Semana On

Quinta-Feira 14.nov.2019

Ano VIII - Nº 371

Brasil

Luciano Hang: a alegoria máxima do movimento bolsonarista

Macaquinhos no sótão e uma cafonice em estado de arte, este é o bilionário condenado na Justiça que idolatra Bolsonaro

Postado em 26 de Setembro de 2019 - Fred Melo Paiva – Carta Capital

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Embora não se possa menosprezar o grau de demência que leva um empresário a construir lojas de departamento com a fachada da Casa Branca e instalar Estátuas da Liberdade em suas portas, foi apenas a partir de 2016 que o processo de despirocamento de Luciano Hang o tornou apto à camisa de força. Hoje, a décima primeira pessoa mais rica do Brasil segundo a lista da Forbes – bilionário de número 1.057 no mundo – traja-se de terno verde-bandeira, gravata e lenço amarelos. “Por patriotismo”, garante usar cuecas nas mesmas cores. As meias, no entanto, são verdade verdadeira: verdes com o calcanhar amarelo e, na altura do tornozelo, o bordado de si mesmo – um pequeno busto careca com orelhas de abano vestido com uma camiseta onde se lê “Véio da Havan”, o apelido pejorativo que, por inócuo lutar contra, adotou para si com galhardia. “Não chega a ser excêntrico”, refuta um famoso estilista ouvido por esta Carta certamente Capetal se sob o crivo de Véio da Havan. É tão somente “o horror”.

Aos 56 anos, o Véio nem tão velho assim é dono das Lojas Havan, um improvável caso de sucesso cujo faturamento anual atingiu os 7 bilhões de reais em 2018. Em 130 estabelecimentos espalhados sobretudo pelo interior do País, a Havan oferece cerca de 100 mil produtos nacionais e importados, de celulares a ferramentas de jardim, de pufes e banquetas a roupões e papéis de parede. A copiar a sede do governo dos Estados Unidos, já construiu mais de 1 milhão de metros quadrados, segundo informação da empresa. O mesmo modelo de negócio levou à falência Mappin e Mesbla, mas a Havan quer chegar a 200 megalojas até 2022. Há diferenciais a dar e vender, “preço, qualidade de atendimento” e tal. Nada, porém, que chegue aos pés de gesso da Estátua da Liberdade estacionada à porta, uma bizarrice sem tamanho. Quer dizer, em Brusque (SC), cidade-sede, ela tem 57 metros, 19 a mais do que o Cristo Redentor. É, pois, a maior estátua do Brasil.

Luciano Hang não é apenas o mais serelepe apoiador de Bolsonaro, o primeiro grande empresário a subir ao Titanic do então candidato, hoje rumo ao iceberg com o mesmo Hang a dançar no baile. Véio da Havan é o bolsonarismo em pessoa. Sob sua lustrosa carcaça craniana não há o mais bege sinal de qualquer ilustração. Ao contrário, os macaquinhos pululam em seu sótão na forma de paranoias conspiratórias, inimigos imaginários, fantasmas do comunismo. “Conservador nos costumes e liberal na economia” – eis a senha para o crédito na mamadeira de piroca e o débito nos direitos do trabalhador. Como um Bolsonaro que tem por guia o “Brasil acima de tudo” ao mesmo passo em que bate continência à bandeira americana, o Hang patriota deixará aos arqueólogos do futuro 200 réplicas da Estátua da Liberdade. Some-se a esse conjunto a cafonice em estado de arte, e tem-se o Homem Bolsonarista reunido numa pessoa só.

Luciano Hang, que faturou 7 bilhões de reais no ano passado, quer inaugurar 70 novas lojas até o fim de 2022

Acrescente-se, ainda, o que não poderia faltar a este tipo, cujo hábitat natural são as redes sociais: 4 milhões de seguidores no Facebook, 2 milhões no Instagram, 330 mil no Twitter. À numerosa vara oferece pérolas como esta: “Temos que comemorar 1964 e 2018. Por duas vezes o Brasil venceu os comunistas”. Em outras oportunidades, dedica-se ao coaching: “Sempre pensei fora da caixa. Imagine construir uma megaloja em uma cidade pequena com fachada da Casa Branca e colocar uma Estátua da Liberdade na frente. Muitos me chamaram de louco e brega. Acredite no poder do marketing e não desperdice a ideia que pode mudar a sua vida”. Seu esporte preferido, no entanto, é fustigar o PT, mesmo que a golpes de uma enxada com CH: “Vai faltar cadeia se prenderem todos os petistas envolvidos em escândalos de corrupção pelo País. Como dizia um amigo meu, cada enchadada uma minhoca”.

Para conhecer o pensamento vivo do Homem Bolsonarista, deite-se por um instante nas redes de Hang. Sua peculiar ciência política considera comunistas o governador de São Paulo, João Doria, e o apresentador da Globo Luciano Huck. Bem, já pode se levantar. Não sem antes, no entanto, e apenas pela curiosidade mórbida de quem aprecia um acidente, se deixar levar pela série de vídeos em que Véio da Havan registra o encontro com o Napoleão de hospício Olavo de Carvalho, guru dos Bolsonaro, na longínqua zona rural da Virgínia. Vestido de Louro José (a coincidência com a plumagem embandeirada do papagaio de Ana Maria Braga foi anotada por Lula em entrevista recente), promove os livros do “filósofo” e de suas aulas a distância. De volta à realidade do Brasil, embora nem tanto, dedica-se a sortear 20 cursos anuais de Olavo. “Conto com você na luta contra o comunismo e o Foro de São Paulo.”

