Semana On

Quarta-Feira 11.dez.2019

Ano VIII - Nº 374

Brasil

Queimadas diminuem, mas Amazônia segue ameaçada

Campeões de desmatamento e queimadas na Amazônia são dominados pelo gado e pela soja

Postado em 03 de Outubro de 2019 - Thomas Milz e Jean-Philip Struck (DW) e Bruna Caetano (Brasil de Fato)

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Em setembro, os satélites do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) registraram 19.925 focos de incêndio na Amazônia – 19,66% menos do que no mesmo mês de 2018. E relação a agosto deste ano, o número de focos caiu 35,52%. Isso quer dizer que os incêndios que colocaram o Brasil em evidência na mídia internacional por várias semanas estão agora sob controle?

A estação chuvosa começou nos últimos dias, o que reduziu automaticamente as queimadas em grande parte da Amazônia, disse Angela Maria Feitosa Mendes, representante do Conselho das Populações Extrativistas, em entrevista à DW. A filha do seringueiro, sindicalista e ativista ambiental Chico Mendes vive em Rio Branco, capital do Acre um dos focos de queimadas das últimas semanas.

Em agosto, as imagens da floresta em chamas foram divulgadas no mundo inteiro. Registram-se 31.901 focos de incêndio – 196% mais do que em agosto de 2018. Mesmo com o aumento, o presidente Jair Bolsonaro reagiu com desdém e acusou – sem apresentar qualquer prova – as organizações não governamentais, e depois os povos indígenas, de serem cúmplices das queimadas.

Só, em 23 de agosto, depois que a imagem do Brasil estava prejudicada em nível global, o presidente reagiu, ordenando o envio de militares à Amazônia. A missão era combater os incêndios e prender os responsáveis pela onda de queimadas.

Segundo o governo federal, a Operação Verde Brasil é um sucesso e, por isso, foi prorrogada até o fim de outubro. Mais de 8 mil homens atuam na missão com 14 aeronaves. E, juntamente com os integrantes de órgãos de controle ambiental e de segurança pública, eles já combateram mais de 1.600 focos de incêndios.

Eles detiveram também 77 pessoas, apreenderam milhares de metros cúbicos de madeira cortada ilegalmente, bem como equipamentos dos madeireiros. Além disso, destruíram 18 acampamentos ilegais e apreenderam 74 veículos.

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, esteve na Europa nos últimos dias para divulgar os sucessos da operação – e polir a imagem carbonizada do Brasil. Mas em casa, o governo recebe mais críticas do que elogios.

"Parece-me que o governo tem investido muito mais em comunicação que de fato no tratamento do problema principal", sublinhou Carlos Rittl, do think tank Observatório do Clima. "Uma ou outra operação pode ter apreendido equipamentos e algumas pessoas foram presas. Mas isso não faz frente ao tamanho do problema, provocado pelo discurso do próprio governo."

Rittl lembrou ainda os dados divulgados pelo Inpe, de que o desmatamento aumentou 278% em julho e 222% em agosto, em relação aos último. Além disso, até 19 de setembro o desmatamento subiu para 1.173 quilômetros quadrados – em comparação, nos 30 dias de setembro de 2018, o desmatamento registrado foi de 739 quilômetros quadrados, quer dizer, houve um aumento de 58%.

"Os crimes continuam acontecendo sem que haja, de fato, uma resposta à altura", contou Rittl. "O que se pretende é, através de campanhas de comunicação, demonstrar que a situação está sob controle. Mas ela não está."

O pesquisador ressaltou que os militares só estão sendo usados para combater os incêndios, mas não para conter o desmatamento. Porém Angela Mendes não acredita que os criminosos estejam sendo intimidados pelos militares: "Não acho, até porque não são esses poucos militares que conseguiriam resolver os problemas da Amazônia e colocar medo na população. Pois a população ouve, de uma autoridade maior, uma autorização e liberação para praticar o crime."

Tanto o governador do Acre quanto o presidente Bolsonaro incentivaram abertamente os agricultores da região a desmatar, lembrou Mendes. "E há parlamentares que vão para o campo e falam para os agricultores que eles podem desmatar, e garantem que não haverá multa."

