Semana On

Quinta-Feira 12.dez.2019

Ano VIII - Nº 374

Mundo

Como o golpe na Bolívia abriu caminho para um oportunista de extrema direita

Sojeiros brasileiros apoiaram movimento que derrubou Evo

Postado em 14 de Novembro de 2019 - Lucas Berti e Maurício Brum (The Itercept_Brasil), DW, Priscila Arroyo (De Olho nos Ruralistas), Lucas Vidigal (G1), O Globo - Edição Semana On

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Era difícil imaginar, apenas um mês atrás, que a Bolívia chegaria a meados de novembro com a segunda vice-presidente do Senado se autoproclamando chefe de Estado com uma Bíblia na mão e diante de um Congresso vazio. E que o poder, na prática, estaria entregue às mãos de militares e policiais. Já Evo Morales sequer está no país – após manobrar para atropelar a Constituição que ele mesmo promulgou e o resultado de um referendo popular que lhe negou a quarta candidatura consecutiva, o agora ex-presidente está no México como asilado político.

Deposto, Evo assistiu a milhares de quilômetros de distância de La Paz à adversária Jeanine Áñez assumir o país de forma provisória na terça-feira, 12, à noite, prometendo convocar novas eleições “o mais rápido possível” após a renúncia de toda a linha sucessória definida pela Constituição. O mais longevo presidente boliviano voara horas antes para o México, onde o presidente Andrés Manuel López Obrador lhe concedeu asilo diante das ameaças de morte que recebeu.

O governo de extrema-direita brasileiro rapidamente endossou a autoproclamação de Áñez. Já Evo e seu grupo político denunciam os novos capítulos de mais um golpe de estado na América Latina.

Entender como Evo passou de primeiro presidente indígena da história boliviana – com um legado de bons resultados econômicos, eleitores fiéis e uma inclinação tipicamente latino-americana a perpetuar-se no poder – a líder destituído e perseguido pode parecer um desafio à primeira vista. A situação boliviana se transformou rapidamente e tornou protagonistas líderes políticos que até outubro, na campanha eleitoral, estavam em segundo plano.

É o caso do líder oposicionista Luis Fernando Camacho, um empresário de Santa Cruz de la Sierra que surge como o “presidente moral” aos olhos da direita radical. Embora seja do mesmo partido de oposição, o Comitê Cívico, pouco tinha a ver com Carlos Mesa, candidato à presidência derrotado por Evo em 20 de outubro numa eleição com fortes suspeitas de fraude.

Mesa, penúltimo presidente boliviano antes de Evo assumir, em 2006, era um nome tradicionalmente associado à centro-esquerda e visto como defensor de um “evismo moderado”. Sua eventual passagem ao segundo turno, resultado mais provável além da vitória do próprio presidente, não trazia a mudança almejada pelo grupo conservador e ultrarreligioso de Camacho – mais próximo ideologicamente do pastor Chi Hyun Chung, coreano radicado em Santa Cruz de la Sierra, que ficou em terceiro lugar com menos de 9% dos votos.

“Dr. Chi” beneficiou-se de uma mudança constitucional de 2009 – comandada por Evo, interessado à época em disputar a reeleição – que eliminou a necessidade dos candidatos serem nascidos no país. Ele ficou conhecido por dizer que os incêndios na região amazônica seriam uma “punição divina” pela existência da população LGBT.

Conforme os protestos cresceram, o setor que ganhou mais força foi justamente o ultraconservador, que clamava por “nem Evo, nem Mesa”. Se vive na prática sob comando militar, hoje a Bolívia também tem “El Macho” Camacho como seu personagem político mais proeminente: um homem que não concorreu no pleito de 20 de outubro e, consequentemente, não teve um único voto em seu nome.

O 20 de outubro

No fatídico dia das eleições, os favoritos Evo Morales e Carlos Mesa protagonizavam o que parecia ser apenas mais uma disputa pela presidência. Mas não era só isso. Evo concorria graças a uma polêmica decisão do Tribunal Constitucional da Bolívia que, em 2017, lhe deu direito a buscar mais um mandato por entender que o limite às reeleições não incluía o primeiro mandato do presidente, anterior à Constituição de 2009.

A medida judicial foi o que restou após Evo fracassar na tentativa de aprovar num referendo popular em 2016 uma reforma constitucional que lhe permitisse concorrer a um novo mandato.

Apesar das críticas de que estaria tentando se eternizar no poder à revelia da lei, Evo Morales mantinha grande apoio. Num paralelo com a história do Brasil, a melhor figura para explicá-lo não é Luiz Inácio Lula da Silva, de quem é amigo, mas Getúlio Vargas, que modernizou a economia e criou um ferramentas de proteção a trabalhadores que sobrevivem até hoje mas não tinha grande apreço pela democracia.

