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Quarta-Feira 20.nov.2019

Ano VIII - Nº 372

Mundo

Os erros liberais do Chile estão sendo repetidos aqui por Paulo Guedes

Manifestações desencadeadas pelo aumento de tarifa se transformaram numa revolta contra a desigualdade

Postado em 29 de Outubro de 2019 - João Filho (The Intercept_Brasil), Josias de Souza (UOL), Sophia Boddenberg (DW)

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“O Chile hoje é como a Suíça”, contou Paulo Guedes ao Financial Times, em fevereiro, depois de exaltar os “Chicago boys”que ajudaram o facínora Pinochet a implantar uma economia de mercado durante uma ditadura que reprimiu violentamente direitos civis e sociais.

Oito meses depois dessa entrevista, as ruas da Suíça latino-americana de Paulo Guedes explodiram depois que o governo anunciou um aumento da tarifa do metrô. Foi a gota d’água para uma população endividada, que tem que pagar caro por educação, saúde e no final da vida receber uma merreca de aposentadoria. São os sacrifícios aos quais os Chicago Boys submeteram a população chilena para o mercado poder desfilar e virar o fetiche neoliberal no continente.

As privatizações desenfreadas e o corte de gastos em serviços públicos essenciais melhoraram os números da dívida pública, do PIB e da renda per capita. Apesar desses bons números, o Chile segue entre os países mais desiguais do continente mais desigual do mundo. Mas, como sabemos, essa não é uma preocupação dos ultraliberais. Pelo contrário, é um efeito colateral aceitável que a mão invisível do mercado acabará resolvendo (spoiler: nunca resolve).

Esses indicadores excitam os homens do mercado, que enxergam o mundo através de planilhas do Excel. No mundo real, muitos chilenos têm que escolher entre lavar roupa e tomar banho porque não têm grana para pagar a água privatizada. Mas na planilha de Paulo Guedes, a Suíça latino-americana continua bombando!

O saldo dos protestos até agora foi de 19 mortos e quase 3 mil prisões, números assustadores que fariam os liberais brasileiros surtarem se tivessem ocorrido na Venezuela de Maduro. Mas como essa é a explosão de uma bomba-relógio armada pelo ultraliberalismo da ditadura de Pinochet — e que não foi desarmada por nenhum governo anterior ao de Piñera, como apontou Maurício Brum para o Intercept —, a direita no Brasil ou se refugia no silêncio, como Paulo Guedes, ou faz como Bolsonaro e lança mão do seu super trunfo: jogar a culpa na esquerda.

Há ainda os que gostam de comparar os indicadores chilenos com os brasileiros, como se a convulsão social ocorrida no Chile fosse em virtude do cansaço do povo por viver num país maravilhoso. Nas planilhas, Santiago continua parecendo Zurique. Acontece que qualquer comparação absoluta entre indicadores do Chile com os do Brasil é estúpida. Primeiro porque a população chilena é menor que a metade da do estado de São Paulo. Segundo porque o estado chileno, desidratado pelo ultraliberalismo, não tem os mesmos gastos que o brasileiro com sistema de saúde, de educação e diversos programas sociais. Fica fácil ostentar dívida pública baixa e crescimento do PIB, enquanto a maioria da população sofre sem conseguir pagar por serviços básicos e caros.

A receita chilena de liberdade total à economia somada ao fim de programas e direitos sociais é exatamente a mesma que o bolsonarismo quer implantar no Brasil.

A reforma da previdência brasileira por pouco não seguiu o modelo de capitalização do Chile, que fez com que nove em cada dez aposentados chilenos receba menos de 60% de um salário mínimo, que é de US$ 450 — uma merreca para os mais velhos que ainda precisam pagar caro por serviços de saúde. Além do Chile, Peru, México e Colômbia estão revendo os seus sistemas previdenciários de capitalização, mas Paulo Guedes ainda não desistiu de implantar o modelo no Brasil.