Multas não pagas, agentes intimidados

De fato, documentos publicados pelo jornal O Globo mostram que, em comparação com o ano anterior, o número de multas impostas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) diminuiu pela metade, desde o início da operação militar. Há algum tempo sabe-se que as multas geralmente não intimidam mais: estudos mostram que apenas cerca de 1,5% das multas são pagas, e a recusa de pagamento praticamente nunca gera consequências.

Mesmo antes dos incêndios, o governo não fez nada, embora soubesse quais regiões poderiam sofrer a ameaça das queimadas, afirma Marcio Astrini, coordenador de políticas públicas do Greenpeace Brasil. "Mas o governo tem feito nada e deixado a situação chegar a um ponto quase insustentável, provocando até danos à imagem do Brasil no exterior. Agora, o Exército tenta apagar o fogo que o próprio governo incitou."

Em seu discurso na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas há alguns dias, Bolsonaro afirmou que "nesta época do ano, o clima seco e os ventos favorecem queimadas espontâneas e criminosas". Astrini revate: "Ele mentiu. A floresta não pega fogo sozinha: alguém risca lá um fósforo. E um dos que mais contribuíram para riscar o fósforo foi o próprio governo dele."

Durante a campanha eleitoral, Bolsonaro prometera acabar com a "indústria da multa" do Ibama. E, desde que tomou posse em janeiro, os orçamentos do Ibama e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) foram reduzidos, lembra Astrini.

Salles chegou até mesmo a ameaçar os funcionários do Ibama com consequências legais, enquanto Bolsonaro proibiu as autoridades de queimar os equipamentos apreendidos de suspeitos de crimes ambientais. Além disso, o presidente demitiu o chefe do Inpe depois que ele tornou público os números crescentes do desmatamento, "mas Bolsonaro nunca criticou um criminoso ambiental", lembra Astrini.

Agora as autoridades de fiscalização estão sozinhas na floresta. "Sempre foi uma guerra entre o crime e a floresta, com os agentes do Estado tentando defender a floresta. Mas, agora, os criminosos perderam o respeito e o medo", sublinha Astrini.

Eles não se intimidam em incendiar veículos pertencentes às autoridades de fiscalização ou ameaçar os funcionários, como mostram reportagens recentes. "Eles recebem poder pelo governo. E o governo está do lado do crime", afirma o coordenador de políticas públicas do Greenpeace Brasil.

Documentos publicados na mídia brasileira sugerem que os militares se recusaram, por três vezes, a dar suporte a operações de combate a garimpeiros ilegais – que esperam que suas atividades ilegais sejam legalizadas em breve. A recusa dos militares é um escândalo, frisa Astrini: "O Exército está lá exatamente para dar cobertura para o Ibama. Pois com tão poucos fiscais, o Ibama e o ICMBio não vão conseguir ter sucesso em nada."

Já Carlos Rittl espera que a União Europeia faça pressão suficiente no âmbito do acordo de livre-comércio com o Mercosul, a fim de obrigar o Brasil a cumprir as normas ambientais prometidas. No entanto, ele duvida da eficiência da operação militar: "O problema que este governo induziu na Amazônia não se resolve com uma operação temporária. É necessário um Estado presente e com vontade, de fato, de eliminar o crime ambiental. Mas essa vontade não existe."

Salles deixa Alemanha sem obter concessões do governo Merkel

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, deixou a Alemanha no último dia 2 sem conseguir qualquer concessão do governo da chanceler federal, Angela Merkel, na questão da suspensão de uma verba de 155 milhões de reais para projetos de conservação florestal no Brasil. 

Em agosto, em meio à crise das queimadas, Svenja Schulze, a ministra do Meio Ambiente, Proteção da Natureza e Segurança Nuclear da Alemanha, anunciou o congelamento da verba, argumentando que a política do governo de Jair Bolsonaro em relação à Amazônia "deixa dúvidas se ainda persegue uma redução consequente das taxas de desmatamento".

 À época, a suspensão da verba gerou uma reação furiosa de Bolsonaro. Na ocasião, o presidente brasileiro sugeriu que Merkel"pegasse essa grana" para "reflorestar a Alemanha" e afirmou que o Brasil "não precisa disso", referindo-se ao dinheiro.

