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Quinta-Feira 21.nov.2019

Ano VIII - Nº 372

Poder

“Estamos discutindo tudo isso sem o Brasil presente”, disse Macron sobre ausência de Bolsonaro na Cúpula do Clima

Brasileira que abriu discursos sai decepcionada: “Resultado foi pouco para o que precisamos”

Postado em 27 de Setembro de 2019 - Gabriel Morais e Jussara Soares (O Globo) e Sul 21

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Sem a presença oficial do Brasil, o presidente da França, Emmanuel Macron, liderou na semana passada a principal reunião sobre o futuro da Amazônia, em Nova York.

O encontro acontecue em meio à agenda da Cúpula do Clima na Organização das Nações Unidas (ONU), na cidade americana. Macron criticou a ausência do governo federal brasileiro na conferência.

— Vamos falar francamente. Estamos discutindo tudo isso sem o Brasil presente. O Brasil é bem-vindo. Todos nós queremos trabalhar — disse o francês, afirmando que busca “soluções políticas” para seguir adiante.

Macron convidou para a reunião governadores brasileiros integrantes do  consórcio dos estados da Amazônia. O governador do Amapá,  Waldez Goés  (PDT), disse que o consórcio da Amazônia Legal, presidido por ele, participaria da reunião como ouvinte e confirmou que havia a expectativa de que os estados amazônicos pudessem discursar, o que não se concretizou.

— Eu não aceito isso como normal, o Brasil, pela importância que tem para o mundo na questão ambiental, ficar de costas para este debate — disse Waldez, reforçando que o país deveria estar presente ao menos para se contrapor às opiniões dos demais participantes.

Em seu discurso, Macron afirmou que as florestas tropicais estão desaparecendo rapidamente e que as queimadas têm aumentado. Complementou dizendo ter legitimidade para liderar as discussões em função da Guiana Francesa, e criticou a postura do Brasil em relação ao Fundo Amazônia.

— Vamos falar do Fundo Amazônia. O Brasil não está levando a sério esses critérios — disse o francês, citando a suspensão das doações de Alemanha e Noruega.

Chanceler da Alemanha, Angela Merkel também discursou no evento, mencionando os investimentos na floresta amazônica. Sem citar especificamente o Brasil ou a suspensão do Fundo Amazônica, disse que os doadores devem cobrar metodologia para garantir resultados.

— Como disse Macron, Não estamos aqui só para dar dinheiro (...). Precisamos estabelecer uma metodologia que seja aprovada para dar resultados — observou.

Também participam da reunião os presidentes da Colômbia, Iván Duque, do Chile, Sebastián Piñera, e da Bolívia, Evo Morales.

O ator Harrison Ford, vice-presidente da Conservação Internacional, criticou o desmatamento da Amazônia e disse que preservar a floresta é fundamental para qualquer debate sobre mudança do clima.

— A ganância está ganhando a batalha na Amazônia — disse o ator.

Presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk pediu união aos países pela preservação e reforçou que as nações europeias estão dispostas a financiar projetos para a floresta. Segundo ele, as recentes queimadas na região tiraram o mundo da “letargia”.

— Queimadas em florestas são uma tragédia. Não importa o tamanho. Precisamos desse choque como esses incêndios para sair do estado de letargia. Nao quero dar lição de moral em ninguém. Nossa história é desmatamento para criar indústria, mas queremos ajudar a manter a floresta. Até as crianças sabem da importância delas para o futuro — disse Tusk.

Doadores prometem US$ 500 milhões extras para florestas tropicais

O Banco Mundial, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e a ONG Conservação Internacional decidiram doar US$ 500 milhões adicionais para o reflorestamento da Amazônia e de outras florestas tropicais, divulgou a presidência francesa também nesta segunda-feira. Nos bastidores da reunião sobre a Amazônia, uma autoridade francesa confirmou que a França vai contribuir com 100 milhões.

O Brasil, que possui 60% da maior floresta tropical do mundo, tenta convencer o mundo de que está com a situação sob controle, depois que o forte desmatamento e a propagação de incêndios florestais causaram uma crise internacional em agosto.

Uma brasileira

No meio de cerca de 60 líderes do mundo todo que discursaram na Cúpula do, a primeira pessoa a subir no palanque e discursar foi uma jovem brasileira. Paloma Costa, de 27 anos, é estudante de direito da Universidade de Brasília e faz parte de diversos projetos ambientais, como o Engajamundo. Ela foi selecionada entre mais de 100 jovens pelo secretário-geral das Nações Unidas, o português António Guterres, para abrir o evento.