Enquanto a violência corria solta nas ruas do Chile, Bolsonaro anunciava na China que está para sair um novo plano de Paulo Guedes para combater o desemprego. “Os trabalhadores querem menos direitos e mais trabalho”, disse o presidente pouco antes de se encontrar com o presidente comunista chinês. A lógica ultraliberal de cortar direitos para dar leveza aos mercados está sendo reproduzida em todos os setores do país. O nosso Chicago boy está mesmo empenhado em fazer do Brasil uma nova Suíça.

Os tarados pelo ultraliberalismo chileno até pouco tempo veneravam o país vizinho. O ex-banqueiro João Amoêdo, o CEO do partido mais fiel aos projetos bolsonaristas no Congresso, foi ao Twitter no mês passado contar porque o Chile virou um paraíso de bem-estar, riqueza e prosperidade. Assim como Guedes, exaltou as reformas liberais de Pinochet, a responsabilidade fiscal do governo, a agilidade para se abrir novas empresas e outros sensos comuns da velha cartilha liberal.

Percebam o delírio do ultraliberal brasileiro. Um mês antes dos pobres e da classe média saírem às ruas destruindo bancos e botando fogo no metrô porque não conseguem pagar as contas, o ricaço brasileiro exaltava o sucesso das políticas ultraliberais chilenas. Do ponto de visto dos ricos, é verdade, o Chile é um pedacinho da Europa na América do Sul. E não é novidade para ninguém que João Amoêdo só trabalha com o ponto de vista dos ricos.

Quando Sebastián Piñera foi eleito em 2017, o partido Novo comemorou o “fim da social-democracia” e desejou o mesmo para o Brasil. Os sonhos da sigla se realizaram: Bolsonaro e seus Chicago boys estão no poder e contam com o apoio político do Novo para seguir os passos chilenos. A combinação entre um governo autoritário e uma economia 100% livre parece ser mesmo o sonho de qualquer ultraliberal.

Quando a realidade se impôs e atropelou a Suíça das planilhas, Piñera se viu obrigado a reconhecer os problemas sociais que levaram o país ao caos: “É verdade que os problemas se acumulavam há décadas e que os vários governos não foram – nem nós fomos – capazes de reconhecer essa situação em toda sua magnitude. Reconheço e peço perdão por essa falta de visão”.

Além do mea culpa, o presidente liberal apresentou uma série de medidas para contornar a crise. Todas essas medidas, vejam só que ironia, são típicas de um governo social-democrata: reajuste imediato de 20% nas pensões de aposentadorias e nos benefícios sociais, criação de um seguro-saúde, criação de benefícios para trabalhadores de baixa renda, aumento de imposto para os mais ricos, revogação do aumento das tarifas de energia.

Os liberais brasileiros estão dispostos a continuar seguindo o fracassado receituário chileno. Um fracasso admitido até mesmo pelo presidente liberal do Chile. A mesma bomba-relógio já está instalada no Brasil. A reforma da previdência, os cortes em serviços fundamentais como saúde e educação, os cortes em programas sociais, tudo isso é uma crueldade sem tamanho com quem apenas sobrevive no Brasil. Mas Paulo Guedes e sua turma têm um compromisso com as elites e não vão parar.

Na mesma entrevista em que comparou o Chile à Suíça, o ministro disse que as “pessoas de esquerda têm miolo mole e bom coração”. E completou: “as pessoas de direita têm a cabeça mais dura e…o coração não tão bom”. Bom, a comparação estapafúrdia entre os dois países e o colapso social chileno mostraram que Guedes está errado: a direita ultraliberal não tem nem cabeça nem coração.

Protestos prosseguem

Fuera Piñera!", bradam os manifestantes nas ruas de Santiago do Chile, enquanto se aproximam com panelas e tambores do palácio de governo La Moneda. Sua demanda é clara: elas querem a renúncia do presidente.

Uma nuvem de fumaça paira sobre a metrópole, que cheira a plástico queimado. Há barricadas por toda a cidade. Uma lanchonete e várias estações de metrô estão em chamas. Passada mais de uma semana do início de protestos em massa contra a desigualdade social no país, sente-se novamente a ira das pessoas nas ruas.

