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Sexta-Feira 18.out.2019

Ano VIII - Nº 367

Poder

Bolsonaro não compreende a função da imprensa em uma democracia

Presidente e subordinados voltaram a atacar a liberdade de imprensa

Postado em 11 de Outubro de 2019 - Erick Mota (Congresso em Foco) e Reinaldo Azevedo (UOL)

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O presidente Jair Bolsonaro voltou a criticar e ofender à imprensa. Chamou a Folha de S. Paulo de esgoto e afirmou que o jornal Correio Braziliense agiu com "covardia e patifaria" contra ele.

O texto do Correio Braziliense que irritou o presidente trazia a notícia de que o governo deverá encaminhar ao Congresso, nos próximos dias, "o projeto da reforma administrativa, que deve prever o fim da estabilidade para servidores públicos". "Em outra proposta, o Executivo vai propor mudanças na regra de ouro, mecanismo que proíbe o governo de fazer dívidas para pagar despesas correntes, como salários, benefícios de aposentadoria, contas de luz e outros custeios da máquina pública", acrescenta a matéria.

A reportagem se baseou, principalmente, na fala do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, após se reunir com o Bolsonaro no último dia 6. Bolsonaro declarou que nunca disse isso. "De novo hoje, capa do Correio Braziliense, diz que vou acabar com a estabilidade do servidor. Não dá pra continuar com tanta patifaria da parte de vocês, isso é covardia e patifaria. Nunca falei neste assunto. Querem jogar o servidor contra mim"disse o presidente.

Outro alvo das ofensas de Bolsonaro, a Folha de S. Paulo publicou uma matéria revelando um depoimento e uma planilha obtidos pela Polícia Federal que sugerem que recursos de candidaturas laranjas do PSL, partido de Bolsonaro, foram desviados para a campanha do presidente. Jair Bolsonaro chamou o jornal de esgoto. "Como ontem a Folha de S. Paulo queria me ligar ao problema de Minas Gerais. Um esgoto a Folha de S. Paulo, lamento a imprensa brasileira agir dessa maneira. O tempo todo mentindo, distorcendo, difamando", disse o presidente.

Após essas declarações, em uma fala geral, disparou contra os profissionais de imprensa que estavam trabalhando. "Vocês querem me derrubar? Eu tenho o coro duro, vai ser difícil, continuem mentindo", disse Bolsonaro.

Entidades reagem

A Associação Nacional de Editores de Revistas (ANER) e a Associação Nacional de Jornais (ANJ) divulgaram uma nota conjunta condenando a fala do secretário de Comunicação da Presidência da República, Fabio Wajngarten, que no último dia 6, também publicou em sua rede social ataques à mídia.

"Parte da mídia ecoa fakenews, ecoa manchetes escandalosa, perdeu o respeito, a credibilidade a ética jornalista. Que os anunciantes que fazem os meios técnicos estejam conscientes de analisar cada veículo de comunicação, de forma a não se juntar a eles, mantendo as suas marcas", disse no post.

Na nota, as entidades defendem que o secretário tem uma "visão distorcida", o que seria "preocupante, vindo de quem tem a responsabilidade de gerir recursos públicos de publicidade".

A crítica de Wajngarten foi publicada como resposta a reportagem da Folha.

Bolsonaro, Moro e Wajgarten contra a informação

Wajgarten ultrapassou o limite do aceitável. Ele pertence ao topo da cadeia alimentar do bolsonarismo. O próprio presidente da República evidenciou, mais uma vez, que desconhece a noção de limites. Ruim para a cultura política, sim! Pior para Jair Bolsonaro.

Aos fatos. O inquérito que investigou o uso de caixa dois pela campanha de Marcelo Álvaro Antonio (PSL), deputado federal mais votado de Minas, traz o depoimento de Haissander Souza de Paula, então assessor do agora ministro do Turismo e coordenador de sua campanha. Ele afirmou que "acha que parte dos valores depositados para as campanhas femininas, na verdade, foi usada para pagar material de campanha de Marcelo Álvaro Antônio e de Jair Bolsonaro".

Mais: como informa a Folha, "em uma planilha, nomeada como 'MarceloAlvaro.xlsx', há referência ao fornecimento de material eleitoral para a campanha de Bolsonaro com a expressão 'out', o que significa, na compreensão de investigadores, pagamento 'por fora'.

O ministro do Turismo e outros foram denunciados pelo Ministério Público de Minas por falsidade ideológica eleitoral, apropriação indébita de recurso eleitoral e associação criminosa, com penas previstas, respectivamente, de cinco, seis e três anos de cadeia. Álvaro Antônio nega irregularidades, e o presidente decidiu que ele permanece no cargo. Vamos ver como agirá o presidente caso o aliado venha a se tornar réu. Só para lembrar: há depoimentos de candidatas que admitem ter sido usadas como laranjas.

Willer Tomaz, advogado do ministro, afirma que Haissander foi preso de maneira irregular em junho. Ficou cinco dias na cadeia. Deu, então, o depoimento revelado pelo jornal. Tomaz afirma que ele foi pressionado pela PF a dizer o que disse. A defesa do ex-assessor tentou, de fato, anular o primeiro depoimento na audiência de custódia, mas a Justiça recusou o pedido porque não viu irregularidade na condução.

Vamos lá. Nem o ministro nem o presidente precisam gostar da notícia, certo? Ninguém lhes nega o direito de repudiar o conteúdo do inquérito, o que está estampado na Folha com a devida visibilidade. Da mesma sorte, aliados podem vir em socorro da dupla. Mas aí acontece o absurdo, o estupefaciente, o inaceitável. E, mais uma vez, com a ajuda de Sergio Moro.

O bom jornalismo é perfumado. Como o bolsonarismo!

A Secom divide a verba oficial de propaganda entre os vários veículos. Bolsonaro já deixou claro que sua intenção é beneficiar aqueles cujo trabalho aprecia e punir os que não são de seu agrado. Notem que seu secretário, no entanto, vai além: há uma convocação para que anunciantes privados participem de sua ação punitiva.

O presidente endossou as palavras do seu secretário e avançou, afirmando que o jornal desceu "às profundezas do esgoto". Ou seja: é esgoto tudo aquilo que Bolsonaro não gosta de ler, ver ou ouvir. Segundo o presidente, seu ministro e seu secretário especial, dada a informação que tinha em mãos, a Folha deveria tê-la sonegado do público, guardando-a para si. Se assim procedesse, estaria fazendo jornalismo limpo e perfumado.

Como o bolsonarismo.


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