Semana On

Sábado 23.nov.2019

Ano VIII - Nº 373

Coluna

A vida invisível

O cinema nordestino quebra hegemonia do sudeste e se destaca no cenário nacional e internacional.

Postado em 23 de Outubro de 2019 - Danilo Custódio

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Enquanto o governo avança com o desmonte do audiovisual nacional em nome da “família” e dos “bons costumes”, o cinema nordestino segue firme na sua luta por representar – de maneira honesta e visceral, diga-se de passagem – o povo brasileiro nas telonas mundo a fora. E é uma representação digna de prêmios importantes, conquistando público e crítica em uma escala jamais vista antes na história do cinema brasileiro. "Se formos olhar, nos últimos 15 anos, o cinema brasileiro de vanguarda, o cinema que vem ganhando prêmios e reconhecimento nacional e internacional é o cinema nordestino", afirmou Wolney Oliveira, cineasta e responsável pelo Festival Iberoamericano de Cinema Cine-Ceará, em matéria publicada no portal El País.

Em 2019, desde o início do ano pra cá, tivemos Divino Amor em Sundance e no Festival de Berlim, onde também marcou presença o filme Estou me guardando para quando o carnaval chegar. Depois teve Bacurau e A Vida Invisível em Cannes, além de No coração do mundo em Roterdã. Nos festivais nacionais, destaca-se o longa Pacarrete, que levou oito kikitos em Gramado – incluindo o de melhor filme – além do curta Marie. Todos esses filmes tem em comum um detalhe: foram produzidos no nordeste ou encabeçados por realizadores nordestinos. E a estreia brasileira que vamos destacar aqui é justamente o filme que foi escolhido como representante brasileiro para disputar uma vaga entre os indicados ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

A Vida Invisível, de Karim Aïnouz, chega ao circuito comercial tupiniquim disputando território com os gigantes Zumbilândia 2 e Dr Sono. Mas ao invés de narrar a história engraçada de um grupo de pessoas em meio a um apocalipse zumbi ou o trauma de um alcoólatra que foi criado por um pai perturbado por espíritos malignos, o cineasta nordestino preferiu contar o drama de duas irmãs que forçadamente se tornam invisíveis diante de uma sociedade paternalista e conservadora. Um filme com grande elenco, que promete uma experiência inesquecível. Bora se programar pra ver?

Enquanto isso, em Brasília

Contrariando mais uma vez a promessa de campanha de só fazer nomeação técnica para os cargos públicos na gestão do governo, a presidência da república anunciou no Diário Oficial do última quarta (23) a nomeação de Edilásio Barra para assumir a Superintendência de Desenvolvimento Econômico da Agência Nacional de Cinema. O Tutuca, como é conhecido, é jornalista de formação, mas foi como apresentador de TV e pastor evangélico que ele acabou se destacando. Esteve a frente de alguns programas na CNT, na Record e na RedeTV!, além de ter fundado em 2011 a Igreja Continental do Amor de Jesus, que tem sede no Rio de Janeiro.

Até o Alexandre Frota já se manifestou contra a nomeação de Edilásio Barra, na época em que ele foi indicado para ocupar um cargo no Ministério da Cidadania, onde foi Diretor do Departamento de Políticas Audiovisuais do Ministro Osmar Terra. Mas independente das manifestações contrárias, a partir de agora é o pastor que será responsável pelas operações das Chamadas Públicas do Fundo Setorial do Audiovisual, que movimentou no ano passado mais de 800 milhões de reais. O cargo também responde por estimular a diversificação da produção para o cinema e TV, além do fortalecimento da produção independente e das produções regionais através do FSA.

Depois de testemunharmos o próprio Presidente boicotando a dedo algumas obras com temática LGBTQI+, que foram aprovadas no ano passado nas Chamadas Públicas do FSA e receberiam os recursos esse ano, ainda veio a promessa de indicar para a ANCINE alguém “terrivelmente evangélico”, com “a Bíblia embaixo do braço, joelho ralado no milho e que saiba 200 versículos da Bíblia”, segundo as palavras do próprio Bolsonaro. Resta saber agora quando o Tutuca chegará a presidência da Agência. O futuro do audiovisual brasileiro é realmente obscuro, sombrio...


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