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Sábado 23.nov.2019

Ano VIII - Nº 373

Brasil

Desenhamos fatos sobre as manchas de óleo no Nordeste

Apesar das proporções do derramamento, o governo ainda não conseguiu determinar de onde vem o óleo que suja as praias nordestinas

Postado em 17 de Outubro de 2019 - Ana Rita Cunha e Luiz Fernando Menezes – Aos Fatos

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Desde o fim de agosto, manchas de petróleo têm aparecido nas praias da Nordeste, mas o problema só chegou ao radar do presidente Jair Bolsonaro e do primeiro escalão do seu governo nesta semana, quando a substância já havia sido detectada no litoral de quase todos os estados da região. No último dia 7, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, visitou área atingidas e o presidente disse ter “quase certeza” que o derramamento de óleo é criminoso, sem dar mais detalhes ou explicações.

Aos Fatos desenhou o que se sabe até o momento sobre as manchas de petróleo nas praias no Nordeste e os impactos desse óleo que já atinge todos os estados da região.

O último relatório do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), publicado no dia 10, indica que já foram registradas 150 áreas com manchas de óleo, em 68 municípios dos nove estados do Nordeste. O Rio Grande do Norte é o estado com mais praias atingidas: 43.

Essa extensão de danos torna o derramamento de petróleo no litoral nordestino o maior já registrado dos últimos 30 anos em termos de área litorânea contaminada, segundo o pesquisador e professor da Faculdade de Oceanografia da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) David Zee.

De acordo com o Ibama, as operações de limpeza começaram no dia 2 de setembro e, atualmente, ocorrem em 11 áreas, com o apoio da Petrobras. Até a última terça-feira (8), haviam sido coletadas cerca de 133 toneladas de petróleo (cerca de 500 barris), segundo o presidente da empresa petrolífera, Roberto Castello Branco, em entrevista coletiva.

Apesar das proporções do derramamento, o governo ainda não conseguiu determinar de onde vem o óleo que suja as praias nordestinas. Uma das hipóteses é que pode ter havido um vazamento em um navio-tanque que transportava o recurso fóssil para longe da costa. Dois barris de petróleo foram encontrados em duas praias de Sergipe, o primeiro em Barra dos Coqueiros, no litoral norte; o outro, na Praia Formosa, na zona sul da capital, Aracaju.

O oceanógrafo e pesquisador da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) Marcus Silva, em entrevista à TV Globo, disse que a origem do óleo seria um navio que passava pelo litoral pernambucano. Segundo estudo feito por ele levando em conta correntes marinhas, ventos e marés, o petróleo teria sido derramado pela embarcação a uma distância de cerca de 40 a 50 quilômetros da costa.

Até o momento, existem mais certezas sobre a origem de fabricação do óleo. Investigação do Ibama com apoio dos Bombeiros do DF aponta que o material que está poluindo todas as praias seja o mesmo. No dia 25 de setembro, a Petrobras já havia analisado as amostras de óleo e afirmado que ele não foi produzido pela estatal. Em relatório sigiloso feito para o Ibama, conforme informado pela Folha de S.Paulo, porém, a Petrobras enviou resultado de análise comparativa com o petróleo venezuelano, que tem características diferentes das encontradas no brasileiro. A conclusão reforça a suspeita de que o óleo que chegou às praias do Nordeste tenha vazado de algum navio.

Um estudo de pesquisadores da UFBA (Universidade Federal da Bahia), feito em parceria com especialistas da UFS (Universidade Federal de Sergipe) também concluiu que o petróleo tem correlação com um dos tipos de petróleo produzidos na Venezuela. Foram coletadas 27 amostras de resíduos ao longo do litoral de Sergipe e da Bahia, e nove delas foram submetidas a análises geoquímicas. Segundo os pesquisadores, nenhuma das variedades de petróleo produzidas no Brasil apresenta características semelhantes às encontradas nas amostras analisadas.

O relatório mais recente do Ibama sobre o impacto do derramamento de petróleo no litoral nordestino na vida marinha indica que 22 animais foram contaminados. Desses, 13 tartarugas marinhas que entraram em contato com o óleo morreram, outras oito foram intoxicadas, além de uma ave também atingida pelo material.

O petróleo, além de ser tóxico para animais, por sua textura viscosa, bloqueia vias respiratórias e dificulta que eles se desloquem. A pesquisadora Liana Mendes, da ONG Oceânica, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, explica que, ainda que o óleo tenha um tempo de vida relativamente curto no ambiente aquático, a fração derramada é altamente tóxica para os organismos.

O óleo já atingiu 12 áreas de proteção ambiental e pode impactar espécies ameaçadas de extinção como o peixe-boi. A última área com registro de manchas foi a Reserva Extrativista (Resex) Curupuru, no Maranhão, segundo os dados do Ibama.

Outra preocupação dos ambientalistas com o derramamento é o impacto nos recifes de corais. "Como os corais são animais fixos sobre as formações recifais, durante a baixa maré, ficam expostos à chegada do óleo", explicou em entrevista ao UOL o conselheiro da APA (Área de Proteção Ambiental) Costa dos Corais e professor da Ufal (Universidade Federal de Alagoas) Cláudio Sampaio.

A Costa dos Corais, que tem 130 km entre Alagoas e Pernambuco, é o segundo maior banco de arrecifes do mundo e pode ser impactado pelo derramamento. Para Sampaio, a chegada desse óleo pode sufocar não só os corais, mas toda a fauna associada a eles.

O petróleo também é prejudicial à saúde humana. Estudos recentes mostram que, em contato com a pele, o óleo pode causar irritação. Não é recomendado, portanto, retirar o óleo das praias sem luvas e proteção adequada. A ingestão de alimentos ou água contaminada também pode levar a problemas respiratórios e neurológicos.

O derramamento de óleo também afeta a economia do Nordeste. Uma das atividades mais impactadas até o momento é o turismo. Em Fortaleza, por exemplo, as manchas fizeram com que fosse interditada uma das praias mais frequentadas do Ceará, a Praia do Futuro. Com isso, a AEPF (Associação dos Empresários da Praia do Futuro) afirmou que teve queda de 40% nas vendas das barracas na região no último fim de semana. Ao todo, 11 praias da zona leste da cidade estão impróprias para banho e isso já impacta o comércio local.

Em Sergipe, a situação é mais grave, e o governo do estado decretou estado de emergência da faixa litorânea. Todas as praias do estado foram consideradas impróprias para banho por conta da contaminação com petróleo.

As manchas de petróleo seguem se deslocando em direção ao sul e chegaram às praias de Salvador nesta sexta-feira (11). Pequenas pelotas de óleo foram identificadas em pelo menos quatro praias da cidade, segundo a prefeitura local. A preocupação das autoridades e dos ambientalistas é que o óleo chegue ao arquipélago de Abrolhos, no sul da Bahia, onde as baleias jubarte permanecem até meados de novembro.

Outra atividade impactada pelo derramamento de petróleo é a pesca. Jornais locais e nacionais apresentam relatos de pescadores que interromperam as atividades em ao menos cinco estados.

Na Bahia, no município de Conde e arredores, pescadores interromperam a pesca por conta em alto mar por conta do óleo. Em entrevista ao G1, os pescadores relataram que os peixes vinham coberto de óleo. Os mesmos relatos se repetem em Sergipe, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Maranhão.

Até o momento não há relatório federal nem do Ibama nem da Secretaria de Aquicultura e Pesca, sobre impacto do derramamento na atividade pesqueira.


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