Semana On

Quinta-Feira 21.nov.2019

Ano VIII - Nº 372

Poder

13,5 milhões de pessoas sobrevivem com menos de R$ 145 por mês no Brasil

Do outro lado da realidade, Paulo Guedes diz que pobres não economizam

Postado em 08 de Novembro de 2019 - DW, Heloísa Mendonça (El País), Josias de Souza e Leonardo Sakamoto (UOL) – Edição Semana On

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

A pobreza extrema no Brasil atingiu no ano passado seu nível mais alto desde 2012, com 6,5% da população – cerca de 13,5 milhões de pessoas – com renda mensal de até 145 reais, conforme dados divulgados na quarta-feira (6) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A quantidade supera a população total de países como Bolívia e Portugal.

Desde 2014, 4,5 milhões de pessoas caíram para a pobreza extrema. Segundo a Síntese de Indicadores Sociais do IBGE, em 2018, o percentual de brasileiros em extrema pobreza cresceu 0,1 ponto percentual (equivalente a 200 mil pessoas) em relação a 2017. 

O aumento estabeleceu um novo recorde desde o início da série histórica do IBGE, em 2012, quando o número de brasileiros com renda mensal abaixo de 145 reais era de 11,3 milhões (5, 8%).

Nos dois anos seguintes, o Brasil reduziu as taxas de pobreza extrema, que chegou a 4,5%. Entretanto, a partir de 2014 esta começou a crescer devido à grave crise econômica que fez o Produto Interno Bruto (PIB) cair sete pontos percentuais entre 2015 e 2016 e cujos efeitos ainda são sentidos no país.

Pela linha definida pelo Banco Mundial, seguida pelo IBGE, são considerados em pobreza extrema aqueles que vivem com até 1,90 dólares por dia (o equivalente a 145 reais por mês).

O gerente do relatório, André Simões, enfatizou a necessidade de promover políticas públicas de combate à pobreza extrema, que afeta os mais vulneráveis ​​e os que têm menos condições de entrar no mercado de trabalho.

"Esse grupo precisa de cuidados maiores, que seriam, por exemplo, políticas públicas de distribuição de renda e para dinamizar o mercado de trabalho", explicou.

Ele enfatizou que o valor atual dos subsídios de assistência governamental para os mais desfavorecidos, como o programa Bolsa Família, "não é suficiente para tirar as pessoas da pobreza extrema".

Um milhão de pessoas superou a linha da pobreza em 2018, mas um quarto da população brasileira ainda permanece nessa situação, ou seja, 52,5 milhões de pessoas.

A taxa de pobreza caiu de 26,5%, em 2017, para 25,3% em 2018, percentual ainda distante do registrado há cinco anos, quando era de 22,8%.

A pobreza atinge principalmente a população negra ou mestiça, que representa 72,7% dos pobres do Brasil.

O relatório desta quarta-feira está relacionado aos dados divulgados pelo IBGE no mês passado, apontando que a desigualdade entre ricos e pobres atingiu em 2018 seu nível mais alto dentro da série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua (PNADC), também de 2012.

O rendimento médio mensal real do 1% da fatia mais rica da população brasileira atingiu em 2018 o equivalente a 33,8 vezes o ganho obtido pelos 50% mais pobres do país, segundo o IBGE.

O 1% da população mais rica – grupo que reúne apenas 2,1 milhões de cidadãos – teve rendimento médio mensal de 27.744 reais, enquanto os 50% mais pobres – mais de 100 milhões – só ganharam 820 reais por mês.

Os números da pesquisa divulgada no mês passado indicam que os pobres ficaram mais pobres, e os ricos, mais ricos. Os 30% mais pobres do país, cerca de 60 milhões, tiveram seu rendimento médio mensal reduzido, em alguns casos em até 3,2%. Os 5% mais pobres – cerca de 10 milhões –, por exemplo, tiveram ganhos mensais de apenas 153 reais em 2018, contra 158 reais em 2017. Já o 1% mais rico viu seu rendimento aumentar 8,4%, de 25.593 para 27.744 reais, entre 2017 e 2018.

Passem o mês com R$ 145

Há no Brasil 13,5 milhões de estômagos que sobrevivem com menos de R$ 145 por mês. Isso equivale a R$ 36,25 por semana. Ou R$ 4,83 por dia. Um Big Mac sai por R$ 16,90. Ou seja, um sanduíche consome a renda de três dias desses estômagos, alojados no organismo dos brasileiros que o IBGE chama de extremamente pobres. Os dados são de 2018. Atrasando o relógio, verifica-se que o contingente vem aumentando desde 2014, quando Dilma Rousseff arruinou a economia do país.

