Semana On

Sexta-Feira 18.out.2019

Ano VIII - Nº 367

Coluna

O Silêncio do Mundo

Teatro da Re-existência

Postado em 25 de Setembro de 2019 - Ricardo Moebus

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26º Porto Alegre em Cena. Residência teatral: “O Silêncio do Mundo”. Uma criação cênica de Ailton Krenak e Andreia Duarte.

Theatro São Pedro.

Aquele mesmo São Pedro, que na mitologia cristã guarda as chaves da porta do Céu, observa atônito, o arrombamento.

O Encontro de Ailton Krenak com o público, que aconteceu neste festival de teatro de Porto Alegre, neste 19 de setembro, não foi um espetáculo.

Pelo menos não um espetáculo no sentido habitual do termo que emprestamos aos eventos da “indústria cultural”, com Adorno, ou do negócio do entretenimento, ou da “sociedade do espetáculo”, com Guy Debord.

Não foi um espetáculo no sentido substantivo da palavra.

Pode até ter sido um espetáculo no sentido adjetivo da palavra, como quando dizemos que a vida é um espetáculo, do qual ameaçamos encurtar a turnê.

Este encontro entre Krenak e o público teria sido algum tipo de intervenção?

Mas também uma intervenção é algo por demais programático, planejado, calculado, que não consegue nomear o que aconteceu ali.

Este encontro singular foi bem mais uma inter-invenção.

Criação viva em ato, com o público.

Aprendizagem mútua, encontro de estrangeiros, experiência de exílio de si mesmo, como descrevia Paulo Freire e Antônio Faundez, em seu “Por Uma Pedagogia da Pergunta”:

 

“Essa sua análise sobre a cotidianeidade é fundamental para uma compreensão do exílio, porque o exílio não é simplesmente um problema de ruptura epistemológica, emocional, sentimental ou intelectual ou mesmo política; é também uma ruptura da vida diária, de gestos, palavras, de relações humanas, amorosas, de relações de amizade, de relações com os objetos. Sem dúvida, o exílio não pode ser explicado sem essa forma, digamos pessoal, de relacionar-se com outra realidade, com outro contexto, novo. Aí começa, eu diria, uma alfabetização de nosso ser.

E começa com isso a que você se referia – descobrir os outros, descobrir outra realidade, outros objetos, outros gestos, outras mãos, outros corpos; e, como estamos marcados por outras linguagens e nos acostumamos a outros gestos, a outras relações, esta é uma longa aprendizagem, este novo descobrir, este novo relacionar-se com o mundo. E, portanto, a diferença está por onde esta aprendizagem se inicia. Descobre-se o outro e você ligava a esse descobrimento do outro a necessária tolerância do outro. Isso significa que, através da diferença, temos de aprender a tolerar o outro, a não julgá-lo por nossos próprios valores, mas a julgá-lo com os valores desse outro, que tem valores diversos dos nossos. E o que me parece fundamental é que, ligado ao conceito de diferença e tolerância, está o conceito de cultura.”.

Encontro teatral como possibilidade de nomadismo do pensamento, com Deleuze, terra estrangeira plantada em palco, por Krenak e Andreia.

Quando logo de inicio uma biodiversidade sonora invade a cena escura, ninguém sabe o que vai, o que pode acontecer. 

Nem o público, nem os atores, nem a diretora.

O tempo do imprevisível, o tempo mítico da “incerteza viva” vai sendo plasmado na atmosfera do lugar.

Com a luz se revela um cenário formado por uma das criaturas habitáveis organoclonadas, viscerais, do genial Ernesto Neto, compondo talvez um céu, talvez uma placenta, talvez uma galáxia.

Quando entra em cena, Krenak está bem longe de qualquer “interpretação teatral” ou “representação teatral”.

No extrema oposto do teatro das aparêncas, ele compõe um real teatro das aparições, das transfigurações, trans-teatro vazando pré-visões.

O “duplo teatral” de Antonin Artaud, o anti-teatro convencional, um antídoto, antidoxal ou “veneno anti-monotonia”, de Cazuza, um “anticomputador sentimental”, um “disco voador para tocar depois do carnaval”, de Caetano.

Sem qualquer plumagem, sem qualquer adereço, fetiche que pudesse ser identificado como tipicamente indígena, Krenak está em cena mostrando sua contra-mercadoria, seu “teatro pobre” como Jerzy Grotowski.

Re-vivendo momento antológico de encontro do teatro com povos indígenas, Antonin Artaud com os Tarahumaras, o espaço cênico, antropocênico, se desmancha em vocalizações não-humanas.

O teatro nunca foi tão desumano.

Disparando maquinismos sonoros, experimentalismos sonoros de Carmelo Bene.

Muito além de uma antropologia teatral de Eugênio Barba, uma antropofagia teatral que come o teatro pelo rabo, serpente oroborus.

Desumanizar como possibilidade rara de se reencontrar com os não humanos.

Krenak estando em cena, prefere não contar aquela história, de como aprendeu com velhos índios amazônicos, que quando encontrar uma onça na floresta, você deve olhar bem nos olhos dela, deve olhar fixamente nos olhos dela, deve manter seu olhar aí, mantendo todo o resto em visão periférica, mantendo um contato magnetismo visual contínuo.

A onça consegue enxergar as outras onças como gente, por isso não come as outras onças, mas pode não enxergar você como gente.

Você deve olhar fixamente nos olhos dela, fazendo ela enxergar a sua forma de ser gente, enxergar a pessoa que ainda existe em você.  

Você neste encontro de verdade, vai precisar provar para a onça que é mesmo gente, como ela.

Krenak mantém seu olhar no público como quem se vê, diante da onça.

Ele sabe que o público pode ser gente, pode ser onça.

E que se o público não reconhecer a mesma humanidade nos povos indígenas, será fato corrigueiro, um lugar de subhumano tem sido mais regra que exceção.

Mas é preciso buscar a metamorfose do público onça em gente, do público gente demais em um pouco de onça, despertar seu proto-sensível.

Teatro intuitivo, perceptivo, vazando o racional, conectando o sensível segredo sagrado profano.

Teatro de dionísio, não apolíneo, não retilíneo, não linear. Sem ordem, sem progresso.

Teatro do desassossego, como Pessoa na pessoa, navegar está cada vez mais preciso, mas viver será sempre impreciso.

Meu Tio, o Iauaretê passeia pela cena, o público se mantém em suspense, ele pode avançar a qualquer momento sobre alguém da platéia, entrevêndo a humanidade das onças, a “onçidade” dos humanos.

Longo som seta sem sentido claro atravessa a cena.

Teatro co-movente deslocando o antropocêntrico do centro da cena.

O público pré-sente que sua humanidade foi con-testada.

Teatro do pré-sentimento, selvagem.

Fazendo brotar re-existências imprevistas.

Cigarras sibilantes, sentindo a gostosa vertigem de romper as velhas cascas, aplaudem de pé, subitamente disfarçadas de gente.

Ricardo L. N. Moebus - Professor Universidade Federal de Ouro Preto


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