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Quinta-Feira 23.jan.2020

Ano VIII - Nº 376

Coluna

A Era dos Sem-Vergonha

Porque é ridículo falar em defesa da honra

Postado em 06 de Novembro de 2019 - Rodrigo Amém

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Parece uma prática ancestral, mas ainda tão frequente quanto queimar floresta para fazer pasto. Homens, confrontados por sua pequenês moral, cometem as maiores atrocidades e se refugiam num inacreditável argumento legal: "legítima defesa da honra". Maridos traídos assassinam as esposas. Ex-maridos jogam ácido no rosto das ex-esposas que ousaram tentar recomeçar a vida com outros parceiros. Jornalistas estapeiam entrevistados. 

Tudo em defesa da "honra". Mas o que significa essa palavrinha e, mais importante, o que esses canalhas querem dizer quando usam a expressão?

De acordo com os dicionários da internet, honra é o princípio que leva alguém a ter uma conduta proba, virtuosa, corajosa, e que lhe permite gozar de bom conceito junto à sociedade. Uma outra definição disponível é como o sinônimo de "privilégio". Como na frase: "tive a honra de ser convidado para determinado evento". 

Em outras palavras, honra é o privilégio de ser reconhecido por condutas virtuosas. E perder tal privilégio seria motivo de vergonha. Logo, recorrem à violência para protegê-lo.

Então temos uma dualidade: de um lado, a honra. Do outro, a vergonha. 

A vergonha nos foi conferida, dizem os teólogos, em função do primeiro pecado, lá no Gênesis. O tal do fruto proibido que a serpente nos vendeu. Perdemos a inocência e ganhamos a vergonha dos nossos corpos, ações e defeitos. O plano (ainda segundo a teologia abraâmica) era motivar a humanidade a ser melhor, fugindo do medo da ira divina e da vergonha das nossas próprias falências. Daí, a cada demonstração de evolução moral e espiritual, nos aproximamos do divino e ganhamos o reconhecimento dos pares. A esse reconhecimento pelos nossos acertos, é dado o nome de honra. E a cada deslize constrangedor chamamos vergonha.

Essa bússola moral tem um defeito, veja que ironia: só se aplica aos que são capazes de empatia. Aos que conseguem se colocar no lugar dos ofendidos pelos seus deslizes. Quem não tem empatia não pode sentir vergonha. E, se não pode sentir vergonha, também não entende o significado da honra. 

Quem agride fisicamente uma pessoa por causa de um xingamento não está defendendo sua honra. Está atestando publicamente que não tem vergonha de cometer um crime violento para revidar uma ofensa verbal. Que honra resta a quem pratica um ato covarde por ter sido chamado de covarde?

Não existe defesa de honra de quem é incapaz de sentir vergonha, assim como não dá pra defender a vida de quem já morreu. 

O nosso problema é que a guerra cultural que vivemos inaugurou a Era dos Sem-vergonha. 

Como há uma cruzada no horizonte, os escrúpulos foram suspensos até segunda ordem. E os soldados dessa guerra estão autorizados a agirem sem vergonha. Claro, pega mal dizer que podemos agir desavergonhadamente. Inventaram, então, um rebranding da semvergonhice: pragmatismo.

O pragmatismo do FHC fez com que abraçasse o capeta pela emenda da reeleição. O pragmatismo do Lula impediu que renunciasse depois do mensalão. O pragmatismo do Dalton Dalagnol impediu que pedisse demissão depois do patético episódio do PowerPoint. O pragmatismo do Moro o autorizou a ser (e continuar) ministro da justiça. O pragmatismo do Bolsonaro o autoriza a ser, bem, Bolsonaro. Assim como o de Trump, Boris Johnson, Rodrigo Duterte, Maduro... Sinceramente não sei como é que a civilização pode sobreviver a tanta gente "pragmática".

É por isso que denúncias e vazamentos de informações, como as do Intercept, não movem mais a opinião pública. A verdade, assim como a honra, só tem valor para quem é capaz de sentir vergonha. Os pragmáticos aguentam o tranco sem maiores pudores. Basta dizer que é mentira, que é um ataque a suas honras imaginárias. No mais, volta e meia, dão um tapinha de mão mole, fingindo indignação para sua torcida de fervorosos pragmáticos. 

É muito pragmatismo na cara, gente.


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