"Estamos fartos do abuso de poder por parte do governo. Um por cento da nossa sociedade detém a maior parte do dinheiro e, portanto, a maior parte do poder", diz Ariela Contreras, professora de arte, de 30 anos.

"Não podemos voltar à normalidade, ainda não conseguimos nada", lê-se no cartaz que ela tem em mãos. "As reformas propostas pelo governo são superficiais e não resolvem os problemas mais profundos. Não se trata de 30 pesos, mas de 30 anos de abuso de poder", afirma a professora.

Devido aos muitos mortos, feridos e presos durante os protestos, cada vez mais vozes classificam de inconstitucional o comportamento do governo chileno durante o estado de emergência. Tomás Ramírez, jurista e professor da Universidade do Chile, explica: "O que vivenciamos nesta semana é uma violação sistemática dos direitos de todas as pessoas, tenham elas protestado ou não. A ação do governo é inconstitucional e viola os acordos internacionais de direitos humanos."

Os parlamentares da oposição querem lançar um processo de impeachment contra o presidente Piñera por violação dos direitos humanos durante o estado de emergência. A aliança Frente Amplio e o Partido Comunista já coletaram 16 assinaturas de senadores, conforme anunciado no último dia 28.

Dez assinaturas são suficientes para iniciar o processo, mas dois terços dos votos do Senado seriam necessários para leva-lo à frente. Atualmente, o órgão é composto por 43 membros. Além disso, nesta semana, uma delegação das Nações Unidas está chegando ao Chile para analisar a situação dos direitos humanos.

De acordo com recente pesquisa do instituto de opinião Cadem, a aprovação de Piñera caiu para 14%. Desde a redemocratização do Chile, nenhum presidente teve números tão baixos.

O levantamento também revelou que 80% da população considera inadequados os planos de reforma do governo. "Piñera tem que renunciar, ele tem que pagar pelos crimes que cometeu", diz Ariela Contreras. Mais protestos estão previstos durante toda a semana no Chile.

Aviso incômodo

Os Bolsonaro estão em polvorosa com os prtestos no Chile. O líder do PSL na Câmara e filho do presidente, o deputado Eduardo Bolsonaro (SP) afirmou no plenário da Câmara (no dia 29) que, se se repetirem no Brasil protestos populares como os que estão ocorrendo no país vizinho, o resultado será a volta da ditadura. Em tom ameaçador, Eduardo fez a clara ameaça à democracia ao afirmar que “não vamos deixar isso aí vir prá cá. Se vier pra cá, vai ter que se ver com a polícia. E se eles começarem a radicalizar do lado de lá, a gente vai ver a história se repetir. Ai é que eu quero ver como a banda vai tocar”.

As declarações foram rapidamente questionadas em seguida e chegou a figurar entres os assuntos mais comentados nas redes sociais. Em seu perfil no Twitter, a deputada do PT Erika Kokay escreveu: “Eduardo Bolsonaro, o 03, acaba de ocupar a tribuna para fazer ameaças gravíssimas contra a democracia. Disse que se o povo se manifestar aqui no Brasil como tá se manifestando no Chile, a história (da ditadura) vai se repetir. Um criminoso que jurou honrar a Constituição!”

Também no Twitter, a deputada e presidenta do PT, Gleisi Hoffmann (PR), acrescentou à sua resposta pela ameaça, às revelações de suspeita de envolvimento dos Bolsonaros com a morte de Marielle Franco. “Quem vai ter que se ver com a polícia e com a justiça é sua família @eduardosp envolvida com Queiroz, com as milícias e agora citada no caso do assassinato de Marielle e Anderson. Se a banda tocar é pra vocês”.

Jair Bolsonaro receia que a algaravia chilena acorde as ruas brasileiras. No meio da semana, na Ásia, telefonou para o ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva. "A gente se prepara para usar o artigo 142 da Constituição, que é pela manutenção da lei e da ordem", explicou.

O telefonema indica que Bolsonaro não compreendeu o que se passa. Do contrário, teria conversado com outro ministro: Paulo Guedes, da Economia. Antes de organizar a repressão é preciso ao menos tentar evitar a confusão. O Chile pode não ser o bom exemplo que o Posto Ipiranga exaltava até outro dia. Mas revelou-se um fabuloso aviso. Lembra que é preciso incluir sensibilidade social na mistura.