Segundo todas as pesquisas, o único candidato capaz de ameaçar a quarta reeleição de Evo era Carlos Mesa. Os outros candidatos – inclusive o pastor Chung, fã de Bolsonaro – não tinham qualquer chance. A Bolívia caminhava, então, para algo entre a continuidade do Movimento ao Socialismo, o MAS, e a oposição de centro-esquerda do Comitê Cívico, o CC – guarde esta sigla.

Mesa deu a Evo a disputa mais acirrada de sua longa carreira eleitoral. Ele havia vencido as três últimas eleições no primeiro turno, o que parecia que não iria se repetir agora. Durante a maior parte da contagem dos votos impressos, feita em tempo real pelo sistema de Transmissão de Resultados Eleitorais Preliminares, Evo não abriu a vantagem necessária para vencer em primeiro turno – 50% dos votos mais um, ou ao menos 40%, desde que com dez pontos percentuais de diferença para o segundo colocado.

A apuração, no entanto, foi interrompida de forma repentina e sem grandes explicações na noite do domingo das eleições: àquela altura, com 83% dos votos contabilizados, Evo ainda não levava na primeira rodada. Quando a contagem voltou, no dia seguinte, a apuração estava 95% concluída e o mandatário já contava com a diferença necessária para triunfar. Ao fim, Evo Morales registraria 47,1% dos votos contra 36,5% de Carlos Mesa.

As acusações de fraude, que vinham desde antes da votação, ganharam peso com o misterioso sumiço e em seguida o salto dos números. Imediatamente, a violência tomou conta das ruas das principais cidades do país, com conflitos entre partidários de Evo e opositores, e ataques aos tribunais eleitorais regionais. As suspeitas de que algo estava errado aumentaram ainda mais após a renúncia do vice-presidente do tribunal eleitoral boliviano, Antonio Costa.

A Organização dos Estados Americanos mostrava-se preocupada e se reuniu dias depois com o ministro de Relações Exteriores de Evo, Diego Pary, para discutir o andamento das eleições. Motivado pelos protestos nas ruas, o adversário Carlos Mesa rejeitou a ajuda da OEA, dizendo-se favorável a um novo processo eleitoral.

Racismo e violência

O ponto de virada da tensão ocorreu ainda em 20 de outubro, em meio à paralisação da contagem de votos. Nas primeiras horas após o início dos tumultos, dezenas de pessoas ficaram feridas e pelo menos 27 prisões foram decretadas. O quadro seguiu se agravando nas semanas seguintes e, na madrugada de 31 de outubro, a onda de manifestações registrou também os seus primeiros mortos.

Foi em novembro, na última semana do governo Evo, porém, que a situação ganhou seus episódios mais dramáticos, com imagens que correram o mundo. Políticos, líderes sociais e mesmo jornalistas identificados de alguma forma com o governo passaram a ser abertamente perseguidos. José Aramayo, diretor da rádio ligada à Confederação de Trabalhadores Campesinos, foi amarrado em uma árvore e torturado por grupos ligados à oposição.

Em Vinto, cidade de 60 mil habitantes do departamento de Cochabamba, a prefeita Patricia Arce – indígena e correligionária de Evo – foi humilhada por um grupo de homens da oposição. Além dos insultos, Arce foi coberta com tinta vermelha, arrastada pelas ruas da cidade e teve os cabelos cortados à força. Ao estilo miliciano, a turba só parou quando a polícia chegou. Finalmente, no dia da queda do governo, os ataques chegaram também às casas de Evo e sua irmã, Ester Morales.

Em um país com 55% da população composta pelas etnias quéchuas e aimarás (a mesma de Evo), o racismo de setores radicais da oposição também é latente. Desde os primeiros dias dos protestos já havia imagens de manifestantes retirando e queimando a wiphala, bandeira que representa os povos indígenas dos Andes. Adotada como símbolo nacional boliviano durante o governo Evo Morales, a bandeira passou a ser associada ao próprio presidente e seu partido. Nos últimos dias, policiais de Santa Cruz de la Sierra – a “capital” da oposição radical – foram filmados recortando a wiphala que traziam em suas fardas.

Santa Cruz de la Sierra é a mais populosa e rica cidade da Bolívia, e concentra a elite branca de um país onde a maior parte da população é indígena. Numa comparação algo grosseira, está para a Bolívia como São Paulo para o Brasil. A resistência a Evo historicamente se concentrou em Santa Cruz de la Sierra. E era alimentada por racismo: os brancos que historicamente governaram a Bolívia nunca se conformaram em ver um indígena no comando do país. O presidente do Comitê Cívico Pró-Santa Cruz é Luis Fernando Camacho.

