Semana On

Quinta-Feira 12.dez.2019

Ano VIII - Nº 374

Poder

Bolsonaro confessou um crime

Caso Marielle, um teste definitivo para Moro

Postado em 15 de Novembro de 2019 - Ricardo Noblat (Veja), Juan Arias (El País), Marina Lang (The Intercept_Brasil) – Edição Semana On

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No voo para o Japão em 19 de outubro passado, o presidente Jair Bolsonaro reuniu cinco parlamentares e mais alguns ministros que estavam a bordo e disparou: “Durante a minha viagem, vai acontecer isso. A TV Globo vai falar em primeira mão esse caso da Marielle. Expliquei tudo para não se apavorarem que estava tudo resolvido da minha parte, mas a Globo ia botar no ar e a Globo botou”.

Dez dias antes, segundo Bolsonaro, ele ficara sabendo por meio do governador do Rio que seu nome fora citado no inquérito que apurava a morte da vereadora do PSOL. Dez dias depois do comunicado feito a caminho do Japão, foi ao ar no Jornal Nacional a reportagem que dava conta de que seu nome fora citado pelo porteiro do condomínio onde ele morava.

À pergunta do site O Antagonista sobre por que ele não se antecipou à Globo e divulgou a história, Bolsonaro respondeu: “Não posso fazer isso, negativo. Até porque eu seria acusado de quê? De ter tido acesso ao processo, de antecipadamente falar que foi algo combinado para chegar na TV Globo. Não podia fazer isso”.

Bolsonaro confessa que teve acesso a informações sigilosas. Isso configura crime. E reforça a versão da Globo de que uma pessoa “absolutamente ligada à família presidencial” foi quem avisou à emissora de que algo grave atingiria Bolsonaro.

Em resumo: interessava a Bolsonaro que a notícia fosse dada pela Globo. Ele soube com antecedência que a Globo daria e nada fez. Em seguida, atacou a emissora como um presidente da República jamais fizera antes.

Ao site, Bolsonaro ainda revelou que assistiu ao vídeo com o depoimento prestado na semana passada pelo ex-policial Ronnie Lessa ao Ministério Público do Rio. Lessa é acusado de ter assassinado Marielle. O depoimento de Lessa faz parte do inquérito sob segredo de Justiça.

Teste definitivo para Moro

O ministro da Justiça de Bolsonaro, o ex-juiz da Lava Jato, Sergio Moro, apesar de não estar à frente do caso Marielle, o assassinato que a cada dia se enche de novas nuvens e suspeitas de que nele, de alguma forma, a família do presidente brasileiro tenha estado envolvida, no entanto, se encontra no dilema de ser o ministro da Justiça do Governo ou o advogado de defesa do presidente e seus filhos.

Foi Bolsonaro, ao ser eleito presidente, quem garantiu que seu ministro da Justiça não seria, como nos governos de Lula e Dilma, seu advogado de defesa, mas seu braço forte contra a corrupção. O caso Marielle está revelando, de acordo com as últimas investigações sobre o porteiro do condomínio de luxo na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, onde morava a família Bolsonaro e a do acusado de assassinar Marielle, Ronnie Lessa, uma situação complicada para Moro. Tudo isso está levando os Bolsonaro, pai e filhos, a um ataque de nervos.

Como se não bastasse, o caso está sendo disputado agora pelas justiças do Rio e a federal, de Brasília, com acusações dissimuladas de ambas as partes de estarem tentando esconder algo que poderia comprometer o presidente. Para começar, Moro, diante do caso do porteiro do condomínio em que moravam Bolsonaro e sua família, interveio imediatamente minimizando e pedindo que a Polícia Federal interrogasse o porteiro e fizesse as investigações, numa tentativa de federalizar o caso. E se sabe que Moro continua controlando a Polícia Federal, com quem trabalhou lado a lado nas investigações da Lava Jato.

Se Moro decidir entrar furtivamente no caso Marielle, seu comportamento será um teste definitivo para saber se é somente o ministro da Justiça do Governo ou, como alguns já começam a suspeitar, também o advogado de defesa do presidente. Até agora, nos momentos difíceis para Bolsonaro ou algum de seus filhos, Moro sempre tentou minimizar os fatos. Dias atrás, quando o deputado federal Eduardo Bolsonaro mexeu no vespeiro com sua declaração explosiva sobre a possibilidade de estabelecer no Brasil um instrumento autoritário como o AI 5, o mais duro e sangrento da repressão da ditadura, Moro, quando interrogado por jornalistas, se limitou a dizer “isso foi ontem. Eduardo pediu desculpas. Assunto encerrado”. Não, não está encerrado. Nem esse nem o caso Marielle, pois as forças democráticas, da direita à esquerda, incluindo parte dos militares, criticaram com dureza as palavras do deputado como algo muito grave contra a democracia.

