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Sexta-Feira 18.out.2019

Ano VIII - Nº 367

Brasil

O mistério das manchas de petróleo nas praias do Nordeste

Um relatório da Petrobras diz que o petróleo vem da Venezuela, mas cientistas dizem que óleo pode estar vazando de navio alemão que naufragou em 1944

Postado em 10 de Outubro de 2019 - Thomas Milz (DW) e Rafael Garcia (O Globo)

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Há cinco semanas, manchas de óleo começaram a atingir a costa brasileira. O vazamento chegou aos nove estados do Nordeste, afetando 138 praias da região. Um relatório da Petrobras divulgado pela imprensa brasileira concluiu que o material encontrado nas praias é uma mistura de óleos da Venezuela e que não é produzido, transportado ou comercializado pela estatal brasileira.

No entanto, ainda é incerto como o vazamento ocorreu. "É muito cedo ainda para dizer quem é o responsável", avalia o cientista político Oliver Stuenkel, da FGV. "Nem mesmo o governo brasileiro sabe exatamente como isso aconteceu. Mas é incrível quanto tempo leva [para se descobrir os responsáveis], já que o problema é claramente visível há algumas semanas."

Thiago Almeida, porta-voz do Greenpeace para assuntos de clima e energia, afirma que, independentemente de o óleo vir da Venezuela ou não, é preciso ter em mente os impactos negativos. "E a demora por uma resposta efetiva assusta muito", acrescenta. Ele diz que causa ainda surpresa o fato de o governo não ter reagido de forma mais rápida.

"Isso é uma pergunta que o governo tem que responder, pois ele levou mais de um mês para tomar providências. Como vai ser num caso de derramamento de petróleo?", pergunta Almeida. "Isso mostra como é falha a fiscalização e o trabalho de combate à poluição e ao derramamento de petróleo no Brasil. E isso só tende a piorar com essa agenda antiambiental do governo brasileiro."

Adriano Pires, diretor-fundador do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), defende ser preciso checar como vazou tamanha quantidade de óleo. "Meu palpite é que, pelo volume de petróleo que está nas praias, ocorreu vazamento em algum navio que saiu carregado de óleo da Venezuela em direção à Ásia. Você tem uma 'avenida' em frente ao Nordeste onde esses navios passam. Só tenho essa hipótese", frisa. Pires descarta um vazamento numa plataforma da Venezuela por não haver manchas de óleo na costa norte da América do Sul.

O presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, apontou três possibilidades como origem do petróleo: um despejo criminoso, a possibilidade de um navio ter naufragado e um acidente durante a passagem de petróleo de uma embarcação para a outra em alto-mar. Devido à quantidade de óleo – até o momento, 133 toneladas foram removidas das praias – descartou-se como causa a limpeza de tanques de um navio.

Especialistas avaliam que, pelas correntezas, o vazamento se deu a 40 ou 50 quilômetros da costa brasileira, entre os estados de Pernambuco e Paraíba. Cerca de 140 navios passaram pela rota no período em questão, informou a Marinha brasileira. Este caso mostra como é difícil controlar a situação em alto-mar. Para Stuenkel, "o controle sobre essas áreas ainda é muito fraco e, por isso, é provável que não seja possível descobrir exatamente como isso aconteceu". 

As primeiras manchas apareceram no início de setembro em praias pernambucanas. A Petrobras descartou qualquer envolvimento com as manchas. Em agosto, um vazamento na Refinaria Abreu e Lima, localizada eim Ipojuca, ao sul de Recife, poluiu 4,5 hectares de costa. Pouco depois, as primeiras manchas apareceram justamente numa região próxima à refinaria. Na época, a Petrobras declarou que o óleo vazado em Abreu e Lima não atingiu o mar e que o petróleo vindo de perfurações brasileiras teria uma consistência diferente das manchas vistas nas praias nordestinas.

A Refinaria Abreu e Lima foi projetada para ser uma joint venture entre a Petrobras e a PDVSA, a estatal venezuelana. Mas, como a PDVSA não pagou sua parte prometida, a parceria não avançou. Existe a possibilidade de Abreu e Lima processar, mesmo assim, petróleo venezuelano? "Quem pode falar isso é só a Petrobras", diz Pires. "Em algum momento, ela vai ter que falar, pois se esse caso continuar andando para frente procurando culpados, ela vai ter que falar."