O 10 de novembro

Se o apoio da OEA inicialmente deu uma chance ao governo de se explicar à oposição, o relatório da organização caiu como uma bomba em um país já em convulsão. No último domingo, 10 de novembro, a entidade resolveu antecipar os resultados da auditoria por conta dos sérios indícios de irregularidade que afirma ter encontrado no processo, incluindo assinaturas falsificadas. A conclusão: “é estatisticamente improvável que Morales tenha obtido os 10% de diferença para evitar um segundo turno”.

A oposição já fervilhava, pedindo a renúncia do então presidente. Sem perder tempo, Evo respeitou a auditoria da OEA e anunciou que convocaria novas eleições sob a tutela de um tribunal eleitoral totalmente renovado. O gesto, um último esforço de pacificação, poderia ser suficiente para o lado mais moderado da oposição, mas àquela altura o país já estava corroído pelo radicalismo, com motins de policiais nas principais cidades. A proposta de Evo foi recebida com indignação pelo movimento liderado pelo ultraconservador Camacho.

Católico fervoroso e apelidado de “Macho” Camacho pelas falas misóginas e sexistas, o empresário nutre um ódio antigo por Evo Morales. Ainda que pertença nominalmente ao mesmo partido de Carlos Mesa, o radical de 40 anos está bem distante dos posicionamentos do candidato que apoiou. Membro da elite empresarial boliviana, é conhecido por andar com a Bíblia e evocar Deus em quase todos os seus atos públicos.

Camacho prometeu que a Bíblia voltaria ao Palácio Queimado e assim fez: chegou a estender o livro sobre a bandeira boliviana na sede do governo – agora desocupada – em La Paz, dizendo que “sua luta é com a fé”. O caráter messiânico de Camacho é forte, sobretudo em seu reduto anti-evista. Nas ruas de Santa Cruz de la Sierra, o opositor já é chamado de “presidente moral” por conta de seus valores conservadores.

Dias antes de o golpe se consumar, ele já havia dado um “ultimato” a Evo, prometendo tirar uma carta de renúncia do então presidente à força. Nos primeiros dias de novembro, além de Deus, clamava por uma ajuda das Forças Armadas para acabar de vez com a era Morales na política boliviana. Em 10 de novembro, o relatório da OEA deu margem para seu pedido ser ouvido.

Evo renunciou às 16h51 de La Paz, 17h51 de Brasília, no domingo, encerrando o mandato mais longo da história de seu país: 13 anos e 9 meses no cargo. Se tivesse a reeleição confirmada, ele permaneceria até 2025. Uma hora antes de sua fala, em que se dissevítima de “um golpe cívico-político-policial”, Evo havia ouvido o pronunciamento do general Williams Kaliman: as Forças Armadas “sugeriam” que o presidente deixasse o cargo para permitir “a pacificação” e a “manutenção da estabilidade” da Bolívia.

O futuro a Deus pertence?

Evo era o único presidente remanescente da “onda rosa” que esteve presente na posse de Jair Bolsonaro, em janeiro deste ano. Mesmo oposto à agenda de extrema direita do brasileiro, o líder boliviano sempre adotou uma postura pragmática. No entanto, a relação entre os dois vinha sofrendo desgastes, principalmente por conta dos incêndios na região amazônica. No auge das queimadas, Bolsonaro chegou a criticar Evo, sem citá-lo diretamente.

Pouco após a renúncia forçada de Evo, o chanceler Ernesto Araújo se precipitou em afirmar que “não houve golpe” e que Evo tomou “a atitude correta de renunciar diante do clamor popular”. Araújo, o mais bem acabado terraplanista que o Itamaraty já produziu, recebeu em maio passado uma comitiva de opositores a Evo que incluída Luis Fernando Camacho. Ele foi levado ao chanceler pela deputada federal Carla Zambelli, do PSL de São Paulo, para discutir a situação política de seu país. À época, era um nome relativamente obscuro mesmo dentro da Bolívia. Camacho pediu ao governo brasileiro apoio para denunciar a situação eleitoral de seu país na Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA. Em um vídeo, cita Evo Morales e o vice dele, Álvaro García Linera.

Derrubado o governo, a Bolívia ainda vive um grande vazio de poder, com a queda de sucessivas lideranças. A autoproclamação de Àñez, celebrada por Mesa e Camacho e denunciada por Evo, não será reconhecida pela oposição, trazendo um dilema internacional similar ao que vive a Venzuela com Juan Guaidó e Nicolás Maduro.

