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Sábado 23.nov.2019

Ano VIII - Nº 373

Poder

Queiroz e o clã Bolsonaro tratam o Brasil como uma nação de idiotas

'Tem mais de 500 cargos lá, cara, na Câmara e no Senado. 20 continho caía bem', disse o braço direito dos Bolsonaro

Postado em 25 de Outubro de 2019 - Juliana Dal Piva (O Globo), Leonardo Sakamoto e Fórum

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Fabrício Queiroz, com a ajuda do clã Bolsonaro, vem tratando o Brasil como uma nação de idiotas. Alegando problemas de saúde, o ex-assessor de Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) se negou a prestar depoimento pessoalmente ao Ministério Público, mandando uma carta que traz mais dúvidas do que respostas. Os mesmos problemas de saúde, contudo, não o impediram de continuar articulando politicamente no Poder Legislativo. E usando seu ex-chefe – ou sendo usado por ele.

Desde dezembro do ano passado, quando suas "movimentações atípicas" foram reveladas, o país espera uma explicação do ex-faz-tudo do clã. Surgiram denúncias de que receberia recursos de funcionários da Assembleia Legislativa, repassando-os ao seu chefe, então deputado estadual. Apareceu um depósito estranho de R$ 24 mil feito por ele na conta da, hoje, primeira-dama, que o presidente afirma ser a devolução de um empréstimo, apesar de não ter divulgado comprovantes. Ficamos sabendo que Queiroz estabeleceu elos entre o gabinete de Flávio, na Alerj, e o "Escritório do Crime", contratando familiares de líderes milicianos. Mas nada de prestar esclarecimentos.

Não é possível dizer que Queiroz "reapareceu" com o furo de reportagem de Juliana Dal Piva, no jornal O Globo, de quinta (24), mostrando o ex-assessor de Flávio sendo consultado sobre nomeações no Poder Legislativo. Ao que tudo indica, ele desapareceu para o MP e para a maioria da sociedade brasileira. Mas continuou bem ativo nos subterrâneos das instituições, onde transita bem. E, segundo ele próprio, com "capital político".

Em julho, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, atendeu a um pedido da defesa de Flávio e suspendeu os inquéritos na Justiça contra ele que tenham partido de órgãos como o Coaf (Conselho de Controle das Atividades Financeiras), sem autorização judicial prévia. Com isso, as investigações em curso no Ministério Público do Rio de Janeiro sobre ele e Queiroz ficaram paralisadas. Talvez se essa decisão não tivesse sido tomada, o faz-tudo teria mais dificuldade de usar seu "capital político" para articular no Congresso Nacional, pois estaria radioativo. Mas se isso acontecesse, talvez o país fosse outro e não precisaríamos nos preocupar com um Queiroz.

"Tem mais de 500 cargos lá, cara, na Câmara, no Senado… Pode indicar para qualquer comissão, alguma coisa, sem vincular a eles [família Bolsonaro] em nada. Vinte continho pra gente caía bem, pra c…, caía bem pra c… Não precisa vincular a um nome", diz Queiroz, em áudio de junho deste ano revelado por O Globo, tratando a coisa pública como feira livre.

O senador Flávio Bolsonaro, em nota, questionou a veracidade do áudio (tática de negação que foi lapidada pela força-tarefa da Lava Jato e por Sérgio Moro diante das revelações do site The Intercept Brasil), mas negou vínculo e influência de Queiroz com o seu gabinete. Disse que, se as declarações forem verdade, seu ex-assessor estaria mentindo.

"Pô, cara, o gabinete do Flávio faz fila de deputados e senadores lá, pessoal pra conversar com ele. Faz fila. P…, é só chegar, meu irmão: 'Nomeia fulano aí, para trabalhar contigo'. Salariozinho bom desse aí cara, pra gente que é pai de família, p…, cai como uma uva (sic)", afirma Queiroz.

Enquanto ele segue livre para atuar politicamente, perguntas continuam sem respostas:

Qual a origem da movimentação de R$ 1,2 milhão nas contas de Fabrício Queiroz, que deu origem a todo esse caso? Por que não há registros de compra e venda de carros, atividade que Queiroz usou para justificar o dinheiro? Por que funcionários do gabinete de Flávio Bolsonaro depositaram recursos nas contas de Queiroz? Todos os funcionários que trabalhavam nos gabinetes de Flávio e de Jair cumpriam suas atribuições diárias? Aliás, todos eles existiam como funcionários? Como foi o empréstimo que Bolsonaro diz ter feito a Queiroz, que justificaria o depósito de R$ 24 mil na conta da hoje primeira-dama e quando foram devolvidos os outros R$ 16 mil do total de R$ 40 mil citados pelo presidente? Qual as origens das outras movimentações milionárias identificadas cuja explicação dada pelo senador deixou mais dúvidas do que respostas? Por que o ministro Sérgio Moro, com larga experiência em investigações, denúncias e julgamentos de "movimentações atípicas", não tem nada a dizer sobre o caso? Onde está a lista de assessores informais na base eleitoral de Flávio pagos com o dinheiro que Queiroz afirmava recolher dos funcionários na Alerj? Recursos públicos desviados da Assembleia beneficiaram milícias? Por que Flávio não abriu um imobiliária ao invés de uma loja de chocolates, uma vez que sabe "fazer dinheiro" com compra e venda de imóveis? Por que a laranja dá tão bem em solo brasileiro? E, claro, por que Queiroz pode fazer política sobre o Congresso Nacional e não pode depor no MP?