Thiago Almeida também considera difícil controlar o derramamento de petróleo. "Uma das questões deste caso é que não se trata de uma mancha de petróleo específica que você pode cercar com boias e conter. Estamos vendo manchas de petróleo aparecendo em diversas praias, praticamente na costa inteira do Nordeste."

Sem saber exatamente a origem, também é difícil estimar a extensão do derramamento de óleo. "Como não se conhece a fonte, a quantidade e quando realmente começou [o derrame], não há como saber para onde as correntes ainda vão levar o óleo e quanto petróleo ainda está por vir."

O presidente Jair Bolsonaro declarou na segunda-feira que o governo tinha "no radar" um determinado país. Na terça, ele acrescentou: "Eu não posso acusar um país, vai que não é aquele país. Não quero criar problemas com outros países. É reservado." No momento, as relações entre Brasil e Venezuela estão tensas. Portanto, é questionável como o Brasil reagiria se a Venezuela for claramente culpada pelo desastre ambiental.

Duas Origens

O óleo encontrado no litoral nordestino tem duas origens distintas, segundo investigação da Marinha. Amostra do conteúdo de barris encontrados em praias do estado foi levada para análise e ficou constatado que esse material é diferente do petróleo cru que já atinge 63 municípios de 9 estados do Nordeste.   

"Sobre os dois tambores encontrados no litoral de Sergipe, a Marinha informa que a Capitania dos Portos encaminhou amostra de um dos tambores, que se apresentava aberto, para análise química pelo setor de geoquímica ambiental do Instituto de Estudos do Mar Almirante Paulo Moreira (IEAPM). Os resultados obtidos indicaram que o produto desses barris difere do encontrado nas demais praias do litoral nordestino", informou a Marinha em nota.

A procedência dos tambores, assim como a do petróleo espalhado pelas praias, ainda é desconhecida. "A origem do incidente está sendo investigada pela Marinha do Brasil (MB), ainda sem resultados. Os dados disponíveis, até o momento, não permitem concluir se tratam-se ou não de eventos distintos."

A Marinha do Brasil está notificando 30 navios-tanque de 10 diferentes bandeiras a prestarem esclarecimentos na investigação sobre a origem do óleo, de acordo com informações do G1. As embarcações foram definidas após triagem das informações do tráfego mercante na região. 

"A Marinha entrará em contato com as autoridades competentes dos países dessas bandeiras, com a Organização Marítima Internacional e com a Polícia Federal, visando elucidar todos os fatos. As atividades em curso também têm apoio do Ministério da Defesa e Exército Brasileiro e de instituições dos EUA", diz a nota encaminhada à TV Globo.

Segundo a Marinha, que classificou o fato como um "grave acidente de poluição por óleo", a investigação mobiliza 1.583 militares de 48 organizações diferentes, além de 5 navios, uma aeronave e embarcações e viaturas pertencentes a autoridades ao longo do litoral nordestino, como capitanias dos portos, delegacias e agências.

A triagem inicial focou em quase 1.100 navios-tanque que circularam entre 1º de agosto e 1º de setembro numa área de 800 km de distância da costa brasileira, entre Sergipe e Rio Grande do Norte.

Impossível

O governo Bolsonaro demorou um mês para se manifestar sobre o vazamento, mas foi rápido para encontrar um “suspeito”. Baseado em suposto relatório da Petrobras e da Marinha – que está sob sigilo e não foi divulgado oficialmente – o governo informou que o óleo está vindo “muito provavelmente da Venezuela”, sem explicar como teria chegado ao litoral brasileiro.

A hipótese de um vazamento direto do país vizinho, no entanto, não poder ser levada a sério, já que as coordenadas geográficas da Venezuela levariam o petróleo para bem longe do Brasil.

“Seria impossível vir da Venezuela, porque lá predomina a corrente do Caribe, que vai em direção ao Golfo do México, e os ventos alísios do Norte, que vão para a direção oeste”, afirma o oceanógrafo Thiago Oliveira.