A posse de Áñez se baseia em uma decisão do Tribunal Constitucional. Segundo a corte, não haveria a necessidade de lei ou resolução do legislativo – que estava vazio no momento da autoproclamação. O tribunal justificou sua decisão “considerando a grave situação social e política pela qual o país está passando” e que “a operação do executivo regularmente não deve ser suspensa”, lançando mão para isso de um entendimento que data de 2001.

A presidente do tribunal eleitoral, María Eugenia Choque Quispe, foi presa, a exemplo de seu vice e outros 36 membros do tribunal. O comandante da polícia, Yuri Calderón, deixou o cargo, pressionado por todos os lados – foram precisamente os seus subordinados que levantaram armas contra o governo antes mesmo de o Exército se pronunciar. Por falta de garantias de segurança e ataques aos seus profissionais, pelo menos um jornal já deixou de circular.

Como a promessa de Áñez é de rapidamente convocar o povo às urnas, ainda não se sabe quem herdará a Bolívia pós-Evo Morales, que ainda deve estar entre os países latino-americanos de melhor desempenho econômico em 2019. O partido dele, o MAS, detinha a maioria absoluta do Congresso, mas a chuva de renúncias e ameaças indica não haver clima para que seus membros continuem legislando. Os parlamentares sequer puderam acompanhar o juramento da senadora. Pela Constituição, novas eleições presidenciais devem obrigatoriamente ser convocadas em até 90 dias a partir do último domingo.

E agora? 

O que acontecerá daqui para a frente, no entanto, é incerto. Apoiadores de Evo Morales garantem uma reação aos episódios de violência da última semana e têm ido às ruas aos gritos de “guerra civil”. Não seria exatamente uma novidade na história latino-americana que os militares começassem com o que anunciavam como uma intervenção pontual e seguissem por tempo indeterminado para “manter a ordem”.

Apesar da posse polêmica da terça-feira, neste momento, o homem mais poderoso da Bolívia é o general Williams Kaliman, responsável pelas Forças Armadas e que garantiu a união com os policiais para “velar pela segurança dos cidadãos”.

Se os militares saírem de cena e permitirem novas eleições no prazo previsto em lei, abre-se também o questionamento de qual caminho será viável pelas urnas na Bolívia radicalizada e com o MAS fustigado pelas milícias de oposição. Ainda haverá espaço para Carlos Mesa, o candidato mais votado abaixo de Evo? Ele terá que abandonar o discurso relativamente moderado que manteve nas eleições originais e se associar aos setores ultraconservadores e religiosos?

Talvez, pouco mais de três semanas após o pleito anulado, Mesa já seja assunto do passado e o “Bolsonaro boliviano” acabe vestindo a faixa presidencial. Luis Fernando Camacho, que sitiou Santa Cruz de La Sierranunca falou abertamente sobre uma candidatura, mas emerge como o nome mais provável para aproveitar a onda conservadora que ganhou força no país vizinho. De todo modo, com Áñez ou Camacho, “a Bíblia volta ao Palácio”.

OEA dividida

A Organização dos Estados Americanos (OEA) se dividiu no último dia 12 entre os países que, liderados pelos EUA, pedem para que a página seja virada na crise da Bolívia e os que reivindicam uma condenação contundente do que chamam de "golpe de Estado" que forçou a renúncia de Evo Morales.

A sessão extraordinária da Comissão Permanente da OEA em Washington, convocada para discutir a crise na Bolívia, se tornou cenário de uma disputa sobre se ocorreu ou não um golpe de Estado no país sul-americano.

No duelo de críticas e declarações grandiloquentes, os Estados reiteraram suas posições, divulgaram declarações similares de dois grupos de nações, mas não conseguiram votar para aprovar uma resolução conjunta – documento vinculativo expressando a posição do órgão.

O Brasil se alinhou aos EUA, rejeitando a tese de que estaria em curso um golpe contra Evo Morales e formando um grupo de 15 nações – dos 34 membros ativos da OEA – a apoiar uma declaração pedindo a convocação de eleições na Bolívia "o mais rápido possível". Enquanto isso, México, Uruguai e Nicarágua alertaram para o perigoso precedente aberto por um "golpe de Estado" contra Morales.

A declaração dos 15 Estados apela "para que a definição da presidência provisória seja realizada com urgência" e para que "se dê início ao processo de convocação de eleições o mais rápido possível", sem entretanto entrar no mérito sobre se houve ou não um golpe, já que países como Chile e Peru foram contrários à adotação de uma posição mais contundente.