Como de resto, toda a tropa napoleônica está em quixotesca luta contra o moinho do “globalismo”, esse gigante inexistente. Seus jornalistas confiáveis, dos quais compartilha opiniões e entrevistas, são Boris Casoy e Willian Waack. Seu comunicador preferido, Ratinho. Seu ídolo, Silvio Santos. Sua tevê, Record. Não pense o incauto leitor que essa viagem na maionese ideológica tenha feito mal aos negócios de Hang. Foi o contrário. De 2017 para 2018, período em que se torna essa alegoria do bolsonarismo, suas vendas cresceram 40%. Motivo pelo qual parece disposto a acelerar na concepção de sua persona. No último dia 12, anunciou a substituição da frota que entrega as mercadorias da Havan por 300 “caminhões patriotas” pintados em verde e amarelo e com a inscrição “O Brasil que queremos só depende de nós”. Trajado outra vez de Louro José, inaugurou a figura do animador de 7 de Setembro, a quicar no asfalto como um pogobol enquanto a arquibancada do desfile militar em Brasília saudava o presidente: “Mito, mito, mito”.

A culpa é do PT. Sim, a culpa pela meteórica ascensão do Homem Bolsonarista é de Lula, exata e precisamente, diria o poeta golpista, de Lulinha. Ali por 2016, segundo o grupo de parentes do WhatsApp, o filho do ex-presidente era dono de um avião, uma Ferrari dourada e uma holding composta pela JBS, Friboi e… Lojas Havan, esta última em sociedade com a filha da ex-presidenta Dilma Rousseff. Desgostoso com os novos acionistas, Luciano Hang decidiu transformar-se no próprio garoto-propaganda de seu negócio ao lançar a campanha “De quem é a Havan?” Como seu marketing já se baseava nos “merchans” em programas populares como os de Ratinho, Luciana Gimenez e Celso Portiolli, passou ele próprio a frequentar os estúdios como convidado. Tendo gostado da brincadeira, tornou-se um dos maiores anunciantes privados do Brasil. Apenas no SBT, em 2018, contratou 50 milhões de reais em espaço para reclames, levando de lambuja o canal aberto para entrevistas em que jamais se pergunta, por exemplo, a respeito da condenação na Justiça catarinense por evasão de divisas.

Antes de Lulinha tomar posse na Casa Branca, Luciano Hang, creia, era uma pessoa discreta. Trabalhador da indústria têxtil da região, assim como seus pais, fundara a própria loja de tecidos num espaço de 45 metros quadrados em 1986. Hang entrou com o Ha, o sócio Vanderlei de Limas com o Van – e deu-se a Havan. “Não adianta você perder tempo e arrumar uma carga de melancia em uma carroça. Conforme a carruagem for andando, as melancias vão se mexendo”, ensina o Homem Bolsonarista em sua versão coach. “No dia a dia da sua empresa também é assim. Você vai ter que ajeitar os processos aos poucos. Comece e vá adaptando no andar da carruagem.”

Em 1999, as melancias da Havan foram flagradas se ajeitando na carroça em desacordo com as regras do jogo. Uma operação de busca e apreensão foi determinada pela Procuradoria da República em Blumenau. A empresa foi autuada em 117 milhões de reais pela Receita Federal e em 10 milhões pelo INSS. Por meio do Refis, a multa foi parcelada e o débito será quitado em 115 anos. Em 2004, o Ministério Público Federal propôs uma ação penal contra Hang e outras 13 pessoas por facilitação de descaminho, descaminho, falsificação, crime contra o sistema financeiro e a ordem tributária, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Condenado a 13 anos, nove meses e 12 dias de reclusão, além de multa de 1,2 milhão de reais, teve a pena extinta em 2008 pela 1ª Vara da Justiça Federal em Itajaí (SC), que julgou inepta a denúncia.

Na quarta-feira 18, Véio da Havan voltou a ser condenado e em definitivo. Desta vez por constranger funcionários a votar em Bolsonaro durante a gravação de um vídeo em que fala a uma pequena multidão de empregados sobre a possibilidade de uma vitória do PT: “Talvez a Havan não vai abrir mais lojas. E aí, se eu não abrir mais lojas ou se nós voltarmos para trás, você está preparado para sair da Havan? Você que sonha em ser líder, gerente, e crescer com a Havan, você já imaginou que tudo isso pode acabar no dia 7 de outubro?” Em maio passado, Hang adquiriu uma das maiores aeronaves particulares do mundo, o jato Bombardier Global 6000, ao preço de 250 milhões de reais. Vem somar-se a três helicópteros e três outros jatos. Foi condenado pelo Tribunal Superior Eleitoral a uma multa de 2 mil reais. As melancias sempre se ajeitam na carroça.


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