Semana On

Quarta-Feira 13.nov.2019

Ano VIII - Nº 371

Poder

O hospício da extrema direita

Evento tenta abafar colapso do bolsonarismo

Postado em 18 de Outubro de 2019 - Josias de Souza (UOL) e Reinaldo Azevedo (UOL)

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Recém saída do armário, a nova direita brasileira levou sua cara à vritrine, fez isso em um evento importado dos estados unidos, a Conferência de Ação Política Conservadora (CAPC).

Aconteceu em São Paulo por iniciativa do filho 03 do presidente, o deputado Eduardo Bolsonaro, tudo patrocinado com verbas públicas extraídas do bolso dos brasileiros de todas as ideologias pelo PSL, um partido cuja contabilidade Jair Bolsonaro considera suspeita e exige que passe por uma auditoria externa.

A coisa saiu por algo como R$ 800 mil reais, muito caro. Mas não foi de todo inútil. Serviu para comprovar que a direita bolsonarista não é conservadora, ela é atrasada, arcaica, demode. Até bem pouco ninguém era de direita no Brasil, todo mundo era progressista ou de esquerda. Ser de centro era, também, uma qualificação bem aceita. Já a direita, hmmm. Era mais fácil encontrar alguém a serviço do capeta do que vinculado abertamente a agenda da direita.

Depois que Lula e o PT mostraram que a imoralidade não tem ideologia, ficou entendido que na política não importa a tendência, todos os gatunos são pardos. E a direita sentiu-se à vontade para sair do armário. Surfou no antipetismo e levou Jair Bolsonaro ao Palácio do Planalto. Isso foi muito bom para dar um pouco mais de nitidez à política brasileira.

No encontro de São Paulo, Eduardo Bolsonaro espinafrou a imprensa, idolatrou Donald Trump, enalteceu a ditadura militar e ecoou uma máxima do guru Olavo de carvalho. Olavo diz: “o poder da ação individual é enorme desde que você tenha a cara de pau de agir”, ensinou o filho 03.

Os ministros Onyx Lorenzoni (Casa Civil), Damares Alves (Família e Direitos Humanos), Ernesto Araújo (Relações Exteriores) e Abraham Weintraub compareceram e discursaram.

Ernesto questionou a ciência do clima e tornou a dizer que o fascismo é de esquerda, veja você. Ele lecionou: “totalitarismo é o oposto de conservadorismo, todos os totalitarismos são, portanto, de esquerda, e isso inclui o fascismo italiano”.

Damares falou menos como ministra dos direitos humanos e mais como pastora. Ela arrancou aplausos desde a primeira frase: “Estou aqui há 24 horas”, disse ela para uma plateia de mais de mil pessoas, “e ninguém me ofereceu um cigarro de maconha, e nenhuma menina enfiou um crucifixo na vagina”, disse a ministra.

O Brasil merecia uma direita um pouco mais qualificada. Que tivesse ojeriza em encostar um encontro internacional no caixa de um partido como o PSL, dedicado ao ramo cítrico dos laranjais, gente que tivesse ícones mais qualificados do que Olavo de Carvalho, e palestrantes que não negassem a história e a ciência e nem ofendessem a inteligência alheia.

O que se viu no encontro de São Paulo não foi a defesa de uma plataforma conservadora. O encontro proporcionou a plateia um conjunto de manifestações inarticuladas, proferidas por palestrantes que escoraram o discurso não no conservadorismo, mas no arcaísmo. É uma pena.

Evento tenta abafar colapso do bolsonarismo

Nos Estados Unidos, o CAPC reúne o que há mais de mais reacionário na sociedade americana; por aqui, ganhou tintas explícitas de discurso fascistoide, porém misturadas ao velho e nativo patrimonialismo.

Os despropósitos foram se sucedendo até, creio, o que parece ter sido a culminância da estupidez. Discursando por último, Weintraub comparou Fernando Henrique Cardoso à AIDS. O ex-presidente teria enfraquecido as defesas do organismo brasileiro, permitindo, segundo o ministro da Educação, a chegada de Lula, que seria a doença oportunista.

O discurso é de uma delinquência assombrosa mesmo para quem espera qualquer coisa de um professor universitário que já deu reiteradas mostras de ser semianalfabeto na língua pátria e um analfabeto pleno em moral, ética e decoro.

Eduardo demonstrou mais uma vez seu preparo intelectual. Referindo-se ao atraso de um palestrante, resolveu dar uma satisfação à plateia com estas palavras: "Ninguém vai tocar fogo no prédio, né? Não vai ter mulher mostrando sovaco cabeludo, defecando e vomitando no chão e falando que é arte. E ninguém vai dizer que quem não gosta é fascista e racista".

Obviamente, não havia um único conservador por lá. Nas democracias, conservadores são aqueles que respeitam o molde institucional e fazem propostas de mudanças dentro desse arcabouço. Não são, de nenhum modo, disruptivos; não querem romper a ordem para impor a sua pauta. Aquela gente que estava lá, a começar do anfitrião, quer outra coisa.

Apesar do entusiasmo da turma, a extrema-direita brasileira vive uma espécie de colapso. Eduardo tenta inflamar de novo as milícias virtuais, mas os valentes já não se entendem. E a crise que o próprio presidente provocou em sua legenda, o PSL, é uma evidência.


Voltar


Comente sobre essa publicação...