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Sexta-Feira 18.out.2019

Ano VIII - Nº 367

Entrevista

"Bolsonaro representa a maior ameaça ao planeta", diz Sônia Guajajara

Foram muitos os pontos do discurso de Bolsonaro que incomodaram uma das mais famosas representantes do movimento indígena brasileiro

Postado em 26 de Setembro de 2019 - Ana Magalhães e Mariana Della Barba - Repórter Brasil (https://reporterbrasil.org.br/)

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"Estou com raiva dele até agora." Poucas horas depois de ter escutado presencialmente, em Nova York, o discurso do presidente Jair Bolsonaro na abertura da Assembleia Geral da ONU, a liderança indígena Sônia Guajajara externou suas emoções, apesar da voz calma e da fala pausada. "Raiva por tudo que está acontecendo aqui hoje [24]", tentou sintetizar Guajajara, que é coordenadora-executiva da Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) e disputou a presidência no ano passado como vice de Guilherme Boulos (PSOL-SP).

Foram muitos os pontos do discurso de Bolsonaro que incomodaram uma das mais famosas representantes do movimento indígena brasileiro. Entre eles, a comparação de indígenas a "homens da caverna", a minimização das queimadas na Amazônia e a frase de que "índio não quer ser latifundiário pobre em cima de terras ricas".

Mas não só. O fato de o presidente ter levado junto à comitiva brasileira a indígena Ysani Kalapalo também irritou Guajajara — e lideranças de outras etnias. "O governo mais uma vez reforça uma prática ditatorial quando quer impor quem é o representante [dos indígenas]", criticou Guajajara, destacando que Ysani não foi reconhecida por seus parentes do Xingu como uma representante da etnia.

Guajajara destaca que o presidente também é autoritário na sua forma de enxergar as comunidades indígenas: "Quando ele diz que a gente é pobre, está olhando somente pelo lado dos bens materiais e das formas de consumo. Ele não olha nossa forma de viver. O que ele precisa fazer é respeitar os modos de vida e dar condições para que nossas iniciativas possam crescer e possam gerar rendas para as comunidades. Sempre pensando no uso sustentável dos territórios e dos recursos naturais".

Nesta entrevista, concedida à Repórter Brasil por telefone, Guajajara reage aos ataques do presidente e faz um alerta: "Bolsonaro representa a maior ameaça ao planeta".

 

O que a senhora achou do discurso do presidente Jair Bolsonaro e como vê a afirmação de que ONGs "manipulam índios como homens da caverna"?

Foi aterrorizante. O discurso só reforça a visão colonialista dele, do tempo da ditadura, do assimilacionismo, de que todo mundo tem que ser igual. É uma afirmação ditatorial, que desrespeita a diversidade de povos que existe no Brasil. Ele fala isso como se a gente fosse incapaz de responder por nós mesmos, como se fôssemos manipulados por outras pessoas. É ele quem fica nos tratando como animais.

E o comentário de que "índio não quer ser latifundiário pobre em cima de terras ricas"?

Ele quer ter argumentos para legalizar esse entreguismo dos territórios indígenas, para vender a Amazônia, para não demarcar terras indígenas. Ele quer respaldar uma ideia de que não precisamos das terras para, assim, facilitar a legalização do arrendamento, da mineração e da autorização para explorar esses territórios.

A senhora poderia comentar a referência que o presidente fez a uma carta de apoio de um grupo de agricultores indígenas?

Ele pode ter essa carta mesmo. Ninguém está negando que ele tenha apoiadores. Afinal, somos indígenas, somos seres humanos e são muitos pontos de vista diferentes. Mas o que legitima uma determinada posição é a coletividade. Vi muitos povos hoje questionando essa lista [lista de representantes de 52 aldeias que teriam assinado a carta de apoio]. O governo está se articulando para cooptar indígenas em vários estados que são a favor da agricultura. Mas temos que diferenciar o movimento indígena organizado, que traz o debate da coletividade, do que foi apresentado hoje: pessoas avulsas, desconectadas das suas bases e das pautas atuais. Precisamos contrapor uma suposta lista com 50 nomes a um movimento que reuniu 5 mil indígenas no Acampamento Terra Livre ou 3 mil na Marcha das Mulheres Indígenas [eventos ocorridos em Brasília em abril deste ano] e que têm uma posição de enfrentamento ao governo.

Como a senhora vê a presença da Ysani Kalapalo ao lado do presidente, na ONU?

Ela está sendo manipulada. Tem uma carta do Xingu que desautoriza a Ysani a falar em nome do Xingu. Uma pessoa que é deslegitimada pela sua própria base. Fala em nome de quem? Isso já mostra a sua falta de representatividade. Ninguém é líder de si mesmo. O governo mais uma vez reforça uma prática ditatorial quando quer impor quem é o representante. Nós temos nossas formas próprias, legítimas, autônomas pra escolher nossos representantes. Se ele está dizendo que é ela, ela pode ser uma representante do governo Bolsonaro. E, se ela é representante do governo, nunca vai ter apoio dos povos indígenas que estão lutando contra essa política genocida. Com esse apoio ao governo, ela está legitimando o genocídio dos seus povos.

Na carta de um grupo de indígenas lida pelo presidente, há um comentário sobre comunidades sobrevivendo do Bolsa Família e que isso não "representa dignidade e desenvolvimento". Como a senhora vê esse trecho?

