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Quarta-Feira 13.nov.2019

Ano VIII - Nº 371

Poder

Jair Bolsonaro transforma PSL na sua Waterloo

Divisão do partido eleva poder de Maia e centrão

Postado em 18 de Outubro de 2019 - Josias de Souza - UOL

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Jair Bolsonaro mostra ao país que tem poderes mágicos. Além de extrair crises do nada, o presidente consegue magnificar os problemas, transformando-os em encrencas gigantescas. Na crise com o PSL, Bolsonaro decidiu encenar um personagem conhecido, só que as avessas. Tornou-se um anti-imperador, uma espécie de Napoleão que se descoroa em praça pública.

Numa manhã, o presidente diz aos repórteres que não fala em público sobre o PSL. À noite sua voz soa em gravações captadas por hipotéticos aliados sem o seu conhecimento. Nelas, Bolsonaro aparece tramando a destituição do líder do partido. Queria trocar o Delegado Waldir pelo filho Eduardo Bolsonaro. Jogou o peso da faixa presidencial numa Operação Tabajara em benefício da sua dinastia.

Uma guerra de listas transformou a representação do PSL na Câmara numa bancada de fancaria. No câmbio oficial, o partido tem 53 deputados. No câmbio negro das listas, a soma dos apoiadores de Waldir e Eduardo deu 59, um ágio de seis cabeças. Depois de uma checagem, descobriu-se que prevaleceu na guerra da liderança o delegado Waldir, convertido pela conjuntura numa versão pós-moderna do Duque de Wellington, o algoz de Napoleão.

Bolsonaro sabe como fabricar crises. Mas não sabe desfazê-las. Até a semana passada, o presidente tinha uma mulher chamada Michelle, dois filhos no controle dos diretórios do PSL em São Paulo e no Rio, tinha um partido cujos deputados votavam 100% fechados com o governo e um cofre milionário do fundo partidário para conquistar. Hoje, Bolsonaro precisa chegar mais cedo em casa, par verificar o que foi feito de Michelle. Depois de armar contra si mesmo uma derrota com ares de Waterloo, a solidariedade da primeira-dama talvez seja a única coisa que restou ao anti-imperador do Planalto.

O rei está nú

Jair Bolsonaro revelou nos últimos dias um talento insuspeitado para um tipo de música especial: a percussão. Ele exibe uma habilidade extraordinária no manuseio do tambor. Como todo artista talentoso, Bolsonaro cultiva certas idiossincrasias. Ele não toca em qualquer palco. Ao exigir "transparência" do PSL, por exemplo, o presidente bate bumbo sob um enorme telhado de vidro.

Depois de abrir uma crise com o seu partido, Bolsonaro esclarece que não deseja controlar a legenda. Quer apenas transparência. Segundo ele, "o partido está com a oportunidade de se unir na transparência". Diz Bolsonaro: "Vamos mostrar as contas. […] O dinheiro é público. São R$ 8 milhões (do fundo partidário) por mês." Graças a Bolsonaro, o brasileiro descobriu que o imenso telhado de vidro é o melhor posto de observação para acompanhar a briga interna do PSL. É dali que o país assiste há uma semana ao strip-tease da virtude.

Os próprios correligionários cuidaram de lembrar a Bolsonaro que, antes de exibir transparência do partido, ele precisa levantar o tapete que esconde o enrosco do primogênito Flávio Bolsonaro, o cheque que caiu na conta da primeira-dama Michelle, o empréstimo mal explicado do próprio Bolsonaro para correntista atípico Fabrício Queiroz e os interesses que levam o presidente a contemporizar com o laranjal do ministro do Turismo Marcelo Álvaro Antônio.

Num ambiente assim, ao insinuar que a crise é coisa da imprensa, que só enxerga "coisa ruim", Bolsonaro transforma a política num outro ramo do humorismo. Por sorte, quem observa com atenção a gincana de lama que se desenrola no PSL percebe que o presidente não tem apenas o telhado de vidro. O paletó, a camisa e a calça também são feitas de vidro. O mais curioso é que são os próprios correligionários de Bolsonaro, não os oposicionistas, que avisam ao país que o rei está nu.

Divisão do PSL eleva poder de Maia e centrão

Num instante em que Jair Bolsonaro dedica-se a estilhaçar a unidade do seu PSL, o ministro Paulo Guedes (Economia) negocia com o Congresso a pauta de propostas econômicas para a fase posterior à reforma da Previdência. Dissemina-se entre os líderes partidários a avaliação de que o racha no PSL deixará o governo ainda mais dependente do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e das legendas que integram o chamado centrão.

Guedes reuniu-se nesta quinta-feira com Maia e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Conversaram sobre a pauta de propostas econômicas para a fase posterior à reforma da Previdência, prestes a ser concluída no Senado. Planejam fazer avançar pelo menos três temas encrespados: reforma administrativa, reforma tributária e revisão do chamado pacto federativo. Guedes revelou interesse por um quarto item: redução das despesas lançadas como obrigatórias no Orçamento da União. O ministro ficou de entregar suas propostas até a semana que vem.

Um líder de partido do centrão ironizou a posição de Bolsonaro. Na noite de quarta-feira 916), disse ele, todos imaginavam que o presidente rodava o filme 'PSL em Transe'. Na manhã de quinta, prosseguiu o líder, descobriu-se que o título do filme era outro. Algo como 'Querida, encolhi minha autoridade…'

Na fita sobre o transe partidário, que ficou pela metade, Bolsonaro exibiria musculatura política, acomodaria o filho Eduardo na liderança do PSL e iniciaria um processo de ocupação que levaria à chave do cofre da legenda. No filme sobre o encolhimento da autoridade presidencial, que acabou prevalecendo, o capitão foi grampeado pedindo apoio para destituir o líder do seu partido, o Zero Três foi derrotado. Pior: o líder que se pretendia destituir, Delegado Waldir, foi gravado chamando Bolsonaro de "vagabundo" e prometendo "implodir o presidente".

Antes, os 53 deputados do PSL fechavam com o Planalto. Os votos da legenda funcionavam como um "colchão de segurança" para o governo. Agora, o presidente desperdiça tempo e energia numa articulação para obter o apoio dos 27 deputados necessários à ascensão do filho ao posto de líder. Se conseguir, terá de administrar uma bancada em pé de guerra. Se perder, a autoridade presidencial vai caber numa caixa de fósforos.

Em qualquer hipótese, Bolsonaro estará mais dependente do centrão e de Rodrigo Maia, líder informal do grupo. Dito de outro modo: quem ditará a ordem, o ritmo e o preço das votações serão Maia e os líderes da banda arcaica do Legislativo.


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