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Sábado 16.nov.2019

Ano VIII - Nº 372

Brasil

Mulheres são maioria nas universidades brasileiras, mas têm mais dificuldades em encontrar emprego

Elas têm 34% mais probabilidade de se formar no ensino superior do que seus pares do sexo masculino

Postado em 12 de Setembro de 2019 - Paula Adamo Idoeta (BBC News Brasil) e Galileu

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Mulheres brasileiras têm 34% mais probabilidade de se formar no ensino superior do que seus pares do sexo masculino, mas também menos chances de conseguir emprego. Essa é uma das conclusões do relatório Education at Glance 2019, uma espécie de raio-X da educação divulgado nesta terça-feira (10/9) pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, também chamada de "clube dos países ricos" e à qual o Brasil almeja entrar).

O relatório traça um panorama da educação nos 36 países-membros da OCDE e em outros dez países, incluindo o Brasil - e a edição atual foca sobretudo em educação superior.

"Embora a disparidade de gênero na educação favoreça as mulheres, a situação no mercado de trabalho é ao revés", afirma o relatório, destacando que a prevalência feminina na educação superior brasileira é uma das maiores entre todos os países estudados.

Enquanto 18% dos homens brasileiros de 25 a 34 anos têm ensino superior, essa porcentagem sobe para 25% entre as mulheres da mesma faixa etária (mesmo assim, muito abaixo das médias da OCDE, de 38% para homens e 51% para mulheres, segundo dados de 2018).

Tal disparidade se observa em outros países e tem aumentado nas gerações mais novas.

"Existe realmente uma tendência entre os países membros e parceiros da OCDE de mulheres serem maioria no ensino superior. No ensino superior, essa disparidade pode ser observada tanto no acesso (mais mulheres entram) quanto na conclusão (entre os que entram, a taxa de conclusão é maior entre mulheres)", explica por email à BBC News Brasil Camila de Moraes, analista de educação da OCDE no país.

Ela destaca, porém, que isso reflete um "acúmulo de disparidades" que começa muito antes do ensino superior, nas etapas básicas de ensino.

"A taxa de conclusão do ensino médio, por exemplo, já é consideravelmente mais elevada entre meninas que meninos. Além disso, meninos têm uma tendência maior de repetir o ano e de abandonar a escola que meninas."

Acesso ao mercado de trabalho

O relatório olhou também para a outra ponta - o mercado de trabalho. A conclusão é de que a empregabilidade de mulheres brasileiras de 25 a 34 anos com ensino superior é de 82% e cai para 63% entre mulheres com ensino técnico e para 45% entre mulheres sem essa capacitação.

Entre homens brasileiros, esses índices são todos mais altos: a taxa de empregabilidade dos que têm ensino superior é de 89%; de 76% dos que têm ensino técnico e 76% dos que não tem nenhuma formação superior.

O que explica, então, que as mulheres tenham mais dificuldades em se inserir no mercado de trabalho?

"As mulheres estão significativamente hiper-representadas nos campos de educação e ciências sociais, jornalismo e informação. Já os homens são hiper-representados em campos como tecnologias da informação e da comunicação, engenharia e construção. (...) No Brasil, 25% das graduandas brasileiras escolhe estudar educação, enquanto 19% dos graduandos homens escolhe engenharia, produção e construção."

Ou seja, uma possível explicação para a dificuldade de inserção no mercado de trabalho - seja no Brasil ou em outros países em situação semelhante - é a escolha de cursos superiores, que pode levar a carreiras com empregabilidade e renda diferentes. Mas, para Camila de Moraes, há mais motivos por trás das diferenças de emprego entre homens e mulheres.

"A área de conhecimento não é suficiente para explicar toda a disparidade de gênero em termos de taxa de emprego nem em termos de rendimento", diz a analista da OCDE.

"O rendimento de mulheres não é maior que o rendimento de homens em nenhuma área de conhecimento em nenhum país com dados disponíveis no relatório. Isso indica que outros fatores como progressão de carreira, a natureza do trabalho (mesmo que dentro de um mesmo setor), tipos de contrato e vida familiar podem ter uma influência maior na disparidade de gênero."

Ela acrescenta que muitos estudos têm tentado entender o fenômeno da presença feminina maior na educação superior.

"Alguns apontam, por exemplo, justamente para o fato de homens sem ensino superior terem uma taxa de emprego maior e rendimentos mais elevados que mulheres também sem ensino superior. Dessa forma, o incentivo pra eles trabalharem ao invés de cursarem o ensino superior pode ser relativamente maior", explica Moraes.

"No Brasil especificamente, nós observamos que a taxa de emprego dos homens aumenta só um pouco com maiores níveis de escolaridade. Já para mulheres, a taxa de emprego aumenta consideravelmente - podendo ser esse um incentivo maior para elas cursarem o ensino superior. Esses são alguns insights que emergem dos dados, porém não é possível identificar especificamente as causas da disparidade no Brasil. Isso requereria um estudo mais aprofundado do contexto do país."