Mas, em sua viagem à Alemanha, Salles tentou minimizar as falas de Bolsonaro com o objetivo de reaver a verba. Em entrevista publicada na terça-feira pelo jornal conservador Frankfurter Allgemeine Zeitung (FAZ), o ministro disse que o Brasil está, sim, interessado no financiamento alemão e que a fala do presidente foi apenas uma reação "a uma manifestação da Europa". "Não vamos misturar política com questões técnicas", afirmou.

No mesmo dia ele se encontrou com a ministra Schulze. A reunião não rendeu fotos ou a divulgação de uma declaração conjunta, como ocorre normalmente em reuniões com altos representantes estrangeiros. Ao final, Salles foi embora sem reaver o financiamento.

Segundo declarou um porta-voz do ministério alemão nesta quarta-feira, a pasta não pretende rever sua posição em relação à suspensão da verba até que "tenhamos uma impressão bem fundamentada de que o dinheiro será bem investido".

De acordo com o porta-voz, o encontro entre Salles e Schulze consistiu mais em uma troca de pontos de vista do que uma reunião com efeitos práticos. "A ministra Svenja Schulze deixou sua posição muito clara e pediu a proteção da Amazônia."

Ainda na terça-feira, Salles se reuniu com o ministro Gerd Müller, da pasta para Cooperação e Desenvolvimento da Alemanha. O governo brasileiro também vem travando uma queda de braço com esse ministério, desta vez relacionada ao futuro do Fundo Amazônia, o programa bilionário de proteção à floresta que conta com recursos da Noruega e da Alemanha.

Mas, por enquanto, a pasta de Müller vem evitando seguir o exemplo do Ministério do Meio Ambiente alemão e ainda não suspendeu qualquer repasse para o fundo. Por outro lado, os alemães e noruegueses não escondem sua insatisfação com as mudanças unilaterais promovidas por Salles na gestão do programa, como a extinção de dois comitês, que ocorreu sem qualquer acordo com os europeus.

Os dois países europeus também se posicionaram contra uma proposta do ministro brasileiro de usar recursos do fundo para indenizar fazendeiros que ocupam áreas de proteção ambiental, e rechaçaram publicamente insinuações de Salles sobre supostas fraudes na gestão do programa. Em agosto, diante das mudanças promovidas pelo Brasil, a Noruega suspendeu um novo repasse de 133 milhões de reais ao fundo.

Em sua entrevista ao jornal alemão FAZ, Salles tentou mais uma vez se apresentar de maneira conciliadora, em contraste com as críticas que fez ao Fundo Amazônia nos últimos meses. "O objetivo é que o fundo possa distribuir dinheiro novamente", disse.

Segundo fontes do governo alemão, o ministro brasileiro queria convencer a Alemanha a mediar uma solução com os noruegueses. Mas um porta-voz da pasta de Müller indicou que Salles aparentemente não teve sucesso em seu pedido. "Estamos esperando para ver como as negociações entre o Brasil e a Noruega vão se desenrolar", disse o porta-voz.

Na terça-feira, Angela Merkel também falou sobre a forma como seu governo vem abordando a questão das verbas para projetos ambientais no Brasil. Evitando fazer críticas aos brasileiros, ela disse que "há necessidade de discussão". "Se uma boa solução for encontrada, certamente os fundos bilaterais poderão voltar a ser canalizados", afirmou a chefe de governo. 

Gado e soja

O Brasil registrou 131.327 queimadas florestais até o mês de agosto em 2019. Só na Amazônia, foram registrados 43.573 focos, segundo o Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (Inpe). A origem do fogo na floresta tem sido alvo de debate nas últimas semanas, repercutindo na imprensa nacional e internacional, aumentando ainda mais a pressão sobre o governo federal para soluções que freiem as chamas.

Como se comporta o agronegócio nos municípios mais queimados da região amazônica? Qual o impacto da agropecuária extensiva e quais as alternativas sustentáveis para o desenvolvimento da floresta?

Desmatar, queimar e soltar o gado

Não é coincidência que sete dos dez municípios mais queimados do país neste ano também estejam na lista dos mais desmatados. “O desmatamento avança com o fogo avançando em seguida”, explica Paulo Moutinho, cofundador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam). O fogo é utilizado para limpar as áreas desmatadas para preparação para o plantio de capim ou cultura agrícola.

