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Quinta-Feira 14.nov.2019

Ano VIII - Nº 371

Comportamento

10 perguntas e respostas para identificar e denunciar abusos no atendimento ginecológico

Toques desnecessários e proibição de um acompanhante podem ser considerados violências no ambiente ginecológico

Postado em 29 de Outubro de 2019 - Ana Ignácio – Huffpost

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Os casos não são recentes. E como em todo quadro do tipo, falar sobre o assunto nunca é fácil. Denunciar é se expor, lidar com traumas e até com sentimentos de vergonha. Mas, registros de assédio e abuso durante consultas médicas tem vindo a tona no Brasil. Um dos mais recentes que se tornou público em julho deste ano, foi o do médico ginecologista denunciado por pacientes no Ceará - há denúncias contra o profissional desde a década de 80. 

Mas como identificar um abuso? O que deve ser feito em uma consulta ginecológica? Como os profissionais são orientados? Conversamos com profissionais da área para esclarecer quais são os exames padrões, os toques e nudez esperados durante uma consulta e o que fazer em casos de abusos dentro do consultório ― e como identificá-los.

Veja a seguir as perguntas e respostas sobre o assunto:

Preciso ficar sozinha com o profissional durante a consulta?

Não. “As mulheres têm direito a acompanhante durante a consulta médica. No serviço público é possível pensar na presença de um profissional de enfermagem para acompanhar. No consultório privado é mais difícil essa garantia, mas a mulher tem o direito de requisitar que o seu acompanhante ou a sua acompanhante esteja junto na hora do exame. Não é algo comum, mas diante das situações que as mulheres têm vivenciado, não é algo que o profissional possa se negar”, explica Halana Faria, ginecologista do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, que atua em Florianópolis.

É sempre necessário fazer exames físicos?

Não. Ele é importante, mas não é essencial em todas as consultas. Isso depende das queixas e fase da vida da paciente. “O exame físico, geralmente na primeira consulta, ele é necessário para que seja avaliada tanto o fator de risco para câncer de mama, se tem algum nódulo, o exame especular para analisar colo do útero, parede de vagina, alguma anomalia na vulva. Então o exame físico é importante, mas nem sempre é necessário e [nem sempre precisa] ser repetido [em todas as consultas]”, avalia Bruno Dourado, ginecologista, obstetra humanizado e sexólogo clínico do Rio de Janeiro.

Halana lembra ainda que nem mesmo a consulta ginecológica precisa ser realizada de maneira tão rotineira. “Na verdade, uma mulher não precisaria consultar com um ginecologista anualmente. Por exemplo, para uma mulher sem queixas, ela só precisaria fazer exame de papanicolau a cada 3 anos (depois de dois exames consecutivos negativos)”, aponta a especialista.

Para ela, o exame físico ginecológico está indicado quando existe a necessidade da realização dessa rotina, ou seja, no seu tempo adequado e também diante de queixas ginecológicas. “Agora da maneira como as mulheres fazem, todo ano ao ginecologista para realizar um exame físico, na verdade isso carece de evidência científica.”

Quais são os exames padrões que devem ser feitos em uma consulta?

Depende. “As consultas não precisam ser padronizadas. O ideal é a mulher trazer suas queixas e dúvidas e a consulta se moldar a partir das necessidades dela”, avalia Ana Arruda, naturóloga, fitoterapeuta e facilitadora em ginecologia natural. “O exame físico deve ser feito conforme a indicação para a faixa etária da mulher. Então os exames padrões em uma consulta que tem indicação, são os exames das mamas, o exame físico completo (auscuta cardíaca, aferição da pressão arterial, avaliação da mucosa, palpação da tireoide, uma avaliação geral da pele, da qualidade dos cabelos)”, diz Halana.

