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Terça-Feira 22.out.2019

Ano VIII - Nº 368

Poder

Evangélicos influenciam atos da gestão Bolsonaro

Igrejas neopentecostais ameaçam democracia na América Latina

Postado em 20 de Setembro de 2019 - Felipe Frazão, Rafael Moraes Moura e Lígia Formenti (O Estado de S. Paulo) e José Ospina-Valencia (DW)

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Decorada com móveis de época e um enorme tapete de parede do paisagista Burle Marx, a sala Brasília é a maior e mais simbólica do Itamaraty, sede do Ministério das Relações Exteriores. O espaço é usado por presidentes da República e ministros para receber as mais altas autoridades estrangeiras em visita ao País. Foi nesse local que, no dia 12 de junho, um almoço selou uma mudança de patamar nas relações entre o governo Jair Bolsonaro e a cada vez mais prestigiada bancada evangélica. O chanceler Ernesto Araújo ouviu reivindicações e sugestões de deputados para a política externa.

O principal pedido foi uma posição mais firme do governo em fóruns internacionais contra a morte de cristãos em países muçulmanos, considerando a presença crescente de igrejas neopentecostais brasileiras na África e no Oriente Médio. Dois meses depois, o encarregado de negócios da embaixada brasileira em Washington, Nestor Forster, afirmou num evento da ONU: “O ministro Ernesto Araújo tem defendido incansavelmente a liberdade religiosa e dado voz à preocupação de cristãos brasileiros, católicos e evangélicos, com a perseguição e a discriminação.”

O almoço no Itamaraty não foi um movimento isolado. Nos últimos quatro meses, houve um progressivo aumento da influência de líderes e parlamentares evangélicos nos rumos do governo, coincidindo com a queda de popularidade do presidente e o esvaziamento dos núcleos militar e ideológico na estrutura do governo. Longe de se limitar à chamada “pauta de costumes”, essa influência passa por áreas estratégicas da administração, como Economia, Saúde, Educação e até mesmo a comunicação do Planalto.

No debate da reforma tributária, a Frente Parlamentar Evangélica, formada por cerca de 200 deputados e senadores, tem usado sua força para evitar mudanças fiscais desfavoráveis às igrejas e até garantir benefícios. Há um temor de que elas fiquem sem a atual isenção e passem a ser tributadas pelo Fisco.

Antes de ser demitido, na quarta-feira, por defender propostas como a recriação da CPMF, o então secretário da Receita Federal, Marcos Cintra, chegou a propor a criação de uma contribuição sobre operações financeiras que poderia incidir sobre o dízimo. Bolsonaro rechaçou a ideia, levou Cintra a reuniões com líderes evangélicos e mandou a Receita editar normas que, no final, eliminaram a burocracia fiscal dos templos – uma parte foi dispensada de inscrição no CNPJ e de relatórios diários sobre a movimentação financeira. “Fomos atendidos e isso nos ajuda a fazer a obra de Deus”, disse o presidente da frente, deputado Silas Câmara (Republicanos-AM).

Um levantamento do Estado mostra que Bolsonaro abriu mais espaço na sua agenda a encontros com representantes dos evangélicos – que representam 29% dos brasileiros. Nos três primeiros meses do mandato, o presidente concedeu 12 audiências no seu gabinete a deputados, senadores e líderes religiosos do setor. A virada veio em abril. Bolsonaro participou de 15 agendas com evangélicos, chegando a 18 compromissos em maio e a 17 no mês passado.

A agenda se intensificou depois de o deputado e pastor Marco Feliciano (Podemos-SP) usar o Twitter, em março, para criticar a “péssima” comunicação do governo e escrever que presidente que governa sozinho se torna um “gigante com pés de barro”. Bolsonaro tornou-se, então, figura constante em cultos e celebrações. Evangélica, a primeira-dama Michelle Bolsonaro ajuda a fazer a ponte.

Feliciano se converteu em um dos principais interlocutores de Bolsonaro com a imprensa e entrou na bolsa de apostas para assumir a vaga de vice na chapa do presidente, caso ele dispute a reeleição, em 2022. “Os que votaram em Bolsonaro são, em sua grande maioria, cristãos. O presidente, quando acena para nós (evangélicos), acena para todo o movimento cristão”, disse o deputado, um dos vice-líderes do governo na Câmara.

Segundo um ministro, para chegar ao presidente hoje é preciso passar pelo crivo de Feliciano e não nas áreas responsáveis pela comunicação social do governo.

22 de novembro de 2018
Ministério da Educação

Na transição de governo, a bancada evangélica veta possível indicação de Mozart Ramos para o MEC.

4 de janeiro de 2019
Cartilha

Ministério da Saúde retira do ar cartilha voltada para homens transexuais e, depois, divulga nova versão, sem trechos considerados polêmicos.

22 de fevereiro
Carnaval

Campanha de carnaval contra Aids não cita homossexuais.

11 de abril
Educação domiciliar

Bolsonaro assina projeto de lei que propõe regulamentar a educação domiciliar no Brasil.

15 de abril
Passaportes

Governo renova passaporte diplomático de líderes religiosos, como o proprietário da TV Record e bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus.