O texto foi apoiado por Argentina, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, EUA, Guatemala, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Venezuela – este último, representado pelos delegados da líder da oposição Juan Guaidó.

No documento, eles reconhecem o trabalho "profissional" dos enviados da OEA, que auditaram os resultados de 20 de outubro e detectaram irregularidades "muito graves" – incluindo manipulação no sistema informático de transmissão e computação de resultados, falsificação de atas, número inflado de eleitores bolivianos na Argentina.

O embaixador brasileiro na OEA, Fernando Simas, afirmou que Morales deixou o poder "unicamente em resposta ao clamor popular" após "fraude" e "estelionato eleitoral" nas eleições de 20 de outubro. Os mesmos termos foram usados pelo embaixador do governo americano presente no encontro.

"O governo brasileiro rejeita inteiramente a tese de que estaria em curso um golpe na Bolívia. A tentativa despudorada de fraude eleitoral maciça deslegitimou ainda mais a figura de Evo Morales, que renunciou unicamente em resposta ao clamor popular", ressaltou Simas, citado pelo jornal Folha de S.Paulo.

A palavra "unicamente" não constava na versão oficial do discurso, tendo sida acrescentada pelo diplomata durante a leitura do texto, segundo reportagem da Folha.

"Rejeitamos a declaração ridícula de que a invalidação dos resultados fraudulentos das eleições é de alguma forma um golpe", disse Carlos Trujillo, embaixador dos EUA na OEA, em resposta aos que responsabilizam o bloco hemisférico pela crise na Bolívia. "Se houve alguma ameaça à democracia, esta foi a do governo liderado pelo ex-presidente Morales", acrescentou.

Diante das críticas a Morales, a embaixadora mexicana na OEA, Luz Elena Baños, defendeu a posição contrária e expressou sua consternação com o que considera "uma grave violação da ordem constitucional através e um golpe de Estado".

Já a representante da Bolívia, Tania Paz, criticou o papel do secretário-geral da OEA, Luis Almagro. Paz ocupou o assento destinado à Bolívia depois que José Alberto Gonzales, embaixador do país andino na organização, apresentou sua renúncia "irrevogável", sem divulgar os motivos de sua saída.

Almagro protagonizou um dos momentos mais tensos do Conselho Permanente, quando afirmou que quem cometeu um "golpe de Estado" na Bolívia foi Morales, a quem acusou de tentar "roubar" as eleições do dia 20 de outubro, quando foi declarado vencedor no primeiro turno.

"O sangue nas mãos é daqueles que cometeram a fraude eleitoral, a OEA não deu um golpe de Estado, deram um golpe de Estado aqueles que roubaram eleição, declarando vitória no primeiro turno", disse Almagro.

As declarações revelam uma mudança de posição de Almagro, que até então havia evitado criticar abertamente Morales pelas eleições e que havia apoiado seu direito à reeleição, apesar de o líder indígena ter perdido um referendo em 2016 para se qualificar para o quarto mandato – o que acabou conseguindo, depois de receber o aval do Tribunal Constitucional da Bolívia.

O embaixador do Uruguai, Hugo Cayrus Maurin, apoiou os argumentos do México e considerou que o que aconteceu na Bolívia foi "um golpe de Estado civil, político e militar".

Nicarágua e Antígua e Barbuda também se juntaram ao México e ao Uruguai, apontando as Forças Armadas como responsáveis ​​por uma "ruptura" da ordem constitucional na Bolívia.

Outra declaração divulgada no encontro reuniu 11 países, sobretudo do Caribe, que se mostraram cautelosos, pediram "eleições sem demora" na Bolívia e expressaram seu apoio ao princípio de "não intervenção", mas sem falar em um ataque contra Morales.

"Estamos muito preocupados com o que está acontecendo na Bolívia, rejeitamos toda a violência, independentemente de sua origem", disse o embaixador de Santa Lúcia, Anton E. Edmunds, que leu uma declaração em nome de seu país e das outras dez nações (Bahamas, Barbados, Belize, Dominica, Granada, Guiana, Jamaica, São Cristóvão e Névis, Suriname e Trinidad e Tobago).

Sojeiros brasileiros

A participação das Forças Armadas no golpe que impôs a renúncia de Evo Morales foi incisiva. A ponto de eclipsar o apoio histórico dos latifundiários ao grupo de opositores do líder boliviano. Entre esses proprietários de terra estão os brasileiros, que começaram a cultivar soja no começo da década de 90 no leste do país — região liderada pelo município de Santa Cruz de La Sierra, berço político de Luis Fernando Camacho. Eles respondem por 35% da produção anual da oleaginosa na Bolívia, de 2,4 milhões de toneladas.

