Semana On

Domingo 17.nov.2019

Ano VIII - Nº 372

Poder

O pavor que Queiroz infunde aos Bolsonaro

Em áudio, ex braço direito do presidente manda aviso pouco amigável

Postado em 01 de Novembro de 2019 - DW, Ricardo Noblat (Veja), Josias de Souza e Leonardo Sakamoto (UOL)

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Áudios divulgados pelo jornal Folha de S. Paulo mostram que o ex-policial militar Fabrício Queiroz, pivô do escândalo que atingiu um dos filhos de Jair Bolsonaro no final de 2018, estava preocupado com a investigação do Ministério Público do Rio contra ele.

O ex-assessor de Flávio Bolsonaro é suspeito de envolvimento em um esquema de "rachadinha", prática em que servidores de gabinetes devolvem parte de seus salários a parlamentares.

"É o que eu falo, o cara lá está hiperprotegido. Eu não vejo ninguém mover nada para tentar me ajudar aí. Ver e tal. É só porrada. O MP [Ministério Público] tá com uma pica do tamanho de um cometa para enterrar na gente. Não vi ninguém agir", diz Queiroz num áudio teria sido enviado pelo WhatsApp em julho.

A Folha de S. Paulo afirma que não possível determinar quem seria a pessoa que estaria sendo protegida, mas segundo o jornal O Globo, que teve acesso ao áudio completo, Queiroz estaria falando em Adélio Bispo, autor de um atentado a faca contra Jair Bolsonaro durante a campanha eleitoral. Apesar de a investigação da Polícia Federal ter concluído que Adélio agiu sozinho, os áudios indicariam que o ex-assessor de Flávio acredita que ele teria sido contrato por alguém e estaria sendo protegido.

Amigo pessoal de Jair Bolsonaro, Queiroz ocupou por mais de uma década um cargo de assessor no gabinete do filho mais velho do presidente, Flávio Bolsonaro, na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). Ele foi exonerado em 16 de outubro do ano passado, pouco depois de Flávio ter sido eleito senador e Jair Bolsonaro ter passado para o segundo turno do pleito presidencial.

Em dezembro, a imprensa revelou que um relatório do antigo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontou que Queiroz movimentou 1,2 milhão de reais em uma conta bancária entre 2016 e 2017 e recebeu vários depósitos de outros assessores de Flávio, muitas vezes em datas próximas do pagamento dos salários na Alerj.

A movimentação logo levantou a suspeita de que ele era o administrador de um esquema de "rachadinha". Depois disso, Queiroz apareceu raramente e em algumas ocasiões deu explicações contraditórias sobre a movimentação. Na última quinta-feira, o jornal O Globo divulgou áudio em que ele discute indicações para cargos em Brasília.

"Lapidar bagunça" do PSL

Nos áudios divulgados pela Folha de S. Paulo, Queiroz também expressa o desejo de voltar ao PSL, partido de Bolsonaro, para ajudar o presidente a "lapidar a bagunça" no diretório regional do partido no Rio de Janeiro, que atualmente é comando por Flávio.

"Torcendo para essa pica passar. Vamos ver no que vai dar isso aí para voltar a trabalhar, que já estou agoniado. Estou agoniado de estar com esse problema todo aí, atrasando a minha vida e da minha família", afirma.

Queiroz também disse que pretende blindar o presidente. "Politicamente, eu só posso ir para partido. Trabalha isso aí com o chefe aí. Passando essa ventania aí, ficamos eu e você de frente. A gente nunca vai trair o cara. Ele sabe disso. E a gente blinda, a gente blinda legal essa porra aí. Espertalhão não vai se criar com a gente", ressalta.

O ex-PM também lamentou não poder mais atuar a favor da família Bolsonaro devido à exposição de seu nome e criticou o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). "As declarações dele humilha [sic] o Jair. Jair tinha que dar uma porrada nesse filha da puta. Botar o [ministro da Justiça] Sergio Moro para ir no calço [sic] dele", disse.