Fora esses exames, há o pélvico, quando indicado. “O exame de toque, que se chama exame pélvico, não deve ser realizado rotineiramente, a não ser que a mulher tenha alguma queixa. Acho que isso é uma das coisas mais importantes de frisar. O exame de toque vaginal deveria ser realizado ou numa mulher gestante que tem queixa de contração, ou se a paciente tem queixas de dor pélvica ou cólicas menstruais muito fortes aí sim pode se fazer a busca de uma massa no fundo da vagina”, completa a ginecologista.

Qual o nível de nudez necessário durante as consultas?

Para consultas em que haja indicação do exame físico, a paciente deve ficar sem roupa e sem calcinha, em caso de realização do exame pélvico, mas obrigatoriamente deve receber uma vestimenta adequada com abertura frontal.

“Os exames são realizados com a paciente no uso de camisola”, diz Bruno. Halana explica que os consultórios devem, sempre, oferecer essa peça apropriada para os exames. “É impensável que a mulher seja solicitada a ficar completamente nua. Ela deve ser examinada com uma camisola que se abre para avaliar as mamas”, avalia.

Qual a forma que as mamas devem ser analisadas?

Exame através de palpação bimanual, com a ponta dos dedos. “A ideia é percorrer toda a mama, as axilas para entender se algum nódulo é palpável. Então o exame nunca deve ser feito com a mão inteira, espalmada. Pode ser feita uma expressão do mamilo para avaliar a saída de algum tipo de secreção anormal, principalmente se a mulher tem queixa de saída de secreção”, explica Halana.

Os médicos explicam ainda que o exame é feito em etapas. Primeiro com a mulher sentada e depois deitada, com os braços elevados. “A gente tenta expor ao mínimo a paciente, primeiro [examina] uma, depois a outra mama, cobre com um lençol para que o exame seja o menos desconfortável possível”, lembra Bruno.

O mesmo vale para o exame vaginal. Halana explica o procedimento: “É feita uma inspeção da vulva para avaliar se pode haver alguma verruga, avaliar a cor da vulva, isso tudo deve ser feito sem muito contato, com um contato adequado, sem passar a mão, sem alisar O exame especular da mesma forma”, completa.

No caso de pacientes que não tem vida sexual ativa, quais as particularidades do atendimento, toques e exames necessários?

A principal diferença nesse caso é em relação a não indicação do exame pélvico. “Se a paciente não tem vida sexual ativa não é realizado o toque vaginal, nem exame especular e nem coleta de preventivo. Mesmo as que têm vida sexual ativa, abaixo dos 25 anos, segundo o Ministério da Saúde, não deve ser coletado preventivo”, explica Bruno.

Halana lembra ainda, que esses casos são apenas de pacientes que não tiveram penetração. “A gente não está falando de mulheres que praticam sexo com mulheres. Essas mulheres devem ser consideradas sexualmente ativas, que é algo que em geral não acontece. Os profissionais de saúde talvez se esqueçam que lésbicas podem fazer penetração de dedos, vibradores e essas mulheres devem ser examinadas, passar pelo exame de papanicolau conforme a indicação do Ministério da Saúde”.

Como saber se o profissional está “passando do limite” de alguma forma?

Conhecer os procedimentos e tipos de exame e conversar com o profissional de saúde. “Essa questão é justamente entendendo o que são os exames padrões. [Na hora do exame] a mulher está numa posição tão inferiorizada nessa relação hierárquica com o profissional de saúde que por mais que ela suspeite que algo não é adequado, ela chega a ficar na dúvida por desconhecer quais são os exames, por estar completamente nas mãos do profissional”, analisa Halana.

Bruno também destaca a informação como grande fator que ajuda a saber se algo está ou não fora do “normal”. “Saber se está passando do limite seriam procedimentos não realizados previamente, procedimentos não consentidos ou algum tipo de estimulação sexual inadequada”.

Ana lembra, ainda, que há um limite individual que é importante ser considerado também. “Não fazer nada que a faça se sentir desconfortável, mesmo que o procedimento seja padrão. O aceitável para uma não é aceitável para outra. É importante que a mulher se sinta segura, ouvida e respeitada. Qualquer demanda não atendida como permitir um acompanhante ou não desejar ser tocada é sinal de alerta”.

