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Domingo 17.nov.2019

Ano VIII - Nº 372

Entrevista

Kurt Straif: Quem questiona o risco de comer carne processada se equivoca

Ex-executivo da OMS, premiado por resistir a “pressões de interesses especiais”, reafirma o potencial cancerígeno de determinados produtos de origem animal e do glifosato

Postado em 14 de Outubro de 2019 - Bruno Martín – El País

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Durante mais de 15 anos, o médico e epidemiologista Kurt Straif (Stuttgart, Alemanha, 1956) dirigiu o programa de relatórios do IARC, a Agência Internacional de Pesquisas sobre o Câncer, que é parte da Organização Mundial da Saúde (OMS). Esse órgão intergovernamental é o responsável por avaliar o potencial cancerígeno das substâncias ou comportamentos (“agentes”, no linguajar da IARC) suspeitos de causar a doença. Seus grupos de trabalho, compostos por equipes internacionais de especialistas, revisam a solidez das provas científicas, mas não avaliam em que medida os agentes considerados poderiam ser perigosos, nem emitem recomendações explícitas.

Durante o mandato de Straif, a IARC publicou relatórios influentes e às vezes polêmicos, como o que declarou a carne processada um cancerígeno confirmado para humanos (grupo 1), ou os que situam a carne vermelha e o herbicida glifosato como prováveis causadores de câncer (grupo 2A). Neste mês, Straif recebeu o Integrity Award da Sociedade Internacional de Epidemiologia Ambiental (ISEE), um reconhecimento que só é concedido se a ocasião o merece – neste caso, por demonstrar “integridade excepcional frente às pressões de interesses especiais”. Aposentado da IARC, Straif se encontra agora em Barcelona como pesquisador associado no ISGlobal, o Instituto de Saúde Global mantido pelo banco La Caixa.

 

Na semana passada, a revista Annals of Internal Medicine publicou cinco revisões científicas sobre o consumo de carne vermelha e carne processada. Os autores concluem que elas não acarretam um risco importante para a saúde e rejeitam a recomendação da OMS de reduzir o consumo de ambos os alimentos. Está de acordo?

Não, não estou de acordo com sua interpretação dos dados. Os autores dessa revisão subvalorizam a evidência de estudos observacionais e dão muita importância aos estudos experimentais. Em uma análise epidemiológica de câncer, é muito importante ter um alto contraste na exposição ao agente para apreciar seu efeito: neste caso, seria preciso comparar um grupo de pessoas que não consomem carne processada com outro grupo que consome muita carne processada, além de algum grupo intermediário, para estabelecer uma boa análise dose-resposta. Nos estudos experimentais que eles consideram, as diferenças entre o grupo exposto e o grupo que não recebeu carne processada são pequenas. Isso por um lado. Além disso, para fazer isso bem seria preciso estudar o efeito dessa dieta específica durante muito tempo; poderiam passar 10 ou 20 anos desde que se sofre a exposição a um agente cancerígeno até que surja o câncer, é o que chamamos o período de latência. Não há nenhum ensaio clínico neste caso que dure tanto tempo e com um alto contraste na exposição dos grupos. Por isso acredito que se equivocam.

Os dossiês da IARC avaliam a solidez das evidências sobre o potencial cancerígeno de um agente, mas não a magnitude do efeito. Suas conclusões são mal interpretadas por desconhecimento desse matiz?

Acredito que a IARC deixe isso muito claro em suas comunicações. Por exemplo, fumar tabaco está na mesma categoria (é um cancerígeno do grupo 1) que inalar fumaça como fumante passivo, mas o risco relativo de câncer é muito maior no primeiro caso. Insiste-se muito nisto. O que acontece é que às vezes há outros interesses que se esforçam em causar confusão, ou em desacreditar e ridicularizar o trabalho da IARC. E alguns jornalistas procuram um título atraente, como dizer que os centros de bronzeamento são tão cancerígenos quanto fumar tabaco. Pode-se melhorar a comunicação.

Quais são esses “outros interesses” contra os quais lutaram?

O programa de relatórios reúne grupos internacionais de especialistas sem conflitos de interesse para avaliar todas as evidências sobre cada agente. Não acarreta nenhum tipo de regulação, mas é o programa mais autorizado em classificação de riscos de câncer. Às vezes há partes interessadas que querem manter seu produto no mercado e isso cria uma pressão enorme. Não sei por onde começar... Quando nos dispúnhamos a realizar o relatório sobre a fumaça de diesel (cancerígeno do grupo 1), por exemplo, recebemos muitíssimas cartas sugerindo que talvez não fosse preciso revisá-lo. Inclusive advogados do setor escreveram aos editores das publicações científicas para adverti-los a não publicarem nossos resultados, ou haveria consequências. Depois, claro, também houve esforços combinados para desacreditar nossos resultados depois de publicados.

Foi o isso que fez a empresa Monsanto quando vocês colocaram seu herbicida, o glifosato, no grupo 2A (provavelmente carcinogênico para seres humanos)?

Sim, embora eu ache que me deram o prêmio pela trajetória, e a pressão pelo glifosato foi apenas o evento culminante.