Funcionária fantasma

Em outro áudio, Queiroz conta que teria tratado com Bolsonaro sobre a demissão de uma funcionária fantasma do gabinete de seu filho vereador, Carlos Bolsonaro, para desvinculá-la da família devido a casos de funcionários laranja contratados pelo presidente e filhos que estavam revelados pela imprensa.

"Na época, o Jair falou para mim que ele ia exonerar a Cileide porque a reportagem estava indo direto lá na rua e para não vincular ela ao gabinete. Aí ele falou: 'Vou ter que exonerar ela assim mesmo'. Ele exonerou e depois não arrumou nada para ela não?", diz num áudio gravado em março.

A funcionária seria Cileide Barbosa Mendes, que trabalhava de doméstica para a família Bolsonaro. Ela foi nomeada ao gabinete de Carlos em 2001 e só foi exonerada no início de 2019. Em setembro, o Ministério Público do Rio abriu uma investigação sobre funcionários fantasmas no gabinete do vereador.

Segundo a Folha, o áudio indica que o presidente não somente administra nomeações e exonerações em seu gabinete em Brasília como também nos de seus filhos.

Segundo o jornal, os áudios foram enviados pelo WhatsApp a um interlocutor não identificado, e a pessoa que repassou as gravações à Folha pediu para ter o nome não divulgado.

Em nota, o advogado de Queiroz, Paulo Klein, negou qualquer crime por parte de seu cliente. Sobre o caso de Cileide, Klein disse que era preciso ter acesso à conversa completa.

"A transcrição parcial e clandestina retira o contexto em que as questões foram colocadas. Poderá induzir o público em erro, fazendo com que a convicção deste se forme através de frases soltas e sem a devida contextualização", afirmou Klein. 

À Folha de S. Paulo, o advogado de Flávio, Frederick Wassef, disse que não teve acesso aos áudios na íntegra, além de não saber as origens e período das gravações e, por isso, não iria se manifestar.

Munição

Há farta munição guardada por aí e capaz de produzir sérios estragos nas pretensões dos Bolsonaros. Será disparada aos poucos, de forma calculada, para provocar maior sofrimento.

Uma família que fala pelos cotovelos, e também pelas redes sociais, deixa rastros à beça. O que foi bom para ela no passado recente e ainda parece ser bom, poderá ser muito ruim no futuro próximo.

Talvez seja por isso que o pai e os três filhos recolheram-se ao silêncio desde que começaram a vazar áudios de conversas entre Fabrício Queiroz e interlocutores desconhecidos até aqui.

Somente advogados têm saído em socorro deles. Mais precisamente em socorro do senador Flávio Bolsonaro, ex-chefe de Queiroz, de quem se aproximou por ordem expressa do pai.

Flávio e Queiroz estão metidos no escândalo da rachadinha na Assembleia Legislativa do Rio. Era Queiroz que empregava, ali, funcionários fantasmas e subtraía parte do salário deles.

Os dois estavam sendo investigados pelo Ministério Público Federal até que o ministro Dias Toffoli, presidente do Supremo Tribunal Federal, disse basta. Desde então Flávio anda caladinho.

Queiroz começou a falar. O que ainda não se sabe é se foi ele próprio que deu um jeito de vazar o que andou dizendo. Ou se foi traído por um dos que o escutavam em um grupo de WhatsApp.

A traição é grave. Mas a eventual simulação por parte de Queiroz seria muito mais. Queiroz disse que se sente abandonado, enquanto Adélio Bispo, autor da facada em Bolsonaro, estaria superprotegido.

Pior: Queiroz contou que Bolsonaro, possivelmente antes de se eleger, telefonou para ele e afirmou que iria demitir uma funcionária fantasma do gabinete do seu filho Carlos, o vereador.

A funcionária havia sido descoberta pela imprensa. Mantê-la como falsa empregada do filho criaria problemas para Carlos e para ele também. À época, Queiroz já estava na mira do Ministério Público.

Essa é a história mais cabeluda que Queiroz deixou escapar com suas inconfidências. Porque mostra que Bolsonaro sabia do esquema de rachadinha nos gabinetes de Carlos e de Flávio.

Os áudios de Queiroz acenderam a luz vermelha no círculo estreito dos Bolsonaros e dos seus parentes mais próximos. Queiroz pediu socorro para não cair na tentação de delatá-los.

