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Domingo 15.dez.2019

Ano VIII - Nº 375

Brasil

Estudantes voltam às ruas em defesa da educação, da ciência e da soberania

Em MS, reitor da UFMS fugiu de acadêmicos, servidores e professores em greve

Postado em 04 de Outubro de 2019 - Brasil de Fato

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Estudantes, professores, movimentos sociais e sindicais voltaram às ruas na última quinta (3) para dizer que a luta em defesa da educação e da ciência não para no país governado por Jair Bolsonaro. Hoje foi o segundo dia da greve geral do setor, realizada em diversas cidades brasileiras.

A mobilização em São Paulo, com ato na Avenida Paulista, contestou os cortes no orçamento da área e pediu o fim do projeto Future-se, que submete a educação a um viés de mercado, em que só interessam demandas empresariais descoladas da produção de conhecimento. No Rio de Janeiro, cerca de 20 mil pessoas caminharam da Candelária até a sede da Petrobras, lembrando que a empresa pública que completou 66 anos de criação passa por um dos mais graves de sua história. A defesa da Petrobras e da soberania também este presente na manifestação de Curitiba.

Houve protestos ainda no Paraná, Minas Gerais, Brasília, Rio Grande do Sul, Alagoas, Rondônia e Pará.

Segundo o presidente da União Estadual dos Estudantes (UEE-SP), Caio Yuji Tanaka, a mobilização foi uma continuação de um movimento que dialoga com o sentimento dos estudantes. “Na verdade, é um sentimento que começa desde quando o governo Bolsonaro é eleito, já posicionando que a universidade precisa ser só para uma elite intelectual”.

Ele diz que esse governo está “tornando cada vez mais difícil acesso e a permanência dentro da universidade”. Tanaka lembra que o ato foi em defesa da educação e da ciência “para que seja devolvido o dinheiro do educação e a gente consiga manter a nossa universidade”.

O presidente da União Municipal dos Estudantes Secundaristas (Umes-SP), Lucas Chen, destacou que “o Brasil tem um dos menores investimentos por aluno na média da OCDE. É um dos dados que foi levantado e apresentado recentemente e que comprova que o Brasil investe pouco em educação”.

Lucas afirmou que o governo Bolsonaro mente. “Não podemos aceitar uma coisa dessas, nossas escolas estão sendo completamente sucateadas. O que precisamos é de mais investimentos. Se eles puderem acabar com o modelo de escola pública, gratuita e de qualidade, eles vão acabar.”

O professor universitário Carlos Vinícius Santos diz que até agora não foi possível reconhecer uma política do governo Bolsonaro “porque não fica muito claro o que exatamente quer”.

Beatriz Baravieira, do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Universidade federal do ABC (UFABC) criticou o programa ‘Future-se’. “É um programa que tem como objetivo final privatizar a universidade e o plano de ensino desse governo é sucatear as universidades para futuramente ou cobrar mensalidade ou privatizar”, afirmou.

Ana Carolina Domingues, estudante do bairro de Perus, em São Paulo, disse que educação pública e de qualidade significa sim a emancipação do povo brasileiro. “Estar hoje aqui é principalmente lutar pelo futuro”, defendeu.

Reitor fujão

O reitor da UFMS, Marcelo Augusto Santos Turine, fugiu, correndo de uma reunião que fazia na manhã de quinta-feira (3) na Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, situado no campus da universidade em Campo Grande.

Tudo indica que ele queria se livrar de críticas e de dar satisfação a quase duas centenas de manifestantes (servidores, acadêmicos e professores), em greve contra o corte de verbas da educação e contra também perseguições que vêm recebendo da Reitoria, e que se dirigiam ao local onde tinham informação de que ele estava.

A informação é da coordenação geral do Sindicato dos Trabalhadores em Educação da UFMS (SISTA-MS). Turine estava dando prosseguimento ao projeto de “Reitoria Itinerante” e, segundo o sindicato, estava defendendo o programa Future-se, do Governo Federal, e que tem recebido inúmeras críticas, inclusive dentro da própria administração da universidade, porque se trata de um programa prejudicial à universidade.

“O Future-se é um famigerado programa que visa tão somente a privatização das universidades públicas brasileiras”, criticou Cléo Gomes, coordenadora geral do SISTA-MS.

