uma vez mais, o projeto é claro: destruir o que existia antes, romper consensos históricos em textos internacionais, abrir brechas, criar divisões para que conflitos de percepções se instalem e, assim, reconstruir uma “nova sociedade”. Em Brasília, sinais dessa destruição também podem ser vistos quando o Palácio do Planalto opta por ignorar de forma consciente o Dia da Consciência Negra. Ou quando silencia diante de um ato de vandalismo deliberado por parte de um deputado.

Também vimos a erupção de comentários monarquistas por membros do Governo, no dia da República. Uma vez mais, nada ao acaso. A história, ao ser revista, questionada, profanada e confundida, é a receita para a transformação de um futuro manipulado.

Desmontar o sistema também passa por romper até mesmo com os veículos que permitiram a chegada ao poder de Bolsonaro, como o partido de aluguel conhecido como PSL. Em seu lugar, surge uma formação que sequer se dá ao trabalho de incluir as palavras “democracia” e “república” em seu manifesto.

Sua milícia digital age exatamente da mesma forma, recriando de maneira virtual a “Polícia do Pensamento” (thinkpol) de George Orwell. Não existem para propor políticas. Mas para, de forma consciente, criar confusão, desinformação e polêmicas. A meta? Romper o tecido social, enfraquecer uma democracia já fragilizada, romper laços familiares, amizades e alianças.

E, em seu lugar, construir um novo modelo distante das bases fundamentais do respeito ao diverso. Um sistema em que ganha vida o “crime de pensamento” do mesmo Orwell. Em março, em sua primeira visita aos EUA, Bolsonaro avisou: seu Governo seria o da destruição. Um ano depois, o plano está sendo meticulosamente implementado.

Também durante este ano, a resistência se mostrou viva e o projeto de civilização da extrema direita sabe que conta com desafios. Mas, parafraseando Antonio Gramsci, enquanto o velho mundo agoniza e um novo mundo tarda a ver a luz do dia, “irrompem os monstros”. Conscientes, determinados, financiados e altamente organizados.

Por Jamil Chade – Publicado originalmente no El País

FRASES DA SEMANA

“Nunca conversei com Bolsonaro e não acho necessário, porque ele tem o poder na mão e, da minha parte, seria desnecessário procurar quem está no poder. O Lula como não está no poder, se quiser conversar, avise.” (Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente da República) 

“Eu quero saber onde está o amigo do Bolsonaro. Cadê o Queiroz?”. (Cacique Raoni, um dos líderes do povo indígena Kayapó, que ainda chamou o presidente Jair Bolsonaro de doido e de mentiroso)

“Não tem uma pergunta mais fácil não?” (Edson Fachin, ministro do Supremo Tribunal Federal, ao seu provocado por um jornalista para que explicasse o voto do seu colega Dias Toffoli sobre o acesso do Ministério Público a informações financeiras sigilosas.) 

“Eu considero democrático [quebrar a placa], sem dúvida nenhuma. Não podemos aceitar um atentado daquele contra a democracia”. (Coronel Tadeu, PSL-SP, líder da bancada da bala, que destruiu o cartaz de uma exposição que celebrava na Câmara a Semana da Consciência Negra) 

“Se o senador Flávio está sendo investigado, se esse processo da Marielle tem um fato que envolve a casa do presidente, isso não compete a mim, mas ao Ministério Público. […] Quem não deve não teme”. (Wilson Witzel, governador do Rio, em resposta ao presidente Jair Bolsonaro) 

Com informações de Carta Capital, Outra Saúde, Sul 21, o Globo, BR-18, Folha de SP, Leonardo Sakamoto, Josias de Souza, Fórum, Veja, Dora Kramer, BRPolítico, Vera Magalhães, Marcelo de Moraes, Radar e Ricardo Noblat


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