Posso interromper uma consulta ou a realização de um exame?

Sim. “Se a mulher percebe já durante a consulta que ela não se sente confortável em realizar qualquer exame ela não pode ser conduzida de forma coercitiva a realizar um exame que ela não deseje e pode levantar e dizer que não vai realizar e ir embora”, explica Halana.

Para Bruno, é importante dialogar com o médico em casos do tipo. “Se não se sente confortável com algum exame deve comunicar, pedir informação sobre o porquê da realização do procedimento para definirem em conjunto se realizarão ou não o exame ou procedimento”.

Além disso, mesmo em casos em que não ocorra nada fora do padrão, as mulheres podem se sentir desconfortáveis e não precisam levar adiante as consultas. “Como sou naturóloga, o que mais recebo são queixas sobre maus tratos durante as consultas, exames desnecessários, diagnósticos baseados em pouca evidência e principalmente a falta de humanização dos profissionais de saúde”, aponta Ana. “As mulheres não se sentem ouvidas, bem acolhidas e bem vistas pela maioria deles. Elas querem se sentir cuidadas, valorizadas e que os tratamentos propostos sejam baseados nas suas reais necessidades e não protocolos de prateleira”, continua.

Como prevenir casos de abusos e constrangimentos em consultórios ginecológicos?

Com informação e diálogo entre pacientes e profissionais de saúde. Uma coisa importante falar é que a mulher pode ser chamada para participar mais ativamente do exame físico. Numa consulta, um profissional pode sim oferecer o espéculo para que a própria mulher insira”, aponta Halana.

O espéculo citado pela especialista é um instrumento que afasta as paredes vaginais facilitando a visualização do colo uterino no exame ginecológico e auxiliando a colposcopia, biópsias e coleta de material para o papanicolau.

“Pode ser algo simples, mas tem um valor simbólico gigantesco. É importante que tenha um espelho na sala de consulta. As próprias luzes que ajudam no exame podem ter acoplado um espelho e acredito que a maioria dos profissionais estão interessados em promover isso. Se ela tem acesso a um espelho, tem uma almofada nas suas costas e acompanha o exame é muito mais difícil que ela seja submetida a uma situação de abuso”, avalia Halana.

Ana também acredita na mudança que esse tipo de medida poderia trazer para os atendimentos. “Muitas mulheres se sentem incomodadas ou até mesmo traumatizadas com a colocação do espéculo por profissionais brutos. Se sentem machucadas e invadidas, muitas deixam inclusive de ir às consultas por conta disso. Uma boa solução é ensinar essas mulheres a colocarem o espéculo em si mesmas, levarem um espelho à consulta e além da profissional que a atende, ela também observa, tira dúvidas e faz perguntas”.

Mesmo pensamento de Bruno, que pontua ainda alguns desafios na área. “As principais dúvidas [das mulheres durante as consultas] é porque elas não sabem exatamente o que será realizado e o que vai acontecer. O mais importante é uma relação mútua de confiança. O problema é que muitas vezes as consultas são muito rápidas então alguns profissionais atendem em 15 minutos, então não dá nem tempo de conversar que dirá explicar cada exame que será realizado, o que é inadmissível. Devemos ter uma consulta com tempo adequado para tudo ser explicado, todas as dúvidas sanadas para que a paciente consinta ou não e assim seguimos o desejo da paciente”, finaliza.

Em caso de algum constrangimento ou abuso durante uma consulta, que medidas posso tomar?

A mulher pode fazer denúncias contra o profissional ou instituição de saúde e entrar em contato com a ouvidoria do SUS (nos casos de atendimento público), ouvidoria do plano de saúde, com a coordenação da UBS em que foi atendida, com o CRM da cidade e com as defensorias públicas para buscar orientação. Há também diversos coletivos feministas organizados no país inteiro que podem oferecer orientação e ajuda para realizar denúncias formais.


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