Embora continue negando, há poucas dúvidas de que Moro esteja pensando em se lançar como possível candidato à Presidência depois de Bolsonaro. Qualquer outro que tivesse 60% de aprovação nas pesquisas de opinião o faria. O dilema é que para isso precisaria não perder o apoio do núcleo duro dos 30% que apoiam Bolsonaro e não pensam em abandoná-lo. E é justamente esse exército aguerrido do presidente e seus filhos que, se por um lado continua apoiando o programa inicial de Bolsonaro de luta contra a corrupção, por outro exige de Moro que salve o presidente e seu Governo de possíveis acusações de corrupção e até do assassinato da ativista Marielle.

Existem poucas dúvidas de que Bolsonaro parece ter abandonado pelo caminho sua bandeira contra a corrupção, dada sua amizade com o presidente do Supremo, Dias Toffoli, visto como um dos maiores críticos da Lava Jato. A incógnita é que Moro não pode deixar de aparecer ao mesmo tempo como o grande fustigador da corrupção política que levou à prisão o popular ex-presidente Lula. E continua de fato tentando demonstrar que sua posição nesse campo não mudou. A dúvida é como poderá conjugar sua imagem mundial de juiz intransigente com os casos de corrupção que estão aparecendo no partido do presidente e outros envolvendo alguns de seus filhos. Não é fácil imaginar até quando poderá manter sua linha oficial de independência no Governo e a defesa resoluta do presidente quando este se deparar com um tropeço grave no caminho.

Assim, o caso Marielle se torna algo definitivo para entender se o ex-juiz Moro preferirá, em algum momento, ficar ao lado de seu chefe de hoje para não perder sua benevolência e garantir politicamente sua força eleitoral, ou se será capaz de demonstrar sua independência recusando-se abertamente a vender sua primogenitura de independente pelo prato de lentilhas de seus sonhos políticos. Tudo isso se antes, Bolsonaro, em caso de duvidar da fidelidade que procura de seu ministro, não for quem o coloque no olho da rua.

E como se tudo isso fosse pouco, agora surge a Moro, no caso Marielle, o desencontro, para não dizer o confronto, do presidente Bolsonaro com o governador do Estado do Rio, Willson Witzel, ao qual acusa de querer envolvê-lo no caso Marielle. Esse confronto com Witzel é sintomático para Moro e Bolsonaro porque o governador foi eleito seguindo a política dura bolsonarista contra a violência e o crime e já anunciou que será candidato em 2022 contra Bolsonaro. Acontece que Witzel, como Moro, também é um ex-juiz com pretensões faraônicas de poder e amor pela política. Difícil não ver no horizonte o retumbar de tambores de guerra entre os três importantes personagens, tudo o que o Brasil não precisa neste momento de tempestade política. A cada dia parece mais certo o que já escrevemos nesta coluna, que para a família Bolsonaro Marielle será mais perigosa morta do que viva, com o agravante de que não se pode matar novamente os mortos.

A não ser que todas essas guerras de poder e nostalgias ditatoriais acabem tão envenenadas que até aqueles que um dia votaram em Bolsonaro por falta de alternativas credíveis o abandonem dando lugar a uma nova esperança democrática que ofereça algo mais do que armas e violência por parte do Estado para resolver as crises.

O Brasil precisa de equilíbrio político para voltar a dar vida a uma normalidade democrática. Isto é uma necessidade, e com urgência, principalmente para as classes mais desamparadas que parecem neste momento abandonadas a continuar sofrendo sua atávica desigualdade. São, segundo um estudo da Pna Contínua, citado pela minha colega Heloísa Mendonça em sua magnífica reportagem de segunda-feira, 104 milhões, a metade dos brasileiros, obrigados a viver com 413 reais por mês. Enquanto esses pobres perderam 3,8% de sua renda irrisória, os mais ricos aumentaram a deles em 8,2%.

É essa caravana que está deslizando em uma nova pobreza que é cada vez mais ameaçada pelos férreos arroubos ultraliberais e ditatoriais bolsonaristas que castigam o país, e em cujas águas o ex-juiz Moro já parece ter aprendido a nadar. Até quando?