Os sojeiros participam ativamente das estratégias de entidades que defendem o interesse dos ruralistas na Bolívia, em oposição às políticas de Evo Morales e de seu partido, o Movimiento al Socialismo (MAS). “O leste foi historicamente um foco de resistência às políticas do Evo”, diz Tomaz Paoliello, professor de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica em São Paulo (PUC-SP). “Os representantes do campo que o apoiam são os pequenos produtores da região oeste, reunidos na cidade de Cochabamba e no seu entorno”.

Uma das principais frentes defendidas por Evo Morales — agora em exílio no México — foi a política de acesso à terra aos camponeses e o controle da exportação de alimentos, o que sempre foi visto pelos latifundiários como uma ameaça.

Por isso a queda do governo não surpreendeu Jose Guilherme Gomes dos Reis, paraense naturalizado boliviano que há quase três décadas administra 6,5 mil hectares de lavouras de soja na região de Santa Cruz de La Sierra, a mais rica do país. Em entrevista ao jornal gaúcho Zero Hora, Reis afirmou que Morales estava “virando um ditador”. “Se houve golpe, foi a fraude eleitoral do Evo”, afirmou.

Gomes dos Reis participa ativamente da política agrícola do país como um dos 13 diretores da Associação Nacional dos Produtores de Oleaginosas e Trigo (Anapo), uma das principais entidades que defendem os interesses dos ruralistas na Bolívia. Outros dois fazendeiros brasileiros com terras na região — o mineiro Roberto Zacarias Valle e o paranaense Elmo Sanches Flumignan — compõem a diretoria e ilustram a foto oficial (eles são o terceiro, o quinto e o sétimo, em pé, da esquerda para a direita) da Anapo.

A associação dos sojeiros apoia há pelo menos 20 anos o Comitê Cívico pró-Santa Cruz, hoje liderado por Camacho, figura mais eloquente do golpe. No dia 8, antes da queda de Evo Morales, representantes das duas organizações e a Câmara Agropecuária do Oriente participaram de um protesto contra o que consideraram “ameaça de confisco às propriedades privadas”.

Esse suporte da Anapo pode ser traduzido em cifras, como a doação de US$ 50 mil que a entidade fez para o Comitê em 2005. A maior parte desse dinheiro saiu dos produtores de soja brasileiros. Essa relação se estreitou em 2007, no segundo ano da administração de Morales, quando o governo orquestrava a implementação de uma nova Constituição para, entre outros itens, garantir os direitos dos indígenas.

Os latifundiários, especialmente os estrangeiros, se sentiram ameaçados de perder suas terras com a efetivação de uma reforma agrária que estava sendo discutida na Constituinte e passaram a apoiar a campanha do Comitê Cívico para que Santa Cruz fosse administrada com regras próprias, por meio de regras departamentais.

Essa ideia não avançou e os sojeiros mantiveram suas propriedades, mesmo com a promulgação da Carta Magna. Ainda assim, a proximidade estabelecida entre os grupos se conservou. Em 2015, o então presidente do Comitê pro Santa Cruz, Roger Montenegro Leite, o antecessor de Camacho, participou da posse da nova diretoria da Anapo.

“Eles sempre defenderam o neoliberalismo e têm como principal objetivo estabelecer tratados de livre comércio”, diz Hector Mondragón, assessor das organizações indígenas e campesinas da Colômbia. Com a queda de Morales, a flexibilização nas regras para exportação de soja, uma das principais bandeiras defendidas pelos ruralistas, fica mais perto de ser concretizada.

Como a política do líder indígena considerava a produção agrícola como fonte de alimentos, e não de commodities, o governo limitava a exportação de grãos para manter estável o preço interno dos grãos. Ainda assim, em maio, Morales havia cedido e liberado para exportação 60% da soja produzida. Mas os ruralistas continuaram a defender o escoamento de toda a produção.

“É um movimento incentivado pelos produtores brasileiros, que querem exportar de lá usando as mesmas rotas do Mato Grosso, com destino à China”, diz Paoliello. “Trata-se de uma réplica da dinâmica implementada também no Paraguai”. Junto com o afastamento de Evo Morales, caíram as barreiras para que tal plano seja colocado em prática.

Protestos continuam

Milhares de camponeses e indígenas de diversas províncias do departamento de La Paz protestaram na quinta-feira (15), na cidade homônima contra o governo da presidente interina da Bolívia, Jeanine Áñez, e para reivindicar a wiphala, a bandeira de comunidades indígenas e símbolo do país.

