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Sábado 19.out.2019

Ano VIII - Nº 368

Brasil

O “Cannabusiness” já age no Brasil

Plantio segue ilegal, mas corporações já se movimentam para dominar o mercado brasileiro da maconha medicinal — que pode gerar até R$ 4,7 bilhões por ano

Postado em 03 de Outubro de 2019 - Raquel Torres – Outra Saúde

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O potencial de mercado da cannabis medicinal no Brasil é imenso. Apesar de ainda não haver legislação favorável – e de o atual governo desaprovar a regulação do plantio –, alguns empresários seguem otimistas. Inclusive, no mês passado vários deles participaram de um evento realizado pelo Lide Futuro e patrocinado pela indústria farmacêutica chamado Cannabusiness: um mercado bilionário. Mesmo que não se consiga regulamentar o plantio, há uma expectativa de que o registro do medicamentos seja facilitado. 

Há exemplos do quanto algumas companhias estão investindo. Como a Canopy Growth, com ações na Bolsa de Nova York e avaliada em mais de R$ 50 bilhões. Ela abriu recentemente uma filial da Spectrum Therapeutics (dedicada aos produtos medicinais) em São Paulo e pretende colocar R$ 60 milhões no Brasil até 2020, dependendo de como ficar a situação na Anvisa. Uma estimativa das empresas de dados do setor New Frontier e Green Hub prevê que poderiam ser movimentados entre R$ 1,1 bilhão e R$ 4,7 bilhões por ano; a projeção mais entusiasta considera que o país tenha ao menos 3,9 milhões de pacientes que poderiam ser tratados com cannabis. Hoje, cerca de quatro mil pessoas têm autorização da Anvisa para importar os produtos, o que custa R$ 1,2 mil reais por mês a cada paciente.

Em João Pessoa, o cultivo da cannabis serve à fabricação de produtos medicinais pela Abrace Esperança, única associação de pacientes que tem autorização judicial para fazer isso no Brasil. Há mais de dois mil pés de maconha crescendo em estufas, e os remédios vão para 2,5 mil associados que pagam uma anuidade de R$ 350 e entre R$ 150 e R$ 200 pelo óleo. Há pelo menos mil pessoas na fila de espera. 

No Twitter, o ministro da Cidadania Osmar Terra acusou o jornal Folha de São Paulo – que publicou reportagens sobre o tema nas últimas duas semanas - de apoiar o “poderoso lobby maconheiro“. 

Com ciência

Ainda não há evidências suficientes apoiando o uso dos tratamentos à base de cannabis para a maior parte das doenças. Entre 1988 e 2018, o número de estudos sobre isso cresceu de 33 para mais de mil, e eles investigam os efeitos em condições diversas, desde vômitos causados por quimioterapia até esquizofrenia. Só que a maior parte dessas pesquisas envolveu poucos pacientes, com pouco tempo de acompanhamento e sem um bom controle de outras variáveis que podem influenciar resultados. A aplicação com o maior número de estudos é o uso do CBD (sem efeito psicoativo) em casos graves de epilepsia e, nesse caso, há medicamentos com eficácia comprovada. 

Revisões sistemáticas – que analisam vários estudos ao mesmo tempo a partir de critérios rigorosos – têm apontado tanto limitações dos tratamentos quanto efeitos colaterais relevantes. Claro que isso não significa que os remédios não funcionem, mas, sim, que são necessárias mais pesquisas. 


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