Quem avisa amigo é

Os áudios como os que Fabrício Queiroz gravou no WhatsApp não chegam ao ventilador por acaso. Auxiliares do próprio presidente enxergam na divulgação das manifestações radioativas do amigo de Jair Bolsonaro e ex-assessor de Flávio Bolsonaro uma tentativa de assustar e obter proteção. Considerando-se as reações dos Bolsonaro, o recado foi recebido.

Num trecho dos áudios, Queiroz diz que o Ministério Público tem um falo —a palavra foi outra, mas não vale a pena repetir— "do tamanho de um cometa para enterrar na gente". Na prática, reconhece que há matéria-prima para complicar sua vida e a de seus amigos da primeira-família. Noutro trecho, Queiroz afirma: "Não vejo ninguém mover nada para tentar me ajudar…" Aqui, ele reclama de abandono, com todas as insinuações que esse tipo de observação carrega.

Os áudios de Queiroz são assustadores. Mas a reação do presidente e dos filhos, tíbia e envergonhada, espanta muito mais. As respostas que os Bolsonaro não têm condições de dar produzem um estrago maior do que as insinuações que Queiroz já não faz questão de ocultar.

Nesta segunda-feira, Bolsonaro achou que seria uma boa ideia continuar traçando um perfil benevolente do amigo Queiroz: "Eu nunca neguei que encontrei um bom soldado de infantaria", ele disse. "Nunca neguei minha amizade por ele. Depois do que aconteceu, eu me afastei, senão seria acusado de obstruir a Justiça." Flávio Bolsonaro também alega que se afastou do personagem há quase um ano.

O problema não é o suposto distanciamento atual, mas a proximidade de mais de três décadas com um personagem tão desqualificado. Nesse ambiente em que Queiroz parece coçar a língua, a superblindagem que Dias Toffoli e Gilmar Mendes fornecem para Flávio Bolsonaro no Supremo torna-se ainda mais absurda.

Queiroz, milícia e o Clan

O mesmo "Escritório do Crime" que estaria envolvido com o assassinato da vereadora Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes tinha laços com o gabinete do então deputado estadual, Flávio Bolsonaro, graças a seu assessor Fabrício Queiroz. Apesar disso ser notório, a relação permanece pouco investigada, como se ignorássemos um elefante na sala.

Queiroz é amigo de longa data do presidente da República, a ponto de ter depositado R$ 24 mil na conta da, hoje, primeira-dama. Segundo Jair Bolsonaro, foi a devolução de parte de um empréstimo que ele teria feito ao camarada. E o resto? Voltou como? Silêncio.

Investigações que poderiam jogar luz nessa relação seguem suspensas por decisão do Supremo Tribunal Federal. Primeiro, pelo ministro Dias Toffoli, depois pelo ministro Gilmar Mendes, após um pedido da defesa do, hoje, senador Flávio. Ele reclamou que a investigação que envolveu ambos começou através de indícios de "movimentações atípicas" do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) sem autorização judicial prévia.

Conversas telefônicas, que fazem parte da denúncia assinada pela então procuradora-geral da República Raquel Dodge, mostram que a milícia estaria diretamente envolvida na execução de Marielle a serviço de Domingos Brazão, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro. O conteúdo obtido, com exclusividade, pelo repórter Flávio Costa, vem sendo divulgado em uma série de reportagens pelo UOL.

Um líder miliciano de Rio das Pedras apontou que três membros do Escritório do Crime estariam entre os assassinos de Marielle e Anderson, tendo apoio de Ronald Paulo Alves, major da Polícia Militar.

A Polícia Civil e o Ministério Público do Rio, por outro lado, afirmam que os executores são o policial militar da reserva Ronnie Lessa e o ex-PM Élcio Vieira de Queiroz, também integrantes dessa milícia em Rio das Pedras.  Ou seja, independentemente de quem acusa, o Escritório do Crime está envolvido.

