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Domingo 17.nov.2019

Ano VIII - Nº 372

Artigo da semana

A democracia entra em campo

Em plena ditadura, experiência no Corinthians desafiou militares e reforçou a importância da democracia

Postado em 08 de Novembro de 2019 - Rogério Barros Pinto

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No início da década de 1980, o Corinthians protagonizou o maior movimento político da história do esporte brasileiro. Um grupo de dirigentes e jogadores, liderado por Sócrates e Wladimir, implementou uma gestão revolucionária no clube e ainda contribuiu na luta pela redemocratização do Brasil. O movimento ficou conhecido como Democracia Corintiana.

Enquanto o Brasil ainda vivia sob a ditadura militar (1964-1985), o clube mais popular de São Paulo experimentou um período de democracia inédito no meio esportivo, notório por sua estrutura conservadora e hierarquizada. Tudo no Corinthians passou a ser decidido em votações. Desde a contratação e dispensa de jogadores, necessidade ou não de concentração, o valor da premiação para os atletas e até a escalação do time. O voto de todos os funcionários, do roupeiro ao presidente, e de todos os jogadores, titulares ou reservas, tinha o mesmo peso.

“Tudo o que dizia respeito ao grupo ia a voto. Se fosse colocado na mesa ‘tal companheiro deve ou não sair do grupo’, a gente votava. Tudo era votado sem nenhuma máscara. Isso também acontecia com as contratações… Qualquer um podia apresentar um assunto para votação. Quando viajar? A que horas viajar? Onde concentrar? Discutir e votar era quase um vício”, afirmou Sócrates no livro “Democracia Corintiana – A utopia em jogo”.

Sócrates, que faleceu em dezembro de 2011, foi o grande mentor do movimento. Formado em medicina e ligado à esquerda, o craque corintiano era um defensor implacável da maior participação dos atletas nas decisões do clube, nas melhorias das relações trabalhistas e também da luta pelo fim da ditadura no Brasil. Wladimir, Casagrande, Zenon, Zé Maria, Juninho, Paulinho e Ataliba foram outras figuras de destaques no movimento. 

Início da mudança

O clima do Corinthians no início dos anos de 1980 era propício para uma mudança radical em sua estrutura. O clube vivia má fase dentro de campo, sem conseguir títulos, e vinha desgastado por quase dez anos de mandato do presidente Vicente Matheus (1908-1997), dirigente centralizador e folclórico do clube.

O primeiro passo para a mudança foi a vitória de Waldemar Pires na eleição para presidente do Corinthians no dia 9 de abril de 1981. O novo presidente, que tinha Vicente Matheus como vice, rompeu com o antigo aliado meses depois e teve espaço para iniciar uma descentralização de poder no clube. A escolha do sociólogo Adílson Monteiro Alves como diretor de futebol também pesou no processo. Sem experiência no meio do futebol, o sociólogo decidiu ouvir os jogadores antes de tomar as decisões.

O técnico Mário Travaglini, mais aberto ao diálogo, foi outra peça fundamental para a consolidação da Democracia Corintiana, assim como a presença de jogadores politizados no elenco.

Com o lema “liberdade com responsabilidade”, a experiência inovadora rendeu frutos dentro de campo. Depois de dois anos sem taça, o Corinthians conquistou os títulos do Campeonato Paulista de 1982 e 1983. Nas duas edições, o alvinegro venceu o rival São Paulo nas finais.

O bicampeonato estadual teve Sócrates e Casagrande como grandes craques. Enquanto o Doutor era o maestro do meio de campo, o jovem atacante se firmou como o artilheiro do time. Rebelde e contestador, Casagrande se encaixou bem no ambiente do alvinegro paulista.   

A experiência política do clube não se restringiu aos muros do Parque São Jorge. Os jogadores e o clube também participaram ativamente da campanha das Diretas Já, movimento civil que reivindicava a volta das eleições diretas para presidente da República após quase duas décadas de ditadura militar.

Após a liberação da publicidade nos uniformes de futebol, o Corinthians passou a utilizar sua camisa para um fim mais nobre. O clube estampou mensagens políticas em 1982 e 1983 durante suas partidas. “Eu quero votar para presidente”, “Democracia Corintiana”, e “Dia 15 vote” [incentivando o voto para a eleição de governador em 1982] foram algumas mensagens que os atletas usaram em suas camisas. O publicitário Washington Olivetto foi convidado pela diretoria e colaborou com o clube naquele período.

Os jogadores também entravam em campo com uma faixa com os dizeres “Ganhar ou perder, mas sempre com democracia”. Vários atletas participaram de comícios, caminhadas e debates em São Paulo em favor das Diretas Já.

O movimento corintiano provocou reação da ditadura. O brigadeiro Jerônimo Bastos, presidente do Conselho Nacional de Desportos (CDN) à época, chegou a se reunir com integrantes da diretoria do clube para exigir uma moderação. A pressão, porém, não surtiu efeito e a Democracia Corintiana resistiu.

