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Segunda-Feira 20.jan.2020

Ano VIII - Nº 376

Campo Grande

A vida de todos os brasileiros vale a pena

Simpósio promovido pela Liga Acadêmica de Saúde da Família da UFMS debate o ‘cuidado’ para as populações negligenciadas

Postado em 01 de Novembro de 2019 - Victor Barone

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Desigualdade no Brasil se expressa também no acesso à saúde

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No Brasil os negros morrem mais cedo, os indígenas sofrem pela incompreensão de setores da saúde sobre seu modo de enxergar a morte e a vida, os ribeirinhos vivem afastados de um atendimento em saúde presente e constante, a população LGBTQ+ enfrenta preconceito no atendimento. Todos sofrem com a ausência de políticas públicas e formação adequada por parte dos profissionais do setor. Estes são apenas alguns dos problemas vivenciados pelas várias populações vulneráveis e negligenciadas por uma estrutura de Saúde que ainda está longe de dar conta de seus desafios.

“Você percebe que nem todo médico no Brasil está imbuído da ideia de que a vida de qualquer um vale a pena. É lamentável dizer isso, mas digo com experiência. Tenho 40 anos de docência na escola médica. É lamentável a gente ver que muitas das nossas escolas formam bons comerciantes. Esta é a grande questão: temos uma defasagem entre uma construção de um SUS que aponta que a ética do cuidado é a garantia de uma saúde qualificada e a universidade, num processo atrasado, com cursos de formação absolutamente voltados a um mercado perverso. Defendo o SUS e a noção lema de que a vida de qualquer um vale a pena ser vivida na sua diferença e que a diferença do outro é parte de mais vida em si”, diz o médico sanitarista Emerson Elias Merhy, professor titular de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e livre-docente pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

A ideia de defesa da “vida de qualquer um”, tem como base um conceito simples: independente de questões sociais, econômicas, étnicas, etc, a saúde é um bem comum que deve ser proporcionado a todos, sem distinção. E, se faltam políticas públicas para atender esta necessidade, há, também, uma lacuna importante na formação de profissionais de saúde que compreendam esta proposta.

Mas há núcleos de resistência Brasil afora. Na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), por exemplo, a Liga Acadêmica de Saúde da Família (LASF) tem trazido o tema à luz. No próximo dia 9, o grupo realiza, na Universidade, seu segundo Simpósio, sob o tema “Desafios da Atenção Primária à Saúde na Atualidade: Saúde de Populações Negligenciadas”. Na pauta, os desafios do cuidado em saúde às populações negra, LGBTQ+, ribeirinha e indígena no Mato Grosso do Sul. Na oportunidade, profissionais, pesquisadores, estudantes, ativistas e usuários do sistema de saúde debaterão os problemas e possíveis soluções para a questão.

“As populações mais pobres têm este padrão de vulnerabilidade que acontece com uma cascata. Baixa escolaridade, baixo acesso a serviços, baixa renda: tudo isso culmina em indicadores de saúde muito piores que os encontrados em outras camadas da população. A Atenção Básica, que é o locus de atuação da Saúde da Família, é o nível do sistema de saúde que tem que abraçar estas populações”, afirma a professora Cláudia Du Bocage Santos Pinto, coordenadora da Liga.

Pós doutora em Saúde Pública, ela atua hoje como professora adjunta na UFMS e em diversos centros de pesquisa do país, e destaca a importância da formação para que os novos profissionais de Saúde cheguem ao mercado compreendendo as necessidades e características destas populações.

“Na Atenção Primária, o profissional de saúde se depara com estas populações carentes de mais 'cuidado' em função de determinantes e de seu padrão de vulnerabilidade. No entanto, via de regra, estes profissionais não tiveram em seus currículos disciplinas ou momentos específicos que abordem estas temáticas. A Saúde de Família, que atua no âmbito da Atenção Primária, apesar de ter cada vez mais importância por conta das demandas do nosso sistema de saúde, não estava tendo a mesma visibilidade dentro dos currículos. Isso vem sendo mudado, até por exigência do MEC. Este evento pretende mobilizar alunos e a sociedade para tratar do tema das populações negligenciadas”, explica Cláudia.

Especificidades e necessidades

Dados do Ministério da Saúde mostram que negras e negros, maior parcela da população, são os mais afetados por doenças como a anemia falciforme, hipertensão arterial e diabetes mellitus tipo 2. Neste último caso, a incidência da doença em homens negros é 9% maior do que em brancos. Entre as mulheres, o número de negras acometidas é 50% maior do que o de brancas.

Informações obtidas pelo portal Gênero e Número mostram ainda que, a cada 100 mil mulheres negras que deram entrada em uma unidade de saúde para ter seus filhos entre 2008 e 2017, 22 morreram. O número representa o dobro em relação às gestantes brancas, que morrem 11 a cada 100 mil internações para parto.