Para esses brasileiros que trazem um espaço baldio entre o esôfago e o duodeno, o debate sobre direita e esquerda, políticas liberais versus políticas sociais é uma inutilidade indigesta. Se Deus tiver que aparecer no pesadelo dessa gente, não será na forma de Bolsonaro ou Dilma. O Todo-Poderoso não se atreveria a surgir em outra forma que não fosse a de um prato de comida.

Em entrevista à Alexa Salomão, da Folha de S.Paulo, o ministro Paulo Guedes lamentou que não tenha prosperado sua proposta sobre o regime previdenciário de capitalização. Declarou que esse modelo "educaria financeiramente as famílias mais pobres". Como assim? "Um menino, desde cedo, sabe que ele é um ser de responsabilidade quando tem de poupar. Os ricos capitalizam seus recursos. Os pobres consomem tudo". O IBGE esclarece que os mais pobres consomem nada.

A economia começa a reagir. Mas a reação é demasiado lenta. E o estômago que vive além das fronteiras da pobreza não dispõe de tempo para esperar pelo dia em que conseguirá educar-se financeiramente a ponto de poupar, como deseja Paulo Guedes. O mundo desses estômagos cabe no intervalo entre uma refeição e outra. Seu relógio biológico só tem tempo para certas horas: a hora do café, a hora do almoço, a hora do jantar… Nessa rotina, a hora da poupança não se encaixa.

Certas autoridades deveriam passar um mês com R$ 145. Chegariam ao final da experiência com uma fome de ministro —ou de presidente da República. Dessas que o sujeito resolve abrindo uma geladeira bem abastecida. Talvez percebessem que as reformas liberais não precisam ser adotadas em detrimento das políticas sociais. Afinal, para que serve o equilíbrio fiscal senão para resolver o drama social de forma consistente?

Um governo instalado há apenas dez meses tem o legítimo direito de colocar em prática as ideias que prevaleceram nas urnas recém-abertas. Seria uma tolice questionar esse direito. Admita-se, para efeito de raciocínio, que as providências encaminhadas pela atual administração serão um sucesso. Ainda assim, a prosperidade não virá instantaneamente.

Convém abrir os olhos para os extremamente pobres. Tratá-los como seres invisíveis é vergonhoso e desumano. Criticar os governos anteriores não resolve o problema dos estômagos em cujas paredes ardem os jatos de suco gástrico. Melhor buscar maneiras de atenuar o drama da transição entre a fome e a bonança que produzirá hipotéticos excedentes para a poupança.

Falta de empatia ou ignorância?

Não dá para saber se é falta de empatia ou apenas ignorância. Mas o ministro da Economia, Paulo Guedes, mostrou desconexão com a realidade ou incapacidade de interpretar o Brasil.

Ao defender o regime de capitalização (no qual cada um faz uma poupança para a sua própria aposentadoria), em detrimento ao de repartição (em que os trabalhadores da ativa contribuem para as pensões dos aposentados), Guedes lamentou que o Congresso Nacional tenha vetado a previsão de mudança de um para outro. E foi além.

A jornalista ainda tentou trazer o ministro à realidade ao, elegantemente, perguntar se alguém pobre consegue guardar dinheiro. Guedes respondeu que sim, através do depósito do FGTS. "Já guarda e não sabe." A entrevistadora tentou lembrar, então, que a maioria dos pobres não tem emprego formal para contar com FGTS. No que ele respondeu, "mas eles terão com mudanças que teremos pela frente". Repare que a consequência é que motiva a causa, uma construção impossível, tal qual uma gravura de Escher.

A capitalização empobreceu idosos no Chile, o que tem levado a sucessivas ondas de protestos no país sul-americano. Não vou, contudo, entrar nessa seara. Há algo anterior. Pois o tal menino sabe que é um "ser de responsabilidade" quando é empurrado para fora dos estudos a fim de ajudar a garantir o sustento da família, no campo e na cidade, devido à incompetência do Estado. Quando é ele que se esfola para permitir que os irmãos continuem comendo. Não precisa de alguém dizendo isso a ele.