No gabinete do filho 01 do presidente da República na Assembleia Legislativa do Rio, por indicação de Queiroz, trabalhavam a mãe e a esposa de Adriano da Nóbrega, ex-capitão do Bope, acusado de comandar o "Escritório do Crime" e que está foragido da Justiça. Ele também está no rol de suspeitos do envolvimento com a execução.

O ex-assessor confirmou, em depoimento por escrito ao Ministério Público, no começo do ano, que recolhia mesmo parte dos salários dos funcionários do chefe na Assembleia Legislativa. O destino, segundo ele, era remunerar, de maneira informal, outros "assessores" de Flávio na base eleitoral.  A isso, ele deu o nome de "desconcentração de remuneração". Disse que não acreditava ter cometido uma ilegalidade, pois o objetivo era "multiplicar e refinar os meios de escuta da população por um parlamentar".

Ou seja, explicou que fazia algo ilegal – desviar recurso público do salário dos funcionários do gabinete a fim de ampliar a base de Flávio – para afastar denúncias de algo mais ilegal ainda: que estava operando como laranja para viabilizar a conhecida "rachadinha", em que parte do salário do funcionário volta para o bolso do político que o contratou. Ou pior: que destinava parte desse recurso público para milicianos que operam no Rio.

O fato é que, segundo apontou levantamento da Agência Pública, o filho 01 foi o senador mais votado em Rio das Pedras, território da milícia, no ano passado.

Reportagens de Ana Luiza Albuquerque, Catia Seabra e Italo Nogueira, na Folha de S.Paulo, tratam de áudios em que Queiroz reclama por ter sido abandonado, dizendo que o pior está por vir. "É o que eu falo, o cara lá está hiperprotegido. Eu não vejo ninguém mover nada para tentar me ajudar aí. Ver e tal… É só porrada. O MP [Ministério Público do Rio de Janeiro] tá com uma pica do tamanho de um cometa para enterrar na gente. Não vi ninguém agir", disse. 

"Resolvendo essa pica que está vindo na minha direção, se Deus quiser vou resolver, vamos ver se a gente assume esse partido aí [PSL]. Eu e você de frente aí. Lapidar essa porra", afirmou a um interlocutor.

Em 2004, o então deputado estadual Flávio propôs uma menção de louvor e congratulações ao então capitão da Policial Militar Ronald Paulo Alves, o mesmo cujo nome aparece na denúncia da PGR, "pelos importantes serviços prestados ao Estado do Rio de Janeiro". Adriano da Nóbrega foi outro homenageado por Flávio Bolsonaro, em 2003.

Caixão com o corpo da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Foto: Ricardo Moraes/Reuters

Na justificativa da moção 3180/2004, de março de 2004, cita uma operação policial realizada no Conjunto Esperança, no Complexo da Maré, naquele ano, que resultou na morte de um líder do tráfico e na apreensão de armamento e munição. Em nota, após a divulgação da condecoração, o deputado afirmou: "sempre atuei na defesa de agentes de segurança pública e já concedi centenas de outras homenagens".

Vale também lembrar que Jair Bolsonaro, quando deputado federal, elogiava milícias – grupos de bandidos oriundos das forças de segurança que ocupam bairros pobres com tortura, roubo e morte, sob a justificativa de garantirem a ordem contra tortura, roubo e morte.

Apesar da necessidade de combater as milícias e privilegiar a maioria de agentes de segurança, honestos, garantindo sua proteção e a de suas famílias, muitos políticos calam-se, mostrando que falta vontade e coragem. Ou sobra rabo preso.

Neste momento em que se busca a punição dos mandantes e executores de Marielle e Anderson e as verdadeiras razões por trás de suas mortes, seria importante que as dúvidas levantadas pela conexão entre Queiroz e o Escritório do Crime fossem dirimidas. Em tese, isso interessaria principalmente ao próprio clã Bolsonaro, sobre o qual pairam essas questões. Em tese.

Gostaria de dar a mesma sugestão que Jair Bolsonaro repetiu durante toda a campanha eleitoral, citando João, capítulo 8, versículo 32: "Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará".

Não sei se libertará Queiroz, o mais provável é que seja o contrário, mas o povo do Rio de Janeiro e do restante do país certamente ficará mais aliviado.


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