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Quarta-Feira 20.nov.2019

Ano VIII - Nº 372

Mundo

ONU condena por 187 votos a 3 bloqueio dos EUA a Cuba; Brasil vota contra pela 1ª vez

Brasil se isola ainda mais e pode não ganhar nada dos EUA por isso, dizem analistas

Postado em 08 de Novembro de 2019 - Brasil de Fato, Marcelo Moraes (BR Político), Eliane Oliveira (O Globo)

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A Assembleia Geral da ONU condenou no último dia 7, pela 27ª vez consecutiva, o bloqueio norte-americano imposto a Cuba. Foram 187 votos a favor da resolução condenatória, 3 contra e 2 abstenções. Pela primeira vez, o Brasil se juntou a Israel e EUA e votou contra.

Colômbia e Ucrânia se abstiveram desta vez. No ano passado, 191 dos 193 estados-membros haviam votado pelo fim do bloqueio. Em 2016, último ano do governo do democrata Barack Obama, os Estados Unidos, que estavam em rota de reaproximação com Havana, se abstiveram e não houve votos contra a resolução.

O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, criticou Cuba de maneira muito dura, ao justificar as razões pelas quais o Brasil decidiu mudar seu tradicional voto na ONU. O chanceler brasileiro disse que “chega de bajular Cuba”. “A influência que Cuba possui entre os países em desenvolvimento no sistema ONU é uma vergonha e precisa ser rompida. Seu papel de sementeira de ditaduras precisa acabar”, escreveu no seu Twitter.

“O Brasil hoje votou contra Cuba na ONU. Todo ano, Cuba apresenta na Assembleia Geral da ONU um projeto de resolução condenando o embargo imposto pelos EUA desde os anos 60. Os países em desenvolvimento votam sempre a favor de Cuba. Desta vez o Brasil votou a favor da verdade”, criticou o ministro, começando suas críticas contra o governo cubano.

“Nada nos solidariza com Cuba. O regime cubano, desde sua famigerada revolução 60 anos atrás, destruiu a liberdade de seu próprio povo, executou milhares de pessoas, criou um sistema econômico de miséria e, não satisfeito, tentou exportar essa “revolução” para toda a América Latina”, disse. “Pois o comunismo nunca se satisfaz em destruir apenas o país em que se instala. Precisa sempre sair para destruir os outros. Traz isso no seu DNA. O comunismo é sempre e necessariamente um projeto de dominação transnacional e antinacional”, afirmou.

Araújo disse que “a Cuba castrista, nestas seis décadas, tornou-se um centro regional de promoção e assistência a ditaduras comunistas. Procuraram impor esse modelo ao Brasil e praticamente todos os países da América Latina. Nos anos 90, com Lula, Fidel Castro concebeu e instalou o Foro de São Paulo”.

E o ministro ampliou suas já conhecidas críticas ao Foro, que classificou como “esse torpe motor de opressão” e disse que “continua rodando para impor o socialismo corrupto, narcotraficante e terrorista aos povos da região que o repudiaram”. “O Foro de São Paulo é a continuação da revolução cubana por outros meios. Busca o poder já não pela luta armada, e sim – mais insidioso e eficiente – pela manipulação do sistema político democrático e seu controle através da corrupção sistêmica e aliança com o crime organizado”.

Ernesto também criticou o governo cubano pelo apoio dado a Nicolás Maduro na Venezuela. “Cuba é hoje o principal esteio do regime Maduro na Venezuela, o pior sistema ditatorial da história do continente. Desse modo, Cuba está por trás da opressão aos venezuelanos, da catástrofe humanitária, da tortura, da migração forçada de 1/6 da população do país”.

Isolados

Ao assumir, pela primeira vez, uma posição favorável ao embargo a Cuba na ONU, o Brasil acabou se isolando perante outros parceiros internacionais e corre o risco de não ganhar nada em compensação dos Estados Unidos.

“Não houve uma surpresa, pois o repúdio do presidente Jair Bolsonaro ao regime cubano já era conhecido desde o princípio. Mas é melhor Bolsonaro não pensar que vai ganhar algo de Washington por causa disso”, disse o professor emérito da UNB e cientista político David Fleischer, nascido nos EUA e naturalizado brasileiro.

