Semana On

Quinta-Feira 12.dez.2019

Ano VIII - Nº 374

Coluna

Angela Davis e Movimento Indígena

Do Alabama ao Ibirapuera a Liberdade é uma Luta Contínua

Postado em 23 de Outubro de 2019 - Ricardo Moebus

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Foi uma verdadeira celebração da vida e do direito às diferenças, um verdadeiro banho de esperança e renovação das energias para lutar por uma vida mais justa. Isto foi a passagem de Angela Davis pelo Brasil esta semana.

Esta lendária ativista libertária pela emancipação coletiva em geral e das mulheres negras em especial, esta histórica ativista pelos direitos difusos de todos os povos, contra o “capitalismo racista heteropatriarcal”. Aguela mesma Angela Davis com seu lindo cabelo “Black Power” evocando sua militância desde os anos setenta do século passado. Em especial evocando na memória a força simbólica dos “Panteras Negras”, com os quais manteve alguma conexão, que acabou sendo alegada para criminalizar sua militância.

Em sua passagem pelo Brasil esta semana Angela Davis fez uma verdadeira caravana de coalisão com os mais diversos movimentos de resistência popular e democrática contra o atual governo federal de extrema direita.

Esteve com o MST, visitou Preta Ferreira do Movimento dos Sem Teto do Centro, esteve com diversas lideranças e escritoras do movimento feminista negro.

Em seu pronunciamento para uma verdadeira multidão de milhares de pessoas no Ibirapuera / SP, referiu-se ao diretio à moradia, às lutas pela dignidade do movimento negro em geral e das mulheres negras em especial, relembrou Marielle Franco, a criança negra Ágata assassinada, denunciou a violência policial racista no Brasil e nos Estados Unidos, evocou a campanha Lula Livre, movimento dos Sem Terra, Movimento dos Sem Teto, luta pela democracia e pelo socialismo, lembrou da luta dos povos palestinos, estimulou a defesa incondicional dos direitos das pessoas contra o “Capitalismo Racista”.

E na abertura de seu pronunciamento deu um destaque muito especial ao Movimento Indígena. Reconhecendo a posição de liderança do movimento indígena na construção e defesa de uma alternativa político-econômico-civilizacional que possa reorientar o modelo atual na direção do respeito ao planeta, do respeito ao que chamamos de meio ambiente e a tradição ameríndia chama de “Pacha Mama”, ainda que em algumas tradições indígenas brasileiras a Terra não seja nossa mãe, mas sim nossa irmã, o que redunda na mesma postura de respeito e consideração absoluta.

Angela Davis deu a entender que para estancar o saque feito permanentemente pelos que consideram “Pacha Mama” simplesmente como “recursos naturais”, como um mero “estoque de produtos” a serem sequestrados indefinidamente, a alternativa passa necessariamente por darmos voz e ouvidos ao Movimento Indígena.

Logo no início de seu pronunciamento em São Paulo, disse Angela Davis:

“Eu gostaria de expressar a minha profunda gratidão a todas e todos vocês que se identificam com os Movimentos contra o racismo, contra o capitalismo, contra o heteropatriarcado....

E gostaria também de agradecer a todas e todos vocês que reconhecem que se nós não juntamos forças com os povos indígenas, com nossos irmãos e irmãs neste esforço urgente de salvar o planeta, todos os movimentos em prol da justiça, da igualdade, da liberdade ocorrerão em vão.

(...)

O cacique Raoni Kayapó nos diz que: Vocês destroem as nossas terras, vocês envenenam o planeta e vocês estão semeando a morte, porque vocês estão perdidos, e muito em breve será tarde demais para modificar.

Os povos indígenas por toda a extensão das américas tem nos enviado avisos sobre o futuro durante séculos e nós falhamos por não lhes darmos ouvidos, e isso coloca em risco todo o nosso planeta.”

Angela Davis nos ajuda a entender, com a força de sua presença mítica, que o Movimento dos Povos Indígenas não é pelos Povos Indígenas, mas sim a construção de uma alternativa concreta e real de uma sociedade mais inclusiva e justa para todos e todas.

E este “para todos” aqui não significa apenas para todos os seres humanos, mas para todos os seres. O reconhecimento tradicional indígena do direito à vida e à dignidade se estende a todos os seres. Inclusive seres ou subjetividades que são para nós inalcançáveis em nossa compreensão limitada. Por exemplo, o direito dos rios serem respeitados em sua vida e dignidade. O direito das serras e das matas serem respeitadas em sua vida e dignidade. 

Angela Davis aponta como o Movimento Indígena está em posição de liderança na construção de uma “outra via”, que seja fundada no bem comum, na construção de um comum bem viver e conviver, de forma mais respeitosa, justa e livre.

Certamente esta visão do Movimento Indígena foi influenciada também por seu encontro com Ailton Krenak na Universidade Federal do Sul da Bahia, em tempos atrás, anteriores à atual política de morte por estrangulamento financeiro imposto às universidades públicas.

A “mineração do outro” como o saque, o esbulho, o massacre, atinge indistintamente seres humanos, árvores, serras, rios ou a fauna marinha.

O grupo que “atualmente ocupa o escritório”, para usar esta expressão de Angela Davis, parece entender isto muito bem. Por isto vem atacando frontalmente o Movimento Indígena como inimigo número um.

Angela Davis é também um símbolo histórico da criminalização dos movimentos sociais e suas lideranças, tendo passado mais de um ano na cadeia como presa política.

Esta criminalização dos Movimentos Sociais e suas lideranças, vem passando mais uma vez diretamente pela criminalização do Movimento Indígena e suas lideranças.

Seja no Chile que explode em protestos generalizados depois da insistência de protestos contínuos dos Mapuches no sul do Chile, em enfrentamento acirrado durante anos com as indústrias madeireiras em seus territórios, tendo sido muitas vezes tratados como “terroristas”.

Seja na Equador com o presidente Lenín Moreno tentando criminalizar as lideranças indígenas após as fortes ondas de quinze dias de protesto e luta campal nas ruas de Quito.

Criminalização que passa por Jaime Vargas, presidente da organização Conaie, que abarca todos os povos e nacionalidades indígenas do Equador. A Procuradoria-Geral do Equador abriu uma investigação contra Jaime Vargas alegando uma suposta defesa de "grupos subversivos".

O presidente Lenín Moreno segue coagindo as lideranças indígenas por saber da importância capital do Movimento Indígena equatoriano na resistência popular às suas medidas de alinhamento com o Fundo Monetário Internacional (FMI).

Seja ainda na tentativa em curso de golpe de estado contra o presidente Evo Morales, liderança do campesinato indígena, de etnia uru-aimará, primeiro colocado no primeiro turno das recentes eleições na Bolívia, sendo acusado de fraude. Que teve que decretar estado de emergência e convocou uma mobilização “em defesa da democracia”.

A passagem de Angela Davis pelo Ibirapuera, que em tupi-guarani significa “madeira podre”, veio para afirmar que “há algo de podre no reino da Dinamarca” e que a renovação, a superação chegará.

Foi um verdadeiro anúncio da chegada da primavera, de uma primavera de unificação e coalisão dos movimentos em defesa da vida e da dignidade para todos.

Uma primavera que virá.

Como Cantou Caetano Veloso:

-

Virá
Impávido que nem Muhammad Ali
Virá que eu vi
Apaixonadamente como Peri
Virá que eu vi
Tranquilo e infalível como Bruce Lee
Virá que eu vi
O axé do afoxé Filhos de Gandhi
Virá”


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