Semana On

Quinta-Feira 12.dez.2019

Ano VIII - Nº 374

Coluna

O agronegócio e a identidade econômica e social de Mato Grosso do Sul

Êxodo de camponeses e revolução tecnológica marcam história do setor em MS

Postado em 16 de Outubro de 2019 - Redação Semana On

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Com extensas áreas agricultáveis, um dos maiores rebanhos bovinos do País, reservas minerais e política de incentivos à expansão industrial, aliados a centros de pesquisa de tecnologia e inovação da cadeia do agronegócio, solidez fiscal e eixos rodoviários que ligam o Estado aos principais centros consumidores do mercado interno e terminais de exportação, Mato Grosso do Sul ocupa posição privilegiada. Por todos estes motivos, a principal base da economia de Mato Grosso do Sul é o agronegócio. 

Para se ter uma ideia do impacto do agronegócio na economia do Estado, em 2018 o valor da produção agrícola atingiu R$ 19,1 bilhões, segundo o IBGE. Um aumento de 24,9% em relação à 2017. Os maiores responsáveis pelo desenvolvimento da região foram a soja com uma produção de 9,9 milhões de toneladas e o milho, que mesmo com problemas climáticos teve um bom preço de mercado com R$ 3,6 bilhões de reais.

Vice-presidente das entidades Famasul, Senar, Funar, Aprosoja e Sindicado, e terceira geração de produtores rurais, Luis Alberto Moraes Novaes é um entusiasta ao falar do desenvolvimento do agronegócio. “A missão do estado, foi criar o bom ambiente para que o produtor pudesse expressar este potencial. As produtividades agrícolas praticamente dobraram nos últimos 30 anos e ainda se desenvolveu tecnologia para uma segunda safra, um dia chamada de safrinha, mas que hoje já ultrapassa em volume de milho com relação ao volume de soja da primeira safra”, explica.

Em matéria de exportação, o Estado é hoje o quinto maior exportador de carne in natura e quinto lugar em grãos. Os três maiores compradores são China, Chile e Arábia Saudita. Frigoríficos trabalham exclusivamente para abastecer o mercado chinês. E a tendência é o aumento do consumo entre africanos, asiáticos e sul-americanos que irão consumir não só a carne de boi, mas frango e porco, tudo produzido em Mato Grosso do Sul.

O volume de carne bovina exportado pelo Estado entre janeiro e agosto deste ano foi de 117 mil toneladas, representando um aumento de 46% em relação ao ano de 2018. A receita da comercialização atingiu o valor de US$ 432,2 milhões. Os municípios de MS se destacaram porque, ao contrário dos outros estados, em 2018 a área plantada aumentou. Isso ocorreu porque existem solos e regimes hídricos adequados às culturas e posição geográfica estratégica para o escoamento de sua produção, consolidando sua vocação ao agronegócio.

Êxodo e tecnologia

O agronegócio começou a se estabelecer definitivamente em Mato Grosso do Sul nos anos 1970, provocando transformações significativas em algumas regiões do Estado. A soja já estava implantada no Sul do País, mas com o preço da terra se elevando, houve um êxodo de pequenos agricultores para Mato Grosso do Sul (onde as terras eram bem mais baratas). São eles que dão início ao plantio da oleaginosas. A partir desta época a força dos dois setores (pecuária e agricultura) se une no termo agronegócio.

Pecuarista e empresário, Leonardo de Barros lembra que a pecuária antes era feita em áreas onde antes existiam pastagem nativas. A primeira estrutura começou há três séculos com os Campos de Vacaria, Maracaju Ponta Porá (áreas nativas) e Pantanal. A grande virada (meados dos anos 70) acontece com a introdução da braquiária, oriunda da África, que mudou todo o cenário. Antes dela, existia dois tipos de capim nativos, colonião e Jaraguá, as áreas de pecuária eram restritas, porque havia necessidade de desmatar. As terras, segundo ele, tinham que ser férteis e a agropecuária era restrita. Mas a braquiária se adaptou e se expandiu por todo o Brasil central como uma praga. “Uma boa praga”, corrige.

Entre os anos 1980 e 1990 temos uma década de acomodação de implantação desta nova agricultura. É quando começa um boom de tecnologia no agronegócio. Em apenas 15 anos Mato Grosso do Sul passa do quarto lugar para o primeiro no ranking de produtor mundial. “Na área da pecuária a gente abatia um animal com cinco anos e depois passou a abater com dois anos”, conta Barros, explicando que o motivo foi a intensificação da genética, pastagem de melhor qualidade e a sanidade. Tudo isto criou um ambiente para o animal desenvolver mais rápido. Ao mesmo tempo o produtor, que antes precisava de dois hectares para um animal, passa a ter dois animais em apenas um hectare.

A agricultura avançou ainda mais, de acordo com Barros. “Somos o único País do mundo que consegue fazer duas safras – duas e meia – no mesmo ano agrícola”, e isto, segundo ele, graças ao plantio direto, agricultura de alta precisão. Com a introdução da tecnologia, o brasileiro finalmente descobriu que nos Trópicos não tinha impedimento climático. “Hoje não precisamos mais mexer na terra e usamos muito menos defensivos agrícolas que antes”, atesta.  Mato Grosso do Sul só perde em produtividade para os EUA (agricultura) na questão do milho, mas ano a ano está diminuindo a diferença. “Estamos chegando lá”, entusiasma-se.

A estrutura que transformou o agronegócio, de acordo com análise de Barros, também transformou a sociedade. “Essas pessoas que fizeram a revolução tecnológica não tinham muito estudo, eram simples, mas eram pessoas abertas a ciência e inovação e queriam melhorar de vida”, narra. A transformação, que segundo Barros, aconteceu de forma silenciosa e rápida, é uma verdadeira revolução. “A história dessas pessoas precisa ser contada de forma verdadeira. São pessoas que vieram de outros estados, mas agora são sul-mato-grossenses”, avalia.


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