Semana On

Quinta-Feira 12.dez.2019

Ano VIII - Nº 374

Mundo

Na invasão da embaixada venezuelana, a Casa da Mãe Joana da política externa bolsonarista

Em meio a reunião dos BRICS, presidente, filhos e Governo não se entendem e protagonizam mais uma patuscada

Postado em 14 de Novembro de 2019 - Ricardo Noblat (Veja), Josias de Souza (UOL), Leonardo Sakamoto (UOL) - Edição Semana On

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De duas, uma. Ou escapou à atenção do mais gigantesco sistema de segurança jamais montado em Brasília a ação de um grupo de venezuelanos que tomaram de assalto a embaixada do seu país a poucos quilômetros de distância do Palácio do Planalto, ou então eles contaram para isso com o apoio velado do governo brasileiro.

A segunda hipótese é a mais provável. A região central de Brasília está sob ocupação militar desde que desembarcaram na cidade os presidentes da China, Rússia, Índia e África do Sul, países que juntamente com o Brasil fazem parte do BRICS, o bloco das economias emergentes. Até o espaço aéreo foi interditado.

Para o governo de Jair Bolsonaro, quem preside a Venezuela é Juan Guaidó, o deputado venezuelano autoproclamado presidente do seu país, e não Nicolás Maduro que sucedeu a Hugo Chávez. E foram apoiadores de Guaidó que invadiram a embaixada criando um fato político de larga repercussão internacional.

Por algumas horas, o governo Bolsonaro silenciou diante do que acontecia. Foi tempo suficiente para que o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), o Zero Três do pai, presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, escrevesse no Twitter que a invasão se justificava plenamente.

Maluquice! Ou ignorância de quem se achava credenciado até outro dia para ser embaixador em Washington. O Brasil assinou todos os tratados onde consta que o espaço de uma embaixada é território estrangeiro. Uma extensão do país que aloja, ali, seus funcionários. A polícia só pode pôr os pés por lá se for chamada.

A ONU alertou o governo brasileiro para a gravidade do episódio. O chanceler do governo Maduro manifestou-se no mesmo sentido. Apesar do cerco policial à embaixada, militantes do Movimento de Trabalhadores Sem Teto (MTST) e deputados do PT conseguiram entrar para aumentar o salseiro.

Bolsonaro queria pôr Guaidó frente a frente com os chefes de Estado em visita ao Brasil – mas eles se recusaram. A Rússia e a China têm boas relações com Maduro. A Índia e a África do Sul não querem se meter em assuntos alheios. Depois de 13 horas, os invasores abandonaram a embaixada pelas portas do fundo. Política externa com viés ideológico dá nisso.

Casa da mãe Joana

Bolsonaro primeiro chamou de "invasão", depois trocou para "interferência de atores externos". Já seu governo soltou uma nota à imprensa envolvendo Guaidó para, depois, apagar o nome dele da responsabilidade. Publicações do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República e declarações do próprio presidente sobre a invasão da Embaixada da Venezuela, foram sendo trocadas sem que uma justificativa fosse dada por conta disso.

Na cada da casa da Mãe Joana que é a política externa brasileira, o presidente não via o caso como invasão, mas seu governo sim. Uma maneira de não desagradar boa parte de seus seguidores e nem alimentar celeuma na reunião dos Brics. Mesmo o termo "interferência de atores externos" pode se referir a partidários de Guaidó, a deputados da oposição que estão dentro da embaixada ou, no limite do cinismo, à própria equipe do governo de Maduro.

Pode ser que isso reflita uma discussão entre membros da cúpula militar e da ala olavista do governo a respeito da melhor estratégia. Ou que o presidente apoiava a invasão (como denunciam deputados da oposição), depois voltou atrás dada a repercussão negativa e a chance de troco na Embaixada brasileira em Caracas (como relatou Jamil Chade). Ou que ele resolveu amenizar a crítica por ter sido duro com o aliado Guaidó. Ou que resolveu mudar a linha para não parecer que ele e o filho Eduardo, que apoiou abertamente a ação, estão em campos opostos. Ou pode ser que queira ganhar tempo e deixar as coisas se resolverem por conta própria. Ou alguém do clã Bolsonaro fez bobagem e deve ficar sem presente neste Natal. Ou um estagiário será demitido.

