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Sábado 14.dez.2019

Ano VIII - Nº 375

Mundo

EUA traem seu mais fiel aliado na luta contra o Estado Islâmico

Ao retirar suas tropas do norte da Síria, EUA abandonam aliados curdos da milícia YPG, e Turquia ameaça uma ofensiva. Além de mais violência, há temores na UE de um ressurgimento dos radicais islâmicos e mais refugiados

Postado em 09 de Outubro de 2019 - Max Zander, Teri Schultz e Matthias von Hein - DW

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O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, anunciou no último dia 5 o que já ameaçava há meses: a Turquia realizará uma ofensiva na Síria com tropas aéreas e terrestres. O objetivo é estabelecer uma zona de segurança no norte do país vizinho, ao longo da fronteira com a Turquia.

Entre outras coisas, essa investida tem o objetivo de fazer recuar a aliança rebelde das Forças Democráticas da Síria (SDF), liderada pela milícia curda Unidades de Proteção Popular (YPG). Ancara vê nos curdos uma ameaça à segurança nacional.

Para Washington, no entanto, a milícia YPG é um parceiro importante na região, juntos conseguiram derrotar o autointitulado "Estado Islâmico" (EI). Sem sucesso, os EUA tentaram encontrar uma solução de segurança conjunta com a Turquia para a área fronteiriça, considerando ao mesmo tempo os interesses das milícias curdas.

Na segunda-feira de manhã, o SDF confirmou que a retirada das tropas dos EUA se iniciara, sem aviso. A Casa Branca comunicou no domingo que não defenderia seus antigos aliados contra a invasão turca. A decisão provocou inúmeras reações críticas, dentro e fora dos Estados Unidos, acusando Donald Trump de deixar os aliados curdos à mercê do Exército turco.

Nesta terça-feira, Trump tentou acalmar os ânimos, dizendo que não abandonará os curdos. "Estamos saindo da Síria, mas não abandonamos os curdos, que são pessoas especiais e maravilhosos combatentes", escreveu o presidente americano em sua conta pessoal no Twitter.

Trump prometeu que os EUA continuarão a ajudar as milícias curdas "financeiramente e com armas", respondendo, dessa forma, a críticas que surgiram do seu próprio Partido Republicano, que o acusam de estar deixando de proteger aliados que foram valiosos na luta contra o terrorismo.

Ofensiva turca

A investida do presidente turco pode ter consequências catastróficas para muito além da região. Consta que dezenas de milhares de apoiadores e combatentes do EI se encontram em campos curdos no norte da Síria.

"Uma das maiores ameaças é prisioneiros do EI do norte da Síria se estabelecerem no Iraque, o que afeta diretamente nossos interesses de segurança", disse à DW o parlamentar alemão Roderich Kiesewetter. Como muitos na UE, ele teme que os EUA acabem fazendo o jogo do grupo terrorista islâmico, caso se retirem da região e a Turquia assuma o poder.

Por conseguinte, Bruxelas está preocupada com os desdobramentos atuais. A porta-voz da Comissão Europeia Maja Kocijačič afirmou que, apesar das preocupações legítimas de segurança em relação à Turquia, a União Europeia continua a apoiar a integridade territorial do Estado sírio. Assim, o bloco europeu não considera justificada uma ofensiva militar turca.

"Os novos combates no nordeste da Síria não vão apenas agravar o sofrimento da população civil e levam à fuga, mas também prejudicar o processo político que estamos apoiando", comentou Kocijačič.

Refugiados em foco

Julien Barnes-Dacey, do think tank Conselho Europeu de Relações Exteriores (ECFR), aponta que a Turquia não tem nenhum plano para lidar com a ameaça de um recrudescimento do EI. Sua prioridade é manter os curdos sob controle e fazê-los recuar.

Consta que nos campos de prisioneiros vigiados pelos curdos se encontram milhares de combatentes do EI provenientes de Estados europeus como a Alemanha. As exigências dos EUA de repatriá-los e levá-los à Justiça em seus países de origem não foram levadas a sério.

Segundo Barnes-Dacey, essas nações deixaram de assumir a responsabilidade por seus cidadãos, e "se essa região voltar a afundar num conflito, tudo poderá acontecer em relação aos prisioneiros do EI".

Além das preocupações de segurança e da disputa pela influência na região fronteiriça, a situação dos refugiados na Turquia vai, provavelmente, desempenhar um papel crucial na estratégia do Exército turco. Desde o início da guerra civil cerca de 3,6 milhões de deslocados sírios fugiram para a Turquia.

No início se vivenciava a cultura de boas-vindas, porém hoje o clima é outro no país. Erdogan anunciou agora que vai transferir os refugiados sírios para a zona de segurança planejada nos territórios do norte da Síria, possibilitando-lhes, assim, o retorno à terra natal.

Críticos como a eurodeputada Özlem Alev Demirel, do partido A Esquerda, acusam o presidente turco de seguir esse passo apenas por interesses de política externa: seu objetivo seria destruir o governo autônomo democrático liderado pelos curdos. "Com a invasão, bem como com a realocação de refugiados sírios, pretende-se ganhar a maior influência possível na reorganização da Síria", explica a parlamentar europeia.