Por mais que tenha ficado 28 anos no Congresso, o presidente nunca fez parte do centro do poder e usou isso em sua campanha eleitoral para convencer de que representaria o "novo" na política e nadaria em transparência. O problema é que a "nova política" de Bolsonaro nunca pediu ao filho que fosse depor no MP-RJ, independentemente de convite da instituição, para se antecipar e esclarecer tudo. Da mesma forma, a "nova política", que se vendia como ilibada, comprou votos através de emendas milionárias e cargos no governo a fim de garantir a aprovação da Reforma da Previdência.

Queiroz e suas ações são um lembrete da falta de transparência de uma família com quatro homens públicos que influenciam os destinos do país pelo fato do presidente governar como um chefe de clã. Não adianta exigir que o BNDES divulgue dados sobre empréstimos, reclamando de uma suposta "caixa preta" do Estado, se Bolsonaro fica irritado toda vez que repórteres lhe perguntam sobre Queiroz. Para um governo que acredita no poder transformador da "verdade", é incompreensível que ela seja jogada sistematicamente para baixo do tapete.

Meu soldado

Ao comentar o áudio – que classificou como “bobo” – Jair Bolsonaro falou da relação estreita que tem com o ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro, ressaltando que não conversa mais com o amigo desde que iniciaram as denúncias de que ele comandava o esquema de rachadinha na Alerj.

“Ele (Queiroz) é meu amigo desde 1985, é meu soldado. Desde esse problema, não converso mais com ele”, afirmou o presidente, em Pequim, nesta sexta-feira (25).

Bolsonaro ainda minimizou a fala de Queiroz e disse que “alguém” tem que ir atrás dele. “Sobre o Queiroz, alguém tem que ir atrás dele com o que ele falou. E outra, é um áudio bobo: tem fila na porta do Flávio. Se tivesse fila todo mundo saberia”

Questionado sobre qual seria a razão de Queiroz continuar utilizando o nome de Flávio mesmo após deixar de ser seu funcionário, Bolsonaro questionou a veracidade do material e disse que o ex-assessor foi alvo de um “amigo da onça”, em referência a pessoa que recebeu e compartilhou o áudio – que teria sido gravado em junho.

“Se for verdadeiro o áudio, ele conversou com o amigo dele e o amigo dele deu uma de amigo da onça, gravou e passou para a frente”, declarou.

Entenda o Caso

Oito meses depois de ser exonerado do gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio, o ex-policial Fabrício Queiroz continua sendo consultado sobre nomeações no Legislativo e admite ainda ter "capital político”. O GLOBO obteve um áudio de WhatsApp, de junho deste ano, no qual o ex-assessor sugere a um interlocutor como proceder para fazer indicações políticas em gabinetes de parlamentares. Procurado pelo GLOBO, Queiroz admitiu, por nota, que mantém a influência por ter "contribuído de forma significativa na campanha de diversos políticos no Estado do Rio de Janeiro". Por nota, Flávio Bolsonaro negou que tenha aceitado indicações do ex-assessor e que mantenha qualquer contato com ele desde o ano passado.

Queiroz é investigado pelo Ministério Público do Rio por suposta prática da rachadinha — quando os servidores comissionados devolvem parte dos salários. Ele esteve no gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio entre 2007 e 2018 e, no período, emplacou sete parentes na estrutura.

Em conversa por áudio via WhatsApp do início de junho, Queiroz debate com um interlocutor a situação de cargos que podiam ser usados por aliados no Congresso. No diálogo, ele sugere que as indicações poderiam ser feitas por meio de comissões ou em gabinetes de outros deputados e senadores, e não apenas em cargos vinculados à família Bolsonaro.

— Tem mais de 500 cargos, cara, lá na Câmara e no Senado. Pode indicar para qualquer comissão ou, alguma coisa, sem vincular a eles (família Bolsonaro) em nada — diz Queiroz, no áudio, para depois complementar: —  20 continho aí para gente caía bem pra c**.

