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Sábado 14.dez.2019

Ano VIII - Nº 375

Coluna

Re-existir na Res Pública

O grito de Deodoro da Fonseca vai se apagando, sobreposto pela nova ordem que grita: “Viva o Mercado, Sobreviva quem puder”

Postado em 13 de Novembro de 2019 - Ricardo Moebus

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15 de novembro de 1889.

Exatos cem anos depois da “Inconfidência Mineira” era proclamada a República dos Estados Unidos do Brasil pelo militar Deodoro da Fonseca.

O episódio desta proclamação pelo Marechal Deodoro da Fonseca também é conhecido como “Golpe Militar de 15 de novembro de 1889”.

Ou seja, a república já começou por um golpe militar.

O segundo presidente foi o militar Floriano Peixoto.

Em 1910 assumiria a presidência o militar Hermes da Fonseca, sobrinho do Deodoro da Fonseca, o “proclamador”.

Em 1930 os militares assumem o governo, primeiro uma junta militar, logo em seguida o militar Getúlio Vargas, ficando por 15 anos no poder.

Em 1946 entra o militar Eurico Gastar Dutra.

Em 1951 volta o militar Getúlio Vargas.

Em 1856 assume o oficial da Polícia Militar Juscelino Kubitscheck.

Em 1964 começa a longa noite da Ditadura Militar, com generais presidentes militares até março de 1985.

Passados 130 anos estamos aí, com um presidente capitão reformado do exército brasileiro, um vice-presidente general, um ministério com mais militares do que nos tempos da ditadura militar escancarada.

Uma presença militar tão evidente, constante e persistente nesta história da República Brasileira, nesta formação contínua de um Estado Brasileiro, só torna mais absurda a ideia de que algum militar viria supostamente para “moralizar” ou “botar ordem na casa” ou para “combater a corrupção”.

Uma constatação fica evidente, os militares participaram e continuam participando ativamente desta composição, desta configuração do que é o Estado Brasileiro. A República Brasileira.

República, “res publica”, expressão latina que significa “coisa do povo” ou “coisa pública”, em oposição à propriedade privada.

República que seria fundamentada pela “multitude”, variedade de pessoas e interesses, pelo bem comum, “communion”, pelo consenso de direito, ou pelo Estado de Direito, “consensus iuris”.

É preciso constatar como a cada dia essa ideia de “República” parece mais distante para todos nós.

Vivemos uma desregulação cada vez maior do “Mercado”, uma desconstrução a cada dia dos processos e mecanismos de exercício do Estado, regulação, amparo, assistência, direitos, cidadania. Tudo isso vai virando poeira diante dos nossos olhos.

Desfinanciamento de tudo que é público é a “ordem do dia” neste quartel.

Desconstrução da saúde pública, da educação pública, da assistência pública, da segurança pública, da previdência pública, das empresas públicas, dos bancos públicos, da defesa pública do meio ambiente, da justiça pública, do seguro obrigatório.

Depois de 130 anos de República, para re-existir a cada dia os singulares e coletivos buscam sustentar suas formas de vida, trabalho, diversão, saúde, educação, cultura, apesar do ataque constante, do desmanche orquestrado da “coisa pública”.

Vale lembrar alguns manifestos que circulam, apontando a re-existência que persiste, enfrentando todas as circunstâncias no dia a dia, na vida comum micropolítica, como o filme brasileiro “Bacurau”, ou “A Odisseia dos Tontos”, um verdadeiro “bacurau” argentino, ou também “Papicha” em Argél.

Neste 15 de novembro parece preciso dizer que uma “República” fundada na promessa de uma “Res Pública”, uma “Responsabilidade Pública”, torna-se a cada dia mais improvável, “desmancha no ar” com a solidez de um castelo de areia.

Os emissários e baluartes deste desmanche não páram de anunciar a nova ordem: o Mercado é o novo Soberano.

O grito de Deodoro da Fonseca em 1889: “Viva a República”, vai se apagando, sobreposto pela nova ordem que grita: “Viva o Mercado, Sobreviva quem puder”.


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