Ao mesmo tempo em que a acusava a Venezuela, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, disse no começo da semana, também sem esclarecer a fonte de suas afirmações, que o óleo “veio por um navio estrangeiro, ao que tudo indica, navegando próximo à costa brasileira, com derramamento acidental ou não”.

Segundo o Ibama, que trabalha na limpeza das praias, até agora foram retiradas 130 mil toneladas de óleo nos quase 140 pontos de contaminação. O volume equivale à capacidade de um navio petroleiro, entre 140 mil a 175 mil toneladas de óleo cru.

A área atingida tem cerca de dois mil quilômetros de extensão e vai do norte da Bahia ao meio do litoral do Maranhão

A demora do governo em agir pode estar relacionada ao fato de o monitoramento das águas brasileiras ser feito, de fato, pela IV Frota Naval do EUA, e não pela Marinha Brasileira, segundo afirma o cientista político William Nozaki.

“A dificuldade da Marinha em monitorar nossa costa é resultado de uma política que terceirou a proteção da costa brasileira para a IV Frota Naval dos EUA e que desmontou a nossa indústria naval. Da mesma forma, a dificuldade de o Ibama e outros órgãos competentes de apresentar uma avaliação conclusiva sobre o ocorrido é resultado de uma política que abriu mão de zelar pelos nossos recursos naturais e águas para se ocupar de interesses predatórios do agronegócio e do extrativismo”, critica.

Venezuela nega

A Venezuela negou oficialmente ser responsável pelas manchas de petróleo. Em comunicado, a petrolífera estatal venezuelana PDVSA afirmou que as acusações do Brasil sobre a origem do material são infundadas.

"A PDVSA rejeita categoricamente as declarações do ministro do Meio Ambiente do Brasil, Ricardo Salles, que acusa a Venezuela de ser responsável pelo petróleo bruto que contamina as praias do nordeste do Brasil desde o início de setembro", afirmou a estatal.

A empresa considera "infundadas" as afirmações do Brasil, "uma vez que não há evidências de qualquer vazamento de petróleo bruto nos campos petrolíferos venezuelanos que possam ter causado danos no ecossistema marítimo do país vizinho". O texto condena ainda as "afirmações tendenciosas", observando que as manchas estavam localizadas a cerca de 6.650 quilômetros de distância da sua infraestrutura.

A PDVSA também afirma que não foi comunicada por clientes ou subsidiárias sobre vazamentos de petróleo perto da costa brasileira. A produção da estatal despencou nos últimos anos e sofre com as sanções impostas ao país pelos Estados Unidos, que visam derrubar o presidente Nicolás Maduro.

Em resposta à nota divulgada pela PDVSA, Salles afirmou que a argumentação venezuelana é "descabida", pois a hipótese é que o material vazou de algum navio durante o transporte e não de campos de produção. O ministro ressalta que "a indicação da origem venezuelana do óleo baseia-se numa análise técnica laboratorial da Petrobras".

O ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, no entanto, evitou em nomear culpados pelo desastre ambiental. "Ainda não sabemos de onde esse óleo veio e como veio", disse. "Em nenhum momento, foi dito que era da PDVSA ou desta origem. O que foi dito é que o petróleo encontrado tem características semelhantes ao extraído em alguns poços venezuelanos", acrescentou.

Naufrágio em 1944

Um grupo de pesquisadores estudando a origem do óleo trabalha com a hipótese de um navio afundado décadas atrás estar sofrendo novo vazamento. A teoria está sendo investigada pelo químico oceanógrafo Rivelino Cavalcante, da Universidade Federal do Ceará (UFC), que saiu em expedição nesta semana para coletar amostras a serem enviadas para o Instituto de Oceanografia de Woods Hole (WHOI), nos EUA, que vai investigar a composição do material.

“Queremos saber se esse óleo é extraído mais recentemente ou se é um óleo mais velho”, explica o pesquisador.

Como a UFC não possui laboratório capaz de responder à questão, é o geoquímico Christopher Reddy, do WHOI, que vai se encarregar das análises.

“Esperamos poder dizer algo sobre a idade de extração desse óleo e sobre de onde ele foi extraído. O óleo do Brasil é muito distinto daquele da costa da Califórnia ou do óleo da Arábia Saudita”, diz o americano.