Dentro de campo, também havia oposição. O goleiro Leão, que chegou ao clube mais tarde, não era um entusiasta do movimento e se envolveu em discussões públicas com os líderes do grupo. Os opositores afirmavam que o excesso de liberdade gerava uma bagunça generalizada, com exagero dos atletas com bebidas alcoólicas e noitadas.

O auge do poder dos jogadores foi em março de 1983. Prestes a se aposentar, o lateral Zé Maria foi escolhido pelos jogadores para substituir o técnico Mário Travaglini no comando da equipe. A diretoria, mais uma vez, respeitou a vontade da maioria. O ex-lateral ficou no cargo por apenas dois meses.

Diretas Já se espalha pelo país

Em meio ao avanço da democracia dentro do Corinthians, o movimento das Diretas Já ganhava cada vez mais força na sociedade civil. A má situação da economia, com inflação em alta, salários baixos e desemprego crescente, enfraquecia ainda mais os militares. Dezenas de cidades espalhadas pelo país organizaram manifestações pelo retorno do voto popular.           

O maior evento das Diretas Já foi o grande comício no Vale do Anhangabaú, no centro de São Paulo, no dia 16 de abril de 1984. Mais de 1,5 milhão de pessoas participaram. Representantes de diferentes esferas da sociedade estavam presentes. Políticos como Lula, Fernando Henrique Cardoso, Ulysses Guimarães e Tancredo Neves, dividiram o palanque com religiosos, atletas, intelectuais e artistas, como Chico Buarque, Fernanda Montenegro e Fafá de Belém. A Democracia Corintiana também estava lá.

Durante o comício, Sócrates prometeu à multidão que iria deixar o Brasil se a emenda constitucional Dante de Oliveira, que previa a volta das eleições diretas para presidente, não fosse aprovada pelo Congresso Nacional. A votação ocorreria nove dias depois. 

A votação no Congresso, no entanto, frustrou os milhões de brasileiros que saíram às ruas pela volta da democracia. A emenda Dante de Oliveira foi rejeitada pela Câmara na noite de 25 de abril de 1984. O texto precisava da aprovação de 2/3 dos deputados para seguir para o Senado. Foram 298 votos a favor, 65 contra e três abstenções. Faltaram 22 votos para a emenda passar. Por pressão dos militares, 112 deputados não compareceram ao plenário para votar.    

A eleição popular para presidente ainda demoraria mais cinco anos para voltar ao Brasil. Ficou decidido que a eleição de 1985 seria indireta. O oposicionista Tancredo Neves venceu Paulo Maluf no pleito. Tancredo, no entanto, morreu antes de assumir o cargo. Seu vice José Sarney foi quem se tornou presidente e fez a transição durante a redemocratização.   

Após a derrota da Diretas Já no Congresso, Sócrates cumpriu sua promessa e deixou o Corinthians em junho de 1984. O craque tinha propostas de vários clubes europeus e optou pela Fiorentina, da Itália.

"A emenda não passou e eu me senti, além de absolutamente frustrado e chocado, comprometido a ir embora. Era a minha palavra em nome de um ideal. Eu sabia que perderia muito com a saída do Corinthians, mas era a forma de eu defender o meu discurso. Era aquela coisa de paixão por aquilo em que eu acredito. Se a emenda fosse aprovada, eu teria ficado aqui com certeza", afirmou Sócrates.

A saída do líder enfraqueceu muito a Democracia Corintiana. Sem a força de Sócrates e a piora do rendimento dentro de campo, os jogadores viram seu poder diminuir a cada dia. Neste mesmo período, Casagrande foi emprestado ao São Paulo.   

O golpe final no movimento foi a derrota da situação nas eleições no Parque São Jorge. O diretor de futebol Adílson Monteiro Alves foi o candidato de Pires para sua sucessão. Mas o oposicionista Roberto Pasqua (1920-1995) acabou vencendo o pleito, no dia 1º de abril de 1985, por 162 votos dos conselheiros contra 130 para Monteiro. A eleição foi marcada por denúncias de irregularidades.

Era o fim da Democracia Corintiana. O movimento, contudo, já tinha entrado para a história pelo exemplo de que esporte e política podem andar lado a lado.  

“Conseguimos provar ao público que qualquer sociedade pode e deve ser igualitária. Que podemos abrir mão de nossos poderes e/ou privilégios em prol do bem comum... Que a opressão não é imbatível. Que a união é fundamental para ultrapassar obstáculos indigestos. Que mesmo as dificuldades nos são potentes professoras. Que o convívio com pessoas que pensam e agem de forma absolutamente fascista não é possível. Que uma comunidade só frutifica se respeitar a vontade da maioria de seus integrantes. Que é possível se dar as mãos”, avaliou Sócrates. 

Rogério Barros Pinto - Jornalista


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