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Sexta-Feira 18.out.2019

Ano VIII - Nº 367

Mundo

Perigo letal para judeus na Alemanha

O que se sabe sobre o ataque de extrema-direita no leste da Alemanha

Postado em 10 de Outubro de 2019 - DW e Ines Pohl (DW)

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Mais de 70 judias e judeus estão reunidos numa sinagoga no leste da Alemanha para orar e cantar, para celebrar juntos o feriado judaico do Yom Kippur. Mas somente o portão reforçado na entrada do templo impede que um alemão armado com granadas de mão e um fuzil automático cause um banho de sangue.

Estamos em 9 de outubro de 2019.

Oitenta anos após o início da Segunda Guerra Mundial, na qual mais de 6 milhões de judeus foram assassinados por alemães, judeus e judias têm novamente que temer por suas vidas ao professarem sua religião abertamente na Alemanha, ao visitarem uma sinagoga.

O que isso diz sobre a Alemanha? E o que significa o fato de um homem de 27 anos filmar seu ato com uma câmera presa num capacete e o transmitir na internet, num site de videogame? Numa encenação como a do assassino de Christchurch na Nova Zelândia, antes de começar a atirar, ele diz a um público internacional em inglês: "The root of all problems are the Jews" (a raiz de todos os problemas são os judeus).

Sofrimento não pode e não deve ser relativizado. Por isso, nossos sentimentos devem se destinar, em primeiro lugar, aos parentes das duas pessoas, o homem e a mulher, que o agressor assassinou brutal e covardemente durante a sua fuga.

Mas não se deve ignorar o fato de que não faltou muito para que na Alemanha ocorresse um assassinato em massa de judeus e judias nesta quarta-feira.

Esse ato comprova enfaticamente que o crescente e letal antissemitismo neste país não se limita de forma alguma a terroristas islâmicos. Quem afirma isso mente e se recusa a encarar a realidade. Esse ato realça o fato de que a proteção a instituições judaicas na Alemanha continua sendo de importância vital – mesmo quase 75 anos após o fim do regime de terror nazista. O fato de a sinagoga não estar sendo protegida em um feriado como o Yom Kippur levanta questões.

E esse ato prova que mesmo os menores indícios de potenciais atos motivados por antissemitismo devem ser levados a sério e investigados de forma consistente. Isso inclui tanto a queima de uma bandeira israelense como o xingamento de um fiel que se faz reconhecer como judeu através do uso de um quipá.

O antissemitismo não pode ser banalizado. Porque um pouco de ódio aos judeus não existe. Em nenhum lugar. E muito menos na Alemanha.

O que se sabe

O ataque ocorrido em Halle no último dia 9, com fortes indícios que sugerem motivação antissemita, gerou uma onda de choque na Alemanha. A ação, que deixou ao menos dois mortos, ocorreu em meio ao Yom Kippur, o feriado religioso mais importante do calendário judaico.

O ataque foi perpetrado no distrito de Paulusviertel, na região norte de Halle. Imagens mostram o agressor usando um uniforme de combate, máscara e capacete, e carregando várias armas.

Além de abrir fogo diversas vezes, o agressor lançou um explosivo (granada ou coquetel molotov) sobre o muro de um cemitério judaico e tentou entrar em uma sinagoga nas proximidades. No momento, havia cerca de 80 pessoas no interior, mas ele não conseguiu passar pela porta, que estava trancada.

Sem conseguir entrar, o agressor, que transmitia o ataque ao vivo na internet, começou a disparar contra pedestres. Ainda perto da sinagoga, ele matou uma mulher que passava pelo local e efetuou disparos contra os clientes de uma lanchonete turca, a duas quadras da sinagoga, matando um homem.

O suspeito, um alemão identificado como Stephen B., de 27 anos, foi preso pela polícia. Relatos na imprensa alemã afirmam que ele teria fugido de carro de Halle para Landsberg, nas proximidades, após ameaçar pessoas em uma loja de automóveis e roubar um veículo para a fuga, diferente do que havia utilizado no ataque. Ele teria se acidentado em uma estrada ao sul de Halle e acabou detido.

Mais tarde, a polícia informou ter encontrado explosivos improvisados próximo à sinagoga. Outras duas pessoas, um homem e uma mulher, ficaram feridas no ataque e receberam cuidados médicos por ferimentos a bala. As autoridades afirmam que ambos estão fora de perigo.

A polícia acredita que Stephen B. teria agido sozinho. Segundo as autoridades, ele não possui antecedentes criminais, mas estaria associado à extrema direita. O ministro do Interior alemão, Horst Seehofer, afirmou que o antissemitismo foi certamente uma das motivações do ataque.