Segundo ele, é “totalmente razoável” que essa liberação de óleo seja de um naufrágio:  “O fato de ser intermitente e fragmentado está em linha com algo como uma mudança recente no navio afundado que criou esse vazamento”.

Borracha misteriosa

Um evento relativamente recente que acendeu a curiosidade dos cientistas foi o encontro de grandes pedaços de borracha em praias do Nordeste desde o fim do ano passado. O material foi identificado como sendo “fardos” de látex, forma típica que a indústria da borracha usa para transportá-los.

Carlos Teixeira, oceanógrafo da UFC, buscou registros de naufrágios no Atlântico e encontrou a localização de um navio alemão afundado em 1944, a 1.000 km do Recife, que estava transportando essa carga. Um dos fardos achados na Bahia indicava “Indochina Francesa” (atuais Camboja, Laos e Vietnã) como a origem do produto.

“Como a Indochina Francesa deixou de existir em 1953, creio que respondemos à pergunta sobre de onde veio essa borracha”, diz Teixeira. “Esse navio alemão navegava ‘disfarçado’ com o nome de SS Rio Grande, uma coisa comum durante a Segunda Guerra. A localização dele, bastante profunda, já é conhecida com precisão”.

O pesquisador acreditava que o vazamento de óleo também viesse deste naufrágio, mas mudou de ideia: correu ontem na comunidade científica notícia extraoficial de que a Petrobras classificou o óleo como de extração recente, o que invalida a tese do naufrágio.

Apesar de Rivelino e Reddy estarem ainda apoiando a hipótese, Teixeira diz ter perdido o entusiasmo, porque confia nas comunicações informais que obteve. A Petrobras não se pronunciou sobre o assunto. A Marinha descartou a hipótese de naufrágio recente, mas não se pronunciou sobre a possibilidade levantada pela UFC.

Distribuição bate com naufrágio

Um fato curioso é que, numa simulação de correntes feita por Teixeira, partículas de óleo liberadas a partir da localização do SS Rio Grande teriam uma distribuição similar à do óleo visto agora nas praias do Nordeste. O pesquisador, cauteloso, diz que só retomaria essa linha de investigação diante de uma confirmação de que o óleo é de extração antiga.

Entre as hipóteses ainda não descartadas pela Marinha estão a de derramamento acidental, manobra de uma embarcação e troca de óleo entre navios. Os militares estão varrendo o registro do tráfego de navios na região. O presidente Jair Bolsonaro, em uma das entrevistas que deu sobre o assunto, afirmou que a Marinha identificou 140 navios que transitaram na área suspeita. Esta quantidade, porém, vem sendo afunilada pelos investigadores.

Woods Hole, por sua vez, diz que não está certo nem mesmo de que o material sendo recolhido é petróleo cru, como indicam alguns relatos.

“Estou em contato próximo com vários cientistas brasileiros que estão monitorando o derramamento e eles estão me mantendo atualizado, mandam fotos, vídeos. É difícil dizer pelas imagens, mas não me parece petróleo cru. Isso será facilmente verificado aqui quando tivermos as amostras. É possível que seja uma variedade diferente de combustível produzido em refinaria para uso em navios”.

A UFC deve demorar ainda alguns dias para conseguir enviar as amostras para os EUA, mas Reddy diz que consegue produzir uma análise consistente em um único dia.

Pressa

O petróleo já contaminou 139 localidades, em 63 cidades dos nove estados do Nordeste, conforme o levantamento atualizado do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama). A contaminação inclui mais de uma centena de praias e a foz de rios como Subauma e Inhampube, segundo o monitoramento do Ibama.

O secretário de Meio Ambiente de Piaçabuçu (AL), Otávio Nascimento, diz que foi encontrado resquício do derramamento na foz do rio São Francisco. — O volume não foi grande, mas apresenta uma ameaça de contaminação. — A gente precisa entender qual foi o problema e o governo ainda não disse isso. Não recebemos uma ligação do ministro, uma fala de ajuda. Não sabemos se eles enxergam a gente no cenário de catástrofe ambiental que estamos.


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