Não se trata de abandonar o rigor fiscal, mas de perseguir o equilíbrio das contas sem perder de vista que o objetivo final é atender às pessoas, sobretudo as mais pobres. O Chile registra nos últimos anos invejáveis taxas de crescimento. Entretanto, distribuiu mal os resultados do seu êxito. No Brasil, o crescimento é miúdo. E a desigualdade é muito maior.

Em 2013, os brasileiros pareciam ter descoberto na ocupação do asfalto uma saída para obter menos roubalheira, mais seriedade e serviços públicos decentes. Sobreveio a reeleição de Dilma Rousseff. Aquecido pela Lava Jato, o asfalto ferveu até o impeachment.

De repente, os brasileiros que foram ao meio-fio se deram conta de que Dilma, além de ser uma das piores presidentes da história, deixara duas heranças macabras: os efeitos de um governo empregocida e Michel Temer, um substituto constitucional cercado de culpados e cúmplices. O tucano Aécio Neves, que emergira das urnas de 2014 como alternativa, chafurdou junto com Temer na lama da Odebrecht e da JBS. Seguiu-se o desalento. O asfalto voltou para casa.

Em 2018, Lula, o número um das pesquisas, foi para a cadeia. E o antipetismo, maior força eleitoral daquela temporada, elegeu Jair Bolsonaro. Tratava-se de uma novidade com cheiro de naftalina. Parlamentar de cinco mandatos, o capitão é pós-graduado nas mumunhas da política. Como jamais tivera acesso à chave do cofre, jactava-se de não frequentar inquéritos.

Hoje, sabe-se que os Bolsonaro lambuzaram-se com rachadinhas e outras miudezas. O apoio ao esfoço anticorrupção deu lugar a uma aliança tácita com a ala do Supremo que abre as celas e o pedaço do Legislativo que arromba cofres. Tudo isso e mais a inesgotável capacidade do capitão de produzir crises que roem a confiança, desestimulam os investimentos e prolongam o drama de 12 milhões de desempregados e mais de 20 milhões de sub-ocupados.

O Chile foi ao asfalto por muito menos. Lá, empregados queixam-se dos baixos salários. Aposentados reclamam das pensões graúdas dos militares e da aposentadoria miúda do modelo de capitalização —menina dos olhos de Paulo Guedes. A corrupção que tira o chileno do sério seria caso para juizado de pequenas causas se comparada com escândalos como mensalão e petrolão.

Bolsonaro atribui as manifestações observadas no Chile e em países como Equador, Bolívia e Argentina a movimentos de esquerda com assento no Foro de São Paulo. "A intenção deles é atacar os EUA e se auto-ajudarem, para que seus partidos à esquerda tenham ascensão", disse o presidente. "Dinheiro nosso, brasileiro, do BNDES, irrigou essa forma de fazer política".

O presidente do Chile, Sebastián Piñera, percebeu da pior maneira que raciocínios binários como o de Bolsonaro não passam de tolices. O problema não é a direita nem a esquerda, mas a meia dúzia que fica por cima. Há uma semana, Piñera declarara guerra contra "um inimigo poderoso". Descobriu que a irritação do asfalto, por generalizada, não tem dono.

Ao se dar conta de que elegera o povo como "inimigo", Piñhera pediu desculpas. E pôs-se a anunciar por pressão providências que se abstivera de adotar por opção: reajuste nas aposentadorias, benefícios nas áreas de saúde e educação, contenção de tarifas de energia… O presidente chileno passou a mimar as ruas, enxergando nelas o futuro.

O receio de Bolsonaro é que o brasileiro decida imitar o chileno, redescobrindo os caminhos que levam ao meio-fio. Por enquanto, a repressão às manifestações no Chile resultaram em 18 mortes e cerca de 6 mil prisões. São números que deveriam estimular Bolsonaro a telefonar dez vezes para o ministro da Economia antes de pensar em fazer uma ligação para o general que comanda a pasta da Defesa.


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