Semana On

Sexta-Feira 18.out.2019

Ano VIII - Nº 367

Coluna

Este jovem em processo de transição de gênero ganhou uma inesperada homenagem de sua família

Richard Alcântara, de 22 anos, pretende fazer cirurgia para retirar os seios e ao invés da rejeição, ganhou homenagem de sua família

Postado em 09 de Outubro de 2019 - Huffpost

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Há um ano, Richard Alcântara, de 22 anos, sofria com o processo de autoaceitação e com a possibilidade de ser rejeitado por familiares ao se apresentar como um homem trans a eles pela primeira vez. Mas o contrário aconteceu. Ele, que ainda está em processo de transição de gênero, ganhou uma homenagem dos homens de sua família no último sábado (5). 

“Essa é uma demonstração de amor incondicional de uma família”, escreveu Yuri Almeida, namorada de Richard, ao publicar o vídeo da homenagem nas redes sociais, que já conta com mais de 8 mil compartilhamentos. Nele, homens da família de Richard surpreendem ao usarem fitas adesivas para esconder os seios, assim como o jovem, que aguarda pela mastectomia.

Assista ao vídeo abaixo:

“Um ano atrás ele sofria com a fase de aceitação e temia a rejeição da família, já atentou contra a própria vida por consequência de depressão, mas o que ele não sabia é que tudo tem seu tempo, nada acontece por acaso”, conta Yuri. ”(...) Preconceito não tem espaço onde amor e respeito se fazem presentes!”

Em um segundo vídeo, é possível ver a emoção do jovem:

A homenagem aconteceu em um churrasco de família, realizado em Caçapava, cidade do interior de São Paulo. Richard, atualmente, mora em São Caetano do Sul, no ABC, na Grande São Paulo e trabalha como auxiliar de cozinha.

Esta seria a primeira vez que ele ficaria sem camisa em um evento de família ― e se sentiu envergonhado ao ficar próximo da piscina, mas foi surpreendido pelo acolhimento de sua família. No momento, ele guarda dinheiro e busca um profissional para realizar a cirurgia para retirar os seios, a mastectomia. 

Com frequência, Richard usa as redes sociais para falar sobre seu processo de transição. Quando ficou sem camisa pela primeira vez na praia, escreveu que ainda lida com a disforia, mas tem “coragem e determinação” para isso.

“Disforia do corpo? Ainda tenho. Mas coragem e determinação tenho de sobra, passei um tempo sem tirar fotos com vergonha das manchas do meu rosto e do meu peito”, escreveu. “Quando penso que estou fraco, forte eu estou.”

A disforia, a qual ele se refere, é comum em processos de transição de gênero e se caracteriza como um desconforto persistente com marcas sexuais ou de gênero do próprio corpo que remetam ao gênero atribuído no nascimento.

“As mudanças só estão começando e eu estou cada vez mais apaixonado por cada detalhe. Eu sou forte e vou longe ainda”, escreveu Richard no Instagram.

Os dados sobre LGBTfobia no Brasil

De acordo com o Atlas da Violência do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), cresceu 10% o número de notificações de agressão contra gays e 35% contra bissexuais de 2015 para 2016, chegando a um total de 5.930 casos, de abuso sexual a tortura.

Canal oficial do governo, o Disque 100 recebeu 1.720 denúncias de violações de direitos de pessoas LGBT em 2017, sendo 193 homicídios. A limitação do alcance do Estado é admitida pelos próprios integrantes da administração federal, devido à subnotificação e falta de dados oficiais.

Por esse motivo, os levantamentos do Grupo Gay da Bahia, iniciados na década de 1980, se tornaram referência.

Em 2018, a organização contabilizou 420 mortes de LGBTs decorrentes de homicídios ou suicídios causados pela discriminação. O relatório “População LGBT Morta do Brasil” mostra, ainda, um aumento dos casos desde 2001, quando houve 130 mortes.

O grupo divulgou nova pesquisa que aponta 141 vítimas entre janeiro e o dia 15 de maio deste ano. De acordo com o relatório, ocorreram 126 homicídios e 15 suicídios, o que dá uma média de uma morte a cada 23 horas por homofobia.

O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, em junho deste ano, que a LGBTfobia deve ser equiparada ao crime de racismo até que o Congresso Nacional crie uma legislação específica sobre este tipo de violência. Pena é de até 3 anos e crime será inafiançável e imprescritível, como o racismo.


Voltar


Comente sobre essa publicação...