Semana On

Quinta-Feira 14.nov.2019

Ano VIII - Nº 371

Poder

Ameaça de Carlos Bolsonaro a ordem democrática é retrato dos atos do pai

Pode chegar a hora em que Bolsonaro não aceite largar o poder, diz filósofo

Postado em 13 de Setembro de 2019 - Alexandre Putti (Carta Capital), Leonardo Sakamoto e Josias de Souza (UOL)

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O vereador Carlos Bolsonaro, filho do presidente Jair Bolsonaro, se envolveu em mais uma polêmica em suas redes sociais nesta semana. Dessa vez, o pesselista afirmou que “por vias democráticas a transformação que o Brasil quer não acontecerá na velocidade que almejamos”.

A postagem, feita em seu Twitter na noite do último dia 9, defendia o governo do pai que, segundo Carlos, vem desfazendo absurdos feitos em gestões anteriores. “Só vejo todo dia a roda girando em torno do próprio eixo e os que sempre nos dominaram continuam nos dominando de jeitos diferentes!”, afirmou.

A postagem de Carlos foi alvo de críticas de diversos setores da sociedade, que viram na afirmação do vereador uma ofensa ao sistema democrático brasileiro. Mais tarde, o vereador postou sobre a polêmica que sua afirmação gerou: “Agora virei ditador? Pqp!! Boa noite a todos!”

Reação

Todas as autoridades acomodadas na linha de sucessão da Presidência da República admoestaram Carlos Bolsonaro por sua postagem antidemocrática. Presidente em exercício, o general Hamilton Mourão declarou que a democracia é "fundamental". O presidente do Senado Davi Alcolumbre expressou o seu "desprezo". Para o mandachuva da Câmara, Rodrigo Maia, a manifestação de Carluxo produz "insegurança". E quanto a Jair Bolsonaro? Zzzzzzzzzz!

Bem, o pai do cavaleiro do Apocalipse do Twitter se absteve de admoestar o filho pelo post. Jair Bolsonaro tampouco animou-se a comentar a tentativa de Carluxo de atribuir a péssima repercussão de sua teroria à má-fé da imprensa. Chamou os jornalistas de "canalhas".

Questionado sobre a reação do presidente, o general Otávio Rêgo Barros, porta-voz do Planalto, disse que, para Bolsonaro, postagens feitas nas redes sociais são de responsabilidade dos seus autores. Para desassossego geral, ficou entendido que o descontrole do filho Zero Dois acontece sob absoluto controle do pai-presidente.

Foi assim também quando Carluxo empurrou para fora da secretaria-geral da Presidência o então ministro Gustavio Bebianno. Deu-se a mesma coisa quando o personagem se juntou ao polemista de estimação da família, Olavo de Carvalho, para fustigar o vice-presidente Hamilton Mourão e expurgar da Secretaria de Governo o general Santos Cruz.

Bolsonaro não seria o Jair que todos conhecem se admoestasse o filho pelas palavas de timbre golpista dias depois de ter elogiado o ditador chileno Augusto Pinochet.

Cadeira elétrica

Título de eleitor é mais ou menos como apólice de seguro. O cidadão usa pouco. Mas gosta de saber que ele está na gaveta, vigente, pronto para ser usado em caso de desastre. Agora mesmo, quando parecia que tudo estava bem —o presidente assistindo ao seriado do Chaves no hospital, o vice bem-comportado, o inquérito do Queiroz trancado, nenhuma acusação nova contra o Zero Um, o Flamengo no topo da tabela— ressurgem no horizonte os cavaleiros do Apocalipse do clã Bolsonaro. Carluxo flerta com o autogolpe nas redes sociais. E Dudu exibe a arma na cintura.

Carlos Bolsonaro, o Zero Dois, pendurou na vitrine do cristal líquido algo muito parecido com a defesa de um autogolpe. "Por vias democráticas a transformação que o Brasil quer não acontecerá na velocidade que almejamos", ele escreveu. Já não sabe "se isso" —a transformação— vai mesmo "acontecer". Enxerga fantasmas poderosos ao redor. "Só vejo todo dia a roda girando em torno do próprio eixo e os que sempre nos dominaram continuam nos dominando de jeitos diferentes!".