Confrontado com essa declaração de Paulo Guedes, um vendedor ambulante, que trabalhava neste domingo na região central de São Paulo, mas que mora no Capão Redondo, na periferia pobre, primeiro perguntou se aquilo era brincadeira. Depois, soltou um palavrão. Daí, questionou "como juntar algo se a gente trabalha hoje para comer hoje mesmo?" Já uma trabalhadora empregada doméstica do Itaim Paulista pediu para dizer ao ministro que visitasse a casa dela. "Consumir tudo? A gente não tem nem serviço para poder ter dinheiro para comprar tudo o que precisa para fechar o mês!"

O ministro deveria repetir esse exercício, é bem simples. Meia hora abordando pessoas na rua é o bastante para encontrar declarações como essas e variações. Basta ouvir menos as avenidas Paulista, Faria Lima e Berrini, centro financeiros de São Paulo, e mais o Grajaú, São Miguel Paulista e Brasilândia ou qualquer outro lugar do Brasil onde os trabalhadores não vivem de dividendos isentos de imposto.

Tempos atrás, postei aqui um diálogo que presenciei em um boteco em São Paulo. A TV ligada trazia um consultor de economia dando dicas para resolver o atoleiro das dívidas. Enquanto isso, um senhor de pele curtida pela idade, trajando boné de um antigo candidato que, hoje, faz campanha em outro plano espiritual, assumiu o papel de comentarista do comentarista.

"Verifique a possibilidade de novas linhas de crédito." (Se o gerente aceitar me dar mais um empréstimo, é um idiota.) "Depois verifique a possibilidade de vender bens." (Geladeira é velha, o fogão é velho, o sofá é velho. Se vender a TV, não posso assistir o que você tá falando.) "Não conseguindo, cheque com os parentes." (O meu cunhado nem visita mais a gente por conta do dinheiro que peguei dele e não paguei. Com que cara vou pedir outro? Se ele aceitar, é um idiota como o gerente.) "Empréstimo tendo o 13o como garantia é uma saída." (Primeiro, um emprego que tenha 13o seria bom.)

Um outro homem, de bigode desbotado, se virou para ele e reclamou do mau humor do colega, que prontamente retruca: "Eu sei que o homem tá com boa vontade, mas essas dicas não servem pra nós, não. Aqui o problema não é que a gente gasta demais. É que ganha de menos. Aí, não tem jeito". E depois de um longo gole de média e de afastar o gato malhado que procurava algo que despencasse do balcão, desabafou: "Quero é alguém que explique se dívida passa de pai pra filho quando o pai morre. Se não passar, já tá bom demais".

Troque o "gasta demais" por "não sabe poupar". Dá no mesmo. O fato das pessoas deixarem de poupar, em grande parte das vezes, não é irresponsabilidade com o planejamento do futuro, mas incapacidade de sustentar o presente, o que dirá gerar excedente. A isso, damos o nome de pobreza.

Isso sem dizer o óbvio: com o país derrapando para sair de uma crise econômica sem precedentes, o ministro deveria estar agradecendo que o povo consome. Ao comprar alimentos, roupas e calçados e pagar ônibus e trens, os pobres estão fazendo girar a economia. Ou ele acha que as coisas vão se resolver investindo na bolsa sem ninguém para comprar?

Pelo menos, descobrimos de quem é a culpa pelo país estar do jeito que está. O tal menino, irresponsável. Talvez deixá-lo de castigo resolva – após ele chegar em casa do trabalho, claro.

Viver com 413 reais ao mês, a realidade de metade do Brasil

Há muitos anos, Josefa Severina de Souza, de 58, não sabe mais qual é a sensação de sair de férias do trabalho. Não consegue achar na memória nem qual foi a última vez que conseguiu tirar alguns míseros dias de descanso. Mãe de oito filhos, dos quais quatro ainda moram com ela, a rotina dos últimos 25 anos de Josefa tem sido de trabalho diário nas ruas de São Paulo como vendedora ambulante de segunda a sábado. Atualmente trabalha no bairro de Pinheiros, onde durante todo o dia transitam centenas de pessoas e potenciais clientes. No domingo, se dedica às tarefas domésticas. O marido, de 62 anos, desempregado há mais de quatro anos, faz alguns bicos como pedreiro, mas é a renda dela a principal fonte de sustento de seis pessoas. Somando os cerca de 1.450 reais que ganha com as vendas mais o salário fixo de 1.000 reais que um dos filhos recebe trabalhando em um supermercado, cada membro da família sobrevive atualmente com uma renda per capita mensal de 408 reais, menos do que meio salário mínimo. "Se a gente não trabalha, não sobrevive, né?", explica a vendedora.