Baixas taxas de mestrado e doutorado

O relatório traz outros dados sobre o ensino superior do Brasil que, embora evidenciem avanços, colocam o país ainda distante das médias internacionais.

Só 0,8% dos brasileiros entre 25 e 34 anos têm mestrado e 0,2% têm doutorado, contra 13% e 1,1% (respectivamente) na média entre os países estudados pela OCDE (os dados, de 2018, ainda não refletem o atual contingenciamento de recursos e bolsas no ensino superior público promovido pelo governo federal).

O indicador é importante porque reflete a formação de profissionais mais especializados e, por consequência, mais produtivos e aptos a gerar riqueza.

"Em todos os países da OCDE, indivíduos com mestrado ou doutorado têm rendimento maior que aqueles com apenas o bacharelado", explica Camila de Moraes.

"O mesmo vale para a taxa de emprego. No Brasil, por exemplo, a taxa de emprego entre adultos com doutorado em 2018 era de 91%, comparado a 84% entre adultos com mestrado e 82% entre aqueles com bacharelado. Além disso, esses níveis de educação estão fortemente ligados à pesquisa e desenvolvimento do país, (importantes) para o crescimento econômico e social."

Panorama do ensino superior

Considerando-se apenas cursos de graduação, o relatório da OCDE diz que apenas um terço dos estudantes brasileiros conclui os estudos no tempo teoricamente previsto (de quatro ou cinco anos, a depender do curso).

Para os estudantes que passam três anos adicionais no curso, essa taxa de conclusão sobe desses 33% para 50%.

"Dos estudantes restantes que não se formam nesse período, cerca de um terço continua matriculado no curso superior, e dois terços abandonam o sistema sem se formar", diz o relatório.

Na última década, o número de brasileiros de 25 a 34 anos com título superior subiu de 11% para 21%. Em comparação, a média nos países estudados pela OCDE é de mais que o dobro: 44%.

"A proporção da população brasileira com ensino superior é a menor entre todos os países das OCDE (empatado com o México). Mas mesmo no México, a proporção da população com mestrado é maior que a do Brasil", afirma Moraes.

Por fim, o estudo aponta que mais de 75% dos estudantes de graduação no Brasil estão em universidades privadas, "em grande contraste com a maioria dos países da OCDE, em que essa é a situação de menos de um terço dos alunos".

"É também um contraste com todos os demais níveis de educação no Brasil: mais de 80% dos estudantes do ensino primário até o técnico frequentam instituições públicas", diz o relatório.

"A predominância de instituições que cobram mensalidades e o número limitado de vagas em instituições públicas criam um ambiente complexo para criadores de políticas públicas que tentem garantir que o acesso ao ensino superior não seja prejudicado pelo status socioeconômico dos estudantes."

Mulheres são maioria na ciência, mas apenas 23% têm cargos de influência

A desigualdade de gênero na ciência não é novidade, mas um novo estudo mostra que esse problema é ainda maior quando o assunto são cargos de liderança. Uma nova pesquisa publicada no Cell Stem Cell analisou a presença feminina nas carreiras de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (grupo conhecido como STEM, em inglês).

A pesquisa durou quatro anos e incluiu 541 instituições de 38 países da América do Norte e da Europa. De acordo com a análise, embora o número de mulheres nessas áreas tenha crescido, os esforços das intituições para manter ou promover cientistas a cargos mais altos e de liderança continuam pequenos. Se elas constituem mais da metade da população discente de graduação e pós-graduação, só 42% dos professores assistentes, 34% dos professores associados e 23% dos professores titulares são do sexo feminino.

Essas taxas variaram bastante de acordo com cada insitituição, segundo os pesquisadores, mas em um terço dos institutos analisados as mulheres compõem menos de 10% do corpo docente. "Os dados sugerem que estamos avançando", disse Reshma Jagsi, oncologista da Universidade de Michigan, em comunicado. "Dito isso, ainda existem muitas instituições que têm poucas mulheres em cargos mais altos do corpo docente."

A pesquisadora destacou que o problema não está apenas nas equipes de professores das universidades, mas na falta de representatividade: "Também há bastante espaço para melhorias em certas áreas, incluindo a representação de mulheres em determinadas funções, como falar em reuniões científicas", apontou Jagsi.

Para a equipe, os resultados sugerem que a questão principal não é recrutar mulheres para as funções de STEM, mas mantê-las e promovê-las na área. Vale ressaltar, porém, que os resultados foram diferentes de acordo com a região do mundo em que a instituição se localiza. Na Europa, por exemplo, há mais paridade de gênero em relação aos Estados Unidos.

Jagsi e seus colegas pretendem continuar estudando o assunto e querem envolver outros fatores de desiguldade social, como raça. Contudo, eles acreditam que boas práticas para inclusão dessas populações historicamente negligenciadas podem começar já. "As organizações que financiam pesquisas estão em uma posição única e podem exigir que os líderes institucionais prestem atenção à equidade, diversidade e inclusão em suas instituições", argumentam.


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