Novidades no caso: a rota do crime

Até agora, a investigação sobre o assassinato de Marielle Franco apontava que os matadores usaram um carro no ataque: um Cobalt prata de placas clonadas. Mas um relatório da Polícia Civil até hoje inédito, anexado ao inquérito, mostra que um segundo Cobalt, com as mesmas placas clonadas, estava circulando na cidade no mesmo horário a 50km do local da morte da vereadora e de seu motorista, Anderson Gomes.

A informação foi ignorada pela polícia ao longo das investigações.

O relatório com a localização do Cobalt clonado foi produzido pela Polícia Civil em 21 de fevereiro com dados da CET, a empresa que armazena as imagens das câmeras que monitoram o tráfego no Rio, e do COR. Ele mostra o registro de um Cobalt com placas clonadas KPA-5923 na Av. Brasil, altura de Campo Grande, no mesmo momento em que outro Cobalt idêntico, também clonado, transportava os homens apontados pela polícia como assassinos da vereadora e seu motorista à Lapa, local do atentado.

A presença do segundo Cobalt clonado no relatório levanta algumas hipóteses, então entramos em contato com a delegacia responsável pelo caso e perguntamos: há de fato um segundo carro com a mesma placa clonada e que circulou no mesmo dia do assassinato? Se sim, por que foi ignorado? Ou o registro no laudo foi um erro de digitação? A polícia não respondeu, informando apenas que “o caso corre sob sigilo”.

A dona do Cobalt prata original com as placas KPA-5923 legítimas conseguiu comprovar que, na hora do crime, o veículo estava estacionado no Leblon. O inspetor responsável pelo laudo também descartou a possibilidade dela ter passado na Avenida Brasil, km 50,7, no dia do crime. “Em suas declarações, [a dona do veículo] informou que sempre utilizou seu veículo para deslocar-se de sua residência em Nova Iguaçu até seu local de trabalho no Leblon. A análise das OCRs [sistema de fiscalização eletrônica da Prefeitura do Rio] e o GPS instalado em seu veículo confirmaram a versão da declarante”, informou Carlos Alberto Paúra Jr. em seu relatório de investigação.

A suspeita de um possível segundo carro na emboscada contra Marielle e Anderson apareceu nas primeiras hipóteses da Polícia Civil, mas foi descartada com base nos depoimentos de testemunhas que assistiram às execuções. A informação do segundo Cobalt circulando na mesma hora e com a mesma placa, a 51 km da rota do crime, traz a hipótese à tona novamente.

Um áudio anexado na denúncia da ex-procuradora geral da República, Raquel Dodge, que transcreve uma conversa gravada entre o vereador do Rio Marcello Siciliano, do PHS, e o miliciano Jorge Alberto Moreth, o Beto Bomba, aponta que o major Ronald Paulo Alves Pereira estaria em um segundo carro em apoio à empreitada criminosa. A gravação foi feita pelo parlamentar e entregue às autoridades federais.

Um registro ignorado

O trecho do relatório policial intitulado “Da Movimentação do Veículo Clonado Chevrolet Cobalt KPA-5923” inclui uma planilha informando que o veículo foi detectado nas imediações de Campo Grande, bairro da zona oeste do Rio. Às 18h10 de 14 de março de 2018, ele estava exatamente na Avenida Brasil, km 50,7, trafegando em sentido Centro. Esse local fica a cerca de 51 km da rota percorrida pelos assassinos – com um veículo idêntico – momentos antes do crime.

Um minuto antes, às 18h09, o carro que transportava os criminosos que mataram Marielle e Anderson — também um Cobalt prata com placas KPA-5923 clonadas – foi flagrado pela CET e pelo COR na rua Conde do Bonfim, 256, na Tijuca, zona norte do Rio. A rota consta no relatório da polícia, mas em outra parte do inquérito, em que quadros das câmeras de segurança documentam o trajeto feito pelo Cobalt usado pelos assassinos para chegar à Casa das Pretas, na Lapa, região central do Rio.

Ali, eles ficariam parados por pouco mais de duas horas a fim de monitorar o veículo em que a vereadora, seu motorista e a assessora Fernanda Chaves estavam no momento da emboscada no cruzamento entre as ruas Joaquim Palhares e João Paulo I, no Estácio, por volta das 21h10 daquela noite.

O relatório de 21 de fevereiro deste ano, assinado pelo inspetor da Polícia Civil Carlos Alberto Paúra Jr., afirma que a primeira aparição de um Cobalt prata com as placas KPA-5923 clonadas ocorreu em 27 de outubro de 2016. Deste dia até 12 de março de 2018, o carro foi visto transitando pela Avenida Brasil em 33 registros, conforme o Intercept contabilizou na tabela anexa ao relatório.