A família de Josefa faz parte dos 50% mais pobres da população, quase 104 milhões de brasileiros, que em 2018 vivia, em média, com apenas 413 reais per capita, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) publicada em outubro. No mesmo ano, 5% da população, ou 10,4 milhões de pessoas no Brasil, sobreviviam com 51 reais mensais. O levantamento revelou ainda que a desigualdade se agravou no país. A renda domiciliar per capita desses 5% mais pobres caiu 3,8% de 2017 para 2018, enquanto a renda da fatia mais rica (1% da população) cresceu 8,2%.

Na avaliação de Maria Lúcia Vieira, gerente da Pnad Contínua, os ricos ficaram mais ricos e os pobres mais pobres, porque a renda total das famílias vem majoritariamente do trabalho. "Com a recessão, o mercado de trabalho também entrou em crise, e o desemprego aumentou [hoje atinge 12,6 milhões de brasileiros]. O que afeta muito mais os mais pobres, já que o estrato mais rico tem geralmente outras fontes de renda além do emprego, como, por exemplo, dinheiro proveniente de aluguéis, pensões", explica. Ainda que nos últimos dois anos a população ocupada tenha voltado a crescer, os empregos criados foram, principalmente, os informais. "Os postos que estão surgindo são pouco remunerados e de baixa qualificação", diz Vieira.

Informalidade bate recorde

Entre julho e setembro deste ano, a taxa de informalidade da população ocupada bateu recorde da série iniciada em 2012, chegando a 41,4% dos trabalhadores. Ou seja, a cada 10 trabalhadores, seis têm ocupação precarizada. Segundo a gerente, o número de brasileiros que trabalham como ambulantes informais vendendo alimentos foi um dos que mais aumentou nos últimos tempos. Entre o segundo trimestre de 2015 e o segundo trimestre de 2019, o número desses ambulantes cresceu 510% subindo de 78,4 mil para 478,3 mil pessoas.

Um dos filhos de Josefa, que já saiu de casa, faz parte desse grupo de novos ambulantes. Após ser demitido de um trabalho com carteira assinada, resolveu seguir os passos da mãe e apostar nas vendas na rua. Fabiano Manuel de Souza, de 26 anos, ajuda a mãe a transportar no ônibus a mercadoria e depois segue para outro ponto também em Pinheiros, na zona oeste da cidade. "Não é um trabalho fácil, e as vendas dependem muito de cada dia. Faça chuva ou faça sol a gente vai pra rua. Agora no calor é mais fácil ganhar com água, mas está tudo meio parado. Não sei se as coisas vão melhorar, acho que esse Governo novo é pior. Eu preferia o Lula, fui até em manifestação contra o Bolsonaro no Largo da Batata para protestar, mas também para aproveitar as vendas", conta.

Apesar dos tempos de economia fraca e pouco dinheiro no bolso, Josefa está mais tranquila nos últimos meses. Neste ano, conseguiu, finalmente, uma autorização na prefeitura da capital paulista para legalizar a sua atividade e o carrinho que utiliza na calçada para expor os produtos que vende: água, refrigerantes, salgadinhos e balas. O local escolhido por ela é estratégico, fica em frente a um ponto de ônibus, a poucos metros do metrô Faria Lima. "Agora estou na paz, despreocupada. Antes era uma corrida de gato e rato entre eu e os fiscais. Cheguei a perder 13 vezes a minha mercadoria aqui, a polícia levou tudo. Eles corriam atrás de mim como se eu fosse um ladrão, vivia tensa. Eu estava apenas trabalhando. Eu nem tinha o carrinho, vivia com sacolas para sair correndo", conta ao lado da filha Kelly, de 20 anos, que está cursando faculdade de educação física, mas ajuda a mãe nas horas vagas.

Para regularizar sua atividade, Josefa entrou no programa Tô Legal! da Prefeitura de São Paulo e paga um imposto trimestral de quase 700 reais. Somou-se aos novos gastos um estacionamento para seu carrinho de 150 reais mensais e mais 10 reais diários para que outro vendedor da região a ajude a levá-lo à garagem. Para que o dia seja lucrativo, ela precisa trabalhar das 10/11h da manhã até 21h/22h da noite, de segunda a sábado.

