Semana On

Quinta-Feira 14.nov.2019

Ano VIII - Nº 371

Coluna

A opressão invisível

Basquete, Hong Kong e o liberalismo de conveniência

Postado em 09 de Outubro de 2019 - Rodrigo Amém

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Não sei se o amigo leitor está acompanhando, mas o pau tá comendo em Hong Kong. Protestos diários, greves, enfrentamentos com a polícia, uma loucura. O que querem esses protestantes? Rapaz, que pergunta difícil.

Hong Kong é parte da China, mas é como se não fosse. Por razões complexas, há um contrato que garante que o território permanece como chinês até 2047, mas aberto ao comércio internacional, com moeda própria, leis próprias, língua própria. É como se ficasse acordado que, em 2060, o Uruguai se tornasse um estado brasileiro. Claro, a juventude local não tem qualquer interesse em viver sob as regras do comunismo chinês. Mas a sombra da contagem regressiva da reincorporação paira sobre suas vidas. O estopim foi um projeto de lei que previa que alguns réus deveriam ser extraditados para julgamento na China. Foi aí que o caldeirão dos protestos ferveu e a mão de ferro do governo veio com força sobre os manifestantes. 

Sabe o que é muito popular na China? Basquete. A NBA fatura muito por lá. Mais até que nos EUA. Tanto que algumas partidas são jogadas lá, justamente para atender esse enorme mercado de 1,5 bilhão de consumidores. Acontece que, enquanto a federação de futebol-americano, a NFL, é cheia de mordaças a respeito do que seus membros podem ou não expressar publicamente, a NBA sempre se posicionou como uma espécie de embaixadora dos valores americanos como liberdade de expressão e defesa da democracia. 

Aí, um cartola de um dos times da NBA deu uma tuitada sobre as manifestações em Hong Kong: "Lute pela liberdade. Apoie Hong Kong". Essas seis palavrinhas derrubaram um barraco bilionário. O governo de Pequim não gosta muito de ser criticado, seja dentro ou fora do seu território. E aquele tuíte de um cartola foi visto como uma declaração de guerra institucional. Jogos em território chinês foram cancelados, transmissões de partidas foram censuradas, contratos com patrocinadores locais foram rescindidos. O prejuízo calculado, até agora, se situa na casa das centenas de milhões de dólares. 

A NBA está dando duplos twists carpados para tentar reverter a situação. O cartola tuiteiro apagou as seis palavras e pediu desculpas. Em jogos que acontecem DENTRO dos EUA, a organização está tomando cartazes de torcedores que expressem opiniões contrárias ao governo chinês. Vou repetir: Tem americano sendo censurado por emitir opiniões contrárias a um governo comunista e em favor de direitos humanos. Em solo norte-americano!

A ESPN, canal especializado em cobertura de eventos esportivos e pertencente à Disney, colocou toda a equipe de analistas esportivos em ritmo de linchamento contra o tal cartola. "Ele foi egoísta. Não pensou que suas palavras afetariam outras pessoas", disse um comentarista esportivo. Seria cômico, se não fosse tragicômico."

Aí chegamos naquela fatídica pergunta: "E eu com isso?" Ah, amigo leitor e seu portentoso umbigo. 

O discurso ideológico do liberalismo atrelou-se à defesa da democracia pela maior parte do século XX. Era de interesse dos empresários que o Estado fosse suscetível à influência da opinião pública e, por consequência, da mídia. A mão invisível do mercado regula a economia, mas também a política. Acontece que, agora, os tempos são outros. 

Para aumentar o número de zeros no balancete trimestral, as grandes corporações estão dispostas a dançar conforme a música, não importando sobre quais cabeças pousem seus saltos-agulhas. No primeiro momento em que o posicionamento pela democracia e direitos humanos prejudicar a lucratividade das operações, a NBA passou a censurar funcionários, jogadores e torcedores. A Disney fez o mesmo. E a Apple (que retirou da App Store um aplicativo usado pelos manifestantes para acompanhar os deslocamentos da polícia) e o Google (que fez o mesmo). São empresas que estão longe de estar no vermelho, mas estão ainda mais distantes de frear seus expansionismos diante de limites morais. 

Pelo preço certo, as maiores companhias do mundo não pensam duas vezes antes de fechar os olhos para os abusos de um regime opressor. Agora é em Hong Kong, onde o governo não tem pudores de ser visto como anti-democrático. Mas pode acontecer em qualquer lugar onde haja interesses econômicos e um governo chegado à truculência. A nossa liberdade de expressão, amigo leitor, um dia pode valer menos que um boné de basquete "made in China".


Voltar


Comente sobre essa publicação...