Manifesto encontrado na internet

O atirador transmitiu o ataque ao vivo pelo portal de internet Twitch com uma câmera instalada no capacete, fazendo comentários contra judeus, imigrantes e feministas e dizendo não acreditar que o Holocausto aconteceu.

O vídeo de 35 minutos foi visto por mais de 2 mil pessoas antes de ser removido, afirmou o site. "Trabalhamos com urgência para remover esse conteúdo e suspendemos quaisquer contas que postaram ou repostaram conteúdo referente a esse ato abominável", disse a plataforma de games no Twitter.

O grupo Site, que rastreia atividades online de grupos extremistas, revelou a existência de um documento, postado na internet há mais de uma semana, que seria um manifesto antissemita supostamente redigido pelo agressor de Halle. No texto, ele expressa a intenção de "matar o maior número possível de pessoas 'antibrancas', de preferência judeus", e faz referência à transmissão ao vivo.

No documento em formato PDF aparecem também fotografias de armas e munições que ele supostamente teria utilizado no ataque em Halle, segundo afirma Rita Katz, diretora do Site.

"Esse manifesto, que aparenta ter sido criado em 1º de outubro, dá ainda mais indicações sobre o quanto de planejamento e preparação" foram necessários para o ataque, afirma Katz. O jornal alemão Die Welt afirmou que o texto de dez páginas escrito em inglês menciona especificamente o plano de atacar a sinagoga em Halle. Não foi confirmado se o autor do manifesto seria de fato o atirador de Halle.

Jeremy Borovitz, um estudante de judaísmo rabínico americano residente em Berlim, estava na sinagoga de Halle quando o incidente ocorreu. Ele fez elogios às ações rápidas dos líderes da sinagoga e dos agentes de segurança privada que estavam no local.

"Por volta do meio dia, os seguranças observaram o homem do lado de fora através de uma câmera. Ouvimos uma explosão. Imediatamente chamaram a polícia", contou. Ele disse que houve então uma pausa seguida de barulhos de tiros. O guarda e os líderes da sinagoga imediatamente disseram para todos irem ao andar superior e ficarem de cabeça abaixada.

"Temos muito que agradecer no dia de hoje", afirmou Borovitz, que acompanhava o Yom Kippur com sua esposa Rebecca e outros 12 americanos no local.

Ezra Waxmann, que também estava no grupo dos americanos, disse que as coisas se mantiveram relativamente calmas durante o incidente e que o tema da segurança havia sido discutido na noite anterior. "Nos sentimos agradecidos pelo milagre de [o atirador] não conseguir passar pela porta e que uma tragédia ainda maior não tenha ocorrido", observou.

Armas defeituosas salvaram vidas

O atirador utilizou diversos armamentos, incluindo bombas caseiras e o que aparentava ser um fuzil improvisado. Ele teve de lidar com algumas falhas técnicas durante o ataque, o que pode ter salvado algumas vidas. Um homem que saiu de seu veículo para prestar socorro à mulher que foi baleada fora da sinagoga conseguiu escapar sem ferimentos porque a arma do agressor teria travado.

Isso ocorreu após ele começar a atirar contra a lanchonete turca, onde várias pessoas conseguiram escapar. Em seu vídeo, o atirador se desculpa repetidas vezes por seu fracasso em matar mais pessoas.

O atentado deixou a cidade paralisada por várias horas, com o fechamento da estação de trens e de algumas rodovias regionais, enquanto a polícia respondia a chamados de tiros ouvidos na região de Landsberg, onde mais tarde os policiais realizaram buscas em algumas casas.

Políticos e líderes religiosos condenaram o ataque e expressaram solidariedade para com a comunidade judaica alemã. Josef Schuster, presidente do Conselho Central dos Judeus na Alemanha, afirmou que "a brutalidade do ataque supera tudo o que vimos nos últimos anos e é profundamente chocante para todos os judeus no país".

Ele criticou a polícia, afirmando que "é escandaloso que policiais não estivessem protegendo a sinagoga em Halle em um feriado como o Yom Kippur". Em muitas cidades do país, as sinagogas recebem proteção policial no feriado mais importante do calendário judaico.

A chanceler federal da Alemanha, Angela Merkel, participou de uma vigília em Berlim para prestar solidariedade às vítimas do ataque em Halle e expressou suas "mais profundas condolências" às vítimas.

Seu porta-voz, Steffen Seibert, postou imagens de Merkel na homenagem com um texto que dizia "temos que marcar posição de forma firme contra toda forma de antissemitismo".

Nesta quinta-feira, várias pessoas depositaram flores e velas na sinagoga e no cemitério judaico em Halle em homenagem às vítimas do ataque. O presidente alemão, Frank-Walter Steinmeier, também visitou o local nesta quinta, ao lado de Reiner Haseloff, governador do estado da Saxônia-Anhalt, onde fica Halle.


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