Os manifestantes também declararam como “persona non grata” o ex-presidente Carlos Mesa e os líderes cívicos Luis Fernando Camacho, de Santa Cruz, e Marco Antonio Pumari, de Potosí, entre outros opositores de Evo Morales, que renunciou à presidência no domingo passado.

Em uma praça no centro de La Paz, membros da organização de povos indígenas bolivianos Conselho Nacional de Ayllus e Markas del Qullasuyu (Conamaq) entregaram uma declaração ao ministro interino da Presidência, Jerjes Justiniano, na qual pedem atos de reparação à wiphala.

Justiniano recebeu as reivindicações e disse aos manifestantes que sente muito pelos ultrajes à bandeira wiphala porque “esta não foi a vontade da população”. O ministro prometeu que o governo interino “buscará mecanismos de reparação”.

“Muita gente confundiu a wiphala com um partido político, mas a wiphala não é símbolo de um partido político, foi apropriada, lamentavelmente”, o que “precisa ser reparado”, disse o ministro, em referência ao Movimento ao Socialismo, partido de Morales.

A Bolivia está imersa em uma crise desde as eleições, com protestos inicialmente organizados contra Evo Morales por denúncias de fraude para ser reeleito para o quarto mandato consecutivo. Morales renunciou à presidência e, no dia seguinte, viajou ao México, onde recebeu asilo. Desde então, apoiadores do ex-presidente têm realizado protestos contra o governo interino.

Segundo dados oficiais, os distúrbios derivados das manifestações já deixaram 12 mortos, 508 feridos e provocaram 460 detenções em 25 dias.

Congressistas de esquerda condenam o golpe e mantém reconhecimento a Evo como presidente

Depois de empossar o socialista Sergio Choque como novo presidente da Câmara dos Deputados, os deputados e senadores presentes na Assembleia Nacional da Bolívia aprovaram uma determinação na que registraram o repúdio do Poder Legislativo ao golpe de Estado.

Na mesma ação, os congressistas afirmaram desconhecer a autoridade da senadora Jeanine Ánez como presidenta do país. No último dia 12 ela se autoproclamou ao cargo, afirmando ser a quinta na linha de sucessão, após as seguidas renúncias de Evo Morales (presidente), Álvaro García Linera (vice-presidente), Adriana Salvatierra (presidenta do Senado) e Víctor Borda (presidente da Câmara). Vale lembrar que esses quatro foram ameaçados pelos comandantes militares do país, e forçados a renunciar.

Os congressistas que participaram da iniciativa são integrantes do MAS (Movimento ao Socialismo), o partido de Evo Morales. Eles também afirmaram que não aceitarão as renúncias de Evo e do vice-presidente Álvaro García Linera.

Em entrevista para o canal venezuelano TeleSur, o novo presidente da Câmara, Sergio Choque, afirmou que: “as figuram que se alçaram como autoridades após o golpe não têm legitimidade para organizar as eleições, nem para apaziguar o país”.

A declaração dos parlamentares não significa o fim do golpe de Estado na Bolívia, mas também mostra que os golpistas ainda não se consolidaram no poder. A situação política no país continua dentro de um impasse, que não parece que será resolvido em um curto prazo.

ONU envia missão

Em meio ao clima de confronto, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, anunciou o envio de um emissário especial ao país , com o objetivo de “encontrar uma resolução pacífica para a crise, incluindo através de eleições transparentes, inclusivas e confiáveis”.

O enviado especial é o francês Jean Arnault, ex-chefe da missão da ONU na Colômbia. Arnault também atuou como representante especial do secretário para Geórgia, Afeganistão, Burundi e Guatemala. O porta-voz Stéphane Dujarric disse que Guterres está “profundamente preocupado com os acontecimentos na Bolívia”.

Entenda o que é a wiphala e como a questão indígena na Bolívia acirrou a crise política no país

De um lado, apoiadores de Evo Morales empunham as sete cores da wiphala para protestar contra a queda do ex-presidente. Do outro, os oposicionistas adotam o vermelho-amarelo-verde da bandeira da Bolívia nas manifestações de apoio ao movimento que derrubou 14 anos do governo do antigo líder cocaleiro.

A wiphala se tornou símbolo da divisão da sociedade boliviana desde as denúncias de fraude eleitoral no pleito que daria a Evo um quarto mandato consecutivo. Isso porque imagens da bandeira quadriculada queimada ou retirada de braceletes de policiais viralizaram nas redes.

Professores explicam como a wiphala, bandeira de origem indígena, expõe as divisões sofridas pela Bolívia nos últimos anos e que culminaram na queda de Evo e na proclamação da senadora Jeanine Áñez como presidente interina boliviana.