A maioria dos municípios presentes na lista elaborada pelo Ipam está localizada no chamado arco do desmatamento — que é resultado de um processo histórico de ocupação da Amazônia, entre o fim da década de 1950 e início dos anos 1960.

Essa ocupação se deu principalmente pela chegada de grandes obras de infraestrutura na região amazônica. Em paralelo, com políticas de incentivo da ditadura militar, introduziu-se um modo de ocupação estimulando a migração do sudeste, centro-oeste e nordeste.

O resultado foi a criação de uma fronteira agrícola e pecuária que, desde então, avança anualmente sobre a floresta.

Grande parte das atividades que deixam um rastro de desmatamento e fogo na Amazônia Legal é voltada para a pecuária e agricultura extensiva. A média, na região, é a ocupação de um hectare por cabeça de gado, por exemplo.

Segundo o Moutinho, cerca de 30% do desmatamento acontece em terras públicas, numa prática consolidada de especulação ilegal. “É um crime organizado de grileiros, que tomam a terra pública dos brasileiros para fazer a derrubada, fazer a queimada e depois especular, vender para terceiros desavisados ou até para um comércio ilegal de terras na Amazônia”, explica.

Os impactos no ecossistema, de acordo com o pesquisador, são inúmeros, mas são dois os principais: a mudança no comportamento das chuvas e, consequentemente, do clima em todo o planeta. A floresta funciona como uma bomba de água que abastece a atmosfera com o vapor que forma as nuvens e mantém as chuvas, explica Moutinho.

A desregulação das chuvas também impacta diretamente o próprio agronegócio. O Brasil tem 95% da agricultura dependente de chuva. Quem faz a irrigação dos plantios é a floresta amazônica.

Pará

Um dos estados com municípios na lista dos mais queimados é o Pará. Com o forte presença do monocultivo e da pecuária, Altamira, Novo Progresso e São Félix do Xingu têm mais de 678,6 mil hectares, 344,8 mil hectares, e 1,4 milhão de hectares, respectivamente, destinados à pastagem de gado. Nas duas primeiras, a soja também é a matriz agrícola mais produzida. São 6,8 mil e 9,2 mil hectares plantados, de acordo com último o Censo Agropecuário, elaborado em 2017 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Se comparadas as áreas de pastagem atuais com as constatadas pelo o último Censo, realizado em 2006, houve um aumento significativo em todas as cidades — 46% em Altamira, 49% em Novo Progresso e 64% em São Félix do Xingu.

Segundo Raione Lima, coordenadora da Comissão Pastoral da Terra (CPT) da BR-163, no trecho da rodovia conhecida como corredor da soja que liga o porto de Santarém (PA) à Sinop (MT), o principal aumento do desmatamento e das queimadas em 2019 foi “provocado e organizado” e se deu em áreas de assentamentos da Reforma Agrária.

As queimadas nos assentamentos aconteceram principalmente no município de Novo Progresso, mais especificamente no Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) Terra Nossa, assentamento do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).

“Ao chegar no Terra Nossa, nesse auge das queimadas, a gente pode observar que as fazendas não foram tão atingidas assim. A gente entendeu que não é fazenda para fazer pasto, ainda. A gente viu alguns agricultores que tiveram suas roças queimadas, seus lotes incendiados, e o fogo não chegava nas fazendas. Então, a gente considera que foi provocado e organizado. Não sabemos quem organizou”, relata.

De acordo com um levantamento realizado pela Agência Pública com base em dados do Inpe, o assentamento foi o que mais sofreu incêndios em 2019. Foram 197 focos de incêndio em agosto, um aumento de 319% em relação ao mesmo período em 2018. Cerca de 300 famílias vivem no PDS.

A região do Pará cortada pela BR-163 é conhecida pela concentração de pecuaristas, garimpeiros e madeireiros. A intensificação do fogo no entorno da rodovia teve início a partir do “Dia do Fogo”, segundo dados do Inpe. No dia 10 de agosto, fazendeiros se organizaram para iniciar queimadas a fim de chamar atenção do governo.

Rondônia

“Se a gente circula pela região de Porto Velho, ou mesmo do interior do estado de Rondônia, é possível observar vários pontos onde houveram queimadas, e o reflexo na vida de todas as pessoas, e que é inegável, é a fumaça. A fumaça forma cortinas na cidade, sendo impossível negar a existência de focos de incêndio nas regiões”, afirma Liliana Won Ancken, da CPT de Rondônia.

