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Domingo 17.nov.2019

Ano VIII - Nº 372

Poder

Twitter decide acabar com anúncios políticos pagos

Decisão do CEO do Twitter de proibir publicidade política é correta e mostra que o serviço de mensagens curtas assume sua responsabilidade social. Mas outras redes também devem seguir o exemplo

Postado em 01 de Novembro de 2019 - DW, Martin Muno (DW)

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O Twitter banirá, a partir de 22 de novembro, todos os anúncios publicitários de teor político de sua plataforma, afirmou no último dia 30 o CEO da empresa, Jack Dorsey.

O executivo anunciou a medida em uma série de postagens na rede social, argumentando que políticos deveriam conquistar seu público, em vez de pagar por isso. Segundo ele, a possibilidade de políticos pagarem por alcance é algo ruim para a democracia.

"Decidimos interromper toda a propaganda política no Twitter em nível global. Acreditamos que o alcance da mensagem política deva ser conquistado, não comprado", escreveu Dorsey.

"Embora a publicidade na internet seja incrivelmente poderosa e muito eficaz para anunciantes comerciais, ela pode trazer riscos significativos para a política, podendo ser usada para influenciar votos e afetar a vida de milhões de pessoas", completou.

Segundo o executivo, é incoerente dizer que a empresa está se esforçando para impedir que a plataforma seja usada para espalhar informações falsas, mas, ao mesmo tempo, permitir que pessoas "digam o que quiserem" se estiverem pagando para forçar usuários a verem seus anúncios políticos.

Dorsey afirmou que o Twitter considerou impedir somente a publicidade de candidatos, mas admitiu que essa medida poderia ser facilmente contornada. "Além disso, não é justo que todos, exceto candidatos, possam comprar anúncios para as questões que desejam divulgar. Então, estamos interrompendo esses também", escreveu.

"Estamos bem cientes de que somos uma pequena parte de um ecossistema de publicidade política muito maior. Mas temos testemunhado muitos movimentos sociais atingindo uma escala maciça sem nenhuma publicidade política. Eu acredito que isso só vá crescer", acrescentou.

"Uma nota final. Não se trata de liberdade de expressão. Trata-se de pagar por alcance. E pagar para aumentar o alcance de um discurso político tem ramificações significativas com as quais a infraestrutura democrática de hoje pode não estar preparada para lidar. Vale a pena dar um passo atrás", concluiu.

Segundo Dorsey, o Twitter divulgará seus novos termos até 15 de novembro, incluindo algumas exceções. Por exemplo, anúncios que convocam pessoas às urnas e que apoiam o registro de eleitores (em países onde o voto não é obrigatório) ainda serão permitidos. A nova política começará a ser implementada em 22 de novembro.

A medida vem num momento em que plataformas de mídia social estão sob pressão para impedir que grupos políticos as usem para divulgar informações falsas e influenciar resultados de votações. Isso teria acontecido com o Facebook durante a eleição presidencial dos Estados Unidos e o referendo sobre a saída do Reino Unido da União Europeia, ambos em 2016.

A rede social de Mark Zuckerberg pegou fogo depois que divulgou, no início de outubro, que não verificaria a veracidade do conteúdo de publicidades pagas por políticos ou suas campanhas, permitindo que eles divulguem mentiras livremente.

Em audiência no Congresso na semana passada, Zuckerberg afirmou que políticos têm o direito à liberdade de expressão no Facebook.

A questão veio à tona em setembro, quando o Twitter, juntamente com o Facebook e o Google, se recusou a remover um anúncio em vídeo com informações falsas promovido pela campanha do presidente americano, Donald Trump, e que tinha como alvo o ex-vice-presidente Joe Biden, pré-candidato democrata à Casa Branca em 2020.

Em resposta, a senadora democrata Elizabeth Warren, também pré-candidata à presidência, publicou seu próprio anúncio no Facebook, este mirando Zuckerberg. A publicidade alegava falsamente que o CEO da rede social endossou a reeleição de Trump.

Segundo a imprensa americana, a intenção de Warren era evidenciar a imprudência da companhia em permitir que suas regras que banem informações falsas em anúncios pagos não se apliquem a políticos – ela, como política, conseguiu promover tal postagem enganosa.

Contenção

A proibição de publicidade é mais um passo para conter a disseminação de conteúdo falso, inflamatório ou ofensivo no Twitter. Há apenas duas semanas, a plataforma adotou novas regras: tuítes que glorificarem o terrorismo, ameaçarem com violência ou violarem a privacidade e a esfera íntima poderão ser deletados. Também os políticos que não respeitarem as regras poderão ser sancionados – com seus seguidores, por exemplo, não podendo mais retuitar ou curtir os tuítes.

Não é nenhuma coincidência que os novos regulamentos venham no momento em que os partidos políticos dos EUA estão se preparando para a campanha presidencial de 2020 – uma campanha eleitoral que pode se tornar uma imensa troca de ofensas. Não foi por acaso que a equipe eleitoral do atual presidente e eterno tuiteiro Donald Trump condenou as restrições aos políticos como um ato de censura e estupidez.

Nesse contexto, ambas as decisões não são apenas moralmente corretas, mas mostram que o CEO de uma importante rede social também está disposto a assumir responsabilidade perante a sociedade. Elas também têm seu lado de esperteza: embora Dorsey renuncie à receita de publicidade, isso acontece apenas em pequena proporção. Pois a receita com publicidade política perfaz somente um milésimo da receita total de vendas da rede social.

O conteúdo simbólico da nova política do Twitter tem uma importância muito maior. Pois tanto com as regras mais rígidas quanto com a proibição de publicidade, Dorsey exerce pressão sobre outras mídias, especialmente o gigante das redes sociais Facebook.

Pois o chefe do Facebook, Mark Zuckerberg, segue uma política oposta: ele enfatizou várias vezes que não se importa se o conteúdo divulgado em sua rede social esteja certo ou errado – sejam anúncios pagos ou simples postagens.

Além disso, nos próximos meses, Facebook quer incluir o portal de propaganda populista de direita Breitbart, iniciado por Steve Bannon, num feed de notícias de alta qualidade escolhidas por uma equipe de jornalistas experientes, a ser exibido nos próximos meses nos EUA. É isso que Zuckerberg entende por liberdade de expressão. Mas esse entendimento da liberdade de expressão, combinado com tecnologia de ponta, é capaz de destruir nossas sociedades liberais.

Para sermos cidadãos esclarecidos capazes de fazer escolhas racionais, precisamos necessariamente saber se uma mensagem é verdadeira ou falsa. Ter constatado isso e ter agido em conformidade com essa constatação é o mérito de Jack Dorsey. Não se trata de um passo revolucionário, mas pode ser um começo para tornar as redes sociais mais civilizadas. Por isso, obrigado, Twitter, obrigado, Jack!


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