Veja abaixo perguntas e respostas.

O que é a Wiphala?

A wiphala é uma bandeira representada com padrões quadriculados com sete cores: amarelo, laranja, vermelho, violeta, azul, verde e branco. Na constituição promulgada por Evo em 2009, o símbolo foi incluído entre os oficiais da Bolívia, ao lado da bandeira nacional e outros ícones.

De acordo com o antropólogo Salvador Schavelzon, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a wiphala representa os povos dos Andes não só da Bolívia, mas também de etnias que vivem até hoje em outros países sul-americanos como Peru, Equador e Argentina.

Qual a importância da wiphala na Bolívia?

A Constituição de 2009 incluiu o reconhecimento às 36 nacionalidades bolivianas – tanto que o país recebeu o nome de Estado Plurinacional da Bolívia naquele ano. Além disso, mais de 60% dos bolivianos se reconhecem indígenas.

Os povos dos Andes, sobretudo os quéchuas e aimarás, representam quase dois terços desse grupo. A bandeira wiphala, de origem no Altiplano boliviano, surgiu como representação dos indígenas que, desde a independência, não tinham representação.

Antonio Jorge Ramalho, professor de relações internacionais da Universidade de Brasília (UnB), explica que os grupos étnicos viram na wiphala o símbolo da representação indígena no Estado.

"Ela representa esse reconhecimento pela sociedade boliviana do direito de existir como cidadão", afirma.

"A Bolívia chegou a ter presidentes que mal falavam espanhol – e sim quase exclusivamente inglês. A população não se sentia representada", acrescentou, em referência a Gonzalo Sánchez de Lozada, que governou o país entre 1993 e 1997 e entre 2002 e 2003.

Como a questão indígena acirrou a crise?

Eleito pela primeira vez em 2005, Evo se declara integrante da origem aimará. Além disso, o ex-presidente ganhou notoriedade em Chimoré, no altiplano boliviano, ao representar os cocaleiros – camponeses indígenas que trabalhavam na região produtora de coca.

A constituição promulgada em 2009 e apoiada por Evo incluiu a denominação "Estado Plurinacional" e oficializou a wiphala e a flor de patujú como símbolos oficiais da Bolívia, ao lado da bandeira.

À medida em que Evo perdeu apoio – sobretudo por driblar a constituição para estender o mandato e por se manter ao lado do regime de Nicolás Maduro na Venezuela –, aumentou a rejeição aos símbolos indígenas. Entre eles, a wiphala.

Os conflitos recentes evidenciaram a questão étnica na Bolívia, explica o professor Ramalho, da UnB. Os símbolos cristãos passaram a representar também a oposição a Evo, sobretudo quando as igrejas se aproximaram de uma parcela descontente da população – inclusive indígenas – e se fortaleceram.

"Além do crescimento do neopentecostalismo, o catolicismo voltou à tona na Bolívia. É uma força que cresce na periferia das grandes cidades", afirma.

Isso ficou evidente, segundo ele, quando Jeanine Áñez tomou posse como presidente interina da Bolívia com uma bíblia em mãos. Além disso, o líder oposicionista Luis Camacho entrou na sede presidencial com o mesmo livro sagrado.

Embora cada vez menos evidente, as regiões bolivianas apresentam diferenças quanto ao apoio a Evo ou à oposição liderada por Camacho e Áñez.

De acordo com o antropólogo Salvador Schavelzon, da Unifesp, a Bolívia passou por um processo de urbanização que integrou aimarás e quéchuas aos brancos e mestiços de grandes centros urbanos – principalmente Santa Cruz de La Sierra, cidade mais industrializada do país. Lá, o choque cultural se traduziu em conflitos mais intensos entre os grupos étnicos.

"Há uma parte da população de Santa Cruz com posições racistas e até mesmo pretensões separatistas", aponta Schavelzon.

A questionada apuração das eleições de outubro apontou que Evo teve o pior desempenho justamente em Santa Cruz: 34,76% dos votos contra 46,85% de Carlos Mesa. Em Cochabamba, o ex-presidente teria obtido 57,52% dos votos – vale lembrar que a Organização dos Estados Americanos (OEA) apontou indícios de fraude na votação. Veja o mapa abaixo.

Schavelzon ressalta, ainda, que nem todos os grupos indígenas apoiaram Evo nesta crise. Há questões mais localizadas, como disputas por recursos naturais, que definiram os apoios entre o ex-presidente e a oposição.

"Evo perdeu apoio em Potosí, por exemplo, que também fica na região andina. E ele não tem obtido respaldo dos indígenas das terras baixas nesta crise", aponta.


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