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Domingo 17.nov.2019

Ano VIII - Nº 372

Coluna

Será que a temporada do Oscar será a virada para estes veteranos?

Renée Zellweger, Eddie Murphy, Adam Sandler e Shia LaBeouf fazem papeis que são metacomentários sobre suas carreiras

Postado em 16 de Outubro de 2019 - Matthew Jacobs - HuffPost US

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“Eles perseguem as pessoas nesse mundo”, diz Renée Zellweger em Judy. Na verdade, é a sua personagem, Judy Garland, quem diz essa frase, mas bem que poderia ser a própria Zellweger. Quem entenderia tão bem esse sentimento como uma pessoa que se afastou dos olhos do público durante quatro anos e, quando voltou, foi vítima de comentários hediondos sobre sua aparência? Os problemas de Zellweger podem ter sido muito diferentes do vício e da luta pela custódia dos filhos enfrentada por Garland, mas ainda assim a atriz de 50 anos traz uma conexão meta para o renascimento de sua carreira.

Depois dos sucessos de Jerry Maguire e Diário de Bridget Jones, Zellweger fez o papel de uma mulher esforçada e seduzida pelo brilho da fama em Chicago. Em Judy, ela interpreta uma estrela tentando se esconder dos holofotes. Mas, por mais que se transforme na estrela do século passado, a famosa panaché de Zellweger não desapareceu.

Os tiques de atuação que a transformaram em um dos maiores nomes de Hollywood nos anos 2000 – os lábios carnudos, o sorriso tímido, os braços inquietos – estão todos ali. Os anos em que ela ficou reduzida a esposa desajeitada (A Luta pela Esperança) ou um mero clichê (Recém-Chegada), para depois ver-se questionada por supostamente fugir de si mesma pela via cosmética, tornaram-se a fundação do retorno de Zellweger.

Assistir Judy, que conta a história do último ano de vida de Garland – especificamente uma residência de cinco semanas que ela fez num clube londrino em 1969, é como observar Zellweger na corda bamba. Será que ela consegue estar à altura da força física e do contralto robusto? Os fãs de Garland se perguntavam a mesma coisa.

Quando Zellweger arremete, o coração da plateia vai junto. Os melhores momentos do filme são os números musicais. Judy sobe ao palco para cantar Over the Rainbow, a música tema de O Mágico de Oz, temos um momento de transe – uma artista que está no lugar certo, assim como Zellweger deve estar nas telas. É um arco triunfante, como se o filme existisse para nos lembrar por que começamos a prestar atenção em Zellweger lá atrás. Trata-se da história de uma dignatária de Hollywood consumida por uma indústria que examina as mulheres no microscópio.

Zellweger é uma entre várias estrelas que aparecem em filmes que serão lançados de olho no Oscar e que, direta ou indiretamente, são comentários sobre suas carreiras – papeis que florescem justamente porque é aquela pessoa naquele papel. Eddie Murphy faz um comediante desbocado em Meu Nome é Dolemite, Adam Sander testa os limites da repulsa em Uncut Gems, e Shia LaBeouf enfrenta sua imagem agressiva em Honey Boy.

Os quatro atores, cujos filmes foram exibidos no Festival Internacional de Cinema de Toronto, em setembro, viviam um impasse nos últimos anos: ou estavam completamente afastados das telas, ou então repetiam sempre os mesmo papeis. Agora queremos saber como seus respectivos legados informam este novo capítulo – e se o público vai passar a enxergá-los de outra maneira.

Como Zellweger, Murphy descobriu que Hollywood não tinha ideia do que fazer com ele. O comediante era um dos protagonistas mais garantidos do cinema, mas acabou sendo destroçado pela crítica por filmes como Norbit, O Grande Dave e Imagine Só. A bilheteria não foi muito mais gentil. A metralhadora verbal de Murphy – que fez tanto sucesso nos clássicos Um Tira da Pesada e Um Príncipe em Nova York – tinha virado uma muleta. Em O Professor Aloprado ele demonstrou ter mais dimensões, mas o filme acabou virando uma maldição. Depois dele, a maioria dos roteiristas criavam papeis infantis e bufões para o ator (Pluto Nash, A Creche do Papai)

O declínio de Murphy no fim da primeira década dos anos 2000 colocou em xeque sua longevidade (além de seu discernimento) bem no momento em que Hollywood estava mudando o foco das estrelas para as franquias. “Não me prostituo mais com tanta facilidade”, disse Murphy à Rolling Stone em 2011, uma opinião que ele repetiria em conversa com Ellen DeGeneres dois anos depois: “Não quero mais fazer nada que seja ruim”.

Em Meu Nome é Dolemite, Murphy cumpre a promessa. (Vamos esquecer do piegas Mr. Church, de 2016.) Dolemite não só não é ruim; o filme também tem a ver com a dificuldade do Murphy dos dias de hoje em encontrar material de qualidade. No papel do comediante indecente Rudy Ray Moore, cuja carreira decolou depois que ele investiu tudo o que tinha no filme de blaxploitation Dolemite, Murphy encontra uma alma gêmea. Moore, como Murphy, era um comediante tosco por fora, mas vulnerável por dentro, ao mesmo tempo exigente e indefeso.

