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Quinta-Feira 03.dez.2020

Ano IX - Nº 421

Coluna

Shakespeare

Um empreendimento também econômico - Parte 7

Postado em 19 de Setembro de 2014 - Jorge Ostemberg

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“A rameira é correio de Cupido,

Ice as velas, ataque; vá à luta” (A Megera Domada, Ato II cena I 3798).

Shakespeare obviamente não viveu muitas das milhares de coisas que descreveu; por exemplo, não viveu cursos marítimos, não se aventurou no mar; de barcos percorreu muito pouco. Mas ele era Shakespeare; ele é Shakespeare, sob quem ninguém consegue imunidade, e tal se deve em parte por ter tal poder de rastrear a alma humana, que por tal rastreio pôde compreender de mais próximo do que gostariam Hume, Locke e Berkeley, de coisas que não precisou vivenciar.

Um apaixonado crítico, talvez o mais apaixonado deles, considerando toda a segunda metade do século XX e mais uma década do século adiante deste, Harold Bloom, bastante conhecido nos círculos literários mundiais por isso; atacado e defendido, afirma com sua autoridade de longevo estudioso do bardo, que o mais relevante em Shakespeare, no que se refere à mais alta revolução literária, é o fato de impor evolução de personalidade de maneira coerente, coesa, perfeitamente verossímil; a que impulso o faria? Justamente o que já se comentou, a percepção da alma humana e tudo que a ela se liga.

É bastante lógico inferir que Shakespeare, tendo tocado em tudo e sobre tudo inferido, percebeu os potenciais econômicos no além mar de então, e os efeitos que isso causaria em inflexões presentes nos atos de suas obras, contradições, discussões, inerentes a trabalhos de impacto nas almas. Ele sabia que havia “ouro” nas viagens, grandes valores econômicos envolvidos, com as naturais consequências que trazem. Em “Os dois cavalheiros de Verona”, diz Valentino: “E eu tão rico, só por ter tal joia, Quanto dez mares de praias de pérolas, Água de néctar, e rochas de ouro”.

Seria mesmo de se admirar que Shakespeare não tratasse do aspecto econômico ligado às explorações e descobertas marítimas, tendo em vista as inevitáveis mudanças que isso traria para o mundo de então, em que Henry W. Farnam observa: “...consequente aumento dos preços, o crescimento do comércio exterior, a substituição da economia natural por uma economia monetária na agricultura”.

Obviamente, como aponta o próprio Farnam, as descobertas se devem aos portugueses, principalmente; porém, também é óbvio que outras nações, como a de Shakespeare, não ficariam somente assistindo os novos fatos; “Francis Drake fez sua primeira viagem ao redor do globo já em 1577, com o Golden Hind”, que muito provavelmente foi visto por Shakespeare em sua visita a Londres, pela primeira vez, onde estava ancorado.

Uma das influências das redes marítimas em Shakespeare, aparece na ampla e diversa teia em que pontua diversos conhecimentos ligados aos citados eventos; ele era evidente em sua predileção por variadas citações; e quanto à geografia isso ocorria do Egito: “...Mais sobre o Nilo, Melhor. Quando ele baixa, o agricultor joga seus grãos por todo o limo e lama, E logo viram colheita” (Antônio e Cleópatra) à Veneza em “O mercador de Veneza”, e “De Trípoli, do México e Inglaterra, De Lisboa, da Índia e da Barbaria”; e ele toca na Polônia, na Rússia, Irlanda, Dinamarca, Roma; sabe-se de sua tendência universalista, o que naturalmente facilitaria a ele os raciocínios econômicos.

E nessa universalidade rica do autor de Hamlet, ele desfila sua riqueza de domínios, seja direta ou sutilmente, no que toca à economia, como novamente em “O mercador de Veneza”: “...A maior parte de minha afeição Ficaria no mar, como os meus anseios: Em cada folha eu só veria o vento, Só pensaria em portos e roteiros; E tudo onde pudesse ver perigo, PONDO EM RISCO O QUE É MEU, deixar-me-ia Por certo triste. E continuando sobre os riscos, o personagem Salério: “Me faria pensar em rochas rudes Que, rasgando os costados delicados, Espalhariam n’água suas cargas, Vestindo as ondas com as minhas sedas; Pensando, enfim, que o que valia muito Pode não valer nada... ...NÃO PEÇO EXPLICAÇÕES; EU SEI QUE ANTÔNIO ESTÁ TRISTE PORQUE PENSA EM SEUS NEGÓCIOS.

Estes últimos trechos tocam ao mesmo tempo no risco empreendedor, e no surgimento da ferramenta “SEGURO”, cuja argúcia shakespeariana certamente não deixou passar despercebida, embora a maior evidência está presente na obra de Ben Jonson, pelo personagem Puntarvalo, de “Every Man out of his Humour”:

Estou decidido a oferecer cerca de cinco mil libras, a serem pagas a mim cinco por uma quando do retorno meu, de minha mulher e de meu cão da corte turca em Constantinopla. Se todos ou um de nós se extraviar na viagem, estão perdidas; se tivermos êxito, ora, haverá 25 mil libras para nos divertirmos com elas (Ato II cena I 86).

A expressão inglesa da época, nas circunstâncias dos seguros marítimos, principalmente, era “putter-out of five for one”; um contrato cuja maior finalidade era evitar acidentes, incêndios, naufrágios e outros, sem compensação.

Shakespeare não deixava escapar circunstância alguma, parecendo saber que isso é que daria a ele a matéria prima para a construção da verossimilhança; que ele tinha em tão alta conta que dedica longos parágrafos neste aspecto, em Hamlet, junto aos atores que contratou o príncipe, para desmascarar, talvez, seu tio e mãe. Essa agudez se revela inclusive em um alimento que leva hoje o nome de seus conterrâneos, a batata “inglesa”; que Farnam observa “era um artigo de comércio comparativamente novo na época de Shakespeare”; ainda assim, em “Troilus e Créssida”, se diz “Como o demônio Luxúria, com seu traseiro gordo e seus lascivos dedos de batata...” e na fala de Falstaff em “As comadres...”: “Que do céu chovam batatas!”.

Se neste capítulo foi apreciada a relação econômica “Shakespeare e o mar”; no próximo e derradeiro da série montada em 8/8, se falará da Terra e sua fartura, sob os olhos do bardo em se tratando de economia e empreendimentos; SIGAMOS!

Leia as seis primeiras partes do artigo.

Parte 1

Parte 2

Parte 3


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