O dia de Josefa começa, no entanto, muito mais cedo, e termina muito mais tarde. A vendedora acorda 6h da manhã para preparar o café da manhã dos dois filhos, de 18 e 16 anos, que vão para a escola e para organizar a marmita do filho que trabalha. Todos moram em uma casa simples de três quartos.  Como vive no bairro Jardim do Colégio, em Embu das Artes, na Grande São Paulo, ela leva quase duas horas para chegar ao local de trabalho e precisa pegar dois ônibus para percorrer um trajeto de cerca de 25 km. Na volta, acaba chegando em casa depois da meia-noite. É quando Josefa começa a preparar o jantar e o almoço do dia seguinte dos filhos e marido. "Acabo dormindo 3h da manhã. Mas o jantar é a única refeição forte do dia que eu faço. Não tenho onde aquecer a comida lá no meu carrinho e se compro na rua gasto 15 reais. Não posso, preciso economizar para os remédios. Por isso, nem almoço", explica.

Há três anos, a vendedora trata algumas feridas na perna ocasionadas pela má circulação sanguínea, chamadas úlceras varicosas. O tipo de lesão acomete, muitas vezes, pessoas que passam muito tempo em pé. "Preciso passar uma pomada cara, de 52 reais, que compro toda semana, e enfaixar as pernas. Nem passo mais no posto de saúde porque eles não têm nada. O médico diz que preciso ficar de repouso uns três meses, mas cada dia que não trabalho o dinheiro no fim do mês diminui, não dá".

Se pudesse escolher, Josefa optaria hoje por ter um emprego com carteira assinada, onde pudesse usufruir dos direitos trabalhistas, como o de tirar uma licença médica remunerada. "Mas, infelizmente, eu já não tenho mais idade. Ninguém vai me contratar com 58 anos", lamenta a vendedora que chegou a trabalhar 13 anos registrada em diferentes empregos antes de virar ambulante.

Ela veio da Paraíba para São Paulo aos 13 anos e já conseguiu, quando chegou, um posto em uma fábrica. "Como contribui esses anos, agora estou pagando o INSS para completar os 15 anos e tentar aposentar por idade. Ainda tenho que ver o que essa reforma da Previdência vai mudar nos meus planos, mas a aposentadoria vai ajudar muito, porque não vou poder trabalhar para sempre na rua", explica. O marido também deve conseguir se aposentar por idade daqui a 3 anos.

Enquanto as aposentadorias não chegam, Josefa tem um plano B para melhorar de vida. Está há alguns anos construindo um novo andar na casa, com quartos separados para cada filho, para onde pretende se mudar com toda a família. "Aí vamos alugar essa parte de baixo e ganhar um dinheiro extra. A obra a gente começou com um acerto que meu marido ganhou quando foi demitido. Mas não conseguimos terminar e está difícil sobrar dinheiro, vivemos apertados", explica. O dinheiro anda tão escasso que, às vezes, ela pede para um primo um empréstimo. Ele empresta um vale alimentação para que ela compre novas mercadorias e ela só paga dez dias depois. Josefa acredita, no entanto, que com o dinheiro que fizer nas vendas no Carnaval de 2020 talvez consiga poupar um pouco. "É a melhor época. Acho que no ano que vem conseguimos terminar a obra e mudar lá pra cima. Acho que vai melhorar muito", diz sorrindo.

Pacote de Bolsonaro deve aumentar ainda mais a desigualdade

O rendimento dos 10% mais ricos foi 13 vezes maior que o dos 40% mais pobres. Até 2015, o naco do andar de baixo estava crescendo mais, mas "entre 2017 e 2018, o rendimento dos 10% dos mais ricos  teve alta de 4,1%, enquanto o dos 40% mais pobres sofreram queda de 0,8%". O IBGE explica que uma das razões que ajudou a reduzir a desigualdade entre ricos e pobres foi a política de valorização do salário mínimo, que garantia ganhos reais acima da inflação. Com o governo Jair Bolsonaro, o valor passou a ser acrescido apenas de correção monetária.

Coincidentemente, o presidente e o ministro Paulo Guedes apresentaram ao Senado Federal um pacote de propostas de emendas à Constituição que reduzem significativamente o papel do Estado na economia. Entre as chamadas medidas emergenciais, está a proibição de reajuste do salário mínimo acima da inflação por dois anos durante crises, por exemplo. As promoções de diplomatas, magistrados, procuradores e promotores, policiais e militares, contudo, ficaram livres de restrições.