Então, não considera a pressão da Monsanto particularmente dura? A IARC publicou um comunicado para responder às acusações da empresa, algo completamente excepcional.

Não foi a pior pressão que tivemos antes de iniciar uma revisão –foi com a fumaça do diesel–, mas, sim, foi a maior [pressão] após a nossa publicação. De fato, a Monsanto começou rompendo o embargo aos resultados, acusando a IARC de supressão de provas [cherry picking] para minar nossa credibilidade. Foi um enorme esforço orquestrado que continua até hoje. Foi organizado pela Monsanto, mas a empresa tinha contatos no Comitê de Ciência, Espaço e Tecnologia da Câmara dos Representantes dos EUA, que assumiram a tarefa de questionar a credibilidade da monografia. No final, o Conselho Americano de Química também se envolveu, inicialmente com o objetivo de interromper o financiamento da IARC, mas depois, mais especificamente, para suprimir o programa de monografias. Também fomos insistentemente questionados por uma jornalista da agência Reuters, que recebia material diretamente da Monsanto. Foi tudo realmente excepcional. Normalmente, é melhor ignorar essas situações e deixar que passem, mas neste caso sentimos que devíamos responder publicamente em nosso site.

A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) e a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) concordam que o glifosato "provavelmente" não é causador de câncer. O senhor mantém a posição oposta da IARC?

Apoio firmemente a avaliação do grupo de trabalho internacional [que produziu a monografia do glifosato para a IARC]. Mesmo agora, que não trabalho mais lá, não cabe a mim criticar e apontar os erros que as outras agências podem ter cometido. Mas sei que a avaliação do IARC, sob os critérios científicos estabelecidos no preâmbulo do IARC, está correta.

A monografia sobre o glifosato abriu as portas para uma enxurrada de ações judiciais nos EUA contra a Monsanto por parte de pacientes com câncer (linfoma não Hodgkins) que usavam o herbicida. Os primeiros julgamentos demandam indenizações milionárias da empresa. O que acha disso?

É difícil para os europeus entenderem e não quero comentar sobre o sistema de litígios dos EUA, mas acho importante ressaltar que as indenizações não são só pelos linfomas não Hodgkins que o glifosato supostamente causou, mas porque as empresas ocultaram informações que deveriam ter compartilhado com as agências reguladoras.

O senhor concorda com a aplicação do princípio da precaução para proibir substâncias cujo potencial cancerígeno não é demonstrado, ou seja, agentes dos grupos 2A e 2B?

Sim, isso se justifica em alguns casos. Esta é minha opinião pessoal como cientista experiente nesta disciplina: quando há evidências, o próximo passo para melhorar a saúde pública depende do grau de exposição [que a população tem ao agente potencialmente cancerígeno] e das opções de minimização de riscos.

É possível aplicar o princípio da precaução quando a exposição é muito ampla, como no caso de ondas de rádio (possível agente cancerígeno, grupo 2B) emitidas por celulares e o WiFi?

Existem ações que podem começar com o indivíduo. Se você é um indivíduo preocupado, pode tomar medidas para reduzir sua exposição ao celular, por exemplo, usando um microfone e fones de ouvido em vez de segurar o celular próximo à cabeça. Além disso, estão sendo adotados regulamentos para limitar a potência do campo nesses dispositivos. Em uma escala maior, é uma avaliação muito complexa ... há motivos para se preocupar, mas os telefones celulares são muito úteis.

Há dois novos bioensaios em camundongos (do Programa Nacional de Toxicologia, nos EUA, e do Instituto Ramazzini, na Itália) que mostram um risco aumentado de tumor schwannoma no coração pela exposição a esses campos de radiofrequência. Este tumor tem uma histologia muito semelhante aos neurinomas do acústico (tumores benignos do nervo auditivo) identificados pelo estudo Interphone em humanos. Há também novos estudos epidemiológicos em preparação, mas os resultados ainda não foram publicados. Com essas duas novas vias de pesquisa, será necessário revisar a monografia dos campos de radiofrequência (atualizada pela última vez em 2013): as evidências [do potencial carcinogênico das ondas de rádio] pelo lado epidemiológico poderiam subir ou diminuir, pelo lado dos bioensaios é mais provável que subam.

A avaliação requer conhecimento do mecanismo causal? Segundo a ciência atual, as ondas de radiofrequência são uma forma de radiação não ionizante; não há meio conhecido de produzirem mutações no DNA - e, portanto, câncer.

Esta me parece uma questão filosófica muito interessante. O mesmo aconteceu com a ligação entre fumar tabaco e desenvolver câncer de pulmão: na década de 1950 e no início dos anos 1960 havia apenas ideias sobre como o tabaco causava câncer, mas o mecanismo não estava bem estabelecido. No entanto, os estudos epidemiológicos foram muito claros. Acredito que se os estudos epidemiológicos proporcionam “evidência suficiente” do risco, usando a terminologia da IARC, não é necessário conhecer o mecanismo [para estabelecer a categoria de risco]. O mecanismo é provavelmente complexo, provavelmente não é um processo isolado, mas muitos processos interconectados.


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