Simultaneamente, Eduardo Bolsonaro, o Zero Três, revelou-se um atirador-ostentação. Deixou-se fotografar armado ao lado do leito hospitalar em que o pai convalesce da quarta cirurgia pós-facada. Foi como se desejasse avisar aos navegantes que não está para brincadeira. O gatilho de Dudu surgiu horas depois de Jair Bolsonaro ter divulgado um vídeo para avisar que estaria de volta ao "batente" já nesta terça-feira. Na prática, dará alta para Hamilton Mourão, liberando-o informalmente da interinidade. O capitão também vê inimigos escondidos na alma dos amigos.

Os sobressaltos vêm se repetindo há oito meses e dez dias. Você faz um inventário das suas preocupações e pensa: "Hoje, dormirei tranquilo…" E descobre que tem que se preocupar com a dinastia Bolsonaro. Num instante, o presidente estilhaça a imagem do Brasil, ofendendo governantes estrangeiros. Noutro, Carluxo junta-se a Olavo de Carvalho, o bruxo da Virginia, para derrubar mais um general do ministério. De repente, Dudu, o embaixador, surge na Casa Branca, rogando ao ídolo Donald Trump que proteja a soberania brasileira na Amazônia.

Difícil identificar um proveito político e econômico que compense o que a primeira-família está fazendo com os nervos do país e com a paciência dos investidores estrangeiros que gostariam de iniciar, ampliar ou consolidar investimentos no Brasil. Quando se imagina que os problemas deram uma folga alguém exclama: "Soube da última do Bolsonaro?" Ou: "Viu o penúltimo tuíte do Carluxo?"

Vivo, Darwin diria que a família Bolsonaro é a confirmação da teoria da evolução. O homem de Neandertal dispunha de uma caixa craniana maior. Mas não tinha a linguagem dos Bolsonaro, embora o grunhido às vezes seja parecido. Vivia em comunidades semelhantes às atuais, só que sem a selvageria do WhatsApp e das redes antissociais.

O objetivo da evolução era dar voz à humanidade, nome às coisas e um enredo para o universo. Por tentativa e erro, os Bolsonaro constroem a sua própria retórica. Ainda não se sabe que história desejam contar. Por vezes, parecem ter dificuldades para lidar com as palavras. Mas acabarão encontrando o vocábulo certo. Nem que o vocábulo seja "fim".

Os Bolsonaro foram muito além do ancestral das cavernas. Não dominam apenas o fogo. Controlam um tipo especial de energia. Como admite Carluxo, talvez não consigam transformar o país. Mas já sabem como fazer do trono uma cadeira elétrica.

Gostando do jogo

A declaração do vereador Carlos Bolsonaro não causaria tanto arrepio se o governo de seu pai não tivesse comportamentos autoritários e manifestasse desprezo por instituições democráticas.

Antes da polêmica postagem, Paulo Arantes, um dos mais importantes pensadores brasileiros, que formou décadas de filósofos na Universidade de São Paulo, conversou com o jornalista Leonardo Sakamoto sobre o governo Bolsonaro. Coincidentemente, entre os assuntos abordados com o professor aposentado do Departamento de Filosofia, a presença de um componente revolucionário no bolsonarismo e como o presidente está comendo instituições – Ministério Público, Receita Federal, Coaf, Polícia Federal – em nome de seu projeto de poder.

"Pode chegar o momento, daqui a três anos, em que Bolsonaro vai dizer 'não admito nenhuma alternativa que não seja minha reeleição'. Como já disse 'não admito qualquer coisa que não seja minha vitória', na eleição do ano passado", analisa Arantes.

Ele faz uma comparação com o bolivarianismo do nosso vizinho ao Norte. "No sentido mais exagerado, o espelho simétrico de um bolsonarismo consolidado e triunfante, com uma reeleição em 2022 e uma outra eleição, possivelmente com o filho, em 2026, é a Venezuela", afirma.

Para Paulo Arantes, a direita liberal não sabe o que fazer. Pois, se há desgosto diante de temas de costumes e comportamentos, para os quais ela torce o nariz, por outro lado, Bolsonaro está realizando o programa econômico dela junto com o Congresso. "E ele sabe que o cacife dele é o único capaz de conter uma volta daqueles que eles consideram a esquerda, a oposição – que, também na visão deles, voltará com sangue nos olhos. Então, ele vai ser assim todo o dia, um ultraje por semana."

Questionado se o presidente odeia a democracia, afirmou: "Odiar a democracia pressupõe que ele tem um conhecimento a respeito da natureza intrínseca daquilo que está enfrentando. Ele não está nem aí, isso não existe para ele. Para ele, isso é alguma idiossincrasia vocabular de jornalista, mais nada".


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