Rudy Moore está tão acostumado à rejeição – e tão disposto a lutar por suas convicções – que, quando seu projeto faz sucesso na estreia, o sorriso em seu rosto é catártico. Na estreia de Dolemite no festival de Toronto, o diretor Craig Brewer (Ritmo de um Sonho) disse que o filme é um projeto pessoal e muito próximo de Murphy. Com certeza foi gratificante para o ator, que estava na plateia, ouvir as gargalhadas do público e saber que ele também merece outra oportunidade.

Curiosamente, um dos pares de Murphy no mundo da comédia também está brincando com seu legado. Adam Sandler, outro humorista que aproveitou a fama do Saturday Night Live para virar um campeão de bilheteria, consegue algo de que só os astros são capazes: interpretar um personagem detestável, mas amado pelo público.

Há muito tempo Sandler vem testando a paciência dos espectadores com seus personagens infantiloides e idiotas: de Billy Madison – Um Herdeiro Bobalhão e O Rei da Água, O Paizão e Little Nicky, Um Diabo Diferente. Mas nos anos 2000 ele teve oportunidades de expandir essa palheta. Embriagado de Amor capitalizou sua personalidade tosca em uma comédia romântica fofinha; Reine Sobre Mim e Tá Rindo do Quê? mostraram que ele era capaz de telegrafar luto sem sacrificar o charme.

Quando tinha de voltar aos papeis de sempre, Sandler parecia inquieto, como se tivesse provado lagosta mas só pudesse comer ovo cozido. O contrato que ele assinou com a Netflix em 2014 rendeu quatro filmes de trapalhadas, nos quais ele parecia particularmente entediado (Mistério no Mediterrâneo, que não faz parte do acordo), tiveram enorme audiência.  

Os irmãos diretores Josh e Benny Safdie, que brincaram com a imagem de ídolo das matinês de Robert Pattinson em Bom Comportamento, sabem como aproveitar as habilidades de Sandler em Uncut Gems.

Apresentando o filme em Toronto, os irmãos disseram ter escrito especialmente para Sandler o papel de Howard Ratner, um negociador de diamantes de Nova York. O ator inicialmente recusou, mas depois mudou de ideia. Nas mãos de Sandler, a repulsividade de Howard é um mero detalhe. O filme começa com uma colonoscopia, uma sacada poética, pois o personagem é um cuzão. Howard mente para os clientes, trai a mulher, negligencia os filhos. Ele é infantil, mas não do jeito palhaço a que estamos acostumados com Sandler.

O ator está sempre sorrindo. Ele parece mais contente e envolvido do que nos últimos anos. (Com exceção de The Meyerowtiz Stories) Seus olhos estão mais abertos, sua testa, mais expressiva. Os irmãos Safdie abrem espaço na tela para Sandler, como se seus movimentos dirigissem a ação. (Por coincidência, os irmãos Safdie seriam os diretores de um remake do filme que lançou a carreira de Murphy, 48 Horas).

Se um ator menos conhecido fizesse o papel de Howard, o filme talvez não funcionasse. É difícil passar duas horas na companhia de uma pessoa tão incorrigível sem que haja algum tipo de afeto pelo ator. Mas, como Sandler parece tão mergulhado no personagem, é uma delícia assisti-lo explorando a canalhice de Howard.

O mesmo vale para Shia LaBeouf. Seu papel em Honey Boy é autobiográfico: um astro mirim cujo pai abusivo o ameaçou com uma arma de fogo. Conforme LaBeouf foi crescendo, os escândalos (brigas de rua, prisões e bizarrices (viajar de carona, o saco de papel) passaram a chamar mais atenção que seu trabalho, apesar de ele sempre manter a ferocidade nas telas (Ninfomaníaca, Docinho da América, Borg vs McEnroe). Ele parecia derreter em tempo real, vítima de transtorno do estresse pós-traumático, de abuso de substâncias e de uma hostilidade implacável. Aí ele decidiu transformar sua dor em arte, escrevendo o roteiro de Honey Boy numa clínica de reabilitação.

Em vez de interpretar a si mesmo, porém, LaBeouf vai além: ele faz o papel de seu pai. Bela terapia, não? (Noah Jupe, de Um Lugar Silencioso, faz o LaBeouf da época de Even Stevens, e Lucas Hedges é o ator como jovem adulto.)

É um filme cru e direto, que meio que perdoa o pai, uma figura magoada e egoísta. A calvície iminente de LaBeouf é acompanhada por um sotaque sulista, ambos traços que não poderiam estar mais distantes dos seus dias de Transformers. Ele passa o filme todo à beira do colapso. O resultado não é uma absolvição dos erros do ator, mas pelo menos eles servem para dar novo foco à sua imagem. LaBeouf é mais do que lemos nas manchetes.

LaBeouf, Sandlers, Murphy e Zellweger estão no proverbial “rehab de carreira”. Ao reconhecer, direta ou indiretamente, o que lhes aconteceu nos últimos anos, eles garantem um caminho para trilhar no futuro. Ao demonstrar consciência em relação a seus atos – o que nem sempre é fácil para quem é rico e famoso ―, eles mostram o dedo médio para as forças que os reduziram a enigmas. Judy, Meu Nome é Dolemite, Uncut Gems e Honey Boy são filmes feitos sob medida para seus astros, uma raridade num cenário saturado de filmes de super-herói. Eles perseguem as pessoas nesse mundo, mas essas pessoas se vingam ferozmente.


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