No entanto, novos combates no norte da Síria também podem ter o efeito inverso, levando mais cidadãos a tentarem deixar o país. Desde o acordo UE-Turquia de 2016, Ancara assumiu a tarefa de impedir que os refugiados prossigam sua viagem em direção à UE. Se a ofensiva militar turca desencadear uma nova onda migratória, o número de refugiados poderá aumentar, de início apenas na Turquia. Mas em seguida a pressão migratória também deverá aumentar na Europa.

Durante meses, a situação no norte da Síria criou tensões entre a Turquia e os EUA, que são parceiros da Organização no Tratado do Atlântico Norte (Otan). Ancara classifica a milícia YPG como organização terrorista, Washington a apoiou militarmente. A situação compromete as relações entre os dois países, mas no momento ainda não se trata de um caso para a Otan, mas sim para os respectivos governos, afirmou um porta-voz da aliança atlântica consultado pela DW.

Com a retirada dos americanos, a tensão na região deverá continuar. O presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou que puniria a Turquia se ela violasse os interesses americanos com a invasão: "Destruirei completamente a economia turca", tuitou na noite de segunda-feira.

Nesta terça-feira, o presidente americano aproveitou o seu tuíte sobre os curdos para lembrar a relação que os EUA mantêm com a Turquia, membro da NATO, dizendo que "é muito boa", apesar de, na segunda-feira, ter ameaçado "destruir completamente a economia" desse país, se este fizesse alguma coisa "que vá para além dos limites", referindo-se à intenção de ataque aos curdos na Síria.

Não se sabe se o americano vai transformar essas palavras em ações. Mas uma coisa é certa: se o "Estado Islâmico" voltar a ganhar influência no contexto da ofensiva militar turca, esse conflito não poderá ser resolvido apenas por Washington e Ancara.

Traição

"Os únicos amigos são as montanhas": as últimas notícias de Washington parecem confirmar esse velho provérbio curdo. Os Estados Unidos anunciaram que não mais impedirão uma ofensiva turca nas áreas controladas pelos curdos no norte da Síria. Assim, da noite para o dia, os EUA entregam seu aliado mais próximo na luta contra o chamado "Estado Islâmico" (EI) à superioridade do aparato militar da Turquia.

Nos últimos anos, mais de 10 mil combatentes curdos perderam a vida na luta contra o EI. As milícias curdas formaram a espinha dorsal das Forças Democráticas da Síria (SDF), aliança que liderou a maior parte da luta contra o EI. Agora está claro: eram equivocadas as esperanças dos curdos de que por esse motivo mereceriam a proteção dos EUA contra ataques turcos.

Já há bastante tempo, o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, está de olho no norte da Síria. Por último ele apresentou na Assembleia Geral da ONU seus planos para uma "zona de segurança" de 30 quilômetros de largura, ao sul da fronteira turca. Com um total de quase 500 quilômetros de fronteira, esse corredor teria quase o tamanho do estado alemão de Schleswig-Holstein.

Na Síria devastada pela guerra, as áreas controladas pelos curdos eram, até o momento, um oásis de estabilidade. A agora iminente operação militar da Turquia deve mudar esse quadro. As consequências das invasões turcas na Síria puderam ser vistas no início de 2018 na ocupação de Afrin, cinicamente apelidada "Operação Ramo de Oliveira".

Os militares turcos entraram ao lado de milícias jihadistas. Segundo dados da ONU, 140 mil fugiram da cidade de Afrin e arredores. Números ainda mais altos vêm do Observatório Sírio dos Direitos Humanos, que registra o deslocamento de 350 mil moradores. As organizações de direitos humanos lamentam a destruição sistemática dos meios de subsistência. Casas curdas foram saqueadas, árabes sírios se alojaram.

Erdogan persegue agora planos semelhantes – abertamente. Ele quer criar espaço para os mais de 3 milhões de refugiados sírios que não são mais bem-vindos na Turquia. No fim das contas, isso significa: Erdogan está planejando uma limpeza étnica e subsequente realocação ao longo da fronteira entre a Síria e a Turquia.

Diante de tudo isso, não se deve esquecer: a luta contra o autonomeado "Estado Islâmico" está longe de vencida. Embora o grupo radical islâmico tenha perdido seu território no início do ano, seus combatentes ainda estão escondidos na vastidão da Síria. E a ideologia do EI ainda está na mente dos aproximadamente 12 mil combatentes capturados, que são vigiados pelos curdos no norte da Síria. E na mente das cerca de 70 mil seguidoras do EI refugiadas nos campos do norte da Síria.

Quando as Forças Armadas turcas se aproximarem, os curdos terão outros problemas com que se ocupar, além do legado humano do "califado" terrorista. Nesse ponto, o presidente dos EUA, Donald Trump, impôs um compromisso a Erdogan, ao dizer que a Turquia passará a ser responsável pelos combatentes e apoiadores do EI capturados. Mas o mundo não estará mais seguro com a ofensiva turca.


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