Porto Velho, capital de Rondônia, é a terceira cidade da região amazônica com maior índice de queimadas e desmatamento. São 351.534 hectares de pastos — 43% de acréscimo em relação à 2006 — 41.575 hectares dedicados ao plantio de cana-de-açúcar e 3,604 à cana-de-açúcar forrageira, utilizada para alimentação de gado.

Lá, foram registrados 3.110 focos de queimadas só neste ano e 280 hectares de desmatamento, segundo o Inpe. No dia 26 de agosto, a fumaça foi responsável pelo fechamento do aeroporto da cidade por mais de uma hora. Em entrevista à AFP, o diretor-geral do Hospital Infantil Cosme e Damião, Sergio Pereira, afirma que atendia cerca de 240 pacientes por dia, mas nos últimos tempos esse número subiu para 280.

Para Won Ancken, o modelo de produção praticado pelo agronegócio é fruto de um processo de colonização do estado, que substitui o cultivo da flora natural da região, e impõe a pecuária e a monocultura. “O processo de colonização aqui na Amazônia sempre induziu a isso, porque sempre disse que terra desmatada era garantia de propriedade”

Ela conta que a produção de soja também tem causado uma pressão sob a região a partir de cerca de 15 anos atrás. No estado, são 242.778 hectares dedicados à soja. O crescimento do cultivo do grão é um dos motivos para a expulsão de pequenos agricultores e aumento dos conflitos agrários em Vilhena, Corumbiara, Cerejeiras e Chupinguaia, regiões de transição do Cerrado e Floresta Amazônica.

Segundo Liliana, muito pouco é investido em tecnologia própria da região amazônica a partir dos conhecimentos e da agricultura que já é praticada na região há séculos. “Isso da floresta intocada também é um mito a ser desconstruído. Sempre existiram povos na Amazônia que de alguma forma interagiram com a floresta para sobreviver. E praticando formas de agricultura que foram sustentáveis ao longo dos anos”, ressalta.

Amazonas

Lábrea e Apuí, no sul amazonense, também estão entre os municípios mais desmatados e queimados. São 2.224 e 2.064 focos de incêndio, respectivamente. Já o desmatamento corresponde a 170 hectares em Lábrea e 110 hectares em Apuí, até julho deste ano.

A região é uma das mais problemáticas do estado em relação à grilagem de terras, além de campeã em criação de gado. São 205,9 mil hectares usados para pastagens em Lábrea, e 121.489 em Apuí.

Tiago Maiká, agente pastoral da CPT Amazonas, explica que existe uma cadeia de atividades que protagonizam o desmatamento na região: primeiro entram as madeireiras, depois as fazendas de gado e a soja, ocupando essas pastagens.

Ao contrário do que disse o presidente Jair Bolsonaro (PSL) em seu pronunciamento em rede nacional, 2019 não é um ano excepcionalmente seco. Entre janeiro e agosto deste ano, a quantidade de chuva é 11% maior que o mesmo período desde 2016, segundo dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e do Inpe.

Maiká lembra que tem chovido bastante em comparação com os anos anteriores, e as queimadas se alastram sem relação com a questão ambiental sazonal.

As queimadas impactam todo o ecossistema da região, inclusive um dos rios mais extensos do mundo: o Rio Amazonas. Em um estudo publicado na revista Nature Communications, foi constatado que grande parte do carbono negro encontrado no rio foi produzido por incêndios recentes na região.

Conflitos no campo

O desmatamento e os incêndios não são as únicas consequências do modelo predatório do agronegócio. Com a agropecuária extensiva, os conflitos por terra se tornam comuns e a morte de lideranças camponesas uma realidade cada vez mais evidente.

Só esse ano, foram 18 assassinatos em conflitos no campo registrados no país, segundo a CPT. Desses, foram sete no Pará e cinco no Amazonas.

Para Maiká, da CPT do Amazonas, a intensificação dos discursos de ódio tem relação direta com o aumento nos índices de assassinatos, assim como dos crimes ambientais.

“Está tudo relacionado com esse discurso de que não vai ter mais controle. Órgãos ambientais não têm mais autonomia para atuação. Temos um processo de avanço inclusive sob essas terras que eram tidas como as mais protegidas do país de uma maneira muito forte”, analisa o agente pastoral.