O que falta é apoio para as iniciativas locais que já são realizadas nas comunidades indígenas. São várias as formas de produção e de geração de renda feita pelas mulheres, sem nenhum tipo de apoio. Por que o agronegócio cresce tanto? Porque é tido como o setor que alimenta os brasileiros, que aumenta o PIB, e porque há um investimento do governo, inclusive com isenção de impostos. O que falta é o governo olhar a diversidade de modos de produção e de modos de vida e de investir nessas várias formas, e não ficar no padrão único de sociedade. Quando ele diz que a gente é pobre, está olhando somente pelo lado dos bens materiais e das formas de consumo. E não olha nossa forma de viver. O que ele precisa fazer é respeitar os modos de vida e dar condições para que nossas iniciativas possam crescer e possam gerar rendas para as comunidades. Sempre pensando no uso sustentável dos territórios e dos recursos naturais, sem explorar desenfreadamente, como é a intenção deles [dos governantes]. Há hoje um tripé que é uma afronta a tudo que garante equilíbrio do clima: a mineração, o agronegócio e o desmatamento.

O presidente da França, Emmanuel Macron, disse que a Amazônia é um bem da humanidade, outro ponto criticado por Bolsonaro no discurso, que o acusou de ter uma visão colonialista. Como a senhora avalia essa duas posições sobre a floresta?

A Amazônia é, sim, o patrimônio da humanidade, e é responsabilidade de todo mundo protegê-la. Quando ele [Bolsonaro] critica o cacique Raoni, por exemplo, dizendo que ele não representa os índios, ele se contradiz. O Raoni tem autoridade para falar em nome dos povos, tem uma história de luta pelos povos da Amazônia, dedicou sua vida inteira ao meio ambiente e aos povos indígenas do Brasil. Não vamos aceitar que o governo diga quem é a liderança indígena do Brasil.
Nesta terça-feira (24) o Cimi (Conselho Indigenista Missionário) divulgou um relatório mostrando aumento de assassinatos e aumento de invasões de terras indígenas. Qual a responsabilidade do governo Bolsonaro nessa escalada de violência?
Desde a campanha, o Bolsonaro já tinha esse discurso de ódio, que autoriza invasões a territórios indígenas. Com essa política do governo de armamento, esse discurso de que não haverá território demarcado, essa visão do integracionismo, tudo isso respalda forças reacionárias e legitima forças contrárias aos direitos indígenas e ambientais. Todos que querem praticar invasões e ataques se sentem autorizados. Não temos dúvidas de que o aumento da violência está muito ligado ao desmatamento e à impunidade, medidas respaldadas por esse discurso do governo. Bolsonaro é o culpado pelo aumento desses assassinatos e aumento desses conflitos.

A senhora sempre faz um pedido de que a sociedade se aproxime e ouça as demandas dos povos indígenas. Como é possível fazer isso?

O mundo está muito acelerado, tem muita pressa, e quanto mais a gente tem pressa, mais nós estamos atendendo a essa demanda do capitalismo. Quanto mais você atende à demanda do capitalismo, mais você está sendo conivente com a exploração. As pessoas precisam parar e respirar e entender qual é a urgência do momento. Estamos falando do aquecimento global, estamos falando de reduzir as mudanças climáticas. Mas não estamos conseguindo mudar posturas. Enquanto a gente não conseguir mudar nosso ritmo, a gente não vai conseguir desacelerar essa pressão.

É importante que o mundo possa olhar para o modo de vida dos povos indígenas, possa entender, sentir o que está acontecendo com a terra, todas essas mudanças que estão acontecendo, furacões, enchentes. Tudo tem a ver com o comportamento humano e com as medidas adotadas pelos governos.

A senhora comenta que está com raiva, desse discurso que você chamou de aterrorizante…

Sim, a raiva dele ainda não passou, mas não vamos ter medo. Embora o governo venha autorizando assassinatos, desmatamento e negando os incêndios, a gente vai seguir em frente defendendo o nosso projeto de bem viver para todas as sociedades.

Quando as queimadas na Amazônia ganharam a atenção do mundo, países se posicionaram contra a atuação do governo e Bolsonaro disse que incêndios "acontecem e não podem servir de pretexto para sanções internacionais". Como a senhora vê esse tipo de preocupação dele?

É impressionante como Bolsonaro se preocupa com o mercado e não se preocupa com a morte das pessoas e do próprio meio ambiente. Temos dado todo apoio à postura desses países que estão exigindo direitos humanos e direitos ambientais no Brasil. Inclusive vamos sair em turnê pela Europa e vamos levar essa mensagem. Vamos falar com as empresas, para que todas que produzem, compram ou financiam a produção em áreas de conflito ou de territórios indígenas não demarcados exijam do Brasil esse respeito aos direitos humanos e ambientais. Países como Finlândia, China e França já manifestaram intenção de rompimento com o Brasil nesse sentido. Vamos também no Mercosul tentar incidir sobre o acordo [com a União Europeia], tentando exigir deles esse respeito. Não estamos fazendo uma campanha para gerar prejuízo ao mercado, mas a gente vai fazer uma campanha por nós e pelo meio ambiente. Vamos sair no dia 18 de outubro, eu e outras lideranças indígenas, para percorrer 11 países. Vamos seguir fazendo essa campanha pelo mundo e mostrando que o Bolsonaro representa a maior ameaça ao planeta.


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