25 de abril
‘Diversidade’

Presidente veta peça publicitária do Banco do Brasil que aborda diversidade.

15 de maio
LGBT

Governo retira incentivo ao turismo LGBT do Plano Nacional do Turismo.

6 de junho
Internação

Bolsonaro sanciona lei que permite internação de dependente químico sem consentimento.

27 de junho
Igrejas

Receita afrouxa fiscalização tributária de igrejas.

21 de agosto
Séries

Suspenso edital para selecionar séries para emissoras públicas de TV após Bolsonaro criticar projetos de temática LGBT.

3 de setembro
Ensino fundamental

Bolsonaro determina ao Ministério da Educação a elaboração de um projeto que vete “ideologia de gênero” no ensino fundamental.

América Latina e democracia

A luta das igrejas neopentecostais na América Latina é uma luta pelos pobres: por sua consciência, por suas carteiras e por seus votos. Seu êxito se deve também ao fracasso da Igreja católica em atender às necessidades de milhões que buscam apoio num mundo cada vez mais fustrante e sem aparente futuro. E a história de abusos sexuais do dogma católico deixou, além disso, um rastro de repúdio em vários países e contribuiu para a erosão de um poder passado.

Assim, os mais necessitados são recrutados por pastores protestantes que se autodenominam "cristãos" e que, com frequência, têm mais espírito comercial que religioso.

Apesar de o movimento pentecostal ter sido criado em 1906 nos Estados Unidos, são as novas seitas e igrejas fundadas na mesma América Latina as responsáveis pelo auge que ameaça não somente a supremacia da Igreja católica como os princípios democráticos.

Um movimento que parece germinar especialmente no Brasil, na Colômbia, no México, no Peru, na República Dominicana e na Venezuela. No Brasil, haveria 42,3 milhões de fieis, equivalentes a 22,2% da população. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a cada ano abrem no país 14 mil novas igrejas neopentecostais.

Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, considerado pela revista Forbes "o pastor mais rico do Brasil", é proprietário da Record, a segunda rede de televisão mais importante do país. Seu tema favorito: a moral.

O caso da Costa Rica é exemplar: bastou que o pastor e cantor Fabricio Alvarado, candidato à presidência, rechaçasse vociferante o chamado da Corte Interamericana de Direitos Humanos para respeitar os direitos da comunidade LGBTI para que ganhasse o primeiro turno da eleição.

Na Venezuela, por seu lado, milhões não viram outra saída senão refugiar-se em igrejas com nomes como "Pare de sofrer". Já a Guatemala é governada por um humorista e pastor evangélico, Jimmy Morales, que é contra o aborto, recusa o casamento homoafetivo e tem mais receitas contra as minorias do que soluções para a corrupção galopante.

Por todo o continente, há também "casos de superação" de pastores que saíram da pobreza abrindo uma igreja em garagens e que rapidamente se transformam num "exemplo de êxito" com estrambóticos templos e um poder econômico e político inusitados.

O caso de María Piraquive, que deixou de ser costureira num bairro operário de Bogotá, e que com sua Igreja de Deus Ministerial de Jesus Cristo Internacional (Idmji) construiu, desde 1972, um império multimilionário com propriedades em vários países, e a criação de um partido político, são símbolos desse ímpeto. Hoje, a igreja de Piraquive tem cerca de mil sedes em mais de 50 países e até representações em sete Estados federados da Alemanha.

É assustador é que muitos desses pastores tenham tanto êxito com ideias excludentes e um discurso de ódio. Em suas pregações, Piraquive descarta que pessoas com deficiência física possam assumir a veiculação da "palavra de Deus". Uma postura discriminatória em todos os países latinoamericanos, que, pelas suas Constituições, se definem como pluralistas e laicos, fundados sobre o respeito e a dignidade humana, e garantidores da liberdade de expressão e de culto.

Paradoxalmente, apesar de essas sociedades terem avançado cultural e economicamente, também graças ao princípio liberal e protestante de que "os pensamentos são livres", o movimento neopentecostal ataca o Estado de opinião. O radicalismo de suas ideias contra as conquistas dessas sociedades abertas, como a abolição da pena de morte, a autodeterminação da mulher e o respeito aos direitos das minorias é difamado como uma suposta "ideologia de gênero" que pretende destruir a família e a moral.

Seus votos fizeram pesar a balança para o lado da recusa do acordo de paz na Colômbia em 2016. Acabar com uma guerra fratricida para salvar vidas pareceu pesar menos que o princípio de retaliação "olho por olho, dente por dente".

E, enquanto as escolas e universidades na América Latina têm de pagar impostos prediais, as igrejas estão isentas de qualquer contribuição, pelo menos na Colômbia, onde até 2017 havia 750 colégios públicos – contra 3.500 igrejas neopentecostais. A recepção diária de dízimos forma a base do poder econômico, convertido em poder político, que, graças a uma agenda moralizadora, está conquistando a política na América Latina.

O teólogo alemão e pastor luterano Thomas Gandow adverte que muitos pregadores neopentecostais atentam contra o espírito do mesmo protestantismo que defendem, que não pode ser expressado com fanatismo, "porque o espírituo do protesto não pode ser outro senão o da liberdade". O resto é retrocesso.


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