A narrativa construída pelo presidente também é caracterizada pelo constante ataque às Organizações Não Governamentais (ONGs) que atuam na preservação ambiental e aos institutos de pesquisa.

Desde o início da repercussão do aumento no índice de queimadas, Jair Bolsonaro já acusou as ONGs de estarem ateando fogo na floresta a fim de culpabilizar o governo, mas sem provas. Além disso, contesta regularmente os dados divulgados pelo Inpe.

Mas não é só nos discursos que o presidente incentiva a violência. Ele defende que fazendeiros devam se armar legalmente e, no último dia 17, sancionou a lei 3.715/19 para ampliar a posse de armas de fogo em propriedades rurais. Antes, era permitida a posse apenas na sede da propriedade — agora, toda a extensão do terreno é compreendida como propriedade.

Em abril, na 26ª edição da Feira Internacional de Tecnologia Agrícola em Ação Agrishow, o presidente chegou afirmar que vai enviar ao Congresso uma espécie de “excludente de ilicitude” para os ruralistas.

“Ao defender a sua propriedade privada ou a sua vida, o cidadão de bem poderá entrar no excludente de ilicitude. Ou seja, ele responde, mas não tem punição. É a forma que nós temos que proceder. Para que o outro lado que desrespeita a lei tema o cidadão de bem”, disse o mandatário na ocasião.

Desenvolvimento sustentável

Para frear o desmatamento e as queimadas é preciso que haja governança na região amazônica, acredita Paulo Moutinho, do Ipam. Segundo ele, são 64 milhões de hectares de áreas públicas que precisam de uma destinação para uso sustentável ou conservação pelos governos estaduais ou federais.

O desenvolvimento sustentável da floresta, para Moutinho, depende de investimentos em pilares como a assistência técnica diferenciada para pequenos e médios produtores com preocupação com a sustentabilidade, e em mecanismos econômicos que tragam valor para a floresta em pé.

Em paralelo, o pesquisadora afirma que é preciso que se eduque a sociedade sobre a importância da Amazônia para as próximas gerações.

Nos últimos 30 anos, houve um esforço para a criação de políticas voltadas para o desenvolvimento sustentável que vêm sendo desmontadas de alguns anos para cá, relata Ailton Dias, coordenador do Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), criado para facilitar o acesso à informação sobre conservação ambiental.

Em 2012, foi instaurada pela ex-presidenta Dilma Rousseff a Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (Pnapo), com a criação de um plano em que o governo federal se comprometia com o incentivo à produção agroecológica e orgânica, e ao manejo sustentável de recursos florestais.

Outra iniciativa elencada pelo pesquisador é mais antiga, de 1995. Trata-se do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), criado para o financiamento de iniciativas de projetos que gerem renda para os agricultores familiares.

O Fundo Amazônia, que agora se encontra paralisado, também exercia um papel importante como plataforma de investimentos milionários no desenvolvimento de projetos de gestão da floresta e contenção do desmatamento.

Apesar do incentivo cada vez menor, alguns grupos praticam o manejo sustentável da floresta. Ribeirinhos, comunidades quilombolas, povos tradicionais têm sua produção, em um primeiro momento, voltada para a segurança alimentar. A comercialização surge em segundo plano. Um exemplo é o mercado de açaí, produto importante da Amazônia que virou um fenômeno global e abastece grandes centros urbanos. Segundo Dias, aproximadamente 90% é produzido por comunidades tradicionais e agricultura familiar.

Para Raione Lima, da CPT, existe um déficit na presença do Estado na assistência técnicas à essas comunidades. “Há uma ausência muito grande das políticas públicas no campo para essas pessoas. Os agricultores e assentados ficam ali esperando chegar a política, alguns se resolvem por meio de associações para lutar por esses direitos, mas o Estado não tem dado muita atenção”, assinala.

Para cobrar essa atenção e pautar as alternativas ao modelo do agronegócio, comunidades se aliam à luta pela reforma agrária para a construção da agroecologia e o combate ao uso de agrotóxicos, independentes ou por meio da participação de movimentos de luta como os da organização internacional de mobilização do campo, Via Campesina.


Voltar


Comente sobre essa publicação...