Na conversa, Queiroz descreve o gabinete de Flávio no Senado como um lugar muito demandado por parlamentares. Em maio, em entrevista ao jornal "O Estado de S. Paulo", Flávio alegou não saber o paradeiro de Queiroz e justificou: 

— Ele tem um CPF e eu outro — disse o filho do presidente. 

No áudio obtido pelo GLOBO, Queiroz demonstra conhecer o funcionamento do gabinete do senador e sugere que o interlocutor poderia procurar parlamentares que frequentam o local para tratar de nomeações.

— O gabinete do Flávio faz fila de deputados e senadores, pessoal para conversar com ele, faz fila. Só chegar lá e nomeia fulano aí para trabalhar contigo aí, salariozinho bom desse aí para a gente que é pai de família, cai como uma uva — diz Queiroz, no áudio. 

Nomeações na Alerj

Em depoimento, por escrito, entregue ao Ministério Público do Rio em 28 de fevereiro deste ano, Queiroz disse que tinha uma função que “se assemelhava a do chefe de gabinete” e que “tinha a possibilidade de nomear assessores”. No entanto, segundo ele, atuava para “gerenciar as questões relacionadas à atuação dos assessores fora do gabinete do deputado”. Por isso, os funcionários devolviam parte dos salários para ele, o que permitiria supostas contratações de pessoas que não atuavam na Alerj e sim na “base”. 

Queiroz se comprometeu a entregar a lista desses funcionários, mas, até o momento, isso não ocorreu. Essas contratações não seguem as regras da Assembleia. Como revelou o GLOBO em agosto, Queiroz conseguiu nomeações para sete parentes no gabinete de Flávio. Esse número inclui a mulher, duas filhas, a enteada, uma ex-cunhada, entre outros familiares.

Além disso, ele admitiu ser o responsável pelas contratações de Danielle Nóbrega e Raimunda Veras Magalhães no gabinete de Flávio Bolsonaro, quando este era deputado estadual. Elas são, respectivamente, ex-mulher e mãe do ex-capitão do Bope Adriano Magalhães da Nóbrega - investigado por ser o líder de uma milícia que atuava na zona oeste do Rio. Danielle ficou nomeada ao longo de dez anos e foi exonerada junto com a ex-sogra em 13 de novembro de 2018.

Em 6 de dezembro do ano passado, conforme o GLOBO mostrou, Queiroz comunicou por Whatsapp a Danielle que ela fora exonerada do gabinete dias antes porque ambos passaram a ser alvo de uma investigação. As apurações sobre rachadinha envolvendo o então deputado estadual começaram a partir de um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) que apontou movimentações financeiras de R$1,2 milhão entre janeiro de 2016 e janeiro de 2017.

Dez dias depois da conversa, Queiroz foi para São Paulo iniciar um tratamento de câncer. Ele faltou a todas as convocações do MP e prestou apenas um depoimento por escrito, em fevereiro, no qual admitiu que ficava com parte dos salários dos servidores para supostamente efetuar outras contratações. Depois disso, passou oito meses sem ser visto. Em agosto, a revista Veja divulgou fotos suas no Hospital Albert Einstein, onde faz o tratamento.

Em abril, todos as pessoas que foram funcionários de Flávio na Alerj tiveram o sigilo quebrado em investigação do MP do Rio.O caso, porém, está atualmente suspenso após decisões dos ministros do STF Dias Toffoli e Gilmar Mendes e só será retomado em novembro quando a Corte decidirá sobre o compartilhamento de dados de órgãos de fiscalização como a Receita e o Coaf com investigadores.

Nota de Flávio Bolsonaro

Por nota, o advogado Frederick Wassef que atua na defesa de Flávio Bolsonaro disse que "não é verdade e não procede o que está sendo alegado na suposta gravação que não sei se é Fabrício Queiroz quem  fala ou outra pessoa". Além disso, segundo ele, "Fabricio Queiroz e Flávio Bolsonaro jamais se encontraram desde o ano passado.  Nunca mais se viram ou se falaram. Jamais neste período, não existe, neste período, qualquer indicação de aproximação ou trabalho de Fabricio Queiroz para Flávio". Wassef diz que "a gravação deveria passar por perícia da Polícia Federal para garantir sua autenticidade, a comprovação de que é Fabrício Queiroz e que não houve edição ou retirada de contexto da referida gravação".

Nota de Fabrício Queiroz

Por nota, Fabrício Queiroz  disse que “vê com naturalidade o fato dele ser uma pessoa que ainda detenha algum capital político, uma vez que nunca cometeu qualquer crime, tendo contribuído de forma significativa na campanha de diversos políticos no Estado do Rio de Janeiro”. Desse modo, “a indicação de eventuais assessores não constitui qualquer ilícito ou algo imoral, já que, repita -se, Fabrício Queiroz jamais cometeu qualquer ato criminoso”.


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