Vamos às seis posições do presidente e de seu entrono e as mudanças até aqui:

1) Posição de Eduardo Bolsonaro no Twitter defendendo a ação dos partidários de Guaidó

"Nunca entendia essa situação. Se o Brasil reconhece Guaidó como presidente da Venezuela, por que a embaixadora Maria Teresa Belandria, indicada por ele, não estava fisicamente na embaixada? Ao que parece agora está sendo feito o certo, o justo."

2) Posição do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República através de nota pública

"O Presidente da República jamais tomou conhecimento e, muito menos, incentivou a invasão da Embaixada da Venezuela, por partidários do sr. Juan Guaidó."

3) Posição de Jair Bolsonaro no Facebook repudiando a "invasão"

"Repudiamos a invasão da Embaixada da Venezuela por pessoas estranhas à mesma. Já tomamos as medidas necessárias para resguardar a ordem, em conformidade com a Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas".

4) Reforço de posição de Eduardo Bolsonaro no Twitter defendendo que não foi invasão

"Embaixada da Venezuela mudou porque funcionários reconheceram Guaidó como presidente legítimo. Invasão é o que ocorre agora com os brasileiros esquerdistas querendo se intrometer na questão."

5) Nova posição de Jair Bolsonaro no Facebook e Twitter repudiando a "interferência"

"Diante dos eventos ocorridos na Embaixada da Venezuela, repudiamos a interferência de atores externos" e que "estamos tomando as medidas necessárias para resguardar a ordem pública e evitar atos de violência, em conformidade com a Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas". Ou seja, não usa o termo invasão.

6) Última do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República através de nota pública, removendo Guaidó

"O presidente da República jamais tomou conhecimento e, muito menos, incentivou a invasão da embaixada da Venezuela." O trecho "por partidários do sr. Juan Guaidó" foi excluído.

Brasília não é o lugar para Guaidó se estabelecer

Não é preciso recorrer a um grande esforço de reflexão para perceber que não havia para o governo brasileiro senão a opção de zelar para que a embaixada da Venezuela fosse restituída à equipe credenciada pelo governo Maduro.

Embora o governo de Jair Bolsonaro tenha reconhecido a legitimidade do autoproclamado presidente venezuelano, a presidência paralela de Guaidó é uma ficção. Quem controla o Estado na Venezuela, goste-se ou não, é o ditador Maduro. Ponto!

O Brasil é signatário da Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas. E deve prover às representações estrangeiras instaladas no país a mesma segurança que exige para as embaixadas do Brasil no exterior.

Tudo isso parece óbvio. Mas o óbvio, sob Bolsonaro, demora a ser reconhecido. Há sempre um filho empoleirado no caixote das redes sociais para problemar que o óbvio não é o óbvio. O deputado Eduardo Bolsonaro, o quase-embaixador, apressou-se em postar que a ocupação da embaixada da Venezuela por partidários de Guiadó é "o certo, o justo." Ai, ai, ai.

A manifestação destrambelhada do Zero Três forçou o Gabinete de Segurança Institucional, do general Augusto Heleno, e o próprio presidente a se manifestarem em sentido inverso. A demora em tomar providências deixou o governo brasileiro em posição constrangedora diante dos chefes de Estado dos países do Brics.

Preferências à parte, não é hora para brincadeiras. Num instante em que fervem as ruas do Chile, Equador e Bolívia, não convém ao Brasil permitir que grupos rivais da Venezuela transformem o Brasil em Casa da Mãe Joana. O local correto para que a presidência paralela de Juan Guaidó se converta em poder oficial é o Palácio de Miraflores, em Caracas, não o prédio da embaixada, em Brasília.


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