Para ele, o governo brasileiro esperava mais do que ganhou até agora. Por exemplo, ainda não conseguiu abrir o mercado americano para a carne bovina brasileira , nem obteve um apoio mais efeito de Washington para a candidatura do Brasil a membro da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

O diplomata e ex-ministro da Fazenda Rubens Ricupero disse que o Brasil está ressuscitando o chamado "complexo de Greta Garbo" que, ao se retirar do cinema, isolou-se na Suíça e dizia para quem a procurava: "I want to be alone" (eu quero ficar sozinha).

Segundo Ricupero, essa expressão foi criada por João Augusto de Araújo Castro, ministro das Relações Exteriores do governo de João Goulart. No início da ditadura militar, diante da forte aproximação das autoridades brasileiras dos Estados Unidos, o Brasil ficava isolado nas votações, ao lado de Israel e EUA.

“O Brasil preferia ter dois ou três votos, desde que ficasse ao lado dos americanos. Como a atriz Greta Garbo, dizia "I want to be alone". E isso está se repetindo”, brincou Ricupero.

Ele lembrou que o presidente Jair Bolsonaro não vai comparecer à posse de Alberto Fernández neste domingo (10), na Argentina. Em vez disso, será enviado um ministro "sem importância" — Osmar Terra , da Cidadania.

“Até o presidente Donald Trump e o secretário de Estado (Mike Pompeo) cumprimentaram o novo presidente argentino e o convidaram a trabalhar juntos. Nisso, o governo brasileiro não seguiu os EUA”, destacou.

Na avaliação do professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília, Thiago Galvão, o pano de fundo dessa decisão é a necessidade de o Brasil recuperar o apoio dos EUA.

“Esse alinhamento é uma forma de seduzir os EUA, que não vêm entregando o que prometeram durante a viagem do presidente brasileiro a Washington. Há forte dependência dos EUA”, disse Galvão.

Para fontes da área diplomática, a postura assumida pelo Brasil em relação a Cuba foi inédita, mas coerente. De acordo com um embaixador, o governo não fez nada diferente do que vem sinalizando desde o início.

Essa posição a favor do embargo, completou essa fonte, manteve-se fiel ao discurso proferido pelo presidente Jair Bolsonaro nas Nações Unidas , em setembro último. Bolsonaro atacou duramente o regime cubano e criticou sua vinculação com o petismo.

Cubanos agradecem apoio

Pouco antes da votação, o chanceler cubano Bruno Rodríguez agradeceu o apoio de outros países contra o bloqueio. “Reconhecemos com profunda gratidão a todos os que expressaram seu rechaço ao bloqueio contra nosso país e aos que acompanharam desde sempre em nossa incessante luta pelo fim desta política”, afirmou.

Em seu discurso, o chanceler afirmou que o bloqueio norte-americano provoca danos humanitários na população da ilha. Em Cuba, "não há uma família cubana que não sofra as consequências [do bloqueio]".

"Ano após ano, a delegação dos EUA expressa, com altas doses de cinismo, que seu governo apoia o povo cubano… pode alguém acreditar que o governo norte-americano está interessado nos cubanos?", disse.

No último dia 6, ocorreu a primeira sessão para discutir o projeto de resolução. Foram ouvidos os discursos dos grupos de países e membros da ONU, incluindo as delegações da China, Rússia, México, Palestina, Nicarágua e Azerbaijão, todas se posicionando contra o bloqueio.

Manifestação do presidente cubano

O presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, disse pelo Twitter que a condenação da ONU sobre o bloqueio norte-americano é uma vitória do povo cubano e das populações do mundo que acompanha a ilha na resistência. 

"O bloqueio é real. E nós o derrotaremos com o apoio da comunidade internacional que hoje em grande maioria votou ao lado de Cuba. Os governos lacaios mostram onde estão suas afinidades. E eles estão sozinhos ao lado do império", afirmou. Díaz-Canel ainda disse que os governos que votaram contra a ilha, votaram pela "continuidade do genocídio".


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