De acordo com a entidade, desde as primeiras horas da manhã, centenas de estudantes, professores e servidores da UFMS já estavam concentrados em frente à Biblioteca Pública da universidade, com faixas, cartazes e carros de som onde as lideranças sindicais e servidores, professores e acadêmicos podiam se manifestar contra o caos que se instala nas universidades. Por volta das 10 horas eles resolveram ir para a Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnica, que fica na Rua Filinto Muller, depois do Lago do Amor, onde tinham informações de que o reitor Marcelo Turine estava. No instante que os manifestantes estavam chegando, o reitor teria sido avisado e saiu correndo do local até seu veículo e para se livrar dos manifestantes, chegou a entrar numa via que estava interditada por conta de obras no asfalto, e acabou “atropelando” cones que impediam a passagem.

O SISTA-MS está muito preocupado com a possível instalação do programa Future-se nas universidades, que seriam obrigadas a buscar recursos junto à iniciativa privada e sem contar mais com investimentos financeiros do Governo Federal.

O coordenador geral do sindicato, Waldevino Basílio esteve ontem em Corumbá, onde se reuniu com lideranças da educação, professores e acadêmicos, para falar dessa ameaça nesses novos tempos, de tempestades, para o ensino público superior no Brasil. “O quando futuro que se apresenta é muito crítico e precisamos que todos tomem conhecimento disso para poder lutar contra. As famílias, ou seja, a comunidade em geral, também precisa entrar nessa luta para defender o ensino público gratuito para seus filhos”, argumentou Basílio.

Análise

Após meses de embates políticos com cortes de verbas e projetos para o ensino superior como o programa “Future-se”, no final do mês de setembro o Ministério da Educação (MEC) lançou duas propostas focadas voltadas para a educação básica.

Uma delas é o Programa de Escolas Cívico-Militares, que prevê a participação de militares da reserva em atividades educacionais e administrativas das unidades.

Outra iniciativa foi um ofício encaminhado às secretarias de Educação do país em que dá orientações sobre o respeito a crenças religiosas, pluralismo de ideias e sobre o veto de propagandas partidárias nas salas de aula.

Esses temas remetem ao que é preconizado pelo movimento Escola sem Partido, que pretende censurar o que os professores falam na sala de aula para evitar o senso crítico e o debate de ideias.

Em entrevista ao Brasil de Fato, a socióloga e integrante do grupo articulador do Movimento de Inovação na Educação, Helena Singer, comenta sobre o projeto do governo Jair Bolsonaro (PSL) para a educação básica.

Para ela, em nenhum momento o governo anunciou um projeto com foco na educação pública de qualidade. "O próprio Ministério da Educação não propõe políticas públicas, à exceção das escolas cívico-militares. Aí sim tem um projeto, uma proposta, recurso e entrega”, avalia.

A socióloga explica tratar-se de uma resposta a um diagnóstico “inconsistente e incoerente de que essas escolas teriam melhores resultados do ponto e vista da aprendizagem e do desempenho dos estudantes”.

Para Singer, que em 2015 foi assessora especial do MEC, as questões relacionadas à educação básica são muito mais complexas do que se parece. O fato é que vivemos, segundo a pesquisadora, um processo de adoecimento tanto dos alunos quanto dos professores, e estamos chegando numa situação limite.

Uma das soluções para esses problemas seria integrar as escolas às comunidades locais. “Todas essas questões dessa nossa sociedade autoritária, machista, racista e extremamente violenta, que não foram superadas nos últimos anos e está piorando de novo, têm que ser trazidas para o contexto da escola, não como aula, mas como debate e como projeto de intervenção”, propõe.

Singer lembra que há décadas os estudos no campo da educação demostram que a solução para as questões de violência e de disciplina se resolvem com a conexão da escola com a comunidade, de modo que a comunidade também possa servir como cuidadora da escola.

“Que outra instituição nos territórios teria esse mandato, de ser uma instituição para produzir conhecimento local? Exatamente porque isso é único e muito poderoso, é sempre absolutamente sufocada. Como se sufoca isso? A partir de várias imposições, regulações e projetos que vem de cima para baixo”, assinala.

É justamente nessa lacuna que projetos como Escola sem Partido ganham espaço na sociedade, segundo a pesquisadora. “Geralmente a relação não passa do portão da escola. Essa proposta da Escola sem Partido se infiltra nessa ausência de relação entre a escola e as famílias, que cria desconfiança”, explica.


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