Ainda de acordo com o documento, após passar exatamente um mês longe das câmeras de monitoramento de tráfego, o veículo foi avistado na Barra da Tijuca justamente no dia do homicídio, 14 de março de 2018, “e deslocou-se até o bairro do Estácio para cometimento do crime investigado”, escreveu o inspetor. Em sua análise, Paúra Jr. ignorou o longínquo registro de um carro idêntico na Avenida Brasil, às 18h10, a 51 km de distância da rota usada pelos assassinos e apontada pela polícia em outra parte do inquérito. Tivesse prestado atenção nisso, o policial veria que teriam de ser dois carros diferentes, pois àquele horário o tempo previsto para ir de um ponto a outro seria de mais de uma hora.

Aquela havia sido a 34ª aparição de um Cobalt Prata de placas clonadas KPA-5923 na Avenida Brasil, segundo o relatório policial que detalhou o trajeto do veículo. Curiosamente, neste registro da planilha da polícia, não há detalhes da localização do equipamento de fiscalização da CET no km 50,7, sentido Centro, da Avenida Brasil. Outros registros da mesma tabela e na mesma quilometragem, contudo, indicam que o local fica na região de Campo Grande.

Procurado, o COR declarou que cabe à CET informar o local preciso do radar, seu endereço aproximado ou mesmo o bairro. Já a CET foi procurada em seis ocasiões pelo Intercept e não forneceu a localização precisa do radar que flagrou o carro em Campo Grande.

O laudo afirma que o Cobalt clonado deixou de circular pela Avenida Brasil, na altura de Campo Grande, às vésperas do crime, em fevereiro, para então iniciar suas aparições na rota da Barra da Tijuca (de onde o carro saiu em 14 de março) até a Tijuca (bairro em que Marielle residia), por, ao menos, quatro datas no mês anterior ao atentado. “Por quatro vezes, nas nos dia 1, 2, 7 e 14 de fevereiro, o Chevrolet Cobalt realizou o mesmo trajeto, merecendo destaque o fato de que o veículo ‘surgia’ primeiramente na OCR da Barra da Tijuca e após deslocar-se até a Tijuca, este voltava para a Barra”, escreveu.

Há de fato um segundo carro com a mesma placa clonada e que circulou no mesmo dia do assassinato? Se sim, por que foi ignorado?

Após o duplo homicídio de Marielle e Anderson, o carro clonado apareceu em pontos diferentes da cidade em ao menos 26 dias distintos entre 15 março e 2 de dezembro, segundo a polícia. Dentre estas datas, em 13 dias diferentes ao longo de nove meses após os assassinatos o carro transitou pela Avenida Brasil novamente. O último registro foi datado de 2 de dezembro de 2018, segundo o relatório. Nesta data, o Cobalt clonado também passou pela Avenida Brasil, no sentido do bairro Santa Cruz, também na zona oeste do Rio, às 11h05, para nunca mais ser rastreado.

Um delegado da Polícia Civil do Rio, que falou ao Intercept sob condição de anonimato, disse que a menção a esse ponto da investigação que ficou oculto é importante. “Não ficou claro este ponto e ele deve ser investigado ainda, mas não pode se ter uma conclusão de que houve intencionalidade ou não [na omissão do registro].” Segundo ele, como o objetivo do inquérito é identificar a autoria e a materialidade do crime e os autores foram vistos na rua Conde de Bonfim [no bairro da Tijuca], o outro carro não serviria para fins de identificação. Mas ele pode ajudar a esclarecer outros pontos da investigação. “Acho que isso deve ser levado ao segundo inquérito que identifica o mandante e outros possíveis partícipes que contribuíram para o crime”, analisou.

Solicitei à Polícia Civil, em três ocasiões, o contato direto para uma entrevista com o inspetor da DH que assina o relatório, mas os pedidos não foram respondidos.

Responsável pela clonagem também foi assassinado

A investigação da Divisão de Homicídios do Rio de Janeiro também aponta que Lucas Prado do Nascimento da Silva, um dos suspeitos de ter feito a clonagem do Chevrolet Cobalt usado no crime contra Marielle, foi assassinado 20 dias depois das execuções da vereadora e de seu motorista.

Conhecido como Todynho, Silva foi executado em 3 de abril de 2018, em uma provável queima de arquivo em decorrência do atentado contra Marielle. Ele foi apontado por ter feito as alterações no documento do veículo usado pelos assassinos. O crime segue sob investigação pela Delegacia de Homicídios.