As propostas de Guedes e equipe transferem para a iniciativa privada responsabilidades sociais do poder público e reduzem instrumentos para corrigir desigualdades. O Brasil não é a Noruega ou a Suécia de hoje, mas um dos campeões globais em desigualdade social e em concentração de renda, além de ostentar índices bizarros de pobreza. Ou seja, não é uma situação que desejamos manter.

É possível que o pacote apresentado, se aprovado pelo Congresso, leve a crescimento econômico. Mas sem o Estado para garantir distribuição, os resultados do desenvolvimento continuarão fluindo para as mãos de algumas pessoas. Crescer para distribuir depois é falácia que não funcionou na ditadura e não funcionará agora, mesmo que o Palácio do Planalto queira exalar o mesmo autoritarismo.

O Brasil deveria, antes de pensar em discutir essas propostas, avançar com a Reforma Tributária, garantindo a redução na tributação sobre consumo e produção e taxando alta renda e patrimônio de bilionários e milionários. O governo federal vem sinalizando apenas uma simplificação do sistema, com a unificação de tributos (IPI, PIS e Cofins), mas não uma reforma propriamente dita, que garanta progressividade na cobrança. Hoje, o Brasil é um "Robin Hood às avessas", taxando de forma mais pesada os que pouco têm para garantir tranquilidade aos que já contam com muito.

Sim, a classe média e o pequeno e médio empresários pagam bem mais que os muito ricos. Mas, não raro, defendem o interesse dos outros.

O conjunto de propostas de Guedes e Bolsonaro contém algumas boas propostas, que merecem ser discutidas e aprovadas. Mas o sentido geral tenta construir um Estado muito parecido com "o cada um por si e Deus por todos" – o que talvez explique o apoio incondicional, em fé e mídia, de algumas denominações cristãs ao presidente da República. Afinal, medidas como essas fazem aumentar o rebanho atrás das promessas da "teologia da prosperidade" ou de simples conforto diante da sensação de desamparo por parte do poder público.

O Chile garantiu a implementação do modelo sonhado por Guedes graças a um Estado autoritário sob Pinochet. Desde então, tem colhido os frutos disso – crescimento econômico e convulsões sociais, com a população reclamando dos serviços públicos e idosos na pobreza por conta da introdução do sistema de capitalização para as aposentadorias.

Além disso, o pacotão também chama a atenção pelo silêncio. Bolsonaro segue devendo uma política nacional para fomentar a geração de empregos formais. A sugestão da Carteira Verde e Amarela, com menos impostos para contratar jovens e idosos, não faz cócegas nas filas de desempregados. Sem contar que a desoneração já se mostrou ação de resultados limitados em governos anteriores.

O governo segue não acreditando que o investimento público é capaz de estimular a geração de empregos. Bolsonaro já disse que quem cria emprego é a iniciativa privada e o trabalho dele é "não atrapalhar", movendo o corpo para fora da zona de responsabilidade. Repetiu que a melhora do emprego passa pela aprovação da Reforma da Previdência – que já aconteceu.

A taxa de desocupação está caindo sim – mas em nome da informalidade. Dados do IBGE mostram que temos 11,8 milhões de pessoas sem carteira no setor privado no terceiro trimestre – aumento de 2,9% (338 mil pessoas) com relação ao trimestre finalizado em junho. Já os trabalhadores por conta própria atingiram 24,4 milhões de pessoas, mais 1,2% (293 mil pessoas). A queda no desemprego está ocorrendo, por um longo tempo, na base de postos precários e sem direitos ou de gente que se vira, vendendo bolo na rua ou entregando comida por aplicativo.

Em maio, em declaração dada a repórteres durante viagem que faz a Dallas, nos Estados Unidos, o presidente disse: "Tenho pena, tenho. Faço o que for possível, mas não posso fazer milagre, não posso obrigar ninguém a empregar ninguém". Ele não precisa ter pena, muito menos obrigar alguém, até porque empregar não é um favor, mas um negócio de compra e venda de força de trabalho em nome de salário e lucro.

O governo deveria fazer sua parte e não apenas apostar suas fichas nas reformas de longo prazo (que podem esconder uma bomba social) e em privatizações de estatais.

Bolsonaro herdou um problema de seus antecessores, mas o tempo das desculpas acabou. Chegou o momento em que ele e Guedes devem ser cobrados a mostrar que sabem apontar soluções eficazes de curto prazo. Ou entregar a tarefa a quem saiba.


Voltar


Comente sobre essa publicação...