De acordo com a última publicação do Atlas da Violência, no ano de 2017, pessoas negras representaram 75,5% das vítimas de homicídios - uma das causas de mortes violentas - no país. Em um período de dez anos, de 2007 a 2017, a letalidade entre negros cresceu 62,3%.

Pesquisador e membro do Grupo de Trabalho Racismo e Saúde da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), Luís Eduardo Batista afirma que dados como estes são exemplos de que a saúde também é uma área que precisa de ações de combate às desigualdades. Por isso, é necessário promover políticas públicas e de formação profissional conscientes sobre as consequências que desigualdades históricas causaram para a saúde de camadas da população que são historicamente negligenciadas.

Ainda segundo o pesquisador da Abrasco, é preciso defender o direito à saúde de grupos vulneráveis e afirmar políticas que fortaleçam a equidade na saúde pública.

Um modo de ver o mundo e a saúde

Mato Grosso do Sul possui a segunda maior população indígena do Brasil. São 73.295 mil pessoas, segundo dados do último Censo do IBGE de 2010, e abriga oito etnias: Atikum, Guarani Kaiowá, Guarani Ñandeva, Guató, Kadiwéu, Kiniquinau, Ofaié e Terena. Culturas diferentes, com tradições peculiares, e diferentes modos de compreender a vida e a morte.

A Saúde Indígena opera como um subsistema do SUS, mas o nível de investimentos e a importância que se dá à ela está aquém do necessário, afirma Cláudia. “É uma população que tem suas especificidades. Cada grupo indígena tem suas particularidades, hábitos e cultura, e isso tem impacto na forma do ‘cuidado’. Os profissionais que atuam com a população indígena são diferenciados pelo simples fato de estarem dispostos a se envolverem, conhecerem e modificarem sua forma de atuação para atender a esta população”.

No entanto, são poucos os profissionais de saúde que atuam diretamente com a Saúde Indígena. “Temos um sistema que acaba não se adequando, ou profissionais que não estão dispostos a se adequarem a estas demandas específicas desta população. Fora o fato de que trata-se, infelizmente, de um grupo populacional visto como menos importante por parte da sociedade, o que gera um ciclo vicioso de baixo investimento e piora dos indicadores de saúde”, diz a pesquisadora.

Longe de tudo, inclusive da Saúde

Outra população negligenciada que será alvo do Simpósio promovido pela LASF é a “ribeirinha” (habitantes tradicionais das margens dos rios). Entre os principais problemas enfrentados por estas pessoas está a dificuldade de acesso aos centros de saúde.

A Marinha, o Governo do Estado e a própria UFMS realizam ações esporádicas para atender a estas demandas. Mas é insuficiente. “Tivemos nos últimos anos algumas iniciativas voltadas à população ribeirinha, com unidades móveis, fluviais, e também unidades fixas onde o acesso terrestre é possível. Mas ainda é aquém das necessidades desta população que é tão isolada. O atendimento é periódico e o acesso não é constante. Temos (na UFMS) um projeto no qual professores e alunos das diversas áreas da saúde vão, de tempos em tempos, prestar atendimento básico à esta população. Mas, falta de insumos e medicamentos”, explica Claudia.

Preconceito

Alvo de preconceito estrutural, a população LGBTQ+ também tem sido historicamente negligenciada em seu direito ao acesso à saúde. Apesar das barreiras morais impostas por segmentos das estruturas governamentais e universitárias, há quem defenda que o papel dos profissionais de saúde é de promover o ‘cuidado’ e não de julgar. “E é isso que temos que trabalhar com quem está se formando”, afirma Claudia.

Trata-se de uma população vulnerável por conta do preconceito que sofrem, o que gera barreiras de acesso ao atendimento de saúde. “As pessoas não se sentem acolhidas e não buscam o sistema. Quando buscam é já numa situação grave. Portanto, falta a perspectiva da prevenção, como ocorre com o restante da população”, diz a pesquisadora.

De fato, os indicadores de saúde da população LGBTQ+ são piores que os demais. Há, ainda, a questão da violência, que faz com que a população tenha uma expectativa de vida muito inferior ao restante da população. “A média da expectativa de longevidade da população transexual no Brasil é de 35 anos. É uma situação drástica, que a gente só muda com esclarecimento. O papel do profissional de saúde frente a estes indivíduos é fundamental”, aponta a coordenadora da LASF.

O evento

Para tratar destes temas focais para a saúde pública é que a LASF realiza o evento do próximo dia 9, de 7h30 às 17h, no Auditório da Faculdade de Artes, Letras e Comunicação (FAALC) da UFMS. As inscrições podem ser feitas pelo site (R$10 + taxa do site + 1kg de alimento não perecível). Confira a programação dos Painéis.


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