A Polícia Civil do Rio ainda busca por Antônio Carlos Lima da Silva, o Nem Queimadinho, que teria montado e adulterado os chassis e número de identificação do veículo. Seu paradeiro ainda é desconhecido. No relatório final produzido pela DH em março, Giniton Lages, delegado que comandou a primeira fase do inquérito, ponderou que, apesar das informações de inteligência da polícia, a autoria da clonagem ainda não foi assegurada pelos investigadores e que isso é tema de um outro inquérito.

Outro carro, outros implicados

Ronald Pereira, major da ativa da Polícia Militar – e que estaria em um segundo carro, segundo a denúncia de Dodge –, foi preso na Operação Intocáveis em janeiro deste ano. Na gravação, outros nomes também foram apontados como executores do crime: Leonardo Gouveia da Silva, o Mad, Leonardo Luccas Pereira, o Leléo, e Edmilson Gomes Menezes, o Macaquinho. Todos eles seriam membros do Escritório do Crime, um grupo de milicianos que executa assassinatos sob encomenda e que estaria sob comando do ex-capitão do BopeAdriano Magalhães da Nóbrega, considerado foragido pela justiça desde a operação que prendeu Pereira.

Ainda de acordo com o mesmo áudio, o provável suposto mandante do crime seria Domingos Brazão, ex-deputado estadual pelo MDB e conselheiro afastado do Tribunal de Contas do Estado do Rio. Ele nega qualquer tipo de participação no crime. Beto Bomba, por sua vez, se entregou à polícia em 24 de maio. Ele foi preso após os desabamentos dos prédios em Muzema, na zona oeste do Rio, área controlada pela milícia de Rio das Pedras.

Embora parte das investigações que apuram o mandante do crime esteja sob sigilo, o Intercept apurou que a polícia já investigou os apontados pelo áudio entre Siciliano e Beto Bomba como executores dos assassinatos, mas acredita que os indícios mais fortes ainda pairam sobre os réus denunciados pelo Ministério Público do Rio, o sargento da PM reformado Ronnie Lessa e o ex-policial Élcio Queiroz — apontados, respectivamente, como o atirador que executou Marielle e Anderson e o motorista que dirigiu o carro durante a empreitada criminosa. Eles foram presos em 12 de março e prestaram depoimento na DH em 24 de janeiro.

Queiroz retornaria à delegacia dias depois, em 1º de fevereiro, com o intuito de entregar documentações relativas à sua rotina. Constam nos autos do inquérito fotos dele com Ronnie em local público logo antes da visita de Élcio à Divisão de Homicídios da Capital. Segundo os investigadores, isso evidencia que eles combinaram versão antes do segundo depoimento. Ambos alegaram inocência ao prestar depoimento em audiência no Tribunal de Justiça do Rio em 4 de outubro.

Siciliano, por sua vez, já foi apontado em uma falsa denúncia como suposto mandante do crime, implicando o miliciano Orlando da Curicica, conforme revelado pelo jornal O Globo em maio de 2018. Duas pessoas já são rés no Tribunal de Justiça do Rio em decorrência desta falsa denúncia, que nada mais foi do que uma tentativa de embaraçar as investigações: o PM Rodrigo Jorge Ferreira, o Ferreirinha, e sua advogada, Camila Nogueira.

Ainda assim, tanto a Polícia Civil do Rio quanto o MP do Rio questionaram Élcio Queiroz e Ronnie Lessa se conheciam Siciliano, assim como os prováveis membros do Escritório do Crime. Ambos afirmaram que conheceram o vereador superficialmente em outras ocasiões, mas negaram que mantivessem contato constante com o parlamentar carioca. Questionado pelo MP do Rio sobre uma eventual relação com Leléo, Macaquinho e Playboy (Diego Luccas Pereira, que não figura na denúncia da PGR, mas é investigado por uma possível participação no Escritório do Crime), Lessa declarou: “são milicianos da pior espécie. Se eu pudesse, eu os prendia”. Logo antes, ele fora perguntado sobre uma provável relação com o ex-capitão Adriano, e respondeu: “nenhuma”.

Na denúncia que implica Ronnie Lessa como executor de Marielle e Anderson, feita anonimamente à DH em 25 de outubro de 2018, o vereador Siciliano é apontado como o provável mandante do duplo homicídio, conforme documenta o inquérito da DH. Desde que seu nome veio à tona nas investigações, o parlamentar também nega qualquer tipo de envolvimento com os assassinatos.


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