Ela diz que o resultado foi o mix de alegria, por poder participar de um momento tão importante, com decepção com o que viu e ouviu na ONU.

—  Confio nos jovens. Vi coisas incríveis, mas saio bem desapontada. Não tem nenhum comprometimento. Fica claro que a gente está vivendo uma crise climática, e o resultado (do evento) foi muito pouco para o que a gente está precisando. Acho que o que eu falei no meu discurso, que a gente vai se reunir ano que vem para falar sobre a mesma coisa, foi, na verdade, algo como uma profecia.

Paloma conta que ficou feliz em ver diversos líderes prestando atenção e se engajando com seu discurso. Mas não acredita que isso irá resultar em ações.

— Não teve nada que tocou meu coração. Teve o Macron, que anunciou os U$S 500 milhões para o reflorestamento das florestas tropicais incluindo a Amazônia , mas só. Eu cheguei a falar rapidamente com (a chanceler alemã) Angela Merkel, a (ex-predidente chilena Michelle) Bachelet e outros líderes. Todas essas pessoas se disseram muito orgulhosas do meu trabalho, mas foi só isso — relata Paloma. — A gente reuniu vários jovens do mundo que têm propostas, e cadê nosso governantes transformando isso em políticas públicas?

'É muito difícil falar com os representantes do Brasil'

A estudante também relatou a dificuldade de entrar em contato com as lideranças brasileiras. Paloma chegou a conversar com o prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto (PSDB) e com a deputada federal Tabata Amaral (PDT-SP). Mas conta que não conseguiu falar com o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles .

— É muito difícil falar com os representantes do Brasil. Tentei conversar com eles em uma reunião preparatória que tivemos em Abu Dhabi, mas não consegui. Procurei representantes brasileiros aqui, mas também não consegui. É muito difícil achá-los. Eles também não me procuraram.

Paloma foi uma das jovens brasileiras que participou da Cúpula da Juventude para o Clima , que precedeu a Cúpula do Clima. Ela é coordenadora do grupo de clima do Engajamundo, pelo qual faz reuniões semanais que são disponibilizadas na internet, com jovens de todo o Brasil sobre questões ambientais que têm sido abordadas no Congresso.

Junto com outro brasileiro que participou da cúpula dos jovens, João Henrique Alves Cerqueira, ela também participa do Ciclimáticos, um coletivo que realiza um trabalho de documentação das histórias de pessoas impactadas pelas mudanças climáticas em locais vulneráveis.

Pena do Brasil

A ex-presidente do Chile e atual comissária para Direitos Humanos da ONU, Michelle Bachelet, afirmou em entrevista para uma TV local que sente “pena pelo Brasil” ter Jair Bolsonaro (PSL) como presidente da República. A fala é uma resposta ao ataque feito pelo presidente brasileiro a ela no início do mês.

“Então se alguém diz que em seu país nunca houve ditadura, que lá nunca houve tortura…bem, então deixe ele dizer que a morte do meu pai por tortura garantiu que o Chile não se transformasse em uma Cuba. A verdade é que eu sinto pena pelo Brasil”, afirmou Bachelet à emissora TVN.

Em entrevista concedida em Genebra no início de setembro, Bachelet expressou preocupação com o aumento das mortes no número de pessoas mortas em São Paulo e no Rio de Janeiro em 2019, salientando ainda que a violência policial “atinge mais as pessoas de ascendência africana ou as que vivem em favelas”. Ela também alertou para o fato de que esses índices aumentam no momento em que o Brasil e estes estados são governados por pessoas que adotam um discurso que “legitima execuções sumárias e uma falta de responsabilização”.

Em resposta no mesmo dia, Bolsonaro disse que Bachelet “está defendendo direitos humanos de vagabundos” do diz que o Brasil deveria punir os policiais responsáveis por mortes injustificadas.

“E ela [Bachelet] diz mais ainda. Ela critica dizendo que o Brasil está perdendo o seu espaço democrático. Senhora Michelle Bachelet, se não fosse o pessoal do Pinochet derrotar a esquerda em 73, entre eles o seu pai, hoje o Chile seria uma Cuba. Acho que não preciso falar mais nada para ela”, disse.

O pai da ex-presidente chilena, Alberto Bachelet, era general da Força Aérea do Chile e foi contra o golpe dado por Pinochet em setembro de 1973. Preso e torturado, morreu como consequência das agressões feitas pelo sistema de repressão chileno. A ex-presidente também foi presa, em 1975, e também foi torturada na prisão. Ela presidiu o Chile em duas oportunidades, entre 2006 e 2010 e